Comunicação Relato de Experiência



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OBSERVANDO AULAS DE MÙSICA NA ESCOLA: AS ORIENTAÇÕES DO PROFESSOR EM PRÁTICAS DE CONJUNTO COM PERCUSSÃO E NO PROCESSO DE CRIAÇÃO MUSICAL UM RELATO DE EXPERIÊNCIA Armando César da Silva ac_guitar@hotmail.com Universidade Federal de Uberlândia/UFU Comunicação Relato de Experiência Resumo O presente trabalho discute os resultados de um relato de experiência feito a partir da disciplina Estágio Licenciatura 5 do curso de música da Universidade Federal de Uberlândia UFU. A proposta de trabalho consistiu em fazer observações da atuação de uma professora de música em uma escola de ensino básico com três turmas de crianças com faixa etária de 7 a 8 anos. O foco das observações foram o trabalho feito com percussão em práticas de conjunto e o processo de criação instigados pela professora. Tal discussão inclui como aporte teórico, trabalhos de músicos-pesquisadores que investigaram diferentes aspectos relacionado a prática instrumental com percussão e composição/criação. Também foi usado como base para construção do texto, trechos dos relatórios de estágio. Palavras-Chave: Ensino, Prática de Conjunto, Criação. 1. Introdução Esse relato de experiência tem como objetivo apresentar um trabalho que vem sendo desenvolvido na área da educação musical de Uberlândia MG pela professora de música da escola. Foram feitas observações com o intuito de acompanhar como a professora ministra as aulas e como é o processo de aprendizado de três turmas de crianças nas aulas de musicalização. A faixa etária das crianças é de 7 a 8 anos. Tivemos como foco da observação o trabalho desenvolvido em práticas de conjunto com percussão e o processo de criação/composição direcionados pela professora, afim de aperfeiçoar nossos métodos de

ensino enquanto professores de música e acompanhar o trabalho de um profissional experiente. Essa proposta de pesquisa foi desenvolvida na disciplina Estágio Licenciatura 5 do curso de música da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), ministrada pela professora Lilia Neves Gonçalves. A proposta foi desenvolvida por outro colega estagiário que também esteve presente nas observações. Com isso, nós conseguimos somar a experiência da professora transmitidas no decorrer das aulas, às nossas próprias dúvidas e dificuldades enfrentadas enquanto estagiários e professores. A proposta mostrou-se bem eficaz e nos deu resultados e experiências satisfatórias. 2. Referencial Teórico O ensino de música através de instrumentos musicais, em todo meu processo de aprendizado apresentou ser pertinente e trouxe bons resultados. As pessoas que resolvem estudar música, sejam elas crianças, jovens ou adultos, acabam na maioria das vezes sendo motivados por algum instrumento. Por isso, acho de fundamental importância o uso de tais ferramentas para o processo de aprendizado dos estudantes. Portanto, o uso de instrumentos de percussão na escola pode ser uma boa opção. Em relação ao uso de instrumentos de percussão no processo de musicalização, a literatura aponta que: O ensino da percussão é, sem dúvida, uma importante prática musical que pode ser desenvolvida na escola. Envolvendo muitas habilidades e espírito de grupo, a prática de tocar em conjunto consiste em uma forma de aprendizagem bastante profícua na escola. Tendo como base a organização e os princípios do ensino coletivo do instrumento, a organização e a preparação da performance musical, desse tipo de prática instrumental coletiva, possibilita um processo de interação social que exerce um papel bastante importante no processo de aprendizagem musical (GONÇALVES, et al, 2008, p. 2). No decorrer das observações, foi possível perceber como as crianças se comportavam nas aulas de música e de certa forma o que aquilo significava para elas. Transpareceu que crianças com aquela faixa etária (entre 7 a 8 anos) constroem suas experiências musicais através de seu convívio no meio social que está inserida. Elas acabam levando estas experiências para a sala de aula e isso é trabalhado pela professora como uma espécie de continuidade do que a criança tem a oferecer. Segundo Gonçalves, et al (2008):

Acredita-se que em suas relações no mundo que as cerca as crianças adquirem conhecimentos musicais. Conhecimentos musicais que vêm à tona em atividades musicais rítmicas, como, por exemplo: na execução de instrumentos de percussão ou no movimento corporal; melódicas ao entoar canções do repertório que lhes agrada; além de habilidades envolvendo a aprendizagem dos instrumentos em vários locais e através de muitos meios. Diante das muitas formas de contato e de vivências com a música no seu cotidiano as crianças vão construindo seus conhecimentos e habilidades musicais (GONÇALVEZ, et al, 2008, p. 2). Assim como a prática instrumental, a criação musical ou composição é importante porque possibilita a crianças e adolescentes a compreenderem os elementos da música, ajudando também a perceberem tais elementos nos meios musicais que cada um desses indivíduos está inserido. De acordo com Gonçalves et. al.(2010), Todas as crianças são capazes de criar música e que já trazem conhecimentos musicais que, na grande maioria das vezes, desconhecem e que serão fundamentais para a construção de suas composições. As práticas musicais mais recorrentes atualmente na cultura ocidental são a escuta e a execução instrumental. Nesse sentido, a composição permite que as crianças vivenciem outro tipo de produção musical, já que a composição é vista como uma prática de poucos indivíduos (GONÇALVES et, al., 2008, p. 237). Sobre o processo de composição ou criação orientado por professores em escolas de educação básica, o mesmo pode envolver diversas formas de invensão musical, dentre elas a improvisação, recriação, arranjo, etc. Para Beineke (2008), a composição musical é uma atividade que vem sendo progressivamente valorizada no ensino de música, ampliando as pesquisas que focalizam experiências criativas e composicionais de crianças e adolescentes. (p. 19) Beineke (2008) apresenta em seu artigo sobre o ensino da composição, a análise de cinco abordagens sobre o viés da composição, dentre elas: 1) processos composicionais; 2) avaliação da composição musical; 3) contexto e variáveis sociais na atividade de composição; 4) concepções e práticas dos professores; e 5) perspectivas das crianças sobre composição. Para a autora: Os trabalhos que focalizam os olhares e construção de significados musicais pelas crianças em atividades criativas, incluindo a composição musical, representam tendências emergentes na área. No âmbito das pesquisas em educação, esses trabalhos podem ser situados dentro de um campo ainda em construção, que busca conceituar e compreender a aprendizagem criativa (BEINEKE, 2008, p. 29).

Através do processo de criação musical nas escolas, os estudantes são comprometidos a compartilhar a sua forma de pensar e fazer música, aprimorando seus conhecimentos individualmente e coletivamente por meio da composição. 3. Descrição e análise da experiência 3.1 Quem são os participantes? Fizeram parte do processo de observação, 3 turmas de crianças com idade de 7 a 8 anos e a professora de música. As 3 turmas somam no total 30 alunos. Todas as crianças com essa faixa etária estão inseridas nas aulas de música de 1 h/aula semanal. As três turmas foram indicadas pela professora com o intuito de nos ajudar na observação e nos trazer experiências significativas. As observações foram feitas durante o semestre acadêmico, toda segunda feira, nos horários de 13:00hr as 14:00hr na primeira turma, 14:00 hr as 15:00hr na segunda turma, e 15:30 hr as 16:30 hr na terceita turma, exceto em feriados e férias. 3.2 Etapas da observação 3.2.1 Primeiro momento O Estágio teve início no primeiro semestre de 2014. A princípio notamos que os alunos tinham muito respeito pela professora. A professora demonstrou ter muita habilidade e atenção para atender os alunos. Cada criança já era conhecida por ela e segundo a mesma, todos eles já haviam deixado registrados suas personalidades. As três aulas foram iniciadas com nossa apresentação. Nos apresentamos dizendo nome, idade e o que nos estavamos ali fazendo. Dai surgiram as perguntas: Vocês querem ser professor? Professor de que? Respondemos todas as perguntas e também nos atentamos para o fato que seria necessário nos aproximar das crianças para que elas não se sentissem intimidadas pela nossa presença. A professora estava preperando os alunos para uma apresentação em consequência da Copa do mundo de Futebol. Notava-se que ela estava bem preocupada se tudo ia dar certo ou

não. O evento foi denominado Copinha, já que era confraternizado por crianças. Em todas as três turmas foi trabalhada a música Goool escrita por Telma Chan do livro Dia de Festa. A professora propôs a formação de conjuntos nos quais cada aluno ficou responsável por uma função. A prática envolvia o uso de instrumentos como: Violão, Voz, Ganzá, Agogô, Bumbo, Pau de Chuva e Caixa clara. A professora tocava e cantava ao violão enquanto alguns alunos cantavam e outros tocavam instrumentos de percussão. Quem cantava tinha também que executar uma coreografia bem simples, levantar as mãos, sentar, se levantar, se virar para o palco. A professora se manteve sempre disposta a nos explicar e descrever as atividades antes delas acontecerem. Sempre dizia quando estava testando algo novo e levantava as possibilidades de falha ou sucesso, enfim, o que deve ser esperado ao aplicar uma atividade nova, tudo depende da turma (Relatório de estágio, 2014). Os arranjos com percussão foram feitos pela professora, de forma que todos os alunos pudessem participar do conjunto. Essa mesma atividade foi feita durante as aulas seguintes até o dia do evento. Alguns dias antes da apresentação que aconteceria em homenagem a copa do mundo, fomos para o salão onde aconteceu o ensaio geral para a copinha. Ajudamos a montar os equipamentos e a colocar os instrumentos no palco. Na hora do ensaio chegamos a tocar os instrumentos de percussão, apenas para auxiliar alguns alunos. O ensaio foi produtivo, as crianças corresponderam ao trabalho que estava sendo feito em sala de aula. Alguns alunos distraídos, outros bem concentrados, mas no fim tudo foi se acertando. Pude perceber que as crianças estão abertas a qualquer atividade, elas ouvem com atenção e realmente gostam do que estão ali a fazer. O ponto mais positivo foi a disciplinas das crianças e a paixão que a professora tem no que se propõe. No último mês de estágio a professora começou a trabalhar duas canções, Pedalinho e a Loja do Mestre Andre, ambas envolveram o uso de instrumentos de percussão para acompanhamento. Enquanto a professora tocava o violão os alunos tocavam os instrumentos de percussão e cantavam. Dois alunos de cada turma tiveram que tocar metalofone. Cada um deles faziam uma melodia diferente com marcações rítmicas diferentes e isso deu um belo contraste de timbre.

Os procedimentos para ensinar as crianças foram os seguintes, primeiramente a professora explicou detalhadamente como funcionaria a aula e em seguida chamou aluno por aluno para experimentar o instrumento metalofone. A partir foi feito uma observação para esolher dois alunos para tocarem, enquanto os demais cantam ou tocam instrumentos de percussão. Nenhum aluno ficou sem função, todos deviam participar. A professora pediu para auxiliarmos os dois selecionados de cada turma para tocar no metalofone. Nos mudamos de sala para trabalharmos individualmente com os alunos de metalofone. Explicamos com detalhes, dividindo a música em partes. Todos os alunos conseguiram tocar. Alguns perdiam o andamento, outros aceleravam repentinamente ou se desconcentravam facilmente. Mas depois de algumas repetições se estabilizaram com a música. Retornamos a sala pra tocarmos as músicas do começo ao fim com todos os outros instrumentistas. 3.2.2 Segundo momento Em um segundo momento foi trabalhado com as três turmas exercícios de percepção e criação musical. Foram utilizados dois metalofones em uma atividade coletiva. Foi trabalhado construções de frases em que, uma criança tocava algumas notas e tinha que acabar em uma região mais aguda, como uma pergunta, e outra respondia tocando algumas notas e acabando na região grave, como uma resposta. As crianças revezaram os instrumentos sempre dois a dois. Notávamos a empolgação das crianças quando chegava a sua vez. Foi interessante ver como eles assimilavam o conteúdo com facilidade. A professora associava as entoações da voz à colocação das notas musicais no instrumento para que as crianças pudessem executar os exercícios de pergunta e resposta. Então os alunos criavam/improvisavam frases de acordo com sua percepção. Trabalhos com criação musical também foram feitos com exercícios de pulsação. Todas as crianças tinham que tocar um instrumento de percussão enquanto uma delas marcava o pulso regular no Bumbo. Elas iam revezavam o bumbo enquanto as demais tinha que criar pequenos motivos rítmicos e tocá-los de acordo com a marcação rítmica. Entre os instrumentos estavam: Pandeiro, Ganzá, Agogó, Chocalho, Pau-de-chuva e Tamborim. É impressionante que crianças daquela idade já conseguem fazer tudo que é proposto pra eles, pois todos conseguiram criar alguma coisa. Todas as atividades mencionadas foram feitas com as 3 turmas. (Relatório de estágio, 2014)

4 Considerações finais As observações feitas por nós estagiários nas aulas de musicalização possibilitou o conhecimento e entendimento dos métodos adotados pela professora de música para seus alunos. Através das observações também foi possível perceber as dificuldades e problemas enfrentados pela professora para manter o ensino de música, já que o ensino de música ainda não é algo comum nas escolas de ensino básico. Os alunos, mesmo tão novos demonstram muito interesse nas aulas de música e o respeito que eles têm pela professora propicía um ambiente tranquilo e produtivo para as aulas de música. As aulas baseadas em conteúdos que envolvem a prática instrumental demonstraram ser muito eficientes. Acredito que em um ambiente que se trabalha música, seja em uma escola especializada ou instituições de ensino básico, a música deve estar vínculada à prática instrumental. Os estudantes devem tocar, cantar e explorar todos os elementos da música possíveis. Em momento algum das observações se ouviu a professora usar termos complicados ou trabalhar notações musicais que prenderiam o aluno apenas à teoria. Ela simplesmente fazia uso dos conhecimentos e vivências que os alunos demonstravam ter e os ajudavam a se desenvolverem a partir dali. Obviamente, em outros momentos ou futuramente tais conteúdos como leitura de partitura, por exemplo, poderão ser abordados, como é feito em outras turmas de alunos mais velhos da escola 1. Em relação ao processo de criação por parte dos alunos, eles conseguem compreender bem as falas da professora. Dentre as turmas, alguns alunos sempre associavam o conteúdo apresentado a alguma coisa que já haviam feito ou conheciam. Por exemplo, as improvisações feitas no metalofone, alguns associavam seu som as gotas de água da chuva que ouviam em casa. Na música Pedalinho, a letra se refere ao mar e a sua beleza, um aluno da primeira turma começou a fazer estalos com os lábios e associou isso com as bolhas de ar no mar. A professora percebeu e permitiu que ele usasse esse som que ele criou. A partir disso pude perceber que o processo de aprendizado de crianças na música pode propiciar mais sensibilidade e interação. No decorrer das observações as crianças pareceram mudar de comportamento, ficaram mais concentradas, alegres e concientes do que estavam aprendendo. 1 Depoimento dado pela professora de música.

5 Referências BEINEKE, V. A composição no ensino de música: perspectivas de pesquisa e tendências atuais. Revista da ABEM, Porto Alegre, v. 20, p. 19-32, set. 2008. GONÇALVES, L. N.; COSTA, J. A. da S.; FERREIRA, M. J. de S.; LIMA, S. R. de; JUNIOR, R. F. de M. A prática da percussão em conjunto na escola estadual Juscelino Kubitschek de Uberlândia-MG: Um relato de experiência. 2008. GONÇALVES, L. N.; COSTA, J. A. da S.; LIMA, S. R. de; JUNIOR, R. F. de M.; GUIMARÃES, A. de F. Composição de crianças de 8 a 14 anos na escola: Un relato de experiência. Anais do II Seminário de Pesquisa do NUPEPE, Uberlândia/MG p. 234-244, maio, 2010.