QUANDO AS MÁQUINAS PARAM



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Transcrição:

QUANDO AS MÁQUINAS PARAM 1 Prof. Alvaro Guimarães de Oliveira Rio, 01/07/16 A depreciação de máquinas e equipamentos parados é ou não despesa do exercício? Não, não é.. Contudo, visando um esclarecimento mais específico, vejamos o seguinte: a Cia Z que produz suco de laranja, apresentou a seguinte posição financeira em 31.12.06: BALANÇO PATRIMONIAL Ativo Passivo Circulante 21.500 Circulante 8.500 Disponível 17.500 Empréstimos 0 Duplicatas a Receber 10.600 Fornecedores 6.500 (-) PDD (600) I.R. a Pagar 2.000 Estoques 4.000 Contas a Pagar 0 Mat. de Expediente 0 Exigível 0 Permanente 7.000 Financiamentos 0 Investimento 0 Pat. Líquido Financeiro 30.000 Imobilizado 10.000 Capital 30.000 Equipamento de Suco 10.000 Result. do Exercício. 0 (-) Deprec. Acumulada 0 Pat. Líquido Contábil 30.000 Desp. Diferidas 0 Result. Econ. Pendente 0 Total do Ativo 38.500 Total do Passivo 38.500 No dia 02.01.07 ela adquiriu novas máquinas no valor de 15.000 para incrementar a fabricação de suco de laranja, porém apesar de ter recebido tais máquinas, decidiu esperar por uma melhor época, talvez no início de 2008, para colocá-las em operação. Suponhamos que durante o exercício de 2007 a contabilidade registrou os seguintes fatos: Vendas de Sucos 12.000 Custos e Despesas 11.000 Lucro 1.000

2 A despesa de depreciação relativa às novas máquinas foi 1.500 (10%). Como contabilizar esta depreciação? Ela é desse período? Esta é a questão provocadora de tanta celeuma. Seria racional, justo, correto considerar esta depreciação como despesa do exercício de 2007? Qual foi a contribuição das novas máquinas para a receita deste período? Nenhuma. Ora, se contabilizarmos esta depreciação (1.500) como do exercício de 2007 teríamos, como resultado final, um prejuízo de 500. Este resultado poderia levar os responsáveis pelas estratégias da empresa a cometerem erros monumentais. Por exemplo, descontinuar a produção de suco de laranja com base neste resultado negativo. A depreciação causadora do prejuízo é relativa às máquinas novas. Levando esta situação ao extremo, diríamos que durante 10 anos o suco de laranja daria prejuízo e que, depois, durante 10 anos com uso das máquinas novas, o negócio voltaria a ser lucrativo, já que não haveria mais despesa de depreciação a ser considerada. Tem algum sentido? Não. Para apresentar uma explicação esclarecedora sobre este problema é preciso que entendamos perfeitamente o conceito de depreciação. A depreciação é o registro contábil do valor estimado de um bem imobilizado consumido pela empresa, num determinado período, em função do seu uso e/ou obsolescência. Deste modo, máquinas e equipamentos não são consumidos somente quando usados, mas, também, quando estão parados. Neste caso, através do processo de obsolescência. O impacto financeiro da depreciação é a redução do valor do bem e o seu aspecto econômico, a despesa, dependerá do regime da competência do exercício para ser corretamente determinada e registrada contabilmente. Segundo este regime, a apuração de resultado de um período é determinada somando-se todas as suas receitas e deduzindo todas as despesas diretamente relacionadas com elas. Deste modo, voltando ao nosso exemplo da Cia Z, a depreciação das novas máquinas não tem nenhuma relação com as vendas atuais de suco de laranja. Portanto, não pode ser considerada como despesa daquele período. Por outro lado, sabemos que a depreciação não depende exclusivamente do uso do ativo e, portanto, houve uma redução do seu valor no período.

3 Como contabilizá-la? Muito simples: basta considerá-la como Despesa Diferida. Não é exatamente este o seu significado, o consumo de recurso num período que está relacionado diretamente com possíveis receitas que, se realizarem, serão em exercícios subsequentes? Desta maneira, a contabilidade registrará a depreciação das máquinas paradas da seguinte maneira: D Despesas Diferidas Depreciação C Depreciação Acumulada Máquinas Novas 1.500 E assim sendo, tudo fica mais fácil de ser explicado e entendido: o impacto financeiro da Despesa Diferida (Depreciação), como é natural, reduz o PLF da empresa no momento em que é registrada, porém o seu impacto econômico será considerado no futuro, quando as máquinas entrarem em funcionamento e gerarem receitas. Se, por acaso, a empresa desistir de colocá-las em operação, o saldo de despesas diferidas relativas à depreciação, destas máquinas, deverá ser jogado contra a depreciação acumulada, zerando-a, ou seja, a máquina volta ter seu custo original já que a sua parcela como despesa não foi absorvida pelas receitas. É como se ela não tivesse sido comprada no ano anterior. Devemos notar que o saldo de Depreciação Acumulada, de um bem representa o valor da sua redução, em função da depreciação. Daí este saldo ser apresentado, no Balanço Patrimonial, como um valor negativo logo abaixo do bem a que se refere. Vejamos agora a nova posição financeira após as movimentações que imaginamos para o exercício de 2007:

4 BALANÇO PATRIMONIAL Ativo Passivo Circulante 15.500 Circulante 8.500 Disponível 4.500 Empréstimos 0 Duplicatas a Receber 10.600 Fornecedores 6.500 (-) PDD (600) I.R. a Pagar 2.000 Estoques 1.000 Contas a Pagar 0 Mat. de Expediente 0 Exigível 0 Permanente 22.500 Financiamentos 0 Investimento 0 Pat. Líquido Financeiro 29.500 Imobilizado 22.500 Capital 30.000 Equipamento de Suco 10.000 Result. do Exercício. 1.000 (-) Deprec. Acumulada (1.000) Pat. Líquido Contábil 31.000 Máquinas. Novas 15.000 Desp. Diferidas 1.500 (-) Deprec. Acumulada (1.500) Result. Econ. Pendente 1.500 Total do Ativo 38.000 Total do Passivo 38.000 D R E Receitas 12.000 Custos e Despesas (11.000) Resultado do Exercício 1.000 Vamos observar como mudou a posição financeira inicial da Cia Z após os eventos imaginados. O PLF agora (29.500) está inferior em 500 ao do PLF anterior (30.000). Esta diferença é o resultado dos seguintes impactos financeiros: Receitas 12.000 Custos e Despesas (11.000) Impacto do DRE 1.000 Despesas Diferidas (1.500) Impacto final (500) E mais uma vez podemos perceber que a diferença entre o PLC e PLF são os resultados econômicos pendentes, neste caso 1.500 (31.000 29.500). Podemos concluir afirmando que a despesa de depreciação de bens imobilizados, que ainda não entraram em operação, não pode ser

5 considerada como despesa do período, para apuração do resultado econômico. Deverá ser contabilizada como Despesa Diferida, que é um Resultado Econômico Pendente, e só será considerada como despesa do período quando estes ativos, além de entrarem em funcionamento, gerarem receitas. Esta forma de contabilização retrata o impacto financeiro da depreciação proveniente da obsolescência e permite uma apuração de resultado econômico racional, coerente e justa. CONCLUSÃO IMPORTANTE Percebemos através de todos os nossos exercícios desenvolvidos até aqui que, o que determina a saúde financeira das empresas são os impactos financeiros das suas operações econômico-financeiras. De outra maneira: o que é importa para as empresas são os impactos financeiros das suas operações provenientes da sua atividade econômica. E eles acontecem de três maneiras; 1) Caixa (Bens): Aumenta com receitas e diminui com despesas; 2) Direitos: Aumenta com receitas; 3) Obrigações: Aumenta com despesas. A CONFUSÃO DOS FINANCISTAS Tenho sempre a impressão que quem determina as normas e procedimentos contábeis são os financistas, porque sempre percebo que são confusos a respeito dos aspectos econômicos e financeiros das operações contábeis,. Esta confusão, creio eu, é originada de uma falta de conhecimento aprofundado de contabilidade, natural entre os financistas. Na realidade eles não gostam de contabilidade e até mesmo a desprezam. E por isso pagam um preço enorme: nunca vão conhecê-la profundamente. Conforme vimos, o importante para a saúde financeira da empresa é o aspecto financeiro das suas operações. Contudo, os financistas mais uma vez começaram a confundir alhos com bugalhos, isto é, financeiro com monetário e começaram a afirmar coisas absurdas como: o importante é o Caixa, o Caixa é Rei e, assim por diante.

6 Em função disto estão obrigando as empresas de capital aberto a publicarem o Demonstrativo de Caixa em detrimento do Demonstrativo de Origem e Aplicações de Recurso (DOAR) ou Changes in the Financial Position, como é denominado nos EUA. Isto é um absurdo como veremos a seguir. Quando estudamos Fundos de Investimentos aprendemos que a rentabilidade passada de um fundo, não diz muita coisa sobre a sua rentabilidade futura. Quando estudamos análise de balanço das empresas aprendemos, também, que a sua rentabilidade passada não é um indicador seguro dos seus resultados econômicos futuros. O que estaremos aprendendo a respeito do Fluxo Caixa de período passado para utilizarmos na sua projeção futura ou compreender o que vai acontecer com a liquidez da empresa no futuro? Praticamente nada, e por isso não vejo nenhuma vantagem na apresentação do Demonstrativo de Fluxo de Caixa. Aliás, muito pelo contrário, o DOAR é muito mais útil para análise e decisão a respeito da situação de liquidez da empresa de curto prazo. Ele demonstra como o Capital de Giro foi modificado, durante o exercício findo, e permite uma visão sobre a capacidade de pagamento da empresa para o próximo período. O Capital Giro, como engloba as contas do ativo e passivo circulante conjunto de contas, inclusive o Caixa, que têm um significativo relacionamento entre elas é, sem sombra de dúvidas, a demonstração financeira mais importante para administração financeira da empresa. O movimento de caixa é tão volátil que dificilmente nos permitirá qualquer ilação útil sobre a futura capacidade de pagamento da empresa. Que importância tem para um administrador de empresa, saber que o saldo de caixa da empresa no final do exercício é de R$ 10.000.000 e como ele foi obtido? E se o que a empresa tem a pagar no dia seguinte for R$ 10.500.000? Qual foi a vantagem de ter esta informação? Quase nenhuma. Suponhamos que a empresa sob a nossa responsabilidade investiu 100.000 pagando 80.000 à vista e o restante será pago no prazo de um ano. O que exigirá que tenhamos a maior atenção, o valor pago de 80.000 ou o valor a pagar de 20.000? Obviamente, o valor pago não traz mais nenhuma

7 preocupação, virou história. O que importa mesmo, que exige atenção especial, é o valor que a empresa tem a pagar. O administrador financeiro só estará apto e seguro para tomar decisões a respeito da situação financeira da empresa, se tiver respostas para as três mais importantes questões financeiras da empresa: 1) Quanto temos no disponível? 2) Quanto temos a receber no curto prazo? 3) Quanto temos a pagar no curto prazo? E onde encontrar estas respostas? No Fluxo de Caixa do Exercício que passou? É Claro que não. Quem nos dá estas respostas é o DOAR. Não entendo esta obsessão pelo Caixa inclusive porque, entre as três mais importantes informações financeiras, à relativa ao Caixa é a que apresenta o menor montante. Além disso, o que preocupa o administrador é o que ele tem a pagar e o que tem a receber. O que já foi pago não causa mais nenhuma preocupação, é apenas uma informação histórica. E, ainda, podemos acrescentar que o Caixa é apenas uma conta entre tantas outras da contabilidade. Melhor dizendo, só posso entender esta obsessão pela confusão que os financistas fazem, de uma maneira geral, entre recursos financeiros e monetários. Na realidade a evidencia empírica nos mostra que o caixa tem cada vez menos importância no mundo globalizado, particularmente, após o advento da Internet. A economia mundial estava apresentando um ritmo de desenvolvimento, pelo menos de 2000 até 2007 quando entrou em crise, talvez sem precedentes na história da economia mundial. Qual foi um dos principais motivos, deste desenvolvimento, se não o principal? Foi o desenvolvimento do credito imobiliário nos EUA, afirmam os economistas mais talentosos e experientes. E qual o motivo desta mais nova crise da economia mundial, que a cada dia esta se tornando mais ameaçadora e mais destruidora? A crise do credito imobiliário (sub-primes) americano, o mesmo que foi responsável pelo grande desenvolvimento, recente, da economia mundial. Os grandes bancos centrais mundiais já despejaram, e ainda estão despejando bilhões de dólares com o objetivo de evitar um aprofundamento desta crise. E os resultados, até agora, são pífios. Por que? Simplesmente

8 porque o que esta provocando esta crise toda é falta de credito (credit crunch) e, neste caso, é preciso muito mais do que dinheiro para resolvê-la. Vejamos o que acabo de ler, corroborando a nossa idéia, no O Globo de hoje, 24.02.2008: Para aumentar vendas em até 60% e evitar calotes, ambulantes, engraxates, feirantes e até índios já usam máquinas de cartão de crédito e débito. Com a tecnologia sem fio, trabalhadores autônomos passaram a usar essas máquinas, seja no meio da rua, seja em uma reserva florestal, como a dos índios pataxós na Bahia, que desde dezembro aceitam cartão de turistas. Afirmar que o caixa é Rei agride o nosso bom senso e inteligência, evidentemente. Podemos concluir afirmando que no mundo atual, globalizado e wireless, quem é Rei é o crédito e o cash e apenas um príncipe adorado. Finalmente podemos dizer que, os impactos de todas as operações econômico-financeiras, no nosso modelo de balanço patrimonial, serão analisados com simplicidade, precisão, praticidade e segurança. NOTA IMPORTANTE: O original deste artigo está na página 141,fazendo parte do capítulo 7 Novo Modelo de Demonstração da Posição Financeira do nosso livro Expertise em Apuração de Resultados Econômicos.

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