Transferência e contratransferência

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Transcrição:

Resenhas

JORNAL de PSICANÁLISE 46 (84), 259-262. 2013 Transferência e contratransferência Marion Minerbo Editora: Casa do Psicólogo, 2012 (Coleção Clínica Psicanalítica) Resenhado por: Ana Maria Loffredo 1 I. Em seu estilo ensaístico, Transferência e contratransferência expressa o movimento em várias dimensões entre a imaginação metapsicológica e a operação do método psicanalítico, que, em seu conjunto, habitam o coração do exercício da clínica psicanalítica. O leitor é mobilizado por uma leitura fluente que lhe permite atravessar repertórios conceituais diversos e meandros de questões muito complexas, sendo estimulado pelos vários roteiros de pesquisa que vão sendo oferecidos no decorrer do percurso. A costura dos componentes do roteiro programático é oferecida gradual e pacientemente por uma companhia firme e fiel a suas intenções, de modo que a complexidade das questões tratadas é esboçada por meio de uma espécie de traçado em espiral, que permite retomá-las em planos e tempos diversos, à medida que a reflexão avança, apurando a orquestração dos instrumentos teóricos. Assim se observa claramente a vinculação da estrutura do texto às suas fontes de origem, na organização dos tópicos e na forma de apresentação dos itens escolhidos, desde que o livro se reporta a um curso oferecido na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e à coordenação de outros grupos psicanalíticos por parte da autora. II. No Capítulo I, em Breve história comentada dos conceitos de transferência e contratransferência, a apresentação dos textos clássicos de autores mais presentes na sbpsp dialoga com leituras críticas de autores contemporâneos e da própria autora, articuladas à utilização de material clínico, que veicula um fértil convívio de ideias no decorrer de todo o texto. 1 Psicanalista, membro filiado do Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo sbpsp. Profa. livre-docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo usp. 259

JORNAL de PSICANÁLISE 46 (84), 259-262. 2013 Certos fragmentos clínicos comparecem em muitos momentos do trabalho, compondo a rede de reflexão que se torna mais complexa, na mesma medida do aporte de uma ampliação dos instrumentos teóricos. Aos poucos, usufruímos da vantagem desse procedimento, pois a ausência de linearidade promove uma proximidade com o próprio objeto de investigação recortado pelo trabalho e mostra parentescos com o modo analítico de pensar. De modo que a leitura instrui, pois é repleta de informações históricas e conceituais, e nos permite ir além, pois estimula uma modalidade de experiência de transmissão de conhecimento em psicanálise. O roteiro parte das ideias de Freud e Ferenczi, sendo privilegiados como comentadores Neyraut, Donnet, Guyomard e Roussillon. São marcadas as várias teorias sobre a transferência presentes no pensamento freudiano, apresentadas em estreita proximidade com a discussão das ideias de Ferenczi, e são enunciados, passo a passo, os eixos que estarão subjacentes ao espectro multifacetado do estudo da transferência. Sua abordagem como cena é um eixo operacional fundamental de sustentação do trabalho, já que o parentesco do trabalho do ator e do analista permite circunscrever como este último disponibiliza a matéria viva de seu psiquismo, esvaziando-se de sua pessoa real para dar vida a um personagem e contracenar com outros, desde que oferece sua contratransferência para que a transferência possa ganhar corpo (pp. 31-33). O termo neurose de transferência, formulado em Recordar, repetir e elaborar, marca como é um modo de ser que é reproduzido na análise, ideia que ganha um sentido mais preciso em Psicologia das massas e análise do eu, desde que se reporta à repetição de identificações inconscientes subjacentes à nossa maneira de sentir, pensar e agir. Perspectiva fundamental que inspira o livro, pois a transferência convoca o analista a agir a identificação complementar, aquela que tem a ver com o inconsciente parental e que funcionou como um molde para a identificação que está sendo agida pelo paciente (p. 51). O segundo dualismo pulsional e a segunda tópica permitem trazer à cena transferencial uma expansão do espectro das expressões psicopatológicas: para além do agieren, articulado ao recalque do desejo infantil e ao retorno do recalcado, relativos à transferência neurótica e à operação do regime do princípio do prazer, a transferência passa a ser entendida, de um lado, como manifestação da compulsão à repetição do traumático e, de outro, como atualização de identificações inconscientes oriundas das relações com o objeto primário, no quadro das instâncias eu, id e supereu. São tematizados os limites e desdobramentos do conceito de interpretação mutativa, de Strachey, cuja repercussão na história da psicanálise é inquestionável e, em sua articulação com as contribuições posteriores de Heimann, Racker e Bion, é conduzida uma reflexão que converge para a afirmação de que, em certos casos, o analista se identifica, sim, com o que foi projetado, e 260

Resenha Transferência e contratransferência de Marion Minerbo Ana Maria Loffredo responde no início exatamente como o objeto interno do paciente, além de que há situações em que é fundamental que o analista se deixe levar pela convocação transferencial para que o arcaico o não simbolizado, o núcleo psicótico possa se atualizar e ser trabalhado na situação analítica (p. 82). O pensamento de Klein é abordado por meio das intervenções de Joseph e Spillius e, no contexto desse momento significativo na história do conceito de transferência, a autora dialoga seu destaque à observação da transferência negativa com as ideias de Winnicott, que apresenta outras formas clínicas de transferência psicótica, como é o caso da transferência do não constituído (p. 95). E uma rede consistente de argumentação permite afirmar, mesmo que se considerem as diferenças nas conceituações de campo pelos Baranger, em relação às de Herrmann e de Ferro, que o conceito de campo opera definitivamente um deslocamento da escuta analítica (p. 121). As propostas desses e de outros autores, a ideia de uma postura mais implicada no exercício do holding e continência, segundo Figueiredo e a perspectiva fornecida por Roussillon convergem para as reflexões da última parte deste capítulo, dedicada a dois analistas contemporâneos, Dispaux e Ogden. A rede de reflexão em torno dos eixos apresentados expande, enriquece, complexifica, expõe contradições e cria novos parâmetros de análise, de modo que essa Breve história acaba sendo instigante e estimulante pois a temática da transferência, como não poderia ser de outro modo, é um ângulo fértil de acesso ao estudo da história e da epistemologia da psicanálise. III. Se transferência e contratransferência devem ser apreendidas numa dinâmica de relações recíprocas, a derivação dessa ideia para a supervisão se fez imperativa e na linha de que a neurose de contratransferência é, tanto quanto a neurose de transferência, uma necessidade processual (p. 110), os dois capítulos subsequentes ilustram de modo exemplar a rede de concepções na qual essa ideia está inserida. O Capítulo II se reporta a quatro seminários clínicos coordenados pela autora na sbpsp e a duas supervisões, articulando-se estreitamente às teses propostas pelo trabalho. O pensamento de Herrmann é retomado no âmbito do diagnóstico transferencial e em termos do alcance metateórico de sua Teoria dos Campos, que denuncia a relativização do dogmatismo das escolas psicanalíticas. Também o conceito de objeto primário é tematizado a partir especialmente das concepções de Bion, Green, Ferenczi e Laplanche e da integração que faz Figueiredo das ideias de vários autores, no sentido de contextualizar o objeto bom e o objeto mau em termos do modo como exercem as várias funções psíquicas constitutivas do eu (p. 171). É um capítulo muito bem sucedido em 261

JORNAL de PSICANÁLISE 46 (84), 259-262. 2013 termos de seus propósitos e expressa uma das contribuições maiores deste livro verdadeiramente primoroso no campo da transmissão de conhecimento em psicanálise: a possibilidade de metabolização do universal pertinente à teoria, em seu confronto vivo com a singularidade dos casos apresentados, por meio do contato com uma diversidade de perspectivas teóricas. Bem se vê em operação uma posição que atravessa todo o texto: Transito por autores diversos conforme a necessidade, sem jargões e sem me filiar a uma escola (p. 16). O Capítulo III, Trabalhando transferência e contratransferência em supervisão, apresenta uma experiência de supervisão do ponto de vista de ambos os participantes do par. Embora guarde estreita proximidade com o anterior, merece ter autonomia como um capítulo à parte pelo seu estatuto de depoimento do trabalho dessa dupla. Escreve a supervisionanda: a teoria se integrava com a clínica e em mim Estou realmente vivenciando aquilo que chamam de tripé (p. 268 e p. 275). A supervisora se propõe a estimular a apropriação da relação de interferências recíprocas entre método e teoria, criando condições para que o potencial criativo de ambos possa emergir e, ao fazê-lo, explicita a implicação política de suas opções no plano institucional, desde que permite que amplie seu repertório sem ficar tão atormentada por angústias superegoicas que muitos membros filiados costumam projetar sobre a instituição Minha intenção era ajudá-la a desconstruir um modelo de uma suposta postura analítica universal que poderia valer para todas as análises, sem considerar a singularidade de cada paciente. (p. 270) O Capítulo IV trata de Transferências cruzadas e complementares no cotidiano: corrupção, poder e loucura, no âmbito do exercício metapsicológico de uma psicanálise implicada no cotidiano, de evidente ressonância nos dias atuais e exercita uma reflexão que aponta, uma vez mais, como o patrimônio conceitual da psicanálise está atravessado, desde suas origens, pela imbricação radical entre o individual e o coletivo. Enfim, usufruí desse livro com muito gosto, ele chegou em boa hora e o recomendo enfaticamente para analistas em formação e todos aqueles que se permitam transitar com liberdade pelas fronteiras conceituais, espaço potencialmente tão promissor para o trato com as formas de sofrimento psíquico proeminentes na contemporaneidade. Ana Maria Loffredo Rua Padre Bento Dias Pacheco, 33 Pinheiros 05427-070 São Paulo, SP Tel: 11 3815 0833 analoffredo@usp. br 262 Recebido em: 5/2/2013 Aceito em: 23/4/2013