8ª VARA DA FAZENDA PÚBLICA DA COMARCA DE SALVADOR BA PROCESSO Nº 0526763-41.2015.8.05.0001- MANDADO DE SEGURANÇA IMPETRANTE: RAFAEL BELO GOMES IMPETRADO: COMANDANTE GERAL DA POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DA BAHIA PARECER DO MINISTÉRIO PÚBLICO Trata-se de MANDADO DE SEGURANÇA, com pedido de liminar, impetrado por RAFAEL BELO GOMES, qualificado nos autos em epígrafe, contra ato do COMANDANTE GERAL DA POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DA BAHIA, objetivando que seja remarcado novo teste de aptidão física. Alega o Impetrante, na inicial de fl. 01/09, que prestou concurso público para o Cadastro Reserva de Candidatos para Cursos de Capacitação na Área da Aviação Policial pelo edital SAEB/01/2012, tendo sido aprovado na avaliação objetiva. Aduz que foi convocado para a realização do TAF Teste de Aptidão Física, tendo sido aprovado nos eventos de barra fixa e na corrida de 50 metros. No entanto, durante a prova de corrida de 2.400m, sustenta que sofreu uma lesão na região posterior da coxa esquerda (contratura muscular), ficando impossibilitado de prosseguir na prova. Argumenta que não deu causa à ocorrência que inviabilizou a sua aptidão, e interpôs recurso administrativo perante a Autoridade Coatora, sendo o mesmo indeferido. Entende que em razão de caso fortuito, teria direito à realização de outro teste físico. Junta os documentos de fl. 10/124. Às fl. 140/141, o MM. Juiz indefere o pedido liminar. 1
Cópia do Agravo de Instrumento às fl. 147/159. O Estado da Bahia intervém no feito, às fl. 166/173, sustentando que a exclusão do Impetrante do concurso ocorreu de forma legal, visto que previsto no edital. Junta documentos de fl. 174/183. A autoridade impetrada presta informações às fl. 185/187. Sustenta que a realização de reteste, pelo Impetrante, violaria o princípio da isonomia. É o relatório. Passo a emitir o parecer. Pretende o Autor Mandamental realizar uma segunda prova de esforço físico, após ter sido reprovado em decorrência de ter sofrido, durante a realização do teste de corrida, uma contratura muscular. Como se sabe, o Concurso Público é o meio imposto à Administração Direta e Indireta para a seleção de pessoal que se mostre apto, sendo regido pelo edital que constitui a sua norma. Inerente, dessa forma, no conceito de concurso público está o espírito isonômico, de examinar e, ao fim, selecionar os candidatos que, submetidos às mesmas condições, estejam aptos. Tal tratamento mostra-se imperativo pelo princípio da moralidade no trato da coisa pública, evitando favoritismos ou privilégios. O edital SAEB/01/2012 previu a realização de teste físico para o ingresso no Cadastro Reserva de Candidatos para Cursos de Capacitação na Área da Aviação Policial. O autor, ao seu turno, alega ter sofrido uma contusão no momento em que estava realizando o 3º teste de capacidade física, qual seja, a corrida de 2.400m, hipótese que se subsume à regra editalícia, vez que o candidato não suportou, fisicamente, as exigências da prova. Quanto ao aludido teste de aptidão física, dispõe o item 8.5 do Edital SAEB/01/2012: 8.5 O insucesso em qualquer dos testes implica a inaptidão no TCFG. O candidato, porém, que não atingir o índice mínimo em algum(ns) dele(s) terá, cinco dias após à realização do TCFG, uma única oportunidade de refazê-lo(s), quando, então, será considerado Apto ou terá a sua inaptidão confirmada em caráter definitivo. 2
O autor, ao se inscrever no certame público, tinha ciência, assim como os demais candidatos, de que o exame de capacidade física tinha caráter eliminatório e de que sua não realização no dia e hora marcados, ou a sua realização de forma insuficiente, acarretaria sua eliminação. Note-se, ainda, que o edital ainda trouxe uma exceção a esta regra, sendo claro se não atingisse o índice mínimo em algum dos testes, teria cinco dias para realizar novo teste. Ademais, apesar da alegação do autor de que sofreu lesão muscular durante a realização dos testes (por ele denominado de caso fortuito ), tal fato não é capaz de modificar as regras do edital, visto que conferir a um único candidato uma segunda ou terceira chance violaria o princípio da isonomia. Isso porque a lesão suportada não pode ser considerada caso fortuito. Segundo documentos acostados aos autos, o autor sofreu uma contratura muscular, que ocorre quando o músculo se contrai de maneira incorreta e não volta ao seu estado normal de relaxamento, em resposta a uma sobrecarga de esforço continuado exercido sobre um músculo ou tendão, e ao qual os mesmos não estão acostumados. A contusão sofrida durante a realização do esforço físico, portanto, demonstra que o Impetrante não estava devidamente preparado fisicamente para a realização do teste, o qual tem por finalidade desclassificar aqueles que não estejam devidamente condicionados. Com efeito, é comum (e não fortuito!) nas etapas de um certame a ocorrência de fatos que possam acarretar a eliminação do candidato do concurso. Por esta razão, não há dúvidas de que a situação em que se encontrava o Impetrante, quando da realização de sua avaliação física, não se enquadra entre as hipóteses de caso fortuito. Isso porque no dia e hora marcados para a prática de seu teste físico, o candidato não encontrou qualquer empecilho para comparecer em perfeito estado de saúde. A contratura muscular sofrida pelo Impetrante, que o impossibilitou de obter êxito na realização da prova de corrida de 2.400m não pode ser alegada como caso fortuito ou força maior, pois reveladora do insatisfatório condicionamento físico e preparo do mesmo. Desta forma, a causa apresentada pelo Impetrante, bem como outras possíveis de serem verificadas quando da realização de esforços físicos (câimbras, lesões musculares...) não se apresentam como motivo suficiente a ensejar a submissão dos candidatos a um novo teste. Não há como se permitir a concessão de uma segunda ou terceira chamada para a realização da etapa do certame, já que as regras às quais o autor aderiu previram a inexistência de tratamento diferenciado àquele que se contundisse 3
durante a prova. A concessão de oportunidade para realizar um exame no qual fracassou viola o princípio da igualdade, visto que, além de não ser possível reproduzir as mesmas condições anteriores (psicológicas, climáticas etc.), seria um benefício não extensível aos demais candidatos que também não obtiveram sucesso no teste. Cabe ressaltar que o Supremo Tribunal Federal e os Tribunais Inferiores vêm decidindo ser possível a realização de novo exame de aptidão física, em virtude de motivo de força maior que tenha alcançado a higidez física do candidato no dia do teste. Ocorre, entretanto, que o caso dos autos não se assemelha aos precedentes da Suprema Corte, no sentido em que a proteção do direito à isonomia nasce para candidatos que, por motivo de força maior, não apresentam condições normais de saúde na data designada no edital, e não para aqueles que, inicialmente, se apresentam como aptos e, posteriormente, em decorrência da realização do teste, venham a lesionar-se (conforme julgamento do STF - MANDADO DE SEGURANÇA : MS 29931 DF) Igualmente, verifica-se após a análise dos autos que, no momento da realização da prova de esforço físico, o Impetrante apresentavase apto a realizá-la. Estava, portanto, em situação semelhante a dos demais candidatos que também lá compareceram, e, assim como o Impetrante, submeteram-se à prova física. É o entendimento dos Tribunais pátrios: MANDADO DE SEGURANÇA. MANDADO DE SEGURANÇA COM PEDIDO DE LIMINAR. CONCURSO PARA O CARGO DE SOLDADO POLICIAL E BOMBEIRO DA POLICIA MILITAR DO ESTADO DO PARANÁ. REPROVAÇÃO EM TESTE FÍSICO. EXCLUSÃO DO CERTAME. LEGALIDADE. PREVISÃO EDITALÍCIA. PRINCÍPIO DA VINCULAÇÃO AO EDITAL. ORIENTAÇÃO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL E DESTA CORTE. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO A DIREITO LÍQUIDO E CERTO. SEGURANÇA DENEGADA. "Os candidatos em concurso público NÃO tem direito à prova de segunda chamada nos testes de aptidão física em razão de circunstâncias pessoais, ainda que de caráter fisiológico ou de força maior, salvo se houver previsão no edital permitindo essa possibilidade." (STF - Plenário. RE 630733/DF. Rel. Min. Gilmar Mendes, 15/5/2013) 2 (TJPR - 5ª C.Cível em Composição Integral - MS - 1139324-3 - Foro Central da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba - Rel.: Luiz Mateus de Lima -Unânime - - J. 18.02.2014) 4
AÇÃO CAUTELAR. CONCURSO PÚBLICO. POLÍCIA RODOVIÁRIA FEDERAL. REPROVAÇÃO EM TESTE FÍSICO. IMPOSSIBILIDADE DE REALIZAÇAO DE SEGUNDA CHAMADA PARA O TESTE DE APTIDÃO FÍSICA. AFRONTA AO PRINCÍPIO DA ISONOMIA. 1. A contratura muscular que impossibilitou o recorrente de lograr êxito na realização do teste físico ao qual se submeteu não pode ser alegada como caso fortuito, eis que revela, na verdade, o insatisfatório condicionamento físico do candidato para ter sucesso naquela avaliação física. 2. Inexiste desproporcionalidade em exigir-se dos candidatos ao cargo de Policial Rodoviário Federal a aprovação em testes de aptidão física, pois o bom desempenho das atividades desses agentes públicos exige deles um condicionamento físico adequado. 3. Permitir ao agravante a realização de segunda chamada para o teste de aptidão física implicaria dispensar-lhe tratamento distinto do concedido àqueles que se submeteram, em condições idênticas, à avaliação física em questão, em total afronta ao princípio da igualdade. 4. Agravo de instrumento improvido. (TRF-5, Relator: Desembargador Federal Francisco Wildo, Data de Julgamento: 09/12/2004, Primeira Turma) Portanto, tornar apto candidato considerado inapto pela Administração Pública no teste de aptidão física afrontaria o princípio da isonomia entre os candidatos do concurso, pois, como ensina o mestre Hely Lopes Meirelles, a administração é livre para estabelecer as bases do concurso e os critérios de julgamento, desde que o faça com igualdade para todos os candidatos. Ante ao exposto, o Ministério Público pugna pela denegação da segurança pleiteada. Salvador, 14 de setembro de 2015. Avani Bulhões Carvalho Promotora de Justiça 5