2. Metabolismo de Prótidos



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2. Metabolismo de Prótidos 2.1. Aminoácidos O transporte de aminoácidos é activo e faz-se juntamente com o sódio (Na + ), utilizando proteínas transportadoras. Os aminoácidos, são geralmente transportados no fluxo sanguíneo até ao fígado ou outros tecidos, onde sofrem metabolização. O destino dos aminoácidos será a síntese proteica ou servir de percursores a outros compostos, nomeadamente aminas biogénicas, hormonas e neurotransmissores, nucleótidos, grupos heme, e também outros aminoácidos, conforme se resume na figura 1. Se houver um excesso de aminoácidos no organismo, estes são usados como combustível metabólico, ou seja, são degradados, pois não podem ser armazenados. Fig.1 - Transporte Genérico de Aminoácidos

2.2. Catabolismo de aminoácidos A excreção do grupo NH 3 terminal dos aminoácidos, nos animais, permite classificá-los em : Amoniotélicos, se excretam amónia Ureotélicos, se excretam ureia Uricotélicos, se excretam ácido úrico Fig.2 - Formas de degradação do NH 3 Os aminoácidos são degradados em compostos que podem ser metabolizados até CO 2 e H 2 O ou, usados na gliconeogénese, sendo que a degradação oxidativa de aminoácidos é, em geral, responsável por 10 a 15% da energia metabólica gerada pelos animais (VOET et al., 2000). Existem diversas vias de catabolismo de aminoácidos, a principal é através do Ciclo da Ureia, mas também existem outros como, o Ciclo da Alanina, também muito importante, que cataboliza proteínas musculares.

De acordo com os metabolitos obtidos por degradação dos aminoácidos, estes classificam-se em : Glicogénicos se são degradados em piruvato (alanina), α- cetoglutarato (glutamina), oxaloacetato (aspartato) ou outros intermediários, a partir dos quais se forma glicose. Cetogénicos se são degradados em acetilcoa ou acetoacetilcoa. Fig.3 Formação de amino-crilato Pode-se observar que apenas existem dois aminoácidos unicamente cetogénicos: leucina e lisina, sendo que os restantes são cetogénicos e glicogénicos: isoleucina, fenilalanina, tirosina e triptofano. Os restantes aminoácidos são glicogénicos.

Fig.4 Ciclo de Ácido Cítrico (resumo esquemático de vias de catabolismo de aminoácidos) (VOET, 2000) Fig.5 - Degradação de aminoácidos - Ciclo da alanina glucose.

a) Ciclo da Ureia O Homem é ureotélico, pois a degradação dos aminoácidos e outros compostos azotados, dá origem a um esqueleto carbonado e a NH 3, pelo ciclo da ureia dá origem à ureia. As enzimas do ciclo da ureia (Figura 6), localizam-se no fígado e a ureia é excretada sob a forma de urina a partir dos rins (VOET et al., 2000). Fig.6 - Ciclo da Ureia (VOET et al., 2000)

Este processo, proposto por H. Krebs e K. Henseleit em 1932, inicia-se na matriz da mitocôndria com formação do fosfato de carbomoílo catalisada pelo fosfato de carbomoílo sintetase (amónia), que requer magnésio e, como regulador alostérico, o N-acetilglutamato (VOET et al., 2000). É importante referir que a ureia é electricamente neutra, muito solúvel. A sua concentração no plasma é cerca de 60-70 vezes inferior à concentração na urina, no entanto este não é um bom marcador da função glomerular, dado que a eliminação da ureia é influenciada pela dieta e fluxo urinário/minuto (ADÃO et al., 1997). Na formação do fosfato de carbomoílo o dador de carbono é o dióxido de carbono que, em meio aquoso, aparece sob a forma de ião + hidrogenocarbonato HCO 3-, e o dador de ião amónio NH 4 é o glutamato (sofre desaminação oxidativa por acção da glutamatodesidrogenase). É um mecanismo endoenergético, pois são consumidas duas moléculas de ATP (ADÃO et al., 1997). A formação deste composto é catalisada pelo fosfato-carbamoilosintetase mitocôndrial, enzima que requer a presença de um cofactor para estar activa, o N-acetilglutamato que só se forma quando há muito acetilcoa que poderá provir da degradação dos lípidos e muito aglutamato, ou seja, quando a célula tem de excretar azoto sobre a forma de ureia (ADÃO et al., 1997). Fig.7 - Formação de Carbamoílo

Insuficiência hepática grave ou obstrução portal, (deficiência das enzimas do ciclo da ureia), leva a que o fígado perca a capacidade de sintetizar ureia e amónia (hiperamoniémia) originando encefalopatia, tremores e, nos casos graves, coma hepático e morte. Os aminoácidos de cadeia ramificada e os aminoácidos aromáticos são transportados pelo mesmo transportador para o cérebro. Nas doenças hepáticas graves, a concentração dos aminoácidos aromáticos no plasma é superior à concentração dos aminoácidos de cadeia ramificada e a tomada dos aminoácidos aromáticos está aumentada no cérebro. Assim, a síntese de neurotransmissores aumenta, e tem sido sugerido que a serotonina é responsável pelas anomalias neurológicas associadas às doenças hepáticas graves (ADÃO et al., 1997). Fig.8 - Ciclo da alaninaglucose Os restantes tecidos excretam o azoto proteico essencialmente sob a forma de aminoácidos, alanina e glutamina (figura 8) que serão posteriormente degradados no fígado. Este é o processo utilizado na neoglucogénese.

2.3. Anabolismo de aminoácidos Referem-se, como exemplo, apenas algumas vias de síntese de aminoácidos com grande importância fisiológica, as restantes poderão ser consultadas no esquema I. Síntese do glutamato Relação catalisada pela L-glutamato desidrogenase ou amino transferase. Aminação redutiva e transaminação. Fig.9 Síntese de Glutamato Síntese da glutamina Reacção catalisada pela glutamina sintetase. O precursor é o glutamato, que vai ser aminado com NH 4+. O mecanismo pode considerar-se como assimilação de NH 4 e envolve um intermediário ligado á enzima y-fosfato de glutamilo. Fig.10 - Síntese da Glutamina

Síntese de tirosina Reacção catalisada pela fenilalanina-hidroxilase. O seu precursor é a fenilalanina. Há intervenção da coenzima tetrahidrobiopterina, que pode ser novamente obtido se o H2biopterina for reduzido pela H 2 biopterina redutase e NADPH + H +. Fig. 11 - Síntese de Tirosina

Síntese de Asparagina Síntese de Glicina Síntese de Prolina Síntese de Glicina a partir do Glutamato Síntese de Ornitina Esquema I Síntese de aminoácidos

Os vinte aminoácidos, independentemente de serem sintetizados pelo homem (não essenciais), ou não (essenciais), podem agrupar-se em 6 famílias como se apresenta no esquema: Fig.12 Aminoácidos essenciais

A síntese e as vias de utilização dos aminoácidos não essenciais, podem resumir-se no seguinte quadro: Quadro I - Aminoácidos não-essenciais (adaptado)

2.4. Referências Bibliográficas ADÃO, Maria Helena et al. Bioquímica. Lisboa: Lidel, edições técnicas, 1997. ISBN 972-757-042-9 CARVALHO, Célio et al. Biologia Funcional. Coimbra: Livraria Almedina, 1984. ISBN 101019 NEVES, Luísa; CARREIRA, Teresa Bioquímica. 6ª ed. Lisboa: Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa, 2003. ISBN 972-8008-74-0 VOET, Donald; VOET, Judith; PRATT, Charlotte Fundamentos de Bioquímica. Porto Alegre: Editora Artes Médicas Sul LTDA. 2000. ISBN 87-7307-677-1