MÓDULO 5 O SENSO COMUM Uma das principais metas de alguém que quer escrever boas redações é fugir do senso comum. Basicamente, o senso comum é um julgamento feito com base em ideias simples, ingênuas e, às vezes, preconceituosas, tiradas diretamente da experiência de vida das pessoas. Ele se opõe ao senso crítico, que é uma visão mais aprofundada e fundamentada de um problema. É importante notar que existem dois tipos de senso comum: um deles é aquele causado, sem intenção, quando um autor não tem informação sobre o assunto, mas, ao mesmo tempo, quer parecer informado. É o que aparece normalmente em redações de vestibular e conversas descompromissadas. Observe alguns exemplos abaixo: Exemplo 1: Tema: Banco de Redações do UOL -Violência no trânsito As pessoas de hoje estão mais estressadas, cheias de problemas, e isso leva a atos violentos e por qualquer coisa sem motivo sério pode acabar em tragédia, como tem acontecido muito. No trecho acima, o autor faz uma análise simplista da sociedade atual, afirmando que as pessoas hoje estão mais estressadas e cheias de problemas. A presença do advérbio mais faz pressupor uma comparação com um tempo passado, que não é especificado (provavelmente porque o autor do texto não pensou em um tempo específico, apenas reproduziu uma fala que ouve com frequência). Esse tipo de afirmação, segundo a qual a sociedade atual é pior que todas as anteriores, não encontra respaldo em uma análise mais aprofundada das condições de vida nesta e em outras épocas. Exemplo 2: Tema: Banco de Redações do UOL -Violência no trânsito Para que contenha tais reivindicações, é preciso, em decreto do governo, rever as leis e pesá-las com as críticas, e assim realmente atender às necessidades sociais. No trecho acima, o autor revela desconhecimento do funcionamento específico da legislação de um país e da complexidade das demandas sociais. É proposto que o governo, por meio de um decreto, reveja as leis e as pese com as críticas para atender às necessidades sociais. Novamente percebemos uma visão simplista do mundo, em que bastaria o governo ter vontade e todos os problemas seriam solucionados. No entanto, um mínimo de conhecimento do tema revelaria que a modificação de leis é um processo muito complexo e que é impossível atender a todas as reivindicações da sociedade, já que muitos pedidos são contraditórios (por exemplo, em 2011 houve, em São Paulo, passeatas favoráveis e contrárias à legalização da maconha). Pudemos observar até agora uma característica importante do senso comum: O senso comum é vago; não se refere especificamente a um assunto específico, normalmente porque seu autor não tem conhecimento sobre esse assunto específico. Há outro tipo de senso comum, porém, formulado com intenção de iludir ou enrolar as pessoas: note, por exemplo, que raras vezes um candidato a algum cargo público fala claramente sobre quais serão suas atitudes se vencer a eleição. Quando perguntados a respeito, esses políticos geralmente dão respostas como meu governo irá valorizar a cidadania e minha preocupação será o bem estar da sociedade. Ao usar essas frases, eles estão se valendo do senso comum para não dizer nada ao eleitor e, ao mesmo tempo, passar a impressão de que estão respondendo às perguntas. Você pode se perguntar: se o senso comum parte, normalmente, de pessoas com pouco conhecimento sobre o assunto em questão, isso significa que ele é pouco convincente? A resposta é que não; o senso comum, na
verdade, costuma ser bastante forte como argumento no cotidiano (embora não o seja em concursos e provas). Mas isso ocorre não devido à sua qualidade e sim ao fato de que ele é muito repetido, até se tornar algo indiscutível para a maioria das pessoas. Um bom exemplo desse efeito são os ditados populares, como os exemplificados abaixo: Exemplo 1: Duas cabeças pensam melhor que uma. Esse provérbio afirma que o resultado de um esforço intelectual é sempre melhor quando há mais de uma pessoa envolvida. Assim, seria de se esperar que, por exemplo, decisões tomadas em conjunto fossem superiores às tomadas por poucos especialistas. Ocorre, no entanto, que nem sempre um conjunto de pessoas consegue chegar à melhor solução. Um exemplo é o próprio senso comum: quando muitas pessoas acreditam em algo (como a famosa ideia de que uma boa redação precisa ser criativa), isso não significa que a crença é verdadeira. Nesse caso, a opinião de uma pessoa que domina o assunto é muito mais válida que as opiniões de centenas de pessoas que nunca estudaram o tema. Uma análise mais cuidadosa dos provérbios vai revelar que, muitas vezes, eles fazem uma análise excessivamente simplificada e generalista da realidade. Porém, é muito raro que as pessoas percebam isso, pois os provérbios são tão repetidos que passam a ser encarados como verdade por quem os ouve. Daí podemos concluir outra característica do senso comum: As informações trazidas pelo senso comum raramente são contestadas; porém, elas não tiram sua força da qualidade e sim da repetição. Um recurso muito usado no senso comum é a presença de palavras vagas, cujo significado será completado pelo leitor. Vejamos como exemplo disso uma canção do grupo Charlie Brown Jr, Não É Sério : Sempre quis falar Nunca tive chance Tudo que eu queria Estava fora do meu alcance Sim, já Já faz um tempo Mas eu gosto de lembrar Cada um, cada um Cada lugar, um lugar
Eu sei como é difícil Eu sei como é difícil acreditar Mas essa porra um dia vai mudar Se não mudar, pra onde vou Não cansado de tentar de novo Passa a bola, eu jogo o jogo A polícia diz que já causei muito distúrbio O repórter quer saber por que eu me drogo O que é que eu uso Eu também senti a dor E disso tudo eu fiz a rima Agora tô por conta Pode crer que eu tô no clima Eu tô no clima... segue a rima Revolução na sua mente, você pode, você faz Revolução na sua vida você pode você faz Revolução na sua mente você pode você faz Também sou rimador, também sou da banca Aperta um do forte que fica tudo a pampa Eu tô no clima! Eu tô no clima! Eu tô no clima
Segue a Rima! Chegando por aí Negra Li, família RZO, manos malucos só: "O que eu consigo ver é só um terço do problema É o Sistema que tem que mudar Não se pode parar de lutar Senão não muda A Juventude tem que estar a fim Tem que se unir O abuso do trabalho infantil, a ignorância Só faz destruir a esperança Na TV o que eles falam sobre o jovem não é sério Deixa ele viver! É o que liga" Essa canção nos permite enxergar outra característica importante do senso comum: Muitas vezes, o senso comum deixa cada leitor completar seu significado como preferir; assim, parece ter sido escrito especificamente para cada leitor, mas na verdade não se dirige a ninguém. Ainda na canção, é possível notar o uso de teses como é o sistema que tem que mudar. Esse tipo de afirmação é um exemplo perfeito do senso comum, pois concentra suas três principais características: não exige nenhum tipo de conhecimento, pois não se prende a nenhuma situação específica; é uma ideia muito difundida, e por esse motivo pouco questionada; pode ter um significado diferente para cada leitor, sem que nenhuma interpretação seja mais correta que as outras. Muitos autores justificam o uso do senso comum como uma forma de permitir ao leitor formar sua própria opinião; no entanto, devemos nos lembrar de que, pelo menos em textos do tipo dissertativo-argumentativo, o propósito não é esse: uma dissertação argumentativa bem escrita mostra claramente a opinião do autor e a defende com argumentos para que o leitor concorde com a tese, não para que o leitor forme sua própria opinião. O senso comum pode ser útil em uma redação? Após a leitura dos exemplos, uma conclusão a que poderíamos chegar é a de que o senso comum deve ser evitado a todo custo. No entanto, é possível usar o senso comum, desde que ele seja o ponto de partida do texto e não o ponto de chegada. Em primeiro lugar, é possível admitir a existência do senso comum, sem necessariamente concordar com o que ele afirma. Por exemplo, uma redação pode citar um provérbio popular e em seguida analisar sua veracidade (concluindo pela validade ou não do provérbio).
Outra possibilidade: muitas afirmações do senso comum, mesmo que não sejam profundas, são verdadeiras ( devemos preservar o meio ambiente, a desigualdade social alimenta a criminalidade, a mudança começa com atitudes individuais ); no entanto, restringir o texto à exposição dessas ideias revela incapacidade de aprofundar a discussão. Por isso, é possível usar uma afirmação do senso comum, mas enfatizar no texto algum outro aspecto ligado a ela. Por exemplo: é verdade que devemos preservar o meio ambiente, mas como fazer isso?. Se você usar o óbvio (a necessidade da preservação) como ponto de partida para discutir o não óbvio (quais as melhores formas de preservar o ambiente), a tendência é que escreva uma boa dissertação.