AgRg no RECURSO ESPECIAL Nº 255.537 - AL (2000/0037359-1) RELATORA : MINISTRA MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA AGRAVANTE : INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL - INSS PROCURADOR : FRANCISCO HÉLIO CAMELO FERREIRA E OUTRO(S) AGRAVADO : KASSIANO LUCAS LOPES DE ANDRADE (MENOR) E OUTRO REPR. POR : LUCIANO JORGE DE ANDRADE ADVOGADO : JOSÉ RIBEIRO DE BARROS RELATÓRIO MINISTRA MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA (Relatora): Trata-se de agravo regimental interposto pelo INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL INSS, contra decisão monocrática por mim proferida, em sede de recurso especial, que restou assim ementada (fl. 102): PREVIDENCIÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. PENSÃO POR MORTE. DEPENDENTES DESIGNADOS APÓS O ÓBITO DA SEGURADA. ART. 14, 1º, DO DECRETO N.º 89.312/84. BENEFÍCIO REGIDO PELA LEI EM VIGOR À ÉPOCA DO FALECIMENTO. DEPENDÊNCIA ECONÔMICA COMPROVADA PELA INCLUSÃO DOS MENORES NA DECLARAÇÃO DE IMPOSTO DE RENDA DA FALECIDA. DEPENDÊNCIA PREVIDENCIÁRIA RECONHECIDA. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO QUANTO AOS JUROS DE MORA. SÚMULAS 282 E 356 DO STF. NÃO-COMPROVAÇÃO DA DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL. RECURSO ESPECIAL AO QUAL SE NEGA SEGUIMENTO. Nas razões do agravo (fls. 110/113), pugna o INSS pela reconsideração da decisão agravada ou, na sua impossibilidade, pela apreciação do presente regimental pela Sexta Turma desta Corte. Sustenta que a decisão monocrática indevidamente negou provimento ao recurso especial por ele interposto, ao argumento de que a lei que rege a matéria seria clara quanto à natureza constitutiva do ato de designação de dependente, dependente de expressa manifestação de vontade do segurado instituidor. Diferenciou ato de designação de ato de inscrição de dependente, questionando a validade da declaração do imposto de renda para inclusão dos demais sobrinhos da segurada no seu rol de dependentes. Por fim, argumentou que a decisão não poderia ter se dado de forma monocrática, ante a inexistência de jurisprudência firmada sobre o assunto. É o relatório Documento: 4207807 - RELATÓRIO, EMENTA E VOTO - Site certificado Página 1 de 6
AgRg no RECURSO ESPECIAL Nº 255.537 - AL (2000/0037359-1) EMENTA AGRAVO REGIMENTAL. PROCESSO CIVIL. PREVIDENCIÁRIO. PENSÃO POR MORTE. DEPENDENTES DESIGNADOS APÓS O ÓBITO DA SEGURADA. ART. 14, 1º, DO DECRETO N.º 89.312/84. BENEFÍCIO REGIDO PELA LEI EM VIGOR À ÉPOCA DO FALECIMENTO. DEPENDÊNCIA ECONÔMICA COMPROVADA PELA INCLUSÃO DOS MENORES NA DECLARAÇÃO DE IMPOSTO DE RENDA DA FALECIDA. DEPENDÊNCIA PREVIDENCIÁRIA RECONHECIDA. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO QUANTO AOS JUROS DE MORA. SÚMULAS 282 E 356 DO STF. NÃO-COMPROVAÇÃO DA DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL. DECISÃO MONOCRÁTICA MANTIDA POR SEUS PRÓPRIOS FUNDAMENTOS. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO. 1. A pensão por morte é regida pela legislação em vigor na data da implementação dos seus requisitos. Ao tempo do óbito da segurada, a norma vigente o Decreto 89.312/84 era clara ao dispor quais seriam os dependentes beneficiários da pensão, inclusive quanto à forma de sua inscrição no INSS. Todavia, a indicação de dependentes encontrava-se dispensada do cumprimento de formalidades especiais, inexistindo impedimento para que, mesmo após o falecimento do segurado, os eventuais interessados ao recebimento da pensão viessem a ser inscritos como dependentes. 2. O documento que fundamentou o reconhecimento da relação de dependência econômica Declaração do Imposto de Renda de 1987 permite, por si só, a concessão da pensão, sobretudo porque o INSS em nenhum momento impugnou a sua validade. Embora apenas um sobrinho-neto estivesse regularmente inscrito como dependente da segurada, não havia, à época do seu falecimento, impedimento legal para que os demais, assim regularmente declarados no imposto de renda, tivessem essa qualidade reconhecida, ainda que posteriormente ao óbito. previsão do art. 14, 1º, do Decreto 89.312/84. Na hipótese, a condição de dependente de pessoa designada não dependia de ato de vontade personalíssimo do segurado, incapaz de ser suprimido, sendo suficiente a comprovação da relação de dependência por meios mais simplificados. 3. Não tendo a violação dos art. 1.062 do Código Civil de 1916 e do art. 1º da Lei nº 4.414/64, referente aos juros de mora, sido debatida no acórdão recorrido e, sem a oposição de embargos declaratórios para o suprimento da questão, incide, à espécie, os enunciados de nº 282 e 356 das súmulas do Supremo Tribunal Federal. 4. Ausente o cotejo analítico, observa-se o art. 255, do RISTJ. 5. Decisão monocrática mantida por seus próprios fundamentos. Agravo regimental improvido. VOTO MINISTRA MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA (Relatora): Documento: 4207807 - RELATÓRIO, EMENTA E VOTO - Site certificado Página 2 de 6
Cinge-se a presente controvérsia a respeito da inscrição de menores designados, após o óbito da segurada, para recebimento de pensão por morte, concedida sob a égide do Decreto n.º 89.312/84. No caso, a segurada Aline Vasconcelos Andrade faleceu em 6/10/87, deixando três sobrinhos-netos: Luciano Jorge de Andrade Júnior, Cristiano Isaac Lopes de Andrade e Kassiano Lucas Lopes de Andrade. O primeiro, Luciano Jorge de Andrade Júnior, era oficialmente inscrito na previdência como seu dependente previdenciário, o que levou o INSS a interromper o pagamento da pensão quando ele completou 18 anos, em 5-12-90. Tal fato levou os outros dois irmãos, que ainda não tinham completado 18 anos, a pleitearem o prosseguimento do benefício, ao argumento de que eles, embora não inscritos oficialmente como dependentes de sua tia-avó, eram assim declarados por ela em seu Imposto de Renda. O pedido foi julgado improcedente em primeira instância, mas o Tribunal Regional entendeu por bem acatar a tese de que, à data do óbito da segurada, a inscrição de dependentes era regida pelo Decreto nº 89.312/84, que a dispensava de formalidades especiais. Não tendo o INSS impugnado a validade da Declaração do Imposto de Renda da falecida ou suscitado qualquer incidente de falsidade, tal documento poderia ser tido como hábil a autorizar o reconhecimento da relação de dependência dos menores. Uma única ressalva foi feita pelo acórdão impugnado: o sobrinho-neto Cristiano Isaac Lopes de Andrade não poderia mais receber o benefício, pois, à época do ajuizamento da ação, já contava com mais de 18 anos. As razões de agravo apresentadas pelo INSS não têm o condão de autorizar a alteração do entendimento monocrático por mim exarado, razão pela qual mantenho a decisão impugnada, por seus próprios fundamentos, transcrevendo-a em sua integralidade, para que esta Turma possa sobre ela se manifestar: "A pensão por morte é um benefício garantido aos dependentes do segurado falecido e tem como objetivo suprir a ausência daquele que provia as necessidades econômicas do núcleo familiar, garantindo-lhe o seu sustento. Para o seu deferimento, é imprescindível que os dependentes comprovem o óbito do segurado, a relação de dependência e a qualidade de segurado do falecido. Conforme já pacificado por esta Corte, a sua concessão é regida pela legislação em vigor na data da implementação das condições. Nesse entendimento, colacionam-se os seguintes acórdãos da Terceira Seção: 'AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL. PREVIDENCIÁRIO. PENSÃO POR MORTE. MENOR DESIGNADO. SUPERVENIÊNCIA DA LEI N 9.032/95. INEXISTÊNCIA DE DIREITO ADQUIRIDO. 1. A Egrégia Terceira Seção firmou já entendimento no sentido de que o fato gerador para a concessão do benefício de pensão Documento: 4207807 - RELATÓRIO, EMENTA E VOTO - Site certificado Página 3 de 6
por morte é o óbito do segurado, devendo ser aplicada a lei vigente à época de sua ocorrência (cf. EREsp 190.193/RN, Relator Ministro Jorge Scartezzini, in DJ 7/8/2000). 2. Em se tratando de segurado falecido sob a vigência da Lei n 9.032/95, não há falar em direito adquirido de menor designado à concessão de benefício de pensão por morte (cf. REsp 256.699/RN, Relator Ministro Edson Vidigal, in DJ 4/9/2000; REsp 263.494/RN, Relator Ministro Jorge Scartezzini, in DJ 18/12/2000). 3. Inteligência do enunciado nº 359 da Súmula do Supremo Tribunal Federal. 4. Agravo regimental improvido.' (AgRg no REsp 696.947/RN, Rel. Min. HAMILTON CARVALHIDO, Sexta Turma, DJ 11/4/2005) 'RECURSO ESPECIAL. PREVIDENCIÁRIO. PENSÃO POR MORTE. MENOR DESIGNADO. ÓBITO OCORRIDO EM DATA POSTERIORMENTE À EDIÇÃO DA LEI 9.032/95. EXISTÊNCIA DE EXPECTATIVA DE DIREITO. A Egrégia 3ª Seção firmou já entendimento no sentido de que o fato gerador para a concessão do benefício de pensão por morte é o óbito do segurado, devendo ser aplicada a lei vigente à época de sua ocorrência (cf. EREsp 190.193/RN, Relator Ministro Jorge Scartezzini, in DJ 7/8/2000). Em se tratando de segurado falecido em data posterior à edição da Lei 9.032/95, que excluiu o menor designado do rol de dependentes de segurado da Previdência Social, é de se reconhecer a inexistência do direito adquirido do beneficiário à concessão do benefício de pensão por morte. Precedente. Inteligência do enunciado nº 359 da Súmula do Supremo Tribunal Federal. Recurso especial desprovido, para manter o acórdão recorrido.' (REsp 722.658/RN, Rel. Min. JOSÉ ARNALDO DA FONSECA, Quinta Turma, DJ 16/5/2005) 'PREVIDENCIÁRIO. PENSÃO POR MORTE. REQUISITOS LEGAIS. CONDIÇÃO DE DEPENDENTE DESIGNADO. INEXISTÊNCIA DE DIREITO ADQUIRIDO. LEI Nº 8.213/91. - Em sede de benefícios previdenciários, sua concessão rege-se pelas normas vigentes ao tempo do fato gerador. - Não há de se falar em direito adquirido pelo dependente designado sob a égide da lei anterior, pois as condições para a percepção do benefício são aferidas ao tempo do óbito do segurado instituidor, fato gerador da pensão. - Embargos de divergência acolhidos.' (EREsp 396.933/RN, Rel. Min. Vicente Leal, Terceira Seção, DJU de 14/4/2003). A norma vigente ao tempo do óbito da segurada o Decreto 89.312/84 era clara ao dispor quais seriam os dependentes beneficiários da pensão por morte, inclusive quanto à forma de sua inscrição no INSS, litteris : Documento: 4207807 - RELATÓRIO, EMENTA E VOTO - Site certificado Página 4 de 6
Art. 10. Consideram-se dependentes do segurado: I - a esposa, o marido inválido, a companheira mantida há mais de 5 (cinco) anos, o filho de qualquer condição menor de 18 (dezoito) anos ou inválido e a filha solteira de qualquer condição menor de 21 (vinte e um) anos ou inválida; II - a pessoa designada, que, se do sexo masculino, só pode ser menor de 18 (dezoito) anos ou maior de 60 (sessenta) anos, ou inválida; 2º Equiparam-se a filho, nas condições do item I, mediante declaração escrita do segurado: a) enteado; b) menor que, por determinação judicial, se acha sob sua guarda; c) menor que se acha sob sua tutela e não possui bens suficientes para o próprio sustento e educação. 7º A designação de dependente dispensa formalidade especial, podendo valer para esse efeito declaração verbal prestada perante o INPS e anotada na Carteira de Trabalho e Previdência Social, inclusive a de Atleta Profissional de Futebol. 8º A invalidez do dependente deve ser verificada em exame médico a cargo da previdência social urbana. Art. 12. A dependência econômica das pessoas indicadas no item I do artigo 10 é presumida e a das demais deve ser provada. Art. 14. A forma de inscrição do segurado e dos dependentes é estabelecida em regulamento. 1º Incumbe ao segurado a inscrição dos seus dependentes, que podem promovê-la se ele faleceu sem tê-la feito. Nesse contexto, a indicação dos dependentes econômicos encontrava-se dispensada do cumprimento de formalidades especiais para o reconhecimento da dependência econômica, inexistindo impedimento para que, mesmo após o falecimento do segurado, os eventuais interessados ao recebimento da pensão viessem a ser inscritos como dependentes. Assim, o documento que fundamentou o reconhecimento da relação de dependência econômica Declaração do Imposto de Renda de 1987, tal como bem consignado no acórdão do Tribunal Regional, permitiria, por si só, a concessão da pensão, sobretudo porque o INSS em nenhum momento impugnou a sua validade. Embora apenas Luciano Jorge de Andrade Júnior estivesse regularmente inscrito como dependente previdenciário da segurada Aline Vasconcelos Andrade, não havia, à época do falecimento desta, impedimento legal para que seus outros sobrinhos-netos, Cristiano Isaac Lopes de Andrade e Kassiano Lucas Lopes de Andrade, tivessem essa qualidade também reconhecida, ainda que posteriormente ao óbito, Documento: 4207807 - RELATÓRIO, EMENTA E VOTO - Site certificado Página 5 de 6
conforme rezava o disposto no 1º do art. 14 do Decreto 89.312/84. Destarte, não merece guarida a tese defendida pelo INSS de que a condição de dependente de pessoa designada dependeria de ato de vontade personalíssimo do segurado, incapaz de ser suprimido. A comprovação da dependência econômica, repita-se, por procedimentos mais simplificados, era suficiente, segundo a lei então vigente, para a alteração do rol de dependentes. De outra sorte, quanto à violação dos art. 1.062 do Código Civil de 1916 e do art. 1º da Lei nº 4.414/64, referente aos juros de mora, não conheço do recurso especial. A matéria não foi debatida no acórdão recorrido e tampouco foram opostos embargos declaratórios para o devido suprimento da questão. Incidência, à espécie, dos enunciados de nº 282 e 356 das súmulas do Supremo Tribunal Federal. Por fim, quanto à alínea "c", o recurso também não merece prosperar. O recorrente trouxe à colação, como acórdão paradigma, excerto jurisprudencial desta Corte, mas deixou de realizar o cotejo analítico, nos moldes do previsto no art. 255, do RISTJ. " Diante do exposto, mantenho a decisão agravada por seus próprios fundamentos e nego provimento ao agravo regimental. É como voto Documento: 4207807 - RELATÓRIO, EMENTA E VOTO - Site certificado Página 6 de 6