Em ritmo chinês A arquiteta Mariana Gerotto, de 26 anos, mudou-se para a Vila Andrade, na Zona Sul, em 2000, mas só recentemente descobriu ser esse o nome do bairro. Apesar de ele estar gravado nas placas das principais ruas, até quem vive ali se confunde. A maioria diz morar no Morumbi, o bairro vizinho. Ou recorre a títulos conferidos pelo mercado imobiliário ao lotear suas colinas, como Panamby e Jardim Sul, mais sonoros e atraentes. Hoje, Mariana já se habituou a conviver com as diferentes nomenclaturas. O que ainda a surpreende são as transformações no cenário. "Algumas lojas viraram megastores, as padarias ficaram gigantes, e as academias se multiplicaram", diz a arquiteta. Tudo isso tem uma razão: a recente demanda gerada por uma gigantesca onda migratória. Na última década, a população da Vila Andrade cresceu 72% - quase dez vezes mais que a paulistana, que ficou 7,8% maior entre 2000 e 2010. Nenhuma outra região de São Paulo cresceu tanto no mesmo período. Apenas no último ano, foram lançados 2.669 apartamentos ali, o bastante para colocar o bairro no topo de outro ranking: o de novos empreendimentos. Já apelidado de Novo Morumbi, o bairro se desenvolveu ao redor do Shopping Jardim Sul, da Avenida Giovanni Gronchi e do Parque Burle Marx. Além de novas lojas e de unidades das grandes redes de academias e supermercados, o bairro tem entre seus chamarizes alguns dos principais colégios de São Paulo, como Porto Seguro, Nossa Senhora do Morumbi e a americana Graded. Prefeitura e governo do estado também têm planos para o local. Entre os investimentos previstos para os próximos anos está a construção de uma nova ponte sobre o Rio Pinheiros,junto ao Parque Burle Marx, e a implementação de três estações da futura linha 17-0uro do Metrô, operada em sistema de monotrilho, que ligará o Aeroporto de Congonhas à Estação São Paulo- Morumbi da linha 4-Amarela (já em construção na Avenida Francisco Morato). Se até 2005 a infraestrutura da Vila Andrade ainda era capenga em comércio e serviços, hoje o local se consolida como um dos mais atraentes custos-beneficios da cidade, superando o bairro vizinho. "O Morumbi está saturado. Quando isso acontece em um bairro tradicional, é comum as incorporadoras se deslocarem para áreas adjacentes", diz João Crestana, presidente do Secovi-SP, sindicato das empresas do setor imobiliário. A oferta de terrenos ainda vagos - e com preços menores que os do centro expandido - é um dos atrativos da região. Outro fator é a outorga onerosa, instrumento administrativo que permite à construtora edificar mais apartamentos em um terreno que, com metragem idêntica, comportaria menos unidades se estivesse em um bairro mais adensado. Com essa ferramenta, é possível diluir os custos da obra em mais compradores, o que resulta em lucro maior - e, quase sempre, preços mais acessíveis.
Enquanto o preço do metro quadrado no Itaim Bibi gira hoje em torno de R$ 14 mil, segundo tabela formulada pela Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp), o valor médio na Vila Andrade é de R$ 5,7 mil. "Os clientes são convencidos pela possibilidade de comprar um apartamento mais espaçoso pagando menos", diz Fátima Rodrigues, diretora da imobiliária Coelho da Fonseca. Para eles, nem a distância do Centro ou a proximidade de Paraisópolis - a segunda maior favela paulistana - funcionam como desestímulos. "Apesar de morar ao lado do trabalho e almoçar em casa todos os dias, optei por me mudar para um prédio do outro lado do rio para ter um apartamento mais amplo, com varanda e área de lazer", diz o engenheiro civil Dalmar Vitor Vinciprova, de 58 anos. Morador de Cerquei-ra César, ele acaba de adquirir uma unidade de 200 metros quadrados no condomínio Tasty, lançado pela Tecnisa no Panamby. À procura do imóvel, o engenheiro visitou alguns estandes em Pinheiros, onde diz ter encontrado preços em média 35% mais altos. O resultado: ele e a mulher assinaram contrato e deverão assistir à Copa de 2014 na Vila Andrade. Versátil, o distrito tem atraído diferentes públicos. Apenas 700 metros separam, por exemplo, o canteiro de obras do Edificio Anauá (um empreendimento da Gafisa com bosque privativo e apartamentos de 440 metros quadrados) e o estande do Edificio On, recém-lançado pela Abyara, com unidades de 72 metros quadrados. Outra novidade de médio padrão é o Soul, lançado em março pela Camargo Corrêa Desenvolvimento Imobiliário (CCDI), no qual a maior planta tem 66 metros quadrados. A CCDI, aliás, lidera o processo de verticalização do distrito junto com a Marques, ambas com quatro lançamentos no ano passado. Dona de um grande lote adjacente ao Shopping Jardim Sul, a CCDI foi responsável por urbanizar parte do bairro no início dos anos 2000 e já ergueu mais de 20 torres desde então. Dos 2.669 apartamentos lançados em 2010, um terço saiu de suas pranchetas - entre eles as 200 unidades residenciais das duas torres do condomínio Pinot Nair, lançado em abril do ano passado, e as 400 do In, lançado em dezembro, também com duas torres. Na fotografia que abre essa reportagem, dá para ver outras obras da Camargo Corrêa, como os edificios Malbec, Merlot e Chardonnay, ainda à meia altura, no único terreno ainda arborizado, à direita da imagem. Ao fundo, o skyline formado pelas torres pioneiras, erguidas no início da década. "Ê tanta gente nova por aqui que nossa rua agora tem engarrafamento", diz o representante de vendas Marcus Parisi, de 51 anos, dono da sacada de onde foi feita a foto - e autor da imagem menor, tirada quando ele e a mulher se mudaram para lá, em 2005. Se o trânsito é um efeito colateral do crescimento do bairro, Parisi deve se sentir recompensado pela valorização do imóvel e pelas melhorias na infraestrutura local. E estar preparado para receber novos vizinhos: a onda migratória não vai esmorecer tão cedo. SP