DIREITO CONSTITUCIONAL PODERES CONSTITUINTES

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Transcrição:

DIREITO CONSTITUCIONAL PODERES CONSTITUINTES Atualizado em 15/10/2015

PODERES CONSTITUINTES O poder constituinte se divide em: Poder Constituinte Originário Poder Constituinte Derivado; a. Decorrente; b. Reformador; c. Revisor; Poder Constituinte Difuso; Poder Constituinte Supranacional. PODER CONSTITUINTE ORIGINÁRIO Precursor dos estudos sobre o poder constituinte originário foi Emmanuel Joseph Sieyès, autor de um planfleto divulgado às vésperas da Revolução Francesa, de nome O que é o Terceiro Estado? (Qu est-ce que le Tiers État?). O poder constituinte originário é a energia política que se funda em si mesma, a expressão sublime da vontade de um povo em estabelecer e disciplinar as bases organizacionais da comunidade política. Autoridade suprema do ordenamento jurídico, exatamente por ser anterior a qualquer normatização jurídica, o poder constituinte originário é o responsável pela elaboração da Constituição (norma jurídica superior que inicia a ordem jurídica e lhe confere fundamento de validade). O titular do poder constituinte originário é o povo não o corpo eleitoral, mas sim o povo enquanto uma grandeza pluralística. Por ser um poder que constitui todos os demais e não é por nenhum instituído, é intitulado constituinte, termo que revela toda sua potência criadora e faz jus à sua atribuição: a criação de um novo Estado, a partir da apresentação de um novo documento constitucional. Obs.: quem tenta romper a ordem constitucional para instaurar outra e não obtém a adesão dos cidadãos não exerce poder constituinte originário, mas age como rebelde criminoso. Trata-se de um poder inicial, por não existir nenhum outro antes ou acima dele; autônomo, por caber apenas ao seu titular a escolha do conteúdo a ser consagrado na Constituição; incondicionado, por não estar submetido a nenhuma de forma ou de conteúdo; permanente, por continuar existindo mesmo após concluir a sua obra; ilimitado, haja vista não se submeter ao regramento posto pelo direito anterior ele simplesmente decide o que quiser e como quiser; e inalienável, por sua titularidade não

ser passível de transferência, haja vista que a nação nunca perde o direito de querer mudar sua vontade. Cumpre salientar que os jusnaturalistas comentam que o poder constituinte originário está limitado pelo direito natural, que o antecede e a ele se sobrepõe. Nesse contexto, torna-se discutível a característica de ilimitado, pois existem alguns limites como, por exemplo: os territoriais (a norma vige na circunscrição territorial do Estado), as circunstâncias políticas e sociais (o poder é a expressão da vontade política soberana do povo e observa os valores éticos, religiosos e culturais partilhados por esse povo). Outra limitação é o efeito catraca, que diz que após uma constituição ter efetivado a proteção a algum direito fundamental, uma nova constituição não poderia retroceder, suprimindo ou reduzindo o âmbito de incidência do mesmo. Para Canotilho, o poder constituinte originário obedece a padrões e modelos de conduta espirituais, culturais, éticos e sociais radicados na consciência jurídica geral da comunidade, devendo observar os princípios do direito internacional e de justiça. Formas de expressão do poder constituinte originário: Democrática indireta: o povo escolhe seus representantes, que se tornam responsáveis pela elaboração de uma nova constituição, renovando, assim, o ordenamento jurídico. A atuação se dá através de uma Assembleia Nacional Constituinte; Autocrática: o poder é manifestado através da outorga e a constituição é estabelecida por um indivíduo (ou grupo) que alcança o poder sem a participação popular. PODER CONSTITUINTE DERIVADO Deve obedecer às regras impostas pelo originário, sendo, nesse sentido, limitado e condicionado aos parâmetros a ele impostos. Pode ser decorrente, reformador e revisor. PODER DERIVADO DECORRENTE

É o poder conferido pela constituição aos Estados-Membros para que possam se auto-organizar, enquanto entidades integrantes da federação, para elaborarem suas próprias constituições. O DF será regido por lei orgânica vinculada diretamente à CF. Verifica-se uma manifestação do poder constituinte derivado decorrente, qual seja a competência que o DF tem para elaborar sua lei orgânica, verdadeira constituição distrital, ou modificá-la. O poder decorrente elabora as constituições estaduais e a lei orgânica do Distrito Federal, não sendo, todavia, conferido aos municípios; estes são regidos por documentos condicionados simultaneamente à constituição estadual e à constituição federal; daí decorre que eventual conflito entre leis municipais e a lei orgânica do município serão resolvidos a partir de um controle de legalidade e não de constitucionalidade. Este poder constituinte decorrente, justamente por ser derivado, também se caracteriza por ser limitado. Os principais exemplos de limites ao exercício deste poder são: Princípios constitucionais sensíveis: Expressão cunhada pelo saudoso alagoano Pontes de Miranda, os princípios constitucionais sensíveis podem ser encontrados no art. 34, VII, da CF/88, e, sem dúvida, são de observância obrigatória. São eles: 1. Forma republicana, sistema representativo e regime democrático; 2. Direitos da pessoa humana; 3. Autonomia municipal; 4. Prestação de contas da administração pública, direta e indireta; e 5. Aplicação do mínimo exigido da receita resultante de impostos estaduais, compreendida a proveniente de transferências, na manutenção e desenvolvimento do ensino e nas ações e serviços públicos de saúde. Princípios constitucionais estabelecidos ou organizatórios: são aqueles princípios que já vieram estabelecidos na Constituição Federal, e que, por isso mesmo, não podem ser desrespeitados ou disciplinados de maneira diferente no âmbito das Constituições Estaduais. Como exemplos de princípios constitucionais estabelecidos é possível citar normas relacionadas ao direito de nacionalidade, aos direitos políticos, à organização do Estado e dos poderes, dentre outras.

Princípios constitucionais extensíveis: os princípios constitucionais extensíveis podem ser identificados a partir das normas atinentes ao processo legislativo, ao sistema constitucional tributário, aos preceitos ligados à Administração Pública bem como às normas constitucionais de caráter orçamentário. PODER DERIVADO REFORMADOR Altera formalmente a CF, exercendo a importante tarefa de ajustar e atualizar o texto constitucional aos novos ambientes criados pelo dinamismo social. Manifesta-se através das emendas constitucionais. Não poderá ser objeto de deliberação a proposta de emenda constitucional tendente a abolir a forma federativa de Estado, o voto direto, secreto, universal e periódico, a separação dos Poderes e os direitos e garantias individuais (cláusulas pétreas artigo 60, 4º CF). Não há que se falar em hierarquia normativa e jurídica entre as cláusulas pétreas e as demais normas constitucionais; as cláusulas pétreas possuem apenas um status político diferenciado. Esta proteção ampara apenas o núcleo essencial das cláusulas pétreas. Reformas superficiais ou linguísticas, que não atingem o núcleo central do tema, são viáveis. O poder derivado reformador não pode se manifestar na vigência do estado de sítio, do estado de defesa e da intervenção federal. São legitimados a apresentar uma proposta de emenda constitucional: O presidente da república; Um terço, no mínimo, dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal; Mais da metade das Assembleias Legislativas das unidades da federação, manifestando-se, cada uma delas, pela maioria relativa de seus membros. Votação da PEC em cada casa do Congresso Nacional, em dois turnos, com interstício mínimo de 10 dias, considerando-se aprovada se obtiver, em ambos, pelo menos 3/5 dos votos dos respectivos membros. A publicação é determinada pelo Congresso Nacional. Matéria constante de PEC rejeitada ou havida por prejudicada não poderá ser objeto de nova proposta na mesma sessão legislativa.

PODER DERIVADO REVISOR O artigo 3º do ADCT determinou que a revisão constitucional fosse exercida após cinco anos, contados da promulgação da CF88. A competência revisional proporcionou a elaboração de seis emendas constitucionais de revisão, não sendo mais possível uma nova manifestação do poder constituinte derivado revisor em razão da eficácia exauria e aplicabilidade esgotada da aludida regra. PODER CONSTITUINTE DIFUSO Trata-se de processo informal de mudança da constituição (mutação), alterando-se o seu sentido interpretativo e não o seu texto, que permanece intacto e com a mesma literalidade. Consiste num processo não formal de mudanças das constituições rígidas, por via da tradição, dos costumes, de alterações empíricas e sociológicas, pela interpretação judicial e pelo ordenamento de estatutos que aferem a estrutura orgânica do estado. PODER CONSTITUINTE SUPRANACIONAL Busca a sua fonte de validade na cidadania universal, no pluralismo de ordenamento jurídico, na vontade de integração e em um conceito moderno de soberania. OBSERVAÇÕES GERAIS Todas as normas que forem incompatíveis com a nova constituição serão revogadas, por ausência de recepção. A norma infraconstitucional que não contrariar a nova ordem será recepcionada. No fenômeno da recepção só se analisa a compatibilidade material perante a nova constituição; contudo precisa ter compatibilidade formal e material perante a constituição sob cuja regência ela foi editada. Aos autores não referenciados, todos os direitos reservados.