EE-T4 OGUM O BLINDADO LEVE DA ENGESA



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Transcrição:

EE-T4 OGUM O BLINDADO LEVE DA ENGESA Na segunda metade dos anos 80 a ENGESA Engenheiros Especializados S/A apresentou um veículo blindado leve, sobre lagartas, projetado para possuir grande flexibilidade e apto a desenvolver vários tipos de missões com uma grande variedade de versões previstas sobre o mesmo chassi. O veículo em questão recebeu a designação de EE-T4 e denominado OGUM (segundo o dicionário Aurélio: Orixá a quem se atribui a transmissão da técnica da metalurgia do ferro aos homens, e que no Brasil é cultuado mais por sua belicosidade), um veículo extremamente compacto, com baixa pressão sobre o solo, aerotransportável, podendo inclusive ser lançado de paraquedas, extremamente ligeiro, com grande mobilidade e raio de ação além de baixo peso. Primeiro e segundo protótipos do EE-T4 Ogum. O da direita é que se encontra em poder do Exército Brasileiro no 2º RCC de Pirassununga SP. (Crédito das fotos: coleção autor)

Seu conceito lembra em muito o WIESEL alemão, hoje empregado até pelo Exército Americano na guerra do Iraque. O projeto muito avançado para seu tempo, principalmente se levarmos em conta os equipamentos do Exército Brasileiro, e com uma particularidade, os dois projetos eram inteiramente diferentes, muito embora fossem contemporâneos. Na verdade ele foi concebido para atender as necessidades do Iraque então em guerra contra o Irã e que necessitava de um veículo sobre lagartas na faixa de 4 toneladas destinado principalmente a ser utilizado como plataforma de armas leves. Os estudos começaram em novembro de 1985 e em maio de 1986 foi apresentado o primeiro protótipo destinado a ensaios mecânicos. Logo em seguida um segundo foi construído e enviado para testes naquele país, surgindo assim a necessidade de se efetuar diversas modificações que levaram à construção de um terceiro protótipo. Isto não impediu que ele fosse oferecido a outros países, cujas delegações visitavam a sede da Engesa em São José dos Campos, SP, onde ocorria uma série de demonstrações deste e dos demais veículos militares ali produzidos. Paralelamente a estes testes foi construído então um quarto protótipo bem mais elaborado que os outros três e equipado com uma torreta Engesa com duas metralhadoras 7,62mm, que foi apresentado na Primeira Exposição Internacional de Produtos Militares ocorrida em Bagdá em 1989, tendo o veículo permanecido para testes no país, quando em 1991 em decorrência da Segunda Guerra do Golfo, o mesmo foi deixado em Tikrit num Quartel do Exército e os técnicos da Engesa retornaram ao Brasil e nunca mais tivemos notícia deste veículo. Com o agravamento da crise financeira da Engesa que logo em seguida pede concordata e tem sua falência decretada em 1995, o projeto do Ogum não foi levado adiante e dos quatro protótipos apenas um existe atualmente (o segundo protótipo) e se encontra em poder do Exército, lotado no 2º Regimento de Carros de Combate em Pirassununga, SP. O EE-T4 Ogum quarto protótipo sendo apresentado em Bagdá, em 1989, na 1ª Exposição Internacional de Produtos Militares. (Crédito das fotos: coleção autor) Uma curiosidade é o fato de ter participado de uma concorrência em Abu Dhabi em 1988 e conseguido vencer tecnicamente o Wiesel nas provas ali realizadas, aliás a mesma em que o EE-T1 Osório venceu o italiano Ariete, venceu no campo técnico mais acabou derrotado no político...

A estrutura era um monobloco construído em chapas de aço bimetálicas, as mesmas usadas no blindados sobre rodas 6x6 Urutu e Cascavel, de alta resistência e aço 1020, o que lhe dava uma resistência estrutural e uma proteção balística efetiva, segundo o fabricante, contra o calibre 7,62mm AP. Apresentação do EE-T4 Ogum aos membros da Comissão do Exército da Venezuela em vista à fábrica da Engesa em São José dos Campos, SP em 24.09.1986. ( Crédito da foto: coleção autor) Demonstração do EE-T4 Ogum para membros do Exército da Venezuela em 24.09.86. (Crédito das fotos: coleção autor) O motor era frontal, diesel, Perkins modelo QT 20 B4236, nos dois primeiros protótipos, quatro tempos, turbinado, quatro cilindros em linha, 125 HP, transmissão automática Alisson modelo AT 545, quatro marchas à frente e uma à ré, o que lhe dava uma autonomia de 350 km, em estradas a uma velocidade de 70km/h. Já os dois últimos protótipos foram equipados com motor BMW modelo M21D24WA-LLK, diesel de seis cilindros, bem mais leve e com potência de 130HP e maior raio de ação de 360km e uma velocidade de 75km/h, caixa de transmissão ZF modelo 4HP 22, quatro marchas à frente e uma à ré.

Todos possuíam diferencial controlado, responsável pela transmissão de potência e direção do veículo. Este sistema é composto por engrenagens hipoidais e dois discos de freio que controlam a direção do veículo. O sistema de direção é composto de pinhão e cremalheira que aciona dois cilindros mestres de freio conectados aos calipers do diferencial controlado através de tubulação metálica, atuando como controlador de velocidade de rotação dos satélites. Testes sendo realizados na dependências da fábrica Engesa em 1987, com o segundo protótipo. Esta torre com duas metralhadoras 7,62mm é a mesma que irá equipar o quarto protótipo (Crédito das fotos: coleção autor) Sua suspensão é do tipo barras de torção com três amortecedores de cada lado. O trem de rolamento possui quatro conjuntos de rodas emborrachadas sendo uma tratora à frente do veículo, um conjunto de rodas tensoras das lagartas na traseira. As lagartas são alemãs Diehl com sapatas removíveis, guiada pelo centro com duplo pino emborrachado, o que lhe dá baixa pressão sobre o solo. Foram previstas várias versões sobre o mesmo chassi, sendo as mais expressivas: Veículo Transporte de Pessoal (APC) com capacidade para quatro soldados equipados mais o motorista, armado como uma metralhadora 7,62mm; Veículo com canhão de 20mm; Veículo com torre para duas metralhadoras 7,62mm; Veículo anti-tanque lançador de mísseis; Veículo de reconhecimento com metralhadora.50 em torre giratória; Veículo porta-morteiro 120mm; Veículo transporte de munição; Veículo comando; Veículo Ambulância.

O EE-T4 Ogum ainda é um veículo versátil mesmo para os dias de hoje, seu conceito é extremamente moderno e poderia muito bem ser aproveitado pelo Exército Brasileiro que criou recentemente um Brigada de Operações Especiais; serviria também para a Brigada Pára-quedista e muitas outras unidades nas mais variadas funções. Porquê não levarmos adiante um projeto que já existe? Os engenheiros que o projetaram ainda estão na ativa, seus planos e desenhos também e até um protótipo se encontra hoje em poder do Exército, muito embora ele não seja o mais sofisticado dos quatro produzidos, mas serve de base para um aprimoramento que atenderia muito bem às necessidades da força terrestre brasileira, podendo ser até usado como veículo para patrulhar fronteiras e bases importantes dentro do território brasileiro e até nos ajudar nas missões de paz no exterior a um baixo custo. Isto vale uma reflexão... Raio X do EE-T4 Ogum : 1 Motor; 2 Roda guia; 3 Casco; 4 Diferencial controlado; 5 Compartimento do motorista; 6 Tanque de combustível; 7 Sistema de freios; 8 Sistema elétrico 24 volts; (Crédito dos desenhos: coleção autor)

Raio X do casco e detalhes do trem de rolamento. (Crédito dos desenhos: coleção autor)

EE-T4 OGUM do 2º R.C.C. de Pirassununga, SP em exposição no CENTRO DE INSTRUÇÃO DE BLINDADOS CIBld no Rio de Janeiro, em 2001. (fotos do autor)