Relatório de Caso Clínico



Documentos relacionados
Relatório de Caso Clínico

Leucocitoses: o que há além dos processos inflamatórios

HIPERADRENOCORTICISMO EM CÃES

LEPTOSPIROSE?? Bruna Coelho

Isaac de Melo Xavier Junior Fernando Jose Goncalves Cardoso

Proeritroblasto ou Proeritroblasto ou P o r n o or o m o l b a l st s o: E i r t i ro r b o l b a l st s o ou o Nor o m o l b ast s o:

Curso: Integração Metabólica

SÍNDROME DE CUSHING IATROGÊNICA EM CÃO: RELATO DE CASO IATROGENIC CUSHING'S SYNDROME IN DOG: A CASE REPORT

GLICOCORTICÓIDES PRINCIPAIS USOS DOS FÁRMACOS INIBIDORES DOS ESTERÓIDES ADRENOCORTICAIS

PYR-PAM pamoato de pirvínio DRÁGEA 100 MG SUSPENSÃO ORAL 10 MG/ML

Hemograma Material...: SANGUE COM E.D.T.A. Equipamento: PENTRA 120 DX

LABORATÓRIO DE ANÁLISES CLÍNICAS. Dúvidas Técnicas: Telefone: PABX (011) Ramal: 2028

INTRODUÇÃO. Diabetes & você

dicloridrato de cetirizina Solução oral 1mg/mL

DOSAGEM DE COLESTEROL HDL DOSAGEM DE COLESTEROL LDL

TRATAMENTO CONVENCIONAL ASSOCIADO À SUPLEMENTAÇÃO FITOTERÁPICA NA DERMATOFITOSE CANINA RELATO DE CASO CONRADO, N.S. 1

Existem três tipos de glândulas: endócrinas (tireóide, suprarrenal), exócrinas (lacrimais, mamárias) e anfícrinas ou mistas (pâncreas)

RAPILAX. Kley Hertz S/A Indústria e Comércio Solução Oral Gotas 7,5 mg/ml picossulfato de sódio

Hematologia. ESS Jean Piaget. Fisioterapia Patologias Médicas II - Hematologia. Durante alguns módulos, iremos falar de princípios

Betadine. Aché Laboratórios Farmacêuticos comprimido 16 mg e 24 mg

Curso Básico de Hematologia para Iniciantes.

Projeto: Desenvolvimento de Casos Clínicos para Aplicação no Ensino de Biologia Celular e Molecular para Medicina

BULA DE NALDECON DOR COMPRIMIDOS

TÍTULO: DETERMINAÇÃO DO INTERVALO DE REFERÊNCIA DOS PRINCIPAIS PARÂMETROS DO HEMOGRAMA PARA HOMENS ADULTOS ATENDIDOS NO LAC-CCF-UNAERP

Anemia: Conteúdo. Definições

IDENTIFICAÇÃO DO MEDICAMENTO. BenicarAnlo olmesartana medoxomila anlodipino

Ciências E Programa de Saúde

3ºano-lista de exercícios-introdução à fisiologia animal

GUTTALAX picossulfato de sódio Solução oral 7,5 mg

1. O QUE É PARACETAMOL BLUEPHARMA E PARA QUE É UTILIZADO. Grupo Farmacoterapêutico: Sistema Nervoso Central - Analgésicos e antipiréticos

O QUE SABE SOBRE A DIABETES?

Material: Sangue c/edta Método..: Citometria/Automatizado e estudo morfológico em esfregaço corado

HEMOGRAMA TATIANA MATIAS MAFRA EDUARDO MIGUEL SCHMIDT

HEMOGRAMA JAIRO ROSA CHRISTIAN BORNSCHEIN

Intoxicação por Baccharis coridifolia em bovinos

Citologia Clínica. Exame qualitativo da urina. Exame de urina de rotina. Profa. MsC Priscila P. S. dos Santos

ALTERAÇÕES A INCLUIR NAS SECÇÕES RELEVANTES DO RESUMO DAS CARACTERÍSTICAS DOS MEDICAMENTOS QUE CONTENHAM NIMESULIDA (FORMULAÇÕES SISTÉMICAS)

Nome do medicamento: OSTEOPREVIX D Forma farmacêutica: Comprimido revestido Concentração: cálcio 500 mg/com rev + colecalciferol 200 UI/com rev.

IDENTIFICAÇÃO DO MEDICAMENTO DAFLON. 500mg: diosmina 450mg + hesperidina 50mg micronizada. 1000mg: diosmina 900mg + hesperidina 100mg micronizada

PROTOCOLO DE ABORDAGEM E TRATAMENTO DA SEPSE GRAVE E CHOQUE SÉPTICO DAS UNIDADES DE PRONTO ATENDIMENTO (UPA)/ ISGH

Diabetes na infância e Hipoglicémia

PUBVET, Publicações em Medicina Veterinária e Zootecnia. Hiperadrenocorticismo canino: relato de caso

Keflaxina Sandoz do Brasil Ind. Farm. Ltda. Pó para Suspensão Oral 50 mg/ml

Anatomia e Fisiologia Humana

CARCINOMA MAMÁRIO COM METÁSTASE PULMONAR EM FELINO RELATO DE CASO

HEMOGRAMA LIGIA ZEN JANETH M. C. COUTINHO

TILUGEN. (fendizoato de cloperastina)

EXAMES LABORATORIAIS MATERIAL PRAZO DE ENTREGA ANIMAL PAT LAB HEMATOLOGIA

Dia Mundial da Diabetes - 14 Novembro de 2012 Controle a diabetes antes que a diabetes o controle a si

Produtos - Saúde Pública / Raticidas / Klerat

Autópsia-Carcinoma de Reto

SISTEMA DIGESTÓRIO. Quitéria Paravidino

42º Congresso Bras. de Medicina Veterinária e 1º Congresso Sul-Brasileiro da ANCLIVEPA - 31/10 a 02/11 de Curitiba - PR 1

Propil* propiltiouracila

Pesquisa revela que um em cada 11 adultos no mundo tem diabetes

Relatório de Caso Clínico

ORLIPID (orlistate) EMS SIGMA PHARMA LTDA. cápsula. 120mg

ZONA DE SOBREVIVÊNCIA. Conforto Térmico. Gráfico 1: Variações da temperatura corporal de um animal homeotérmico em função da temperatura ambiente.

HEMOGRAMA COMPLETO

T3 - TRIIODOTIRONINA Coleta: 18/11/ :28. T3 LIVRE Coleta: 18/11/ :28. T4 - TETRAIODOTIRONINA Coleta: 18/11/ :28

CONTROLE E INTEGRAÇÂO

Drenol hidroclorotiazida. Drenol 50 mg em embalagem contendo 30 comprimidos. Cada comprimido de Drenol contém 50 mg de hidroclorotiazida.

Visão Geral. Tecido conjuntivo líquido. Circula pelo sistema cardiovascular. Produzido na medula óssea, volume total de 5,5 a 6 litros (homem adulto)

ARIADINI KAILENE CORREA ZINK MARCUS VINICIUS BAUER MORITZ. GLICOSE...: 80 mg/dl Data Coleta: 15/06/2013

PYR-PAM pamoato de pirvínio

SISTEMA ENDÓCRINO SISTEMA HORMONAL

DIGEDRAT. (maleato de trimebutina)

NECESSIDADES NUTRICIONAIS DO EXERCÍCIO

Defeito da MCAD. Caso Clínico. Caso Clínico. Caso Clínico. Antecedentes Pessoais. História da doença: Unidade de Doenças Metabólicas

Na aula de hoje, iremos ampliar nossos conhecimentos sobre as funções das proteínas. Acompanhe!

Diabetes Mellitus em animais de companhia. Natália Leonel Ferreira 2º ano Medicina Veterinária

Workshop de Conhecimentos sobre Pele

EXCEDRIN. Novartis Biociências S.A. Comprimido revestido 500 mg de paracetamol e 65 mg de cafeína

Prova de revalidação de diplomas de graduação em Medicina obtidos no exterior 2013 Resposta aos recursos da prova teórica de Pediatria

HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS UNIDADE FUNCIONAL PATOLOGIA E MEDICINA LABORATORIAL

MEDICAMENTO SIMILAR EQUIVALENTE AO MEDICAMENTO DE REFERÊNCIA

Triglicerídeos altos podem causar doenças no coração. Escrito por Fábio Barbosa Ter, 28 de Agosto de :19

Trimeb. (maleato de trimebutina)

OS SENTIDOS: O TATO, O PALADAR, O OLFATO, A AUDIÇÃO E A VISÃO PROF. ANA CLÁUDIA PEDROSO

24/8/2009. Larva migrans cutânea. Larva migrans cutânea. Larva migrans cutânea. Larva migrans cutânea

CÓPIA CONTROLADA NÃO REPRODUZIR

Material: Sangue c/edta Método..: Citometria/Automatizado e estudo morfológico em esfregaço corado

Relatório de Caso Clínico

O tipo básico de tecido epitelial é o de revestimento sendo os demais tecidos epiteliais (glandular e neuroepitélio) derivados desse.

SÓDIO: 140 meq/l [DATA DA COLETA : 19/11/13 07:00] Método...: Fotometria de chama Vlor. Ref.: 135 a 145 meq/l Material..: sangue

Manejo reprodutivo de caprinos e ovinos

INSTITUTO LATINO AMERICANO DE SEPSE CAMPANHA DE SOBREVIVÊNCIA A SEPSE PROTOCOLO CLÍNICO. Atendimento ao paciente com sepse grave/choque séptico

HEMOGRAMA JOELMO CORREA RODRIGUES HAILTON BOING JR.

Hipotireoidismo. O que é Tireóide?

Diretrizes da OMS para diagnóstico de Dependência

Silimalon (slimarina + metionina)

Relatório das Atividades da APA durante o ano de 2011

CUIDADOS A TER COM O ANIMAL GERIÁTRICO

Teste para a Pesquisa de Receptores Hormonais Ilícitos nas Glândulas Supra- Renais Contra-indicações à realização do teste:

Diabetes - Introdução

Tipos de Diabetes e 10 Super Alimentos Para Controlar a Diabetes

Transcrição:

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL Faculdade de Veterinária Departamento de Patologia Clínica Veterinária Disciplina de Bioquímica e Hematologia Clínica (VET03121) http://www.ufrgs.br/favet/bioquimica Relatório de Caso Clínico IDENTIFICAÇÃO Caso: 2010/2/02 Procedência: HCV-UFRGS N o da ficha original: 62860 Espécie: canina Raça: Poodle Idade: 14 anos Sexo: macho Peso: 6,0 kg Alunos(as): Cintia Simoni, Mariana Menegat, Renata Ferretto, Roberta Mazzocchin Ano/semestre: 2010/2 Residentes/Plantonistas: Médico(a) Veterinário(a) responsável: Álan Gomes Pöppl ANAMNESE No dia 14/10/2010 a proprietária levou o seu cão para consulta no Hospital de Clínicas Veterinárias da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (HCV-UFRGS). Relatava que o cão vinha apresentando os seguintes sinais: lesões de pele contaminadas e não pruriginosas, aumento de apetite, poliúria, polidipsia, cansaço tolera pouco as caminhadas, tosse seca ocasional, mau hálito e verrugas por todo corpo. O animal recebia comida caseira (carne e fruta), ração, palitos e bifinhos e até então não havia apresentado vômitos e diarréia. O cão estava sendo acompanhado pelo dermatologista e foi diagnosticado demodicose canina. Para o tratamento, foi administrado cefalexina¹, ivermectina 2, Auriclean 3 e shampoo à base de clorexidina 4 a 3%. No exame físico foi detectado sopro de grau IV, por isso foi receitado Lotensin 5. Foram requeridos os seguintes exames: hemograma, exames bioquímicos e teste de supressão por dexametasona. 1 antimicrobiano cefalosporínico de primeira geração 2 endectocida pertencente ao grupo das lactonas macrocíclicas 3 solução para limpeza do conduto auditivo externo de cães e gatos 4 antisséptico, antifúngico e bactericida 5 princípio ativo: benazepril; é um anti-hipertensivo e vasodilatador EXAME CLÍNICO 14/10/2010 Temperatura retal (TR): 38,5ºC (37,9 C 39,9 C) Tempo de preenchimento capilar (TPC): <2 segundos (<2 segundos) Mucosas: rosadas (rosada) Condição corporal (CC): 3,5 (1-5) Atitude: quieto e prostrado Nomoidratado Linfonodos: sem alteração Ausculta cardíaca e pulmonar (ACP): sopro grau IV Palpação: abdômen abaulado, discreta telangiectasia, atrofia dérmica discreta, pioderma e lesões enegrecidas e paquidérmicas no pescoço e membros anteriores. Além disso, apresentava cálculo dentário moderado, rânula e lesões perioculares. EXAMES COMPLEMENTARES Teste de supressão por dexametasona foi realizado no dia 20/10/2010. O valor de cortisol medido 8 horas após aplicação da dexametasona foi de 44,9 ng/ml, sendo o valor hormonal normal menor do que 10 ng/ml e um resultado maior do que 14 ng/ml compatível com hiperadrenocorticismo. Teste de estimulação por ACTH foi realizado no dia 26/11/2010. O valor de cortisol medido após a administração de ACTH foi de 45,0 ng/ml, sendo o valor hormonal normal entre 60-170 ng/ml. Exames realizados após tratamento de indução com Lisodren ERITROGRAMA Quantidade 7,39 milhões/µl (5,5-8,5) Hematócrito 43 % (37-55) Hemoblogina 13,7 g/dl (12-18) VCM 58,18 fl (60-77) CHCM 31,86 % (32-36)

Caso clínico 2010/2/02 página 2 URINÁLISE EXAME FÍSICO EXAME QUÍMICO Coleta: cateterismo Glicose: normal Volume: 15 ml Bilirrubina: + Cor: amarelo Cetona: traços (5 mg/dl) Aspecto: límpido Sangue oculto: negativo Consistência: fluida ph: 6,5 Densidade: 1,034 Proteínas: ++ (100 mg/dl) Urobilinogênio: normal (0,2 EU/100 ml ) EXAME DE SEDIMENTO Células epiteliais/campo (400x): escamosas (0-1) ; de transição (0-1) Leucócitos/campo (400x): não foram observados Eritrócitos/campo (400x): < 5 Espermatozóides: 0 Muco: 0 Bactérias: + Cilindros granulosos + LEUCOGRAMA Leucócitos: 17.500/ µl (6.000 17.000) TIPO QUANTIDADE (/µl) RELATIVO (%) Mielócitos 0 (0) 0 Metamielócitos 0 (0) 0 Neutrófilos bastonetes 0 (0-300) 0 Neutrófilos segmentados 14.700 (3.000-11.500) 84 Eosinófilos 1.050 (100-1.250) 0 Basófilos 0 (raros) 0 Monócitos 875 (150-1.350) 5 Linfócitos 875 (1.000-4.800) 5 BIOQUÍMICA SANGUÍNEA Albumina 25,30 g/l (26-33) ALT 65,08 U/L (<102) Amilase total 3.367,44 U/L (370-1.220) Colesterol 129,27 mg/dl (135-270) Creatinina 0,52 mg/dl (0,5-1,5) FA 998,49 U/L (<156) Fósforo 4,39 mg/dl ( 2,6-6,2) Frutosamina 192,05 µmol/l (170-338) Glicose 61,75 mg/dl (65-118) Globulinas 39,01 g/l (27-44) Proteína total 64,31 g/l (54-71) Uréia 26,34 mg/dl (21-60) Triglicerídeos 52,71 mg/dl (32-138) Sódio 148, 00 meq/l (141-153) Potássio 5,00 meq/l (3,7-5,8)

Caso clínico 2010/2/02 página 3 URINÁLISE Método de coleta: micção natural Obs.: Exame físico cor consistência odor aspecto densidade específica (1,015-1,045) Exame químico ph (5,5-7,5) corpos cetônicos glicose pigmentos biliares proteína hemoglobina sangue nitritos n.d. n.d. n.d. n.d. n.d. n.d. n.d. Sedimento urinário (n o médio de elementos por campo de 400 x) Células epiteliais: Tipo: Hemácias: Cilindros: Tipo: Leucócitos: Outros: Tipo: Bacteriúria: ausente n.d.: não determinado BIOQUÍMICA SANGÜÍNEA Tipo de amostra: soro Anticoagulante: Hemólise da amostra: leve Proteínas totais: g/l (54-71) Glicose: mg/dl (65-118) ALP: 472 U/L (0-156) Albumina: 30,1 g/l (26-33) Colesterol total: 259 mg/dl (135-270) ALT: 160 U/L (0-102) Globulinas: g/l (27-44) Uréia: 30 mg/dl (21-60) CPK: U/L (0-125) BT: mg/dl (0,1-0,5) Creatinina: 0,3 mg/dl (0,5-1,5) Frutosamina: 190 µmol/l (170-338) BL: mg/dl (0,01-0,49) Cálcio: mg/dl (9,0-11,3) Triglicerídeos: 155 mg/dl (32-138) BC: mg/dl (0,06-0,12) Fósforo: mg/dl (2,6-6,2) : ( ) BT: bilirrubina total BL: bilirrubina livre (indireta) BC: bilirrubina conjugada (direta) HEMOGRAMA Leucócitos Eritrócitos Quantidade: 34.000/ L (6.000-17.000) Quantidade: 6,79 milhões/ L (5,5-8,5) Tipo Quantidade/ L % Hematócrito: 41,0 % (37-55) Mielócitos 0 (0) 0 (0) Hemoglobina: 13,4 g/dl (12-18) Metamielócitos 0 (0) 0 (0) VCM (Vol. Corpuscular Médio): 61 fl (60-77) Bastonados 0 (0-300) 0 (0-3) CHCM (Conc. Hb Corp. Média): 33,0 % (32-36) Segmentados 30.600 (3.000-11.500) 90 (60-77) Morfologia: Basófilos 0 (0) 0 (0) Eosinófilos 0 (100-1.250) 0 (2-10) Monócitos 2.040 (150-1.350) 6 (3-10) Linfócitos 1.020 (1.000-4.800) 3 (12-30) Plaquetas Plasmócitos (0) (0) Quantidade: 692.000/ L (200.000-500.000) Morfologia: Observações: TRATAMENTO E EVOLUÇÃO O resultado dos exames requeridos no dia 14/10/10 levou ao diagnóstico de hiperadrenocorticismo. Assim, no dia 09/11/2010, a proprietária foi instruída pelo médico veterinário responsável a iniciar o tratamento de indução com Lisodren 6. A prescrição foi de ¼ de comprimido (125 mg) via oral BID. No quinto dia de tratamento o cão já estava apresentando os sinais de indução, porém a proprietária continuou a administração até o sexto dia, provocando uma overdose e levando ao aparecimento de sinais de hipoadrenocorticismo iatrogênico. Nos dias seguintes à overdose, o cão apresentou inapetência, abatimento, fraqueza, tremores musculares, oligodipsia, fezes enegrecidas e bem formadas. A melhora espontânea do cão foi observada progressivamente. Na consulta do dia 23/11/10 a proprietária relatou que o cão ainda apresentava pouco apetite e indisposição. No exame clínico observou-se leve desidratação, menor inchaço abdominal e melhor aspecto da pele. Neste dia realizou-se o teste de estimulação por ACTH, coleta de sangue e urina para exames. Posteriormente, administrou-se 1 comprimido de Meticorten 7 e receitou-se ½ comprimido para o dia 24/11/2010 e ¼ para o dia 25/11/2010. No dia 30/11/10 a proprietária relatou que após curso de tratamento com Meticorten o cão mostrou boa melhora clínica e desde que cessou o medicamento vem mostrando bom apetite, boa disposição, micção e ingestão de água normais. Eventualmente fica abatido e fraco. O animal também manifesta crises convulsivas que duram cerca de 40 segundos. Como na consulta anterior, o exame clínico demonstrou contínua melhora.

Caso clínico 2010/2/02 página 4 O resultado do exame de estimulação por ACTH está dentro do normal para um cão com hiperadrenocorticismo controlado. Por isso, a proprietária foi instruída a iniciar o tratamento de manutenção com Lisodren, ¼ de comprimido via oral SID, duas vezes por semana, por tempo indeterminado. 6 princípio ativo: mitotano; é um adrenocorticolítico, que age nas zonas fasciculada e reticular do córtex adrenal 7 princípio ativo: prednisona; é um glicocorticóide sintético NECRÓPSIA (e histopatologia) Patologista responsável: DISCUSSÃO As alterações observadas nas anamneses, exames clínicos e laboratoriais, foram: Demodicose: o Demodex canis é uma sarna presente na microbiota natural dos cães e, quando se prolifera de modo a causar a patogenia demodicose, é indício de imunossupressão. Os corticóides são agentes imunossupressores potentes que atuam de modo não específico sobre os linfócitos. As lesões causadas pela demodicose não apresentaram prurido e não houve relato de hipersensibilidade, o que é explicado pelo fato de que os corticóides suprimem a hipersensibilidade tardia e impedem a liberação de histamina [1]. Hiperpigmentação cutânea: há maior estímulo da síntese de melanócitos. As lesões apresentaram-se enegrecidas e paquidérmicas, sendo que o espessamento da pele do pescoço ventral e dos membros anteriores é causado pelo Demodex canis. Atrofia dérmica discreta: o aumento do catabolismo protéico atua diretamente sobre as proteínas da epiderme, como colágeno e elastina, o que contribui para o afinamento da pele [2,4]. Abdômen pendulante: a emaciação leva à perda de tônus nos músculos do abdômen, resultando em distensão abdominal gradual. A hepatomegalia causada pelo aumento da deposição de glicogênio e lipídeo, a deposição de gordura centrípeta [2,4] e a distensão vesical podem contribuir para o abaulamento do abdômen. Telangiectasia: ocorre pela distensão do abdômen e pela dilatação dos vasos abdominais. Polifagia: há maior estímulo do centro da fome, no hipotálamo [2]. Polidipsia e poliúria: há inibição da vasopressina (ADH), estimulando maior excreção de água pela urina [3]. Isto faz com que aumente a osmolaridade plasmática, levando à maior ativação do centro da sede e aumentando o consumo de água [1]. Letargia: o aumento do catabolismo de proteínas e lipídeos causado pelo excesso de cortisol leva à emaciação e consequente fraqueza muscular [1,4]. Aumento da ALT: ocorre secundariamente à lesão hepática causada por hepatócitos tumefeitos, acúmulo de glicogênio e interferência no fluxo sanguíneo hepático compressão dos vasos pelo aumento do tamanho dos hepatócitos [3]. Aumento da FA: indução por corticosteróides. É a alteração mais comum no hiperadrenocorticismo canino [3]. Aumento dos triglicerídeos: o catabolismo de lipídeos é aumentado para que o glicerol seja utilizado na gliconeogênese [3] e para acúmulo de gordura abdominal. Diminuição da creatinina plasmática: a concentração sanguínea de creatinina é proporcional à massa muscular, por isso, a causa desta alteração está relacionada com a emaciação [3]. Neutrofilia: diminuição da marginalização, diminuição da emigração neutrofílica para tecidos e aumento da liberação de neutrófilos maduros da medula óssea [3]. Monocitose: diminuição do pool marginal [3]. Eosinopenia: neutralização da histamina circulante e inibição da degranulação dos mastócitos. O aumento do cortisol plasmático também possui efeito linfolítico nos tecidos linfóides, atraindo eosinófilos para esses tecidos pela liberação de citocinas assim, diminui a quantidade de eosinófilos circulantes [3]. Leucocitose: é causada pelo aumento dos neutrófilos. Reflete o hemograma de estresse provocado pelo aumento de cortisol [3]. Trombocitose: estimulação dos fatores de coagulação e diminuição dos fatores anticoagulantes, o que pode levar à maior formação de trombos e, consequentemente, aumento da demanda de plaquetas. Observação: também pode ocorrer linfopenia devido à linfocitólise induzida pelo cortisol [3]. Neste caso, os linfócitos estão no limite mínimo. Devido à suspeita de imunossupressão, a partir da demodicose que o cão apresentava, o dermatologista encaminhou o caso para o endocrinologista. Os resultados dos exames requeridos pelo endocrinologista indicaram hiperadrenocorticismo. Essa é uma endocrinopatia cujas manifestações clínicas se devem à

Caso clínico 2010/2/02 página 5 produção excessiva e crônica de cortisol pelo córtex adrenal hiperativo [4] e que acomete principalmente cães de meia-idade a idosos, sendo o Poodle uma das raças predispostas [3]. Iniciou-se o tratamento do cão com Lisodren, porém a proprietária administrou uma dose além do necessário, provocando um hipoadrenocorticismo iatrogênico transitório. O Lisodren tem como princípio ativo o mitotano, que é um isômero do inseticida DDT [3] e tem citotoxicidade seletiva para as zonas fasciculada e reticular do córtex da glândula adrenal. Com o tratamento, as células destas zonas ficam tumefeitas, vacuolizadas e passam a sofrer necrose. Os níveis plasmáticos de cortisol diminuem progressivamente em cães com hiperadrenocorticismo tratados com mitotano [4]. Porém, a superdosagem deste medicamento pode levar a um dano na adrenal além do desejado, diminuindo excessivamente os níveis plasmáticos de cortisol. Após a normalização clínica do cão, foi iniciado o tratamento de manutenção com Lisodren. As doses semanais de mitotano devem ser continuadas pelo resto da vida do cão para prevenir o retorno dos distúrbios funcionais causados pelo hiperadrenocorticismo. Os exames complementares realizados após a crise de hipoadrenocorticismo iatrogênico evidenciam uma tendência à normalização devido ao tratamento de indução. A comparação entre os resultados dos exames anteriores e posteriores ao tratamento com Lisodren encontra-se na tabela abaixo: RESULTADOS ANTERIORES AO TRATAMENTO COM LISODREN RESULTADOS POSTERIORES AO TRATAMENTO COM LISODREN HEMOGRAMA Clássico de estresse Tendência à normalização BIOQUÍMICOS ALT, FA, Creatinina e Triglicerídeos condizentes com hiperadrenocorticismo ALT, Creatinina e Triglicerídeos normalizados FA aumentada* RELAÇÃO Na + /K + - 29,6 meq/l (24-41) URINÁLISE - Normal NÍVEIS DE CORTISOL PLASMÁTICO Acima dos valores de referência com o teste de supressão por dexametasona Abaixo dos valores de referência com o teste de estimulação por ACTH * o aumento da fosfatase alcalina é estimulado pelo cortisol, mas sua diminuição plasmática não é proporcional à diminuição do cortisol. Também pode ser explicado por outras doenças que podem ocorrer paralelamente ao hiperadrenocorticismo como, por exemplo, colestase [3]. CONCLUSÕES É um caso de hiperadrenocorticismo que, devido a uma overdose de Lisodren em seu tratamento de indução, apresentou sinais de hipoadrenocorticismo iatrogênico transitório. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. DUKES, H. H. Fisiologia dos Animais Domésticos. 12. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006. 2. CARLTON, W. W.; MCGAVIN, M. D. Patologia Veterinária Especial de Thomson. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 1998. 3. GONZÁLEZ, F. H. D.; SILVA S. C. Introdução à Bioquímica Clínica Veterinária. 2. ed. Porto Alegre: UFRGS, 2006. 4. JUBB; KENNEDY; PALMER. Pathology of Domestic Animals. 5 ed. vol. 1. London: Saunders, 2007.