Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos



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A EVOLUÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA Patricia Damasceno Fernandes (UEMS) damasceno75@gmail.com Natalina Sierra Assêncio Costa (UEMS) natysierra2011@hotmail.com RESUMO Nossa língua materna, a língua portuguesa não é estática, está em constante evolução, para perceber isso não é preciso fazer uma grande pesquisa, basta prestar atenção na diferença existente entre a escrita de livros antigos e livros atuais ou até mesmo comparar a fala de pessoas idosas com a de pessoas mais jovens, ou ainda atentar-se a nossa própria fala que varia de acordo com a situação em que estamos inseridos, e que é diferente da maneira de escrevemos. Então, podemos dizer que a língua evoluiu e ainda está em evolução em nosso cotidiano. Neste trabalho discorreremos sobre a história e as transformações da língua portuguesa. Palavras-chave: Língua portuguesa. História. Evolução. 1. Introdução É importante conhecer os processos de transformação da língua para que saibamos quais foram às mudanças que fizeram a língua se tornar o que é hoje. Contar a história do português é mostrar as mudanças linguísticas que lhes foram dando forma. (BAGNO, 2007, p. 03) É imprescindível saber quais os motivos das variações: idade, gênero e escolaridade, pois a língua passa por essas transformações de acordo com a necessidade de seus falantes na comunicação: A língua muda porque mudaram as necessidades expressivas dos falantes, mas não pode mudar tanto que a comunicação fique afetada. Em última análise, a língua muda porque é um sistema em perpétua adaptação às necessidades das comunidades que a utilizam e essas necessidades também mudam. (BAGNO, 2007, p. 04). Projetos como o Atlas Linguístico Brasileiro (ALIB) e o Atlas Linguístico do Mato Grosso do Sul (ALMS) que têm como objetivos respectivamente descrever a realidade linguística do Brasil, referentes à língua portuguesa, identificando diferenças diatópicas e registrar a variedade linguística por meio de cartas cartográficas em 32 (trinta e duas) localidades no estado de Mato Grosso do Sul, já têm auxiliado pesquisadores e profissionais de áreas afins a terem materiais para aprimorarem seus trabalhos e estudos. Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014 117

2. A língua e sua história Linguagem é o conjunto de sinais que a humanidade utiliza para comunicar suas ideias e pensamentos (ideologia), conforme Coutinho (1976). A ideologia é explicada como: a esse conjunto de ideias, a essas representações que servem para justificar e explicar a ordem social, as condições de vida do homem e as relações que ele mantém com os outros homens [...] (FIORIN, 1998, p. 28). A linguagem usada particularmente por um povo chama-se língua (COUTINHO, 1976, p. 24). Trombetti (1905, apud COUTINHO, 1976, p. 25-31), classificou as línguas existentes em quatro grandes grupos: 1. Línguas da África: 1.1 Banto-sudanês 1.2 Camilo-semítico 2. Línguas da Ásia e da Oceânia: 2.1 Dravídico-australiano 2.2 Munda-polinésico 3. Línguas da Eurásia: 3.1 Caucásico 3.2 Indo-europeu 3.3 Uralo-altaico 3.4 Indo-chinês 4. Línguas da América: 1. Austral: 4.1 Americano Esses quatro grupos formaram dois grupos maiores: 1.1 Línguas da África: 1.1.1 Banto-sudanês 1.1.2 Camito-semítico 1.2 Línguas da Ásia e da Oceania: 1.1.3 Dravídico-australiano 1.1.4 Munda-polinésico 118 Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014.

2. Boreal: 2.1 Línguas da Eurásia: 2.1.1 Caucásico 2.1.2 Indo-europeu 2.1.3 Uralo-altáico 2.1.4 Indo-chinês 2.2. Línguas da América: 2.2.1. Americano Dos grupos astral e boreal, importa dizer que surgem dois mais importantes para este trabalho: o árico e indo-europeu, que se dividem em asiático e europeu. E do grupo europeu surgem: a) grego antigo, grego moderno; b) itálico (osco, umbro e latim que deram origem às línguas novilatinas, neolatinas ou românicas); c) céltico; d) báltico; e) eslavo; f) germânico; g) albanês. O latim apresentou dois aspectos: o clássico utilizado mais na literatura e o vulgar, aquele que era falado pelo povo. Esta língua considerada atualmente como morta foi levada a diversas regiões e povos de diferentes culturas, originando assim, várias línguas neolatinas. Assim, a língua portuguesa tem origem do latim vulgar que os romanos introduziram na Lusitânia. Vasconcelos (1926, apud COUTINHO, 1996, p. 56-57) divide a história da língua portuguesa em: pré-histórica que vai da origem da língua até o surgimento de documentos escritos em latino-português, século IX; proto-histórica que vai do século IX ao XII quando os textos escritos já são em latim bárbaro e a histórica que começa a partir do século XII quando os textos aparecem na íntegra em português. Com isso, podemos comprovar que língua portuguesa está em constante transformação, percebemos isto ao comparar um texto muito antigo e um texto atual. É possível identificar palavras semelhantes que possuem algumas diferenças na grafia, pois as mudanças dentro da língua não ocorrem repentinamente, mas sim, ao longo do tempo, dependendo do seu uso pelos falantes e esse processo de transformação estrutural pelo qual a língua passa, chama-se metaplasmos. Ao estudar este conteúdo conhecemos as características que cada Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014 119

processo possui, encontramos exemplos de palavras que se transformaram e que hoje já estão registradas em dicionários, porém a todo tempo percebemos que essas mudanças são constantes, sendo frequentes na língua falada, onde exatamente esta diferença nos mostra as transformações da língua na sociedade, isto é, as que já ocorreram e as que possivelmente irão ocorrer. 3. As transformações da língua Ao estudo das transformações que a língua sofre ao longo do tempo dá-se o nome de metaplasmos. Conforme Bagno, (2007) há quatro tipos de metaplasmos: por acréscimo, supressão, transposição e transformação. Dentro dos metaplasmos por acréscimo temos: a prótese: transformação caracterizada pelo acréscimo de um segmento sonoro no início das palavras. Por exemplo: spiritu > espírito. Um caso particular de prótese é a aglutinação onde agrega-se no início das palavras um artigo. Por exemplo: lacuna > alagoa. Comumente dentro da variedade do português brasileiro é possível encontrar palavras com o acréscimo do a. Como em: lembrar > alembrar. Muitas delas fazem parte de arcaísmos conservados em dialetos regionais. Outro tipo de metaplasmo por acréscimo a epêntese onde o acréscimo de segmento sonoro ocorre no meio da palavra. Por exemplo: umero > ombro. A particularidade da epêntese é o suarabácti onde vogais são intercaladas para desfazer um grupo de consoantes. Por exemplo: blatta > brata > barata É comum encontrarmos a epêntese na fala das pessoas para tentar manter o padrão das sílabas que é (consoante + vogal), podendo ocorrer à inserção de um i ou um e depois da consoante muda, como em: pneu > p[i]neu ~ p[e]neu. Ao acréscimo do segmento sonoro no fim da palavra chama-se paragoge. Por exemplo: ante > antes Geralmente em palavras estrangeiras quando aportuguesadas ocorrem muito a paragoge. Como em: club > clube. 120 Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014.

Quanto aos metaplasmos por supressão há a aférese cuja transformação ocorre quando um segmento sonoro é suprimido do início da palavra ou primeira sílaba da palavra. Por exemplo: acume > gume. Um caso especial de aférese é a deglutinação onde um a ou o é suprimido para que não haja confusão com o artigo. Como em: horologiu > orologiu > relógio. A aférese também ocorre com frequência na variedade do português brasileiro: aguentar > guentar. A supressão do segmento sonoro no meio da palavra ou sua sílaba do meio, chama-se síncope. Por exemplo: malu > mau. A haplologia é uma modalidade da síncope onde ocorre uma supressão de duas sílabas que são sucessivas e que são iniciadas pela mesma consoante: bondade + -oso = bondadoso > bondoso. Quando um segmento sonoro é suprimido do fim de uma palavra, ou sua sílaba final, ocorre a apócope como em: mare > mar. A crase é a transformação onde duas vogais iguais se fundem. Utilizada para eliminação do hiato. Por exemplo: nudu > nuu > nu A sinalefa é o processo pelo qual a vogal final é eliminada da palavra quando a palavra seguinte começa por vogal. Por exemplo: de + intro > dentro. Os metaplasmos por transposição são caracterizados pelo deslocamento de um segmento sonoro da palavra, ou pelo deslocamento do acento tônico. A metátese ocorre quando o deslocamento do segmento sonoro é promovido na mesma sílaba. Como em: semper > sempre. A hipértese já é o contrario, ocorrendo o deslocamento de uma sílaba para outra. Por exemplo: primariu > primairu > primeiro. O hiperbibasmo desloca o acento tônico. Ele pode ocorrer por sístole ou por diástole. Se o acento recua para a sílaba anterior chama-se sístole: erámus > éramos. Já se o acento passa para a sílaba posterior ocorre a diástole: gémitu > gemido. Metaplasmos por transformação: Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014 121

Vocalização é o processo que uma consoante se transforma em vogal: absentia > ausência. A consononantização é a transformação de uma voga para consoante: uita > vida. Nasalização é processo pelo qual uma palavra sofre a transformação de segmento sonoro oral em nasal: nec > nem. Na desnasalização um segmentosonoro nasal se transforma em oral. Como em: persona > pessõa > pessoa. A transformação de uma consoante surda em uma sonora homorgânica chama-se sonorização. As consoantes latinas /p, t, k, f, s/ se sonorizam quando são mediais intervocálicas, passando a ser então: /b, d, g, v, z/. Como em: lupu > lobo. A transformação do /b/ em /v/ chama-se degeneração. Como por exemplo: rabia > raiva. No latim não existe consoante palatal. A transformação de um ou mais segmentos sonoros em consoante palatal chama-se palatização. [ne, ni] + vogal > // (grafada NH): vinea > vinha; seniore > senhor; [le, li] + vogal > /λ/ (grafada LH): palea > palha; folia > folha; [de, di] + vogal > // (grafada J): video > vejo; invidia > inveja; [pl, kl, fl] > /t/ (grafada CH): pluvia > chuva; clave > chave; flamma > chama; [kl, pl, gl, tl] mediais > /λ/ (grafada LH): oculu > oclu > olho; tegula > tegla > telha; vetulu > vetlu > velho; scopulu > scoplo > escolho; [ske, ski, se, si] > // (grafada X): pisce > peixe; passione > paixão; miscere > mexer; russeu > roxo; [si] + vogal > // (grafada J): basium > beijo; caseum > queijo; cerevisia > cerveja; ecclesia > igreja. A transformação de um ou mais segmentos sonoros em uma consoante sibilante chama-se assibilação: audio > ouço. A assimilação é o processo onde um segmento sonoro se transforma em outro igual ou semelhante a outro também existente na mesma 122 Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014.

palavra. Por exemplo: ipso > isso. A assimilação pode ser: total, parcial, progressiva e regressiva. Total: o som assimilado fica igual ao assimilador: persona > pessoa Parcial: som assimilado apenas fica semelhante ao assimilador: auru > ouro Progressiva: ocorre quando o som assimilador está antes do assimilado: amam-lo > amam-no Regressiva:ocorre quando o som assimilador vem depois do assimilado: captare > cattar > catar. Nas variedades brasileira podemos observar: a redução dos ditongos OU e EI como em: pouco > p[o]co; roupa > r[o]pa cheiro > ch[e]ro; beijo > b[e]jo. A dissimilação é o processo de diferenciação de um segmento sonoro pelo fato de existir um outro igual ou semelhante: liliu > lírio; rotundo > rodondo > redondo. A dissimilação pode ser eliminadora ocorrendo quase sempre com a vibrante /r/ aratru > arado. Em pronuncias atuais isso ocorre muito como na palavra próprio > própio. Apofonia: o trimbre de uma vogal é modificado pela influencia de um prefixo. Exemplo: sub + jactu > sujeito. Metafonia é a mudança de timbre de uma vogal em visrtude da influencia de uma outra vogal ou semivogal que vem em seguida na palavra: feci > fizi > fiz. A ocorrência da metafonia aparece no singular, no masculino e na 1ª pessoa do indicativo. O timbre original latino é conservado no plural, no feminino, e na 2ª e 3ª pessoas do indicativo: texo > teço; verto > verto; mas texis > teces; vertis > vertes. 4. A mudança contínua da língua As diferentes formas de realização da língua que acontecem no presente dar-se o nome de variação linguística. Conjunto das diferenças de realização linguística (falada ou escrita) pelos falantes de uma língua, decorrentes do fato de o sistema linguístico não ser Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014 123

unitário, pois que comporta diversos eixos da diferenciação: estilístico, regional, sociocultural, ocupacional e etário [ocorre em todos os níveis do sistema linguístico: fonético, fonológico, morfológico, sintático e lexical]. (HOUAISS, 2001, p. 2830). A variação linguística é característica da língua portuguesa e não um acidente da mesma, as variantes expressam dados importantes sobre os falantes da língua como local de origem, local de moradia, nível de escolaridade, idade etc., ou seja, a identidade dos falantes pode ser encontrada por meio dessas variantes. Os fatores que atuam nas variações são de acordo com Mollica (2004): Nas variações internas: fatores de natureza fono-morfo-sintáticos, os semânticos, os discursivos e os lexicais. Nas variáveis externas: fatores relacionados ao indivíduo (exemplo: sexo e etnia), os sociais (exemplo: escolarização, nível de renda, profissão e classe social) e os contextuais (exemplo: grau de formalidade e tensão discursiva. O primeiro está ligado diretamente ao falante, enquanto os sociais e contextuais dependem ora do falante ora do evento de fala. A língua pode mudar também quando adquire novas palavras por meio dos seguintes processos de acordo com McCleary (2007, p, 38). PROCESSO Interferência Gírias e jargões Estrangeirismo Aportuguesamento Empréstimo Dicionarização Absorção DESCRIÇÃO Pessoas bilíngues introduzem a palavra estrangeira na sua fala em português. Grupos de pessoas que convivem ou trabalham juntos começam a usar a palavra estrangeira regularmente na sua fala diária. A pronúncia começa a mudar para o padrão do português, mas a ortografia se mantém fiel ao original estrangeiro. A palavra começa a "vazar" para um público maior, nos jornais, TV e rádio. A pronúncia continua a mudar para o padrão brasileiro. Na escrita, aparece com a ortografia original, grafada em itálico. Começam a aparecer alternativas ortográficas mais próximas ao padrão do português. Uma ortografia aportuguesada começa a aparecer com frequência nos meios de comunicação para competir com a ortografia original. A ortografia original perde a grafia em itálico. A palavra é usada por pessoas que desconhecem sua origem. A palavra é usada normalmente como qualquer palavra no português, com ortografia aportuguesada. Ela começa a sofrer flexão e derivação pelas regras do português. A palavra começa a aparecer nos dicionários, ou com a grafia original (como estrangeirismo), ou com a grafia aportuguesada (como empréstimo) ou com as duas simultaneamente. A palavra perde sua identidade "estrangeira" completamente e começa a ser considerada simplesmente como mais uma palavra legítima 124 Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014.

do português, sem questão de origem. Esses processos também estão em constante ação sobre a língua. Particularmente falando, a língua pode variar ainda em um mesmo falante que muda sua forma de registro, usando uma linguagem formal ou informal, conforme o grupo linguístico que faz parte ou contexto situacional de fala. A melhor maneira de conceber o registro é como uma escala que varia continuamente do mais informal para o mais formal. As pessoas dominam essa escala (ou um bom pedaço dela) e conseguem deslizar para um estilo mais ou menos formal, conforme as demandas da situação. (MCCLEARY, 2007, p. 48). 5. Conclusão Pode-se verificar então, que as mudanças são inevitáveis como nos afirma o linguista Marcos Bagno; a língua de um mesmo país muda com o tempo, se compararmos diferentes épocas conseguirmos constatar as diferenças. Se tentarmos entender e estabelecer semelhanças entre a língua portuguesa e aquela que lhe deu origem, o latim é possível encontrar familiaridade, no entanto as diferenças são mais significativas. As mudanças são perceptíveis em seu próprio curso, isso contribui para o entendimento e melhor fixação dos falantes de que a variabilidade que pode gerar uma possível mudança existe. Os falantes fazem parte dessas mudanças linguísticas e estão envolvidos nesse processo até mais que do podem imaginar, o simples fato de preferir usar uma variante a outra por considerar uma de mais prestígio a outra mais popular, já é um julgamento que está fazendo em relação à língua; o que os falantes pensam a respeito da língua é um fato linguístico. A substituição definitiva de uma variante por outra começa aos poucos, com a preferência de uso dos falantes, e essa preferência vai de acordo com as ideologias e concepções de cada falante com relação à língua. Conhecer sobre a história e evolução de sua língua materna é de grande importância porque ajudará o individuo a não adquirir uma visão distorcida ou pejorativa sobre ela, além disso, a língua será mais valorizada e principalmente, compreendida. Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014 125

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAGNO, Marcos. Gramática histórica do latim ao português brasileiro. Brasília: UnB, 2007. COUTINHO, Ismael de Lima. Pontos da gramática histórica. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1976. FIORIN, José Luiz. Linguagem e ideologia. São Paulo: Ática, 1998. HOUAISS. Antonio. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. MCCLEARY. Leland. Curso de licenciatura em letras-libras. Florianópolis: UFSC, 2007. MOLLICA, Maria Cecília; Braga, Maria Luiza. (Orgs.). Introdução à socioliguística: o tratamento da variação. São Paulo: Contexto, 2004. OLIVEIRA, Dercir Pedro de. Atlas Linguístico do Mato Grosso de Sul. Campo Grande: UFMS, 2007. 126 Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014.