APRESENTAÇÃO A obra de Denise Bértoli Braga, Ambientes digitais: reflexões teóricas e práticas, é o sexto lançamento da Coleção Trabalhando com... na escola, e o primeiro volume da Coleção a ser lançado em 2013. A obra encanta o leitor à primeira vista não só porque trata de um dos mais importantes temas para o contexto de ensino e aprendizagem no século XXI, mas, principalmente, porque discorre sobre esse tema colocando-o no centro do interesse do professor das mais diversas áreas. Por meio do uso de uma linguagem ao mesmo tempo clara e instigante, a autora, em um primeiro momento, tem a preocupação de contextualizar a emergência e a evolução de Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), dentre elas, a escrita, com o intuito de produzir um efeito de compreensão sobre o papel histórico dessas tecnologias. De acordo com a visão da autora, os computadores e a sua rede, a internet, são poderosas invenções da humanidade, mas, antes deles, houve outras invenções tecnológicas nos campos da comunicação e da informação que causaram enormes impactos e mudanças sobre os sujeitos, sobre suas formas de organização social e capacidades sociocognitivas e sobre as próprias sociedades de cada época.
8 DENISE BÉRTOLI BRAGA Sendo assim, o que a autora faz ao longo da primeira parte do livro é chamar a nossa atenção para o fato de que o surgimento da internet não pode ser considerado como a revolução tecnológica, mas como uma das etapas na evolução e aprimoramento da comunicação social e das capacidades sociocognitivas humanas. Segundo a autora, o homem sempre inventou ferramentas tecnológicas para o armazenamento de informações e para o incremento da comunicação social, que foram modificando, ao longo do tempo, as estruturas das sociedades humanas. Considerando esse dado histórico, a autora faz um alerta, já nas primeiras páginas, sobre as mudanças nos modos de ler e de escrever textos propiciadas pela emergência dos meios e ambientes digitais: Apesar de todo esse panorama parecer assustador e novo para alguns professores, ele é, na realidade, uma ampliação e continuação de um processo de mudanças nas práticas de letramento que já é bastante familiar. Ou seja, embora essas alterações tenham sido aceleradas e mais evidenciadas com a popularização da internet, elas não são tão inovadoras como parecem. Elas seguem uma lógica de evolução que, além de antiga, é, até certo ponto, esperada e previsível. Basta retrocedermos um pouco no tempo para entendermos a veracidade dessa afirmação. Esse posicionamento das práticas de letramento na internet em um contínuo histórico, considerando que essas práticas, na maioria das vezes, englobam e reiteram práticas de letramento anteriores (a remissão hipertextual, por exemplo, já era feita por meio de recursos específicos, tais como as notas de rodapé), funciona como um alento, um alívio mesmo, para os chamados imigrantes digitais, que não precisam mais ter tanto pé atrás com a internet e com a sua variedade de ambientes e linguagens, ao perceberem que estes reverberam outras práticas há muito conhecidas.
AMBIENTES DIGITAIS 9 Além disso, a autora também reforça a ideia de que os conteúdos presentes na obra servem tanto para os imigrantes digitais, como para aqueles que se sentem à vontade com o mundo digital e com sua diversidade de linguagens e ambientes, já que, para estes últimos, a obra auxiliaria na construção de uma visão mais geral sobre esse universo e suas possibilidades no campo da educação. Como dissemos no início desta apresentação, o professor está no centro das discussões sobre como a tecnologia pode estar a serviço do trabalho didático por ele desenvolvido. No curso desta obra, os professores de diferentes áreas acadêmicas e, mais especialmente, os professores de língua materna e estrangeira, irão encontrar um conjunto de reflexões sobre o papel da internet e dos ambientes digitais na elaboração de materiais didáticos e nas diversas maneiras de se desenvolver um trabalho de natureza interdisciplinar que auxilie na formação dos alunos nas diferentes áreas do conhecimento. A esse respeito, a autora afirma: Como professores, nossa meta é ampliar as condições de circulação social de nossos alunos, permitindo que eles desenvolvam as habilidades necessárias para a construção de conhecimento e modos de compartilhar informações privilegiadas pela sociedade atual. Nosso trabalho amplia as possibilidades de aceitação e participação do nosso aluno em diferentes tipos de comunidades que dominam e pressupõem o domínio de perspectivas, de determinados conteúdos e de discursos que construímos com nossos alunos. Junto com os conceitos de área ensinamos também as formas de comunicação esperadas por essas diferentes comunidades. Isso sustenta a afirmação de que todos os docentes estão diretamente envolvidos na ampliação do repertório de letramento de seus alunos. Em relação ao ensino de língua (estrangeira ou materna), a autora mostra como a ampliação do uso de tecnologias de informação e de comunicação auxiliou no processo de imersão dos sujeitos em práticas comunicativas significativas. Ainda na primeira parte do livro, a autora convoca o leitor a compreender a complexa
10 DENISE BÉRTOLI BRAGA realidade social na qual estamos imersos, propiciando uma visão crítica e, ao mesmo tempo, engajada sobre o fato de vivermos em uma sociedade da informação: Entender a natureza e as consequências dessas transformações sociais é central para a formação crítica do aluno que já está, direta ou indiretamente, imerso em novas práticas e rotinas sociais. Essa imersão gera mudanças na maneira dos indivíduos pensarem, buscarem e compartilharem conhecimentos, estabelecerem relacionamentos e suas necessidades de momentos de lazer e envolvimento lúdico. Ou seja, o aluno também mudou e hoje ele traz para a escola novos tipos de habilidades leitoras e produtoras que foram desenvolvidas fora do controle escolar. De forma a exemplificar como os professores podem trabalhar com as novas tecnologias de informação, a autora apresenta exemplos de aprendizagem baseada em estudos de caso e em resolução de problemas, discutindo procedimentos metodológicos voltados para trabalhos coletivos e também para o desenvolvimento da autonomia do aprendiz. Sendo assim, o objetivo da primeira parte da obra foi o de refletir sobre as razões que justificam o professor preocupar-se com a inclusão dos recursos digitais nas suas práticas escolares, já que, hoje, as práticas sociais dependem cada vez mais dos recursos de comunicação e trocas de informação oferecidas pelas novas tecnologias. Na segunda parte do livro, a autora proporciona aos professores das diferentes áreas um descrição comparativa entre dois importantes ambientes virtuais de aprendizagem (AVAs): o TelEduc e o Moodle. A descrição apresentada enfatiza o fato de que esses ambientes podem oferecer novos canais para a comunicação simultânea ou quase simultânea do professor com sua classe ou com alunos individuais ou mesmo dos alunos entre si. Em um segundo momento, a autora descreve ambientes e ferramentas da internet incorporados às práticas de ensino, como os blogs, os dicionários on-line, os tradutores automáticos, o Twitter, o Goo-
AMBIENTES DIGITAIS 11 gle.docs e as redes sociais, mais especialmente o Facebook. Para cada um deles, a autora apresenta projetos gerais de trabalho já desenvolvidos. Mas o mais importante dessa segunda parte é a discussão implementada sobre a necessidade de o professor ter objetivos bem claros quando da proposta de trabalho com esses ambientes e ferramentas na escola. Na parte final, a autora retoma seus objetivos iniciais e afirma que o livro se pretende um grande roteiro ou guia para diferentes tipos de professor: para aqueles que foram apanhados desprevenidos no meio dessa avalanche de mudanças rápidas nos modos de comunicação e na forma de construção da cultura, hoje chamada genericamente de processo de globalização e para os internautas mais experientes. Para ambos, a principal mensagem é: aprenda com os erros e encare as mudanças sociais e culturais pelas quais estão passando a sociedade e a escola brasileiras. Ao concordar com/e reforçar o mote da autora, termino essa apresentação reiterando a minha afirmação inicial: a obra é encantadora. E ela assim o é porque, como diz o poeta, nos convida não apenas a penetrar surdamente no reino das palavras, mas a penetrar no reino de todas as linguagens, navegando necessariamente, como nos diz outro poeta, em busca da criação de um ensino mais significativo, de sujeitos e cidadãos mais conscientes, tolerantes e verdadeiramente abertos ao outro, de uma escola mais acolhedora e de uma sociedade mais justa. Esperamos muito de nossa interação com o mundo digital? Construímos expectativas exageradas sobre o que ele pode nos proporcionar? Acredito que não, porque especialmente nesse mundo, muito é muito pouco, como nos diz um terceiro poeta da nossa língua portuguesa. Esta obra nos ajuda a melhor compreender como esse maravilhoso mundo novo, organizado por meio de tecnologias que mudaram e continuarão mudando a vida em sociedade, já vem
12 DENISE BÉRTOLI BRAGA contribuindo de forma definitiva para o desenvolvimento de formas conjuntas de fazer conhecer, principal tarefa da escola e de todos os professores. Anna Christina Bentes Coordenadora da Coleção Trabalhando com... na escola Dezembro de 2012