Guarda e suas implicações sobre os regimes previdenciários Adalgisa Wiedemann Chaves Promotora de Justiça Promotoria de Justiça de Família e Sucessões
Duas análises possíveis: 1. Guarda no Eixo Parental (regida pelo Código Civil) 2. Guarda fora do Eixo Parental (regrada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente)
Guarda dentro do Eixo Parental Código Civil Art. 1.630. Os filhos estão sujeitos ao poder familiar, enquanto menores. Art. 1.634. Compete aos pais, quanto à pessoa dos filhos menores: I - dirigir-lhes a criação e educação; II - tê-los em sua companhia e guarda; (...) Art. 1.584. Decretada a separação judicial ou o divórcio, sem que haja entre as partes acordo quanto à guarda dos filhos, será ela atribuída a quem revelar melhores condições para exercêla.
Aspecto Previdenciário: Legislação Federal Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991. Art. 16. São beneficiários do Regime Geral de Previdência Social, na condição de dependentes do segurado: I - o cônjuge, a companheira, o companheiro e o filho não emancipado, de qualquer condição, menor de 21 (vinte e um) anos ou inválido;
Legislação Estadual Lei Nº 7.672, de 18.06.1982: Art. 9º - São dependentes do segurado: I - a esposa; a ex-esposa divorciada; o marido inválido; os filhos de qualquer condição enquanto solteiros e menores de dezoito anos, ou inválidos, se do sexo masculino, e enquanto solteiros e menores de vinte e um anos, ou inválidos, se do sexo feminino; 5º - Os dependentes enumerados no item I deste artigo, salvo o marido inválido, são preferenciais e a seu favor se presume a dependência econômica; os demais comprová-la-ão na forma desta Lei.
Legislação Municipal Lei Complementar Nº 478, de 26.09.2002: Art. 25. São dependentes dos segurado: I - o cônjuge, a companheira, o companheiro e o filho não-emancipado de qualquer condição, menor de 21 (vinte e um) anos ou inválido; (...) 8º A dependência econômica das pessoas indicadas no inciso I é presumida e a das demais deve ser comprovada.
Guarda fora do Eixo Parental Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8069/90) Art. 33. A guarda obriga à prestação de assistência material, moral e educacional à criança ou adolescente, conferindo ao seu detentor o direito de opor-se a terceiros, inclusive aos pais. 1º. A guarda destina-se a regularizar a posse de fato, podendo ser deferida, liminar ou incidentalmente, nos procedimentos de tutela e adoção, exceto no de adoção por estrangeiro. 2º. Excepcionalmente, deferir-se-á a guarda, fora dos casos de tutela e adoção, para atender a situações peculiares e suprir a falta eventual dos pais ou responsável, podendo ser deferido o direito de representação para prática de atos determinados. 3º. A guarda confere à criança ou adolescente a condição de dependente, para todos os fins e efeitos de direito, inclusive previdenciários.
Legislação Municipal: Lei Complementar Nº 478, de 26.09.2002 Art. 25. São dependentes do segurado: (...) 9º A criança e o adolescente sob guarda judicial, na forma do art. 33 da Lei Federal nº 8.069, de 13 de julho de 1990, equiparam-se aos filhos enquanto perdurar a guarda..
Legislação Estadual (restrição) Lei nº º 7.672, de 18.06.1982: Art. 9º. São dependentes do segurado... Inciso III - o tutelado e o menor posto sob guarda do segurado por determinação judicial, desde que não possuam bens para o seu sustento e educação.
Jurisprudência (exemplo I) Apelação Cível. Transferência da Guarda. Correta a decisão que não homologa acordo firmado entre avó e genitora da menor para destituir a guarda desta em favor daquela por questões de cunho financeiro e previdenciário Situação Excepcional Referida no art. 33, 2º do ECA não configurada. Inteligência do art.01.634 do Código Civil. Negaram provimento. Unânime. (Apelação Cível Nº 70006720320, 7ª C. Cível, TJRS, Relator: Walda Maria Melo Pierro, Julgado em 15/10/2003)
Jurisprudência (exemplo II) ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. GUARDA. PEDIDO FEITO PELOS AVÓS MATERNOS. PAIS PRESENTES. IMPOSSIBILIDADE DE DEFERIMENTO DE GUARDA APENAS PARA FINS PREVIDENCIÁRIOS. A guarda destina-se a regularizar a posse de fato, descabendo, portanto, transferir a guarda da menor aos avós maternos, apenas para fins previdenciários, se a criança está e sempre esteve sob a guarda de fato e de direito dos genitores, embora contando com o amparo dos avós, com quem todos residem. Aplicação do artigo 33, do ECA. Precedentes Jurisprudenciais desta Corte e do Superior Tribunal de Justiça. RECURSO IMPROVIDO. (Apelação Cível Nº 70015736150, 8ª C. Cível, TJRS, Rel. Des. Claudir Fidelis Faccenda, Julgado em 20/07/2006)
Jurisprudência (exemplo III) APELAÇÃO. GUARDA DE NETOS POSTULADA PELA AVÓ MATERNA. NÍTIDA FINALIDADE PREVIDENCIÁRIA. IMPOSSIBILIDADE. A pretensão da avó em obter a guarda dos netos, estando a mãe em pleno exercício do poder familiar, tem cunho previdenciário, com o que se desvirtua o instituto da guarda e favorece a dependência previdenciária de quem, ainda que menor e merecedor de toda proteção, não faz jus ao benefício, colaborando para a falência completa do modelo previdenciário. NEGARAM PROVIMENTO. UNÂNIME. (SEGEDO DE JUSTIÇA) (Apelação Cível Nº 70013483367, 7ª C. Cível, TJRS, Rel. Des. Luiz Felipe Brasil Santos, Julgado em 21/12/2005)
Jurisprudência (exemplo IV) Apelação Cível. Guarda. Fins Previdenciários. Prazo Recursal. Em não se tratando de criança em estado de risco, o prazo recursal é o previsto no CPC, e não no art. 198, II, do ECA. Recurso conhecido. No mérito, inviabilidade do deferimento da postulação, sendo entendimento consolidado desta Corte a impossibilidade da chamada Guarda Previdenciária. Recurso Desprovido. (Apelação Cível Nº 70007866999, 8ª C. Cível, TJRS, Rel. Des. Alfredo Guilherme Englert, Julgado em 12/02/2004)
Conclusões: Dentro do eixo parental: Código Civil; guarda atributo do poder familiar; dependência previdenciária em razão de ser descendente. Fora do eixo parental: ECA; regular posse de fato; gera direitos previdenciários na forma da lei respectiva. Somente será deferida em estrita atenção aos interesses da criança, mas não para fins meramente previdenciários.