NEOLOGISMOS E EFEITOS DE SENTIDO RESUMO

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NEOLOGISMOS E EFEITOS DE SENTIDO Janaína Valente dos Santos Letyanne Damas Boberg Lorena Cristina Evangelista Silva Ludyanne Dias Machado Cabral (G CLCA UENP/CJ) Vera Maria Ramos Pinto (Orientadora CLCA UENP/CJ) RESUMO A formação de palavras novas ocorre por meio de dois processos: o de criação dentro da própria língua, por composição e também pela adoção de termos de uma língua estrangeira, processo bastante atual devido aos empréstimos da língua inglesa. Este trabalho tem o objetivo apresentar neologismos encontrados na revista Veja e outras de circulação mensal e semanal e analisar os processos dessas formações neológicas a fim de verificar os efeitos de sentidos dessas palavras no contexto em que estão inseridas. Palavras-chave: Análise. Neologismo. Formação neológica. 1 INTRODUÇÃO Os neologismos são muito mais corriqueiros do que se imagina e estão presentes nas mais diversas áreas. Esta pesquisa pretende definir o termo neologismo, bem como analisar o processo de criação deste fenômeno dentro da própria língua e explorar os seus efeitos de sentido. Considerando-se que a língua não é um sistema acabado e fechado, podemos inferir, automaticamente, que a mesma está em um constante processo de evolução. Sendo assim, à medida que se faz o uso da língua, criam-se novas palavras, as quais são chamadas neologismos e à medida que algumas são deixadas de serem utilizar pelos falantes, caindo em desuso, são chamadas arcaísmos, como podemos observar em Martinet (1971): Tudo pode mudar numa língua: a forma e o valor dos monemas, ou seja, a morfologia e o léxico; a ordem dos monemas no enunciado, quer dizer, a sintaxe; a natureza e condições de emprego das unidades distintivas, isto é, a fonologia. Aparecem novos fonemas, novas palavras, novas construções, enquanto outras unidades e maneiras de dizer diminuem de freqüência e caem no esquecimento. (MARTINET, 1971: 177) 438

Ainda, segundo o mesmo autor, a criação de novas palavras se deve à dinamicidade da língua, mas temos a falsa impressão de que a língua é estática: Tudo conspira para convencer os indivíduos da imobilidade e homogeneidade da língua que praticam: a estabilidade da forma escrita, o conservantismo da língua oficial e literária, a incapacidade em que se encontram de se lembrarem de como falavam dez ou vinte anos antes. (MARTINET, 1971: 177) Segundo Carvalho (1998), o termo neologismo significa palavra nova, termo o qual é formado pelo composto híbrido do latim neo (novo) e do grego logos (palavra). Os neologismos são encontrados nos mais variados ramos de atividades como política, artes, economia, ciência, etc., podendo até ser considerados como o reflexo de como uma língua que acompanha as inovações da sociedade, como se pode ainda comprovar na fala de Carvalho (1998) O homem normalmente cria a partir de algo pré-existente, necessitando sempre de matéria-prima. Assim, formação de palavras novas ocorre por meio de dois processos: o de criação dentro da própria língua, principalmente por derivação e por composição, e também pela adoção de termos de uma língua estrangeira, processo bastante atual devido aos empréstimos da língua inglesa. Porém, para se entender tais processos, é necessário que antes se conheça a estrutura das palavras, a qual se dá através da subdivisão da mesma em unidades mínimas de significação, que são os elementos mórficos ou morfemas, de acordo com Faraco & Moura ( 1999). 2 CLASSSIFICAÇÃO DOS MORFEMAS Os morfemas, por sua vez, classificam-se em: morfema lexical ou radical e morfema gramatical. O primeiro é formado pelo radical, responsável pela base do significado.exemplo: - pedra pedreiro empedrar pedraria pedregulho O segundo subdivide- em: vogal temática, desinências, afixos. a) Vogal temática: é a vogal que vem depois do radical Exemplo:Verbo: ANDAR And = radical + a = vogal temática + r = morfema (indica o infinitivo) 439

b) Desinências: indicam as flexões em que os nomes e os verbos podem apresentar-se, são subdividas em: Desinências nominais: indicam gênero (masculino e feminino), número, representado pelo s para o plural e para o singular não há desinência própria. Exemplo:MACACOS Macac = radical + o = desinência nominal de gênero + s = desinência nominal de número. Desinências verbais: indicam tempo, modo, número e pessoa a que o verbo pertence. Exemplo:Verbo: ESTUDÁVAMOS Estud = radical + a = vogal temática + va = desinência modo temporal + mos = desinência número pessoal. c) Afixos: São morfemas gramaticais que acrescentados ao radical dão origem a uma nova palavra. Os afixos são classificados em: Prefixos (quando acrescentados antes do radical) Exemplo: Inconstante Sufixos (quando acrescentados depois do radical). Exemplo:Felizmente 3 FORMAÇÃO DAS PALAVRAS O processo de formação das palavras ocorre através de processos chamados: derivação, composição, hibridismo, onomatopéia, sigla e abreviação vocabular ou redução, sendo os dois primeiros os mais utilizados. - Derivação: pode ser: Prefixal: quando há o acréscimo de um prefixo ao radical. Exemplo: infeliz (in = feliz); Sufixal: quando ocorre o acréscimo de um sufixo ao radical. Exemplo: Porteiro (porta + eiro); Parassintética: junção de um prefixo e um sufixo ao mesmo radical. Exemplo: Entristecer (em + triste + cer); Regressiva: ocorre através da redução de elementos existentes na palavra primitiva. Exemplo: Falar (primitiva) - fala (derivada); Imprópria: quando a classe gramatical das palavras muda. Exemplo: coelho (substantivo comum) usado como substantivo próprio em Daniel Coelho da Silva. 440

- Composição: é o processo onde novas palavras são formadas através da junção de palavras ou radicais pré-existentes. Essas palavras apresentam mais de um radical, portanto são palavras compostas. Pode ocorrer de duas formas: por justaposição: quando nenhuma das palavras sofre alteração. Exemplo: Guarda-sol (guarda + sol) por aglutinação: quando uma ou ambas as palavras sofrem alteração, seja na pronúncia ou na escrita. Exemplo: Petróleo (pedra + óleo) - Hibridismo: ocorre através da junção de duas unidades de línguas diferentes. Exemplo:Automóvel (auto grego + móvel latim) - Onomatopéia: ocorre através da reprodução de sons ou ruídos. Exemplo: Tique-taque - Sigla: consiste na redução de títulos e expressões. Exemplo: CLT = Consolidação das Leis de Trabalho - Abreviação vocabular ou redução: ocorre através da redução fonética de uma palavra. Exemplo: Cine (cinema) dicionário: Porém, segundo Alves, no que diz respeito à inserção do neologismo no Não basta a criação do neologismo para que ele se torne membro integrante do acervo lexical de uma língua. É, na verdade, a comunidade lingüística, pelo uso do elemento neológico ou pela sua não difusão, que decide sobre a integração dessa nova formação ao idioma. (ALVES, 1990: 84) 4 ANÁLISE DOS NEOLOGISMOS Os neologismos que analisamos foram encontrados nas revistas: Veja e UMA nos anos de 2010 e 2011. Para o estudo do processo da formação neológica, foi levado em consideração a unidade lexical, matriz morfológica, contexto (fonte), o processo de criação de neologismo utilizado e o significado contextual. Para nos certificarmos que as palavras selecionadas para análise eram realmente neologismos, recorremos ao Dicionário Aurélio Buarque de Holanda (1999). 4.1- SUZUKEIRO 441

Figura 1 : neologismo suzuqueiro Unidade lexical: suzukeiro Matriz morfológica: substantivo + sufixo (Suzuki) (-eiro) Derivação sufixal. Contexto: propaganda do Jeep da marca Suzuki. Revista Veja de 16 de Fevereiro de 2011, p. 46/47. Significado: o sufixo -eiro, muito utilizado para indicar profissões, neste enunciado, remete a Drey Ricardo Silva, proprietário do carro, que se diz adepto, um usuário constante do Jeep Suzuki. 4.2-PINKME Figura 2 Neologismo Pinkme Unidade lexical: pinkme Matriz morfológica: adjetivo (inglês) + pronome oblíquo (português) (pink) (-me) Composição por justaposição. 442

Contexto: a tendência da moda é a cor pink. Vários acessórios são mostrados na cor pink. Revista UMA de Fevereiro de 2011, p. 30. Significado: Como o próprio texto diz, essa tonalidade irá invadir o mundo do leitor(a), ou seja, quem lê: o pink irá invadir os guarda-roupas femininos. 4.3-FICHA-SUJA Figura 3 Neologismo Ficha-Suja Unidade lexical: Ficha- suja Matriz morfológica: Subst. + adj. (ficha) (suja) Formação por composição: Substantivo ficha + adjetivo suja = adjetivo ficha-suja. Contexto: título de uma notícia extraída da Revista Veja de 11 de Agosto de 2010, p.76. Significado: A expressão foi criada no meio político para indicar a conduta de político (Lei da Ficha Limpa).Se tem boa conduta, nada que possa denegri a reputação, tem a ficha- limpa; ao contrário; ficha-suja. No contexto o termo ficha- suja se refere é atribuído ao ex- governador de Brasília ( Joaquim Roriz) que foi barrado à canditadura ao governo do Distrito Federal por ter passado corrupto. 4.4- NOVILÍNGUA; LULISTA 443

Figura 4 Neologismo novilíngua; lulista Unidades lexicais: novilíngua; lulista Unidade lexical: novilíngua Matriz morfológica: adjetivo + substantivo (nova) + (língua) Composição por aglutinação Unidade lexical: lulista Matriz morfológica: substantivo + sufixo (Lula) + (-ista) Derivação sufixal. Contexto: Título de uma notícia, extraída da Revista Veja 02/12/2010, p.266, que diz que se criassem uma Enciclopédia do Absurdo, essa enciclopédia seria preenchida de A a Z, com palavras e expressões estapafúrdias usadas pelo ex- presidente LULA. Significado: Uma nova língua está nascendo, criada por Lula. O LULÊS. 4.5- BOM-MOCISMO Figura 5 Neologismo bom-mocismo Unidade lexical: Bom- mocismo; Matriz morfológica: adjetivo + subst. + sufixo (bom) (moço) (-ismo) Composição por justaposição. 444

Contexto: Revista Veja 02/02/2011, aparece na capa e durante a reportagem, na página 75. Significado: mostrar que o apresentador Luciano Huck é modelo de homem ideal. 4.6-QUIXOTESCA Unidade lexical: quixotesca Figura 6 Neologismo Quixotesca Matriz morfológica: Substantivo + sufixo (Quixote) (-esca) Derivação sufixal Contexto: Título da resenha sobre o filme Doutor Parnasus, extraído da Revista Veja 05/05/2010, p. 175 Significado: Quixote remete ao personagem central da obra prima de Miguel de Cervantes; Dom Quixote de La Mancha. Uma missão utópica, sonhadora. Quixotesca refere-se ao personagem de Miguel de Cervantes. Designa uma pessoa sonhadora. 4.7- ODORIQUÊS; ODORIQUISMO Figura 7 Neologismo Odoriquês; odoriquismos. Unidades lexicais: odoriquês; odoriquismos Unidade lexical : odoriquês 445

Matriz morfológica: Subst. Próprio + sufixo (Odorico) (-ês) Contexto: Revista Veja 11/08/2010, p.101. Derivação Sufixal Significado: Odoriquês se refere ao personagem de Dias Gomes, Odorico Paraguaçu, que usava expressões estapafúrdias para falar em público, atentando contra as regras gramaticais. Assim o sufixo ês, indica origem, procedência. A língua de Odorico, o odoriquês. Unidade lexical : odoriquismos Matriz Morfológica: Subst. Próprio + sufixo (Odorico) (-ismo) Derivação Sufixal Contexto: Revista Veja 11/08/2010, p.101 Significado: Odoriquismo, também se refere ao personagem Odorico Paraguaçu.- De acordo com o dicionário, ismo, é um sufixo de origem grega e indica origem, crença, escola, sistema, conformação. Ou seja, palavras com essa terminação indicam que uma ideologia é seguida, que existe algo consolidado como regra ou, pelo menos, que se acredita ser uma regra. Assim temos o positivismo, catolicismo, presidencialismo, helenismo, jornalismo e o ODORIQUISMO- Pessoas que atropelam a gramática, pensando que estão falando bonito, de acordo com o contexto. 4.8-GAGAÍSTA 446

Figura 8 Neologismo Gagaísta Unidade lexical: gagaísta Matriz morfológica: subst. próprio + sufixo (Gaga) (-ista) Derivação Sufixal Contexto: Revista Veja 11/08/2010, p. 90. Notícia sobre a cantora Lady Gaga. Significado: Gagaísta.O sufixo ista colocado no nome Gaga denota adeptos ao estilo de Lady Gaga, que é bastante extravagante. 4.9-LIBERTICIDA Figura 9 Neologismo Liberticída Unidade lexical: liberticida Matriz morfológica: substantivo + sufixo (liberdade) (-ida) Composição por aglutinação- perda e acréscimos de fonemas. 447

Contexto: título da Carta ao leitor da revista Revista Veja 14/07/2010, p. 86 que fala sobre Significado: O neologismo (adjetivo) liberticida foi usado para criticar a Presidente Dilma Rousseff que em sua proposta de governo visa monopolizar os meios de imprensa, ou seja, ela se inclina a volta da censura e que esta é dever do governo. 4.10- DILMAIS Figura 10 Neologismo Dilmais Unidade lexical: Dilmais Matriz morfológica: substantivo + advérbio (Dilma) (mais) Composição por aglutinação Contexto: Título de uma notícia sobre a presidente Dilma Roussef, Revista Veja 14/04/2010, pág. 86. Significado: O termo ironiza a presidente que falou demais, causando constrangimento a seus colegas partidários. 5 CONCLUSÃO Com o presente, estudo pode-se notar que a língua não é um sistema fechado e acabado e está em constante evolução. Sendo assim, a criação de palavras novas, ou seja, os neologismos acontecem com mais frequência do que se imagina. Com isto, e devido à dinamicidade da língua, as palavras, de modo geral, sofrem constantes transformações e renovam-se constantemente. Desse modo, percebe-se que os neologismos enriquecem a língua e contribuem para o desenvolvimento da mesma, podendo ser considerados reflexos de uma sociedade que cada vez mais se torna dinâmica. 448

As formações neológicas mais recorrentes foram as criadas pelo processo de derivação sufixal, o que denota que os sufixos são elementos de grande produtividade no Sistema da Língua Portuguesa. 6 REFERÊNCIAS ALVES, Ieda Maria. Neologismo. São Paulo: Ática, 1990. CARVALHO, Nelly de. O que é Neologismo. São Paulo: Brasiliense, 1998. FARACO, Carlos Emílio; MOURA, Francisco Marto de. Gramática. São Paulo: Ática, 1999. FERREIRA, Aurélio Buarque de H. (Ed.). Novo Aurélio Século XXI: O Dicionário da Língua Portuguesa. 3ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1999. MARTINET, André. Elementos de Lingüística Geral. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1971. VEJA. Publicação semanal da Editora Abril. São Paulo, 14 de abril; 05 de maio; 14 de julho; 11 de agosto e 02 de dezembro de 2010. VEJA. Publicação semanal da Editora Abril. São Paulo, 02 e 16 de fevereiro de 2011. UMA. Publicação mensal da Editora On Line. São Paulo, fevereiro de 2011. Para citar este artigo: SANTOS, Janaína Valente dos et al. Neologismos e efeitos de sentido. In: XI CONGRESSO DE EDUCAÇÃO DO NORTE PIONEIRO Jacarezinho. 2011.Anais...UENP Universidade Estadual do Norte do Paraná Centro de Ciências Humanas e da Educação e Centro de Letras Comunicação e Artes. Jacarezinho, 2011. ISSN 18083579. p. 438 449. 449