APELAÇÃO COM REVISÃO N 0 574.032-0/9 - ITAPIRA Apelante: Icicla Indústria e Comércio de Papéis Ltda. Apelado: Geraldo Muroni Sobrinho DECLARAÇÃO DE VOTO RESPONSABILIDADE CIVIL. ACIDENTE DO TRABALHO. Reparação de danos materiais e morais. Indenização por ato ilícito. Prova pericial demonstrando a existência da incapacidade parcial. Provas orais retratando a culpa in eligendo da empresa. Indenização devida. Possibilidade jurídica e acolhida da pretensão. AÇÃO DE PRESTAÇÕES POR ACIDENTE DE TRABALHO. ACÃO DE INDENIZAÇÃO. Distingue-se, para que não haja eventual dúvida, Ação de Prestações por Acidente de Trabalho da ação de responsabilidade civil de reparação de danos. Naquela o órgão estatal, o Instituto de Seguro Social INSS, segurador obrigatório é o responsável pela concessão e manutenção do benefício acidentário ao segurado, em face do fundo da contribuição obrigatória a esse fim estabelecida. Nesta, há necessidade de culpa, conforme diretriz atual da Constituição Federal, para que a empresa seja considerada culpada. RESSARCIMENTO. A indenização pelo direito comum, em caso de acidente do trabalho, está assegurada pela norma do artigo 7 0, inciso XXVIII, da Constituição Federal de 1988, independente da reparação obtida pelo seguro acidentário a cargo do INSS. Trata-se de obrigação atinente ao empregador quando incorrer em dolo ou culpa. Visto. Voto n 0 4.308 GERALDO MURONI SOBRINHO ingressou com Ação de Indenização por Ato Ilícito contra ICICLA INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE PAPÉIS LTDA., qualificação e caracteres das - 1 -
partes nos autos, porque, no exercício de suas funções em dependências da Requerida, sofreu acidente do trabalho por culpa do responsável pelo serviço (da empresa), advindo-lhe seqüelas incapacitantes. Formalizada a angularidade a Requerida apresentou contestação, que foi impugnada. O despacho saneador autorizou a produção das provas pericial e oral. Realizada a prova técnica o Perito fez encarte do laudo, manifestando-se as partes. Em audiência foram colhidos o depoimentos (pessoal) do Requerente e das testemunhas por ele arroladas. Travados os debates houve entrega da prestação jurisdicional e, procedente a pretensão, foi a Requerida condenada ao pagamento dos danos morais e matériais até a data da perícia, com quantum a ser apurado em liquidação de sentença, por artigos, das custas e despesas processuais e dos honorários advocatícios de 15% sobre o valor atualizado da causa. ICICLA INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE PAPÉIS LTDA. interpôs recurso. Persegue a reforma da decisão enfatizando que o laudo pericial negou o nexo causal, e a prova oral não pode sobrepor a documental. GERALDO MURONI SOBRINHO apresentou contra-razões. Afirma que a Apelante age de forma desesperada e procura... confundir as coisas, iniciando por atropelar a prova pericial... (folha 242). É o relatório, mantido no mais o da r. sentença. O Perito Judicial concluiu:... O autor tem quadro antigo compatível com lesão cervical por estiramento da musculatura do pescoço, que não levou a lesão medular ou radicular na época. Há na tomografia, realizada em outubro de 1993, sinais de fratura de lâmina esquerda de Quinta vértebra cervical. Esta lesão indica que houve estiramento muscular intenso o suficiente para fraturar tal estrutura cervical. Porém, esta porção da vértebra contribui muito pouco para o equilíbrio da coluna como um todo, não sendo provável que as atuais queixas do autor expliquem-se pela fratura, tomada isoladamente. Em - 2 -
geral, fora dos ambientes de litigância, tais fraturas tem ótima evolução e não se complicam por quaisquer quadros clínicos. Em suma, houve lesão por estiramento muscular intenso, com fratura de lâmina vertebral cervical, atualmente consolidada e sem sinais clínicas objetivos que indiquem qualquer seqüela... (folha 179). Em seu depoimento pessoal o Apelado descreveu o acidente e os atos ulteriores, deixando implícita a conduta culposa in eligendo da Apelante, tanto que acabou sendo demitido ainda sob tratamento médico. Essa versão por ele oferecida encontra robusta harmonia com os depoimentos das testemunhas. José Eurico Martins de Souza esclareceu:... No dia do acidente estava ajudando o autor a retirar a peça de uma máquina. A empilhadeira usada para este tipo de serviço estava quebrada e nós tivemos que retirar a peça em três pessoas. Durante o trabalho de remoção a peça se soltou e caiu sobre o autor que teve que suportar todo o seu peso. A peça era muito pesada, tanto quer ela deveria ser removida com a ajuda de uma empilhadeira. Logo após o acidente, o autor reclamou de dores na coluna. As dores não passaram e o autor teve que ser submetido a alguns exames. O autor fez um tratamento médico sob a supervisão da empresa. No entanto, continuou trabalhando normalmente. Me lembro que o autor tinha que tomar injeções durante a jornada de trabalho. A máquina que estava quebrada geralmente era submetida a reparos e nós tivemos que, em muitas vezes, remover a polia manualmente, já que a empilhadeira às vezes estava quebrada ou mesmo ocupada. Já fazia mais ou menos uns seis meses que eu trabalhava com o autor quando aconteceu o acidente. O autor nunca reclamou de dores nas costas ou na coluna antes do acidente... (folha 206). Ari Francisco Laurdino revelou:... Na época.dos fatos eu trabalhava com o autor na empresa Alcici. No dia dos fatos nós tivemos que remover a polia de uma máquina. A empilhadeira usada para este serviço estava quebrada e nós tivemos que remover a polia na mão. Nós estávamos segurando a máquina em três, quando a polia escapou e caiu na direção do autor, que teve que arcar com todo seu peso. A polia pesava cerca de 80 kg mais ou menos. No momento do - 3 -
acidente o autor já reclamou de dores nas costas. Como as dores não passavam, o autor iniciou um tratamento médico, sob a supervisão da empresa ré. Me lembro que o autor, chegava inclusive, a tomar algumas injeções durante o trabalho. Já fazia um ano que eu trabalhava com o autor quando aconteceu o acidente. O autor nunca reclamou de dores nas costas ou na coluna antes do acidente.. (folha 207). Valdir Luis Adão confirmou:... Não presenciei o acidente sofrido pelo autor. Trabalhava com ele e no dia do acidente quando cheguei na empresa, vi que o autor estava no consultório médico. O autor reclamava de dores nas costas e disse que uma peça muito pesada tinha caído sobre ele. As dores não passaram e o autor teve que se submeter a um tratamento médico sob a supervisão da empresa. Todavia, o autor continuou trabalhando normalmente e chegava, inclusive, a tomar injeções durante a sua jornada de trabalho... (folha 208). A sentença enfrentou com propriedade os pontos controvertidos e deu solução escorreita à pretensão deduzida em Juízo. Não merece censura.... O fato está provado e a culpa da empresa demonstrada, uma vez que as testemunhas, assim como o autor, indicaram a necessidade da utilização de uma empilhadeira, o que não se deu na espécie. Responde a empregadora por culpa in eligendo, quando seu empregado, superior hierárquico do autor, determinou que se realizasse o trabalho sem a utilização do maquinário necessário. Ademais a negligência em não ter em funcionamento uma máquina empilhadeira para fazer os serviços que tais, não deu outra alternativa ao funcionário que deu a ordem, para que não ficasse parada a máquina objeto do conserto. Aquele que causa o dano culposamente fica obrigado a indenizar, é o que prevê o art. 159, do Código Civil... (folha 224). Distingue-se, para que não haja eventual dúvida, Ação de Prestações por Acidente de Trabalho da ação de responsabilidade civil de reparação de danos. Naquela o órgão estatal, o Instituto de Seguro Social INSS, segurador obrigatório é o responsável pela concessão e - 4 -
manutenção do benefício acidentário ao segurado, em face do fundo da contribuição obrigatória a esse fim estabelecida. Nesta, há necessidade de culpa, conforme diretriz atual da Constituição Federal, para que a empresa seja considerada culpada. O exame dos elementos constantes do processo deixa evidente a comprovação formal da culpa in eligendo da empresa. A indenização pelo direito comum, em caso de acidente do trabalho, está assegurada pela norma do artigo 7 0, inciso XXVIII, da Constituição Federal de 1988, independente da reparação obtida pelo seguro acidentário a cargo do INSS. Trata-se de obrigação atinente ao empregador quando incorrer em dolo ou culpa. Pelo enunciado da Súmula n 0 229 do Colendo Supremo Tribunal Federal, exigia-se para a indenização a caracterização de culpa grave. Esse entendimento, que já havia sido alterado desde a revogação do Decreto-lei n 0 7.036/44, vindo a simplificar-se para culpa, sem a necessária adjetivação agravante por força do dispositivo constitucional. O princípio geral da responsabilidade civil aponta para o dever de indenizar, sempre que presentes os elementos caracterizadores do ato ilícito. Os pleitos alternativos da Apelante não merecem acolhida porque não foi apresentada justificativa apta para se modificar o que constou da sentença. Mera insurgência despida de fundamento jurídico. recurso. Em face ao exposto, nega-se provimento ao IRINEU PEDROTTI Revisor - 5 -