Entrevista com DJ Meu nome é Raul Aguilera, minha profissão é disc-jóquei, ou DJ, como é mais conhecida. Quando comecei a tocar, em festinhas da escola e em casa, essas festas eram chamadas de "brincadeiras dançantes", e quem escolhia as músicas e montava o som era o sonoplasta (operador de som). Naquela época, eu tinha 14 anos. Comecei a gostar de música muito cedo. Existem alguns músicos na minha família e, quando eu desejei tocar um instrumento, escolhi o piano. Após fazer um curso de piano clássico, que durou 5 anos, surgiu a vontade de tocar numa banda como tecladista, mas não deu certo, e continuei apenas comprando meus disquinhos. Então, surgiu a oportunidade de eu e uns amigos fazermos um programa de rádio: a gente não ganhava nada, mas se divertia à beça. Mais tarde, vieram os primeiros trabalhos em clube (eu já tinha 20 anos) e festas grandes. E, depois que me mudei de Maringá para Curitiba, não parei mais: faz 9 anos que toco quase todo fim de semana. A profissão de disc-jóquei ainda não está regulamentada nem tem sindicato, mesmo porque é relativamente nova: a figura do DJ só começou a ser respeitada no Brasil de uns 15 anos pra cá. Os que trabalham em rádios FM são conhecidos há mais tempo. Estes precisam ter sobretudo humor, jogo de cintura e boa voz. O DJ precisa ser curioso, pesquisar, ler muita coisa sobre música, navegar na Internet (para isso, um curso de inglês hoje em dia é essencial), começar a colecionar CDs do estilo de que gosta, etc. Trocar informações com outras pessoas também ajuda bastante. E, se depois disso tudo, houver interesse de aprender bem as técnicas de como lidar com os toca-discos, um curso de DJ será muito útil. -1-
O que levou você a ser DJ? A vontade de entreter as pessoas e de tocar as músicas que eu gostava, pois muitos DJs que eu conhecia não as tocavam. Fale sobre o campo de trabalho e a remuneração de um DJ. O campo de trabalho está cada vez maior: dá para tocar em clubes, festas particulares, eventos de empresas, desfiles e até em alguns bares e restaurantes! Ganhar bem é privilégio de poucos: acho que a maioria não recebe mais que R$ 800 por mês; alguns poucos ganham uns R$ 2.000, e os top DJs devem receber entre R$ 5.000 e R$ 10.000. Qual é a maior dificuldade encontrada em sua profissão? Qual é o seu papel na luta pelo reconhecimento de sua profissão? Existem preconceitos? A maior dificuldade é conseguir um bom espaço para trabalhar. O reconhecimento vem com o tempo; mas a classe ainda não se organizou direito, e a profissão ainda não é reconhecida oficialmente pelo Ministério do Trabalho. Não temos nem sindicato... Qual foi o maior evento que você já realizou? Foi uma festa dentro de um ginásio em Curitiba, em 1998: havia umas 3 mil pessoas! Você já é bem conhecido e adorado por causa das músicas que toca? Muita gente já ouviu falar de mim, mas acho que muitas pessoas não têm noção do que eu toco (house e techno). E há muita gente que vai às festas para ouvir o meu som, e, para mim, isso é o bastante. Que tipo de música a galera mais curte? Hoje, a maioria está curtindo um som mais pesado e rápido; no caso, alguns tipos de techno. Quantas músicas e quantos discos aproximadamente você toca por festa? Devo tocar umas 40 músicas em 40 discos diferentes (cada vinil tem de uma a três faixas). Como se muda a música tão rápido? Usando um aparelho chamado mixer, que mescla duas músicas. É importante também que as músicas estejam na mesma velocidade e tenham batidas parecidas. Qual é o último ritmo que deve ser tocado em um baile? Eu geralmente gosto de fechar com algo mais leve e viajante. O house progressivo tem essas características. De que estilo musical você mais gosta? Qual é a sua música preferida? Essa é difícil de responder. Gosto muito de house e techno para pista e de lounge, pop, 80's e ambient para ouvir em casa. Também curto muito trilhas sonoras de filmes no sossego da minha sala... E a música predileta muda de semana para semana, né? Nesta semana, está sendo Metro Área Miura (house de Nova Iorque). Qual é o seu estilo musical? House e techno. -2-
Estar sempre nas baladas deve ser muito divertido, mas você tem tempo para ficar com sua família? Você sempre teve o apoio de sua família como DJ? A minha família mora em outro estado, que fica bem distante. Infelizmente, só nos vemos uma ou duas vezes por ano. A gente sempre se fala por telefone. Não posso dizer que tive apoio no que fiz, mas, em casa, todo mundo sempre gostou de música e festa; por isso, nunca fui recriminado ou questionado pelo que faço, o que é bom. Há quanto tempo você está nessa profissão? Você gosta do que faz? Está realizado? Estou tocando há uns 14 anos e gosto do que faço, mas só vou me sentir realizado quando tiver um programa de rádio para espalhar a música também durante o dia. Você precisou fazer algum tipo de curso para ser DJ? É preciso ter alguma formação específica? Fiz um curso intensivo quando comecei (tinha 20 anos). Hoje em dia, há várias escolas que ajudam na formação dos novos profissionais. Sua profissão é muito interessante! Que conselhos você daria para alguém que quisesse segui-la? Qual é o primeiro passo para ser um DJ? Gostar de música, respeitar todo mundo (principalmente os colegas de profissão) e ter um bom suingue (ritmo próprio). Para começar, é bom fazer um curso de inglês (para poder pesquisar na Internet e até mesmo trocar idéias com DJs estrangeiros), ter noções de computador e dinheiro para comprar os equipamentos e discos (que são caros para a realidade brasileira). Quem é o DJ que você mais admira? O francês Laurent Garnier. O que é preciso para ser um bom DJ? Como é o seu trabalho como DJ e como você descobriu sua vocação? Trabalho em média três noites por semana: vou aos clubes e festas à meia-noite e só volto para dormir às 6h da manhã. Toco por aproximadamente três horas em uma noite, às vezes mais. Para ser um bom DJ, é preciso ter bons discos, bom gosto, ser original e saber mixar (há estilos que não requerem mixagem). Você costuma ficar nervoso quando faz uma exibição de seu trabalho como DJ numa balada? Não. É muito raro que isso aconteça. Acho que diante de umas 5 mil pessoas... Que tipo de música você gosta de tocar? House animada e techno feliz. Você toca algum instrumento além do piano? Com que idade você começou a tocar piano? E com que idade começou a tocar em grandes festas? Toco toca-discos (que podem ser considerados instrumentos hoje em dia). Comecei a tocar piano com 12 anos e, nas grandes festas, com 25. -3-
Se você não fosse DJ, o que seria? Antes de ser DJ, eu queria ser tecladista de banda de rock. Também gosto de Geografia; então, acho que trabalharia nessa área, quem sabe dando aulas. E gosto ainda de viajar: acho que também faria algo relacionado a turismo. De onde surgiu essa profissão? Dos bailes nos anos 50, quando alguns caras começaram a substituir as orquestras nos salões: era mais barato e prático. O DJ era chamado de sonoplasta (essa palavra vem de som). O salário de um DJ é suficiente para o seu sustento? Raramente. A maioria tem outra profissão durante o dia para complementar o que ganha à noite. Você já trabalhou fora do país? Não. Quantos discos você tem? Uns 1.100. Você ouve som muito alto todos os dias? Não. Em casa, gosto de deixar o som tocando baixo ou fico em silêncio mesmo. É fácil controlar o som durante a festa? Como você faz isso? É uma arte conseguir segurar uma pista durante horas. Há momentos em que a gente tem de animar a galera; em outros, é preciso dar um descanso para as pessoas tocando algo mais leve. Quando começou a exercer essa profissão, você se confundia na troca de discos? Não. Hoje em dia, às vezes troco mesmo são as capas na hora da correria de procurar uma música e guardar um disco... Você vai a festas só para curtir, como convidado? E como se sente? Já teve algum problema durante alguma festa que os convidados perceberam? Como foi? Imagina... Eu adoro sair para curtir com meus amigos. E, quando um DJ bom está tocando, eu me acabo de tanto dançar na pista (risos)! E acho que ninguém se importa se sou eu que estou dançando... É preciso estudar música, conhecer teoria musical e saber ler música para ser um bom DJ? Não, não é. É bom ter noção dos vários estilos de som eletrônico que estão em alta hoje (house, techno, trance, drum'n'bass, electro, hip hop) e aprender a mixar. Quais são as ferramentas de trabalho de um DJ? Em que áreas do conhecimento um DJ pode atuar? Nós usamos discos, dois toca-discos, um mixer, um amplificador, duas caixas de som e um fone próprio para DJs. Um DJ pode atuar também como jornalista ou em rádios. Como você consegue fazer/criar esses ritmos? Por que essa profissão recebeu esse nome? Você já visitou outro país por causa de seu trabalho como DJ? Eu não crio/produzo músicas ainda. O nome dessa profissão vem do inglês e significa algo como coordenador dos discos. Para fazer pesquisa musical, já estive na Inglaterra e na Holanda, mas não toquei nesses lugares. -4-
Por que o som tem de ser tão alto? O som é alto para que as pessoas fiquem literalmente envolvidas e imersas na música. Você pode ficar surdo sem aquele aparelho no ouvido? Não, isso depende do volume e do tempo de exposição ao som dos clubes e boates. Qual é a emoção de se tocar tão alto? É a mesma emoção de ouvir som alto trancado no quarto. Agora, imagine isso com um monte de amigos juntos! Você só trabalha de noite? Sim. Mulheres podem ser DJs? Claro, já existem várias na profissão. O DJ é quem escolhe as músicas? Ele pode tocar música brega ou romântica? É o DJ quem escolhe as músicas sim, mas ele também toca várias que são do agrado do público. Mas, se ele não se importar de ser tachado de DJ que toca música brega, então pode tocar esse tipo de música. Você usa CD ou disco de vinil? Vinil em 90% das vezes. Você não acha ruim trabalhar durante a noite e dormir durante o dia? Acho. Gostaria que as baladas começassem mais cedo e acabassem mais cedo. Acho que estou ficando velho (risos)... Como você se sente vendo as pessoas dançarem as músicas que você escolhe? Feliz e com vontade de fazer com que dancem mais. Quais são a melhor e a pior música que você já tocou? A melhor? Nossa, há um monte, seria impossível listar aqui. A pior a gente esquece, né? Que tipo de música você toca em festas de criança quando elas não decidem o que querem? Bem, até hoje, a idade mínima das pessoas para quem toquei era 15 anos. É fácil: elas gostam das mesmas músicas que tocam nos clubes e nas rádios, então, não há muito o que inventar. Será que algum dia sua profissão vai ser regulamentada, com direito a carteira assinada e tudo mais? Acho que sim. E isso não vai demorar muito para acontecer, eu espero. -5-