OLIMPIADAS DE MATEMÁTICA E O DESPERTAR PELO PRAZER DE ESTUDAR MATEMÁTICA Luiz Cleber Soares Padilha Secretaria Municipal de Educação de Campo Grande lcspadilha@hotmail.com Resumo: Neste relato apresentaremos os pontos positivos que obtivemos no ensino de matemática para os anos finais do ensino fundamental em uma escola pública municipal após a implementação das provas da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Publicas (OBMEP). Descreveremos a experiência vivida pelos alunos e professor, os primeiros ao perceber que a matemática não é um bicho papão, mas sim uma ciência que permite uma viajem pelo mundo das ideias que podem se transformar em soluções para problemas do mundo real. Já para o professor a satisfação em perceber o crescente interesse de seus alunos pela matemática e por poder conduzi-los nos primeiros passos dessa viajem. Palavras-chave: OBMEP; Resolução de problemas; Ensino de matemática. BREVE HISTÓRICO DA OLIMPÍADA BRASILEIRA DE MATEMÁTICA DAS ESCOLAS PÚBLICAS (OBMEP) A Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), um evento patrocinado pelo Governo Federal através do Ministério da Educação e do Ministério da Ciência e Tecnologia em parceria com o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e a Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), responsável pela direção acadêmica do evento, teve sua primeira edição realizada no ano de 2005. Destacamos entre os principais objetivos destas olimpíadas o estimulo e a promoção do estudo da Matemática entre os alunos das escolas públicas; identificar novos talentos e fornecer oportunidades para seu ingresso nas áreas científicas e tecnológicas; contribuir para a melhoria do ensino da Matemática na rede pública; e contribuir para a integração entre as escolas públicas, as universidades federais, centros de pesquisa e as sociedades científicas. O evento ocorre em nível nacional, sendo destinado a todas as escolas públicas municipais, estaduais e federais. As provas ocorrem em duas fases e os estudantes são divididos em três níveis, sendo o nível 1 destinado a alunos do 6º e 7º anos, o nível 2 para alunos do 8º e 9º anos do ensino fundamental e o nível 3 destinado a alunos do ensino médio. A primeira fase é constituída por uma prova de múltipla escolha dirigida a todos os 1
alunos da escola e a segunda fase é composta por uma prova discursiva destinada a 5% dos alunos, em cada nível, que tiveram melhor desempenho da 1ª fase. Os estudantes com melhor desempenho na segunda fase são premiados com medalhas de ouro, prata e bronze, menção honrosa, Bolsas de Iniciação Cientifica Júnior, e em função do resultado dos alunos também são premiados os professores, escolas e secretarias municipais de educação. Na última edição, em 2009, a OBMEP contou com a participação de 43.854 escolas e um total de 19.198.710 estudantes o que representa 99,1% dos municípios brasileiros. TRAJETÓRIA DA ESCOLA NA OLIMPÍADA BRASILEIRA DE MATEMÁTICA DAS ESCOLAS PÚBLICAS A escola pertence a Rede Municipal de Educação e esta localizada na zona central da cidade, atualmente atende 1.100 alunos oriundos de vários bairros, com turmas da Educação Infantil ao 9ª ano do Ensino Fundamental distribuídos nos períodos matutino e vespertino. Participante da OBMEP desde a sua primeira edição, em 2005, a escola vem se destacando entre as noventa e uma escolas que compõem a Rede Municipal de Educação pelos resultados obtidos. Nestas cinco edições foram conquistadas as seguintes premiações: 2005 cinco alunos foram premiados com menção honrosa; 2006 quatro alunos foram premiados com menção honrosa; 2007 dois alunos premiados com medalha de bronze e oito alunos premiados com menção honrosa, além de um professor premiado com o Estágio para Professores no IMPA; 2008 os alunos foram premiados com uma medalha de ouro, uma medalha de prata, três medalhas de bronze e sete menções honrosas, dois professores premiados com Estágio para Professores no IMPA e a própria escola foi premiada com um kit áudio-visual e coleções de livros de Matemática e Ciências; 2
2009 os alunos foram premiados com três medalhas de bronze e cinco menções honrosas, um professor premiado com um troféu e a escola também premiada com um troféu. Embora a escola possua bons resultados, conforme apresentado anteriormente, nos primeiros anos de realização da OBMEP não havia uma mobilização por parte dos professores para incentivar os alunos a participarem da competição. Somado a isso existia uma resistência muito grande por parte dos alunos em realizarem a prova da primeira fase. Daqueles que faziam a prova muitos não tinham o comprometimento de ler e, ao menos, tentar resolver as questões, simplesmente marcavam qualquer alternativa, pois se julgavam incapazes conseguir bons resultados. Entre os alunos classificados para a segunda fase, constituída de questões discursiva, muitos não compareciam para a realização da prova, pois acreditavam que só estavam naquela fase por sorte na realização da primeira prova e que não teriam competência para resolver as questões propostas nesta fase. Essa realidade começa a mudar a partir da edição de 2007 da OBMEP, ao assumirmos a coordenação da olimpíada na escola começamos a tornar mais visível os resultados obtidos nos anos anteriores pelos alunos da escola e por alunos de outras escolas da rede, explicamos como era realizada a distribuição da premiação e demonstramos que pelo grande número de alunos que participavam da olimpíada a menção honrosa, que para muitos não tinha significado, representava um bom resultado. Além de estimular os alunos, também resolvemos envolver todos os professores de matemática nesse processo. Para isso providenciamos cópias dos bancos de questões da olimpíada e sugerimos que as questões fossem inseridas nos planejamentos como atividades dos conteúdos que estavam sendo abordados e também como desafios. Com isso pretendíamos familiarizar os alunos com as questões da olimpíada e fazer com que percebessem que não eram mais difíceis do que aquelas que já estavam acostumados a resolver. Neste mesmo ano, 2007, a Secretaria Municipal de Educação lançou um projeto com a finalidade de estimular o estudo e a preparação para a segunda fase da olimpíada, no qual os alunos classificados para a segunda fase recebiam aulas extras baseadas na resolução de problemas. 3
O trabalho desenvolvido pela equipe de professores da escola com o apoio da Secretaria Municipal de Educação levou a um incremento dos resultados obtidos pelos alunos, tendo sua culminância na edição de 2008, quando a primeira medalha de ouro do nível 1 da rede municipal foi conquistada por um aluno dessa escola. Além dessa medalha também foram conquistadas uma medalha de prata, três medalhas de bronze e sete menções honrosas. Nesta edição todos os professores de matemática da escola tiveram alunos premiados sendo que dois destes professores foram premiados com o Estágio para Professores no IMPA. Este excelente desempenho dos alunos fez com que a escola também recebesse como premiação um Kit áudio-visual e coleções de livros de Matemática e Ciências para compor a biblioteca escolar. A OLIMPÍADA E A DESCOBERTA DE UMA MATEMÁTICA DIFERENTE Ao assumirmos a coordenação da olimpíada na escola assumimos também a responsabilidade de dar o exemplo de como executar o trabalho que havíamos proposto. Começamos por criar um espaço dentro do meu planejamento de aula para apresentar questões das edições anteriores da olimpíada e propor a resolução coletiva das mesmas, fazendo os comentários necessários ao seu entendimento e resolução. Após algumas sessões de estudos conduzidas desta forma passamos a dispor os alunos em grupos de três ou quatro elementos e distribuíamos questões diferentes para cada grupo, que após discutir, traçar estratégias e resolver os problemas recebidos deveriam expor para o restante da turma sua estratégia de resolução, a resolução e o resultado obtido. Nesta etapa do trabalho percebemos a grande dificuldade que os alunos apresentavam na compreensão das situações-problemas e com a definição de estratégias de resolução. Com isso foi necessário realizar um trabalho específico de leitura e compreensão onde através de questionamentos estimulávamos os alunos a refletir sobre o que haviam lido e o que representava cada parte do texto. Depois de compreendido o problema passamos a discutir estratégias de resolução, procurando identificar quais eram viáveis, quais os conhecimentos matemáticos eram necessários e só então implementando a resolução. Com essas atividades foi possível perceber que os alunos não conseguiam argumentar sobre a resolução que haviam realizado e com isso a socialização do trabalho 4
era dificultada, e ainda, os demais colegas não questionavam a apresentação porque também fariam suas apresentações e não gostariam de ser argüidos. Durante este processo ocorreu a primeira fase da olimpíada do ano de 2007, com a implementação do projeto desenvolvido pela Secretaria Municipal de Educação começamos as sessões de estudos com o grupo de alunos que foram classificados para a segunda fase. Com este grupo menor, dez a doze alunos, continuamos trabalhando a resolução de problemas dando uma ênfase maior a questão da argumentação e também da verificação da resposta obtida na resolução. O resultado deste trabalho foi percebido com a conquista das primeiras medalhas da escola, aquelas duas medalhas de bronze fizeram com que os todos percebessem que era possível ter êxito na olimpíada, pois dois colegas haviam conseguido. As conquistas elevaram a auto-estima dos alunos, era possível perceber durante as aulas que eles já começavam a apresentar uma nova postura frente a matemática, neste momento a disciplina já não era mais o bicho papão que assustava mas sim uma disciplina que estimulava o raciocínio, oferecia desafios e as ferramentas necessárias para solucionar problemas na escola e na vida. Ao longo do ano de 2008, os alunos tornaram-se cada vez mais participativos e interessados durante as aulas possibilitando aprofundar ainda mais os conteúdos, os resultados das avaliações melhoraram e com isso índice de reprovação foi reduzido. Neste ano os alunos estavam motivados para a realização da prova da primeira fase da olimpíada e as sessões de estudos com os alunos classificados para a segunda fase passaram a contar com a participação de alunos que não estavam classificados, mas que estavam interessados em exercitar a resolução de problemas. Ao recebermos o resultado da prova da segunda fase e percebermos que conquistamos uma medalha de ouro, uma medalha de prata, três medalhas de bronze e sete menções honrosas e que a escola também havia sido premiada gerou em todos um sentimento de euforia, pois além da consolidação de um trabalho desenvolvido por todos, era a primeira medalha de ouro do município no nível 1. Com este resultado estávamos provando que o empenho e a dedicação de professores e alunos estava sendo recompensado, todos os professores de matemática da escola tiveram alunos premiados. 5
Devido aos resultados dos nossos alunos nos anos de 2007 e 2008 fomos premiados com o Estágio para Professores no IMPA, nestas duas ocasiões tivemos a oportunidade de conhecer professores de todas as regiões do país e com isso ter contato com várias realidades diferentes, além de uma excelente formação ministrada por grandes nomes da Matemática nacional, estas experiências nos proporcionaram um grande crescimento pessoal e profissional. O excelente desempenho dos alunos em 2008 nos trouxe um novo desafio, tínhamos que continuar o trabalho com as turmas de 7º, 8º e 9º ano, e conquistar o novo grupo de alunos que chegava ao 6º ano em 2009, pois aquele grupo de alunos pioneiros haviam concluído o 9º ano em 2008. Em 2009, continuamos a coordenação das olimpíadas na escola e o trabalho com os alunos até o mês de julho quando deixamos a escola para trabalhar junto a Equipe de Matemática da Secretaria Municipal de Educação. Neste período tivemos a satisfação de trabalhar com as turmas de 9º ano cujos alunos vinham desde o 6º ano exercitando a resolução de problemas. As aulas se desenvolviam com grande participação dos alunos, devido a motivação e o conhecimento destes, era possível fazer a demonstração alguns teoremas e exercícios do uso da argumentação matemática. Tornaram-se momentos tão envolventes e descontraídos que era comum ouvir, ao soar o sinal do final da aula, os alunos dizerem: Já acabou? CONSIDERAÇÕES FINAIS Este período de dois anos e meio a frente da coordenação da OBMEP na escola nos possibilitou uma experiência muito positiva no ensino de matemática, pois através da mudança metodológica, onde passamos a enfatizar a resolução de problemas, conseguimos envolver e estimular os alunos a conhecer e estudar matemática, e aproximamos a ciência ao cotidiano. O sucesso obtido com a utilização das questões das provas da olimpíada no trabalho em sala de aula, decorrente da motivação e comprometimento de alunos e professor, gerou uma aproximação e um vínculo muito forte entre estes e com a matemática. Esta nova dinâmica de ensino e aprendizagem resultou nos excelentes resultados alcançados na 6
OBMEP, elevando a auto-estima de toda a comunidade escolar, que se motivou a estudar e conhecer ainda mais a matemática, criando assim um círculo virtuoso. Referências www.obmep.org.br, consultado em 15 Mar 2010. 7