AVALIAÇÃO DA QUANTIDADE DE SÓDIO EM ALIMENTOS DIET E LIGHT EM COMPARAÇÃO COM PRODUTOS CONVENCIONAIS Flávia Risse de Mattos Barretto 1, Iana Cândido Cunha 2 1 Curso Superior de Tecnologia em Gastronomia, Bolsista PBIC UEG, Câmpus Caldas Novas, flaviarisse@yahoo.com.br 2 Docente, Mestre em Nutrição, Câmpus Caldas Novas, Caldas Novas, Goiás INTRODUÇÃO O sal é um mineral essencial ao corpo humano. O sal comumente utilizado, conhecido como sal de mesa, é composto por cloreto de sódio, um íon positivo importante para a manutenção do equilíbrio ácido-básico no organismo, para a contração muscular e para a transmissão dos impulsos elétricos. O sal possui 40% de cloreto de sódio, ou seja, em um grama de sal, existem 400 mg de cloreto de sódio (SIZER e WHITNEY, 2003). De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a ingestão diária de sal deve ser de 5 gramas (UNICAMP, 2005). O aumento do consumo de alimentos industrializados aliado ao estilo de vida moderno e, muitas vezes, sedentário, são responsáveis pelo aumento de doenças como diabetes, obesidade e hipertensão (WHO/FAO, 2003). A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) realizada no Brasil entre 2008 e 2009 verificou que houve aumento significativo do consumo de alimentos industrializados, especialmente quanto aos refrigerantes, pães, embutidos, biscoitos e refeições prontas. No entanto, alimentos industrializados caracterizamse por elevadas quantidades de gorduras, de açúcares, de sal e de sódio em sua composição, além de apresentarem elevado valor energético (MONTEIRO et al., 2010). Um estudo realizado com pacientes atendidos no Ambulatório de Hipertensão do Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) revelou que a maioria das pessoas hipertensas, ou seja, aquelas que têm a pressão arterial elevada, ingerem até quatro vezes mais sal do que o recomendado pela OMS. O estudo foi realizado com 138 Pirenópolis Goiás Brasil 20 a 22 de outubro de 2015
portadores da doença e verificou que a média de consumo diário entre os homens é de 17,6 gramas e entre as mulheres é de 13,7 gramas. Porém, os portadores de pressão arterial alta devem limitar-se à ingestão de somente quatro gramas. Para os autores da pesquisa, os temperos industrializados são os grandes vilões para a alimentação dos portadores de pressão arterial alta (UNICAMP, 2005). Além disso, alguns alimentos, como os denominados light e diet, sofrem algum tipo de alteração ou substituição na sua formulação em relação aos ingredientes originais. São utilizados aditivos alimentares que realçam o sabor do alimento e, normalmente, o sal é empregado como um aditivo devido ao baixo custo e funcionalidade (ALBARRACÍN, 2011, citado por NISHIDA, 2013). Dessa forma, faz-se necessário verificar o hábito alimentar dos brasileiros, a fim de analisar se os consumidores sabem dos reais problemas causados pelo consumo excessivo de sal, bem como se sabem que em produtos diet e light, amplamente utilizados atualmente, podem haver teores de sódio superiores aos alimentos convencionais, caracterizando um risco à saúde dos consumidores. OBJETIVO(S) O presente trabalho tem o objetivo de avaliar o nível de informação de pessoas entrevistadas sobre os teores de sódio presentes nos alimentos, bem como avaliar o consumo de alimentos diet e light por essas pessoas e quais os motivos que as levam a substituir produtos convencionais por produtos diet e light. METODOLOGIA O projeto foi desenvolvido na cidade de Caldas Novas, estado de Goiás. Inicialmente, foi elaborado um questionário semi-estruturado, o qual foi aplicado para alunos dos cursos de Administração e Gastronomia da Universidade Estadual de Goiás, Câmpus Caldas Novas e aos funcionários da universidade. Com base nas respostas obtidas após a aplicação dos questionários, os dados obtidos foram analisados, aplicando-se a estatística descritiva. Posteriormente, os alimentos do tipo diet e light citados pelos entrevistados tiveram os teores de sódio analisados, a partir da verificação da tabela nutricional contida no rótulo do produto. Ainda, foi realizada uma comparação entre o alimento diet e light com o alimento convencional, a fim de verificar se os alimentos diet e light contém teores de sódio superior aos convencionais, devido aos teores de aditivos que, muitas vezes, são adicionados a tais produtos a fim de realçar o sabor.
RESULTADOS E DISCUSSÃO Foram aplicados 140 questionários. No entanto, somente 127 foram analisados e tiveram os dados considerados, pois, entre os questionários descartados, haviam problemas com o preenchimento, tornando impossível considerá-los na pesquisa. Entre os entrevistados, 64,57% eram do sexo masculino e 35,43% eram do sexo masculino, com idade que variou de 17 a 44 anos entre os homens e de 18 a 61 anos entre as mulheres. Entre os entrevistados, verificou-se que 74,8% possuíam curso de graduação incompleto, 17,32% possuíam curso superior completo, 3,94% possuíam curso de Especialização, 1,58% possuíam curso de Mestrado, 0,79% possuíam curso de Doutorado, 0,79% possuíam ensino médio completo e 0,79% possuíam ensino fundamental completo. A maior parte dos entrevistados possui ensino superior incompleto, uma vez que os questionários foram aplicados em uma universidade e a maioria dos respondentes caracterizou-se por estudantes universitários. Entre os entrevistados, 83,47% declararam que não possuem o hábito de consumir produtos denominados diet, enquanto 16,53% declararam que consumiam produtos denominados diet. Os produtos diet consumidos e citados pelos entrevistados estão apresentados na Figura 1. A partir das respostas obtidas, verificou-se que a maioria das pessoas que declarou consumir produtos denominados diet tem o hábito de consumir refrigerantes diet, seguido por sucos, doces e gelatinas, entre outros. Ressalta-se que existem alguns alimentos citados como diet pelos entrevistados, mas que, na verdade, são classificados como light, como o açúcar, leite e margarina, os quais. Quanto ao consumo de produtos denominados light, 75,59% dos entrevistados declararam que não possuem o hábito de consumir tais produtos e 24,41% dos entrevistados declarou que consome produtos light. Os produtos citados pelos entrevistados estão apresentados na Figura 2. Pirenópolis Goiás Brasil 20 a 22 de outubro de 2015
Figura 1. Produtos diet consumidos pelos entrevistados. Figura 2. Produtos light consumidos pelos entrevistados. Entre os produtos denominados light mais citados pelos entrevistados, destaca-se o consumo de requeijão, seguido por iogurte, margarina, refrigerantes, sucos, entre outros. Ainda, foi perguntado aos entrevistados em que situações os produtos denominados diet e light eram consumidos. As respostas estão apresentadas na Figura 3.
Figura 3. Motivos que levam os entrevistados a consumir produtos denominados diet e light. De acordo com as respostas obtidas, nota-se que a maior parte das pessoas (33,85%) que declararam consumir produtos diet e light afirmaram que consomem ou consumiriam os produtos em casos de problemas de saúde, além de buscar menor ingestão calórica diária (28,23%), em dietas de emagrecimento (28,35%), por falta de opção (1,57%), além de compra por engano (0,79%), para a redução do nível de colesterol sanguíneo (0,79%), por ter sabor agradável (0,79%) e por gostar do sabor dos produtos (0,79%). Uma vez que as pessoas declararam se consumiam ou não produtos denominados diet e light, foi perguntado aos entrevistados se eles sabiam a diferença entre os dois termos. Entre os entrevistados, 53,54% declararam que sabiam a diferença entre produtos diet e light, 44,1% declararam não saber e 2,37% não responderam à questão. Posteriormente, perguntou-se àqueles que responderam sim à questão anterior, qual é a diferença entre as denominações diet e light. As principais respostas foram transcritas: Light possui 0% de gordura e diet possui 0% de açúcar ; diet é específico para quem tem diabete e light é para quem tem restrição de redução de muitas coisas ; diet é sem açúcar e light é sem calorias ; pessoas que estão doentes consomem alimentos diet, como por exemplo, pessoas com diabetes, e pessoas que precisam fazer alimentação saudável para emagrecer usam light ; diet são produtos destinados à pessoas que tem diabetes, light é para o controle de peso ; diet são alimentos que não possuem açúcar e light são alimentos com Pirenópolis Goiás Brasil 20 a 22 de outubro de 2015
baixo nível de colesterol ; light é a diminuição de certa substância e diet é a troca completa ou até um consumo ; diet é a redução total de um ingrediente e light é a redução parcial de um ou mais ingredientes ; um com açúcar e outro sem ; diet possui baixas calorias e light contém sódio ; os dois ajudam a emagrecer, diet não tem nutrientes, como carboidratos, gorduras, proteínas e light possui teor baixo ou reduzido valor energético ; diet: sem açúcar e light com mens calorias ; diet são alimentos para dietas restritivas de certo nutriente e light são para alimentos com baixo teor de algum nutriente ; entre outros. Posteriormente, foi perguntado aos entrevistados se possuem o hábito de ler os rótulos de produtos, uma vez que contém as informações nutricionais dos produtos. Verificou-se que 66,2% dos respondentes afirmaram ter o hábito de ler os rótulos dos alimentos, enquanto 33,8% declarou que não possui o mesmo hábito. Entre as pessoas que leem os rótulos, 60,63% declarou que compreende as informações apresentadas nos rótulos, 34,64% declarou não compreender as informações e 2,36% não respondeu à questão. Foi perguntado, também, se os entrevistados preocupam-se com os teores de sódio presente nos alimentos. Verificou-se que 52% dos entrevistados respondeu que sim à questão, 41% respondeu que não se preocupa com os teores de sódio dos alimentos e 7,1% dos entrevistados não respondeu à questão. Em seguida, foi solicitado que os respondentes explicassem os motivos que os levam a preocupar-se com os teores de sódio contido nos alimentos. As respostas obtidas estão apresentadas na Figura 4. De acordo com as respostas obtidas, verifica-se que 18,9% citaram prejuízos à saúde como principal motivo de preocupação em relação ao consumo de sódio em excesso, 5,51% respondeu hipertensão, 2,36% respondeu inchaço, 1,57% respondeu problemas renais, 1,57% respondeu problemas cardíacos, entre outros. Posteriormente, foi perguntado aos entrevistados se sabiam os efeitos reais do consumo excessivo de sal para a saúde. Entre os entrevistados, 72,40% afirmou conhecer os reais efeitos do sódio para a saúde, 21,25% afirmaram não saber e 6,3% não respondeu à questão. Assim, foi perguntado aos entrevistados quais são tais efeitos e as repostas obtidas estão apresentadas na Figura 5. De acordo com a Figura, percebe-se que a maior parte das pessoas relaciona o consumo de sódio em excesso ao aumento da pressão arterial (PA), seguida por hipertensão (18,11%) e retenção de líquidos (17,32%). Outros itens citados pelos entrevistados foram: desidratação, obesidade, ácido úrico ( gota ), redução de batimentos cardíacos, derrame e cálculo renal.
Figura 4. Motivos que causam preocupação nos entrevistados devido à presença do sódio nos alimentos. Ainda, foi perguntado se os entrevistados costumam consumir adoçantes culinários. As respostas foram que 20,48% dos entrevistados afirmaram consumir adoçantes culinários, 73,22% afirmaram não consumir adoçantes e 6,3% não responderam. Também foi perguntado se os consumidores sabiam que existem determinados adoçantes que devem ser evitados por pessoas hipertensas, por conterem sódio em sua composição. Os resultados demonstram que 45,51% dos entrevistados sabem que existem adoçantes que devem ser evitados por determinados grupos de pessoas, por conterem sódio, 50,40% declararam não saber e 7,1% não responderam. Pirenópolis Goiás Brasil 20 a 22 de outubro de 2015
Figura 5. Efeitos provocados pelo consumo de sódio em excesso. Tabela 1. Produtos denominados diet e light citados pelos entrevistados. Comparação dos teores de sódio entre os produtos convencionais, diet e light. PRODUTO Achocolatado em Pó Doce de amendoim cremoso Bolacha Wafer recheada sabor Morango Gelatina sabor Morango Gelatina sabor Cereja MARCA TEOR DE SÓDIO CONVENCIONAL LIGHT DIET OBSERVAÇÕES A - - 11mg Em 9g de produto B - - 22mg Em 23g de produto C - 17mg - Em 10g de produto D 23mg - - Em 20g de produto D - 15mg - Em 9,5g de produto E 23mg 16mg - Em 20g de produto F 51mg - - Em 30g de produto G 14mg Em 30g de produto B - - 19mg Em 30g de produto H 95mg 91mg - Em 2,8g de produto H 90mg - - Em 7,8g de produto H - 91mg - Em 2,8g de produto I - - 90mg Em 3g de produto Pudim sabor Baunilha I 23mg - - Em 11g de produto Pudim sabor Baunilha I - 37mg - Em 6g de produto Pudim sabor Chocolate I 36mg - - Em 11g de produto Pudim sabor I - 41mg - Em 7g de produto Baunilha B - 294mg - 3m 60g de produto Creme de avelã J 9mg - - Em 20g de produto K - 6mg - Em 20g de produto Pêssego em Calda L 14,16mg - - Em 140g de produto M - - 42mg Em 140g de produto N 22mg 34mg - Em 20g de produto O - - 16mg Em 20g de produto Leite condensado 40mg** N - - Em 40g de produto * Cookies P 134mg - - Em 40g de produto
Barra de Cereal sabor Morango com Chocolate Q - 40mg 42mg Em 30g de produto R 43mg 44mg - Em 22g de produto (uma barra) S 162mg 193mg - Em 30g de produto Requeijão N 140mg - - Em 30g de produto N - 258mg - Em 50g de produto Margarina sem sal T - Omg - - Margarina com sal T 60mg - - Em 10g de produto Iogurte Grego com 94mg - - Em 100g de produto N Polpa de Fruta - 59mg - Em 90g de produto Refrigerante de Em 200mL de U 10mg - 28mg Cola produto Refrigerante de Em 200mL de V 11mg - 11mg Guaraná produto Refrigerante de Em 200mL de X 15mg - 38mg Suco de Limão produto Nectar de Laranja Y 2,8mg 3,4mg - Em 200mL de produto Nectar de Goiaba Y 3,3mg 4,4mg - Em 200mL de produto Pó para bebida Z 68mg - - Em 5g de produto sabor Maracujá A 0mg - - - Sal refinado B 390mg 191mg - Em 1g de produto C - 63mg - Em 14g de produto Maionese D 125mg 90mg - Em 12g de produto Em um estudo realizado por JURCEVIC et al. (2011), com pessoas atendidas em uma unidade básica de saúde, verificou-se, por meio da excreção de sódio na urina dos pacientes amostrados, que os hipertensos consumiam 14,095 g de sal por dia, o que corresponde a 2,3 vezes a ingestão máxima recomendada pela OMS. Molina et al. (2003), ao estudar a excreção urinária de sódio na urina de pacientes em Vitória, ES, verificou o consumo estimado de 13,6 g de sal por dia para os hipertensos e 11,7 g para os normotensos. Ainda, o estudo constatou que o aumento do consumo de sal se relacionava também a um progressivo aumento da pressão arterial. O elevado consumo de sal na alimentação pode ser explicado não só pela sua adição durante o preparo dos alimentos, mas, também, com o uso de produtos industrializados. Estudos demonstram a tendência da substituição dos alimentos básicos e tradicionais na dieta Pirenópolis Goiás Brasil 20 a 22 de outubro de 2015
brasileira por alimentos industrializados implicando no aumento da densidade energética das refeições (LEVY COSTA et al., 2005). Frisoli et al. (2012), em estudo de revisão, associaram o excesso de sódio na dieta ao aumento da pressão arterial, às doenças cardiovasculares e renais, à osteoporose, à severidade da asma e ao câncer de estômago. Segundo os autores, uma redução de apenas 3 g de sal por dia diminuiria a pressão arterial de 3,6 a 5,6 / 1,9 a 3,2 mm de Hg em pacientes hipertensos e de 1,8 a 3,5 / 0,8 para 1,8 mm de Hg em normotensos. CONSIDERAÇÕES FINAIS (devem ficar claras as conclusões e contribuições do estudo) De acordo com o estudo realizado, pôde-se verificar que os termos diet e light ainda não estão totalmente esclarecidos para grande parte dos entrevistados. São alimentos encontrados em todos os supermercados, por isso, faz-se necessário que as pessoas conheçam as indicações para o uso de cada produto. Verificou-se que nenhum entrevistado explicou corretamente as definições de diet e light. Ainda, verificou-se que a maior parte dos entrevistados preocupa-se com o teor de sódio nos alimentos, sabendo da relação entre o consumo excessivo do mineral e os problemas de saúde relacionados, como hipertensão, retenção de líquidos, problemas renais, entre outros. AGRADECIMENTOS À Universidade Estadual de Goiás UEG, Câmpus Caldas Novas pela concessão da bolsa de estudo para o primeiro autor. Aos acadêmicos dos cursos de graduação em Administração e Tecnologia em Gastronomia, bem como aos funcionários da Universidade Estadual de Goiás, Câmpus Caldas Novas, por responderem aos questionários. REFERÊNCIAS FRISOLI, T. M.; SCHMIEDER, R. E.; GRODZICKI, T.; MESSERLI,F. H. Salt and Hypertension: Is Salt Dietary Reduction Worth the Effort? The American Journal of Medicine, Nova Iorque, v.125, n.5, p. 433-438, 2012. JURCEVIC, J. D.; FELIPE, M. R.; PEZZINI, Z.; WILKE, G. D. Consumo de sódio e estado nutricional de hipertensos atendidos por uma unidade de saúde. Revista Científica JOPEF, v.11, n. 1, 2011, p. 29-36. LEVY-COSTA, R.B.; SICHIERI, R.; MONTEIRO, C.A. Disponibilidade de alimentos no Brasil: distribuição e evolução (1974-2003). Revista Saúde Pública. v. 39, n.4, p.530-540, 2005. MOLINA, B.; CUNHA, M. C.; HERKENHOFF, R. S.; MILL, J. G. Hipertensão arterial e consumo de sal em população urbana. Rev. Saúde Pública [online]. 2003, vol.37, n.6, pp. 743-750.