CERIMÔNIAS DO FAZER FOTOGRÁFICO
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- Manuel Cabreira César
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1 134 CERIMÔNIAS DO FAZER FOTOGRÁFICO A imagem não é simplesmente um suplemento da alma, dispensável, mas ao contrário, ela está no próprio âmago da criação. Ela é verdadeiramente uma forma formante, certamente do indivíduo: a imagem de si, mas igualmente de todo o conjunto social que se estrutura graças e pelas imagens que ele se dá, e que deve rememorar regularmente (MAFFESOLI, 1995, p.115). Barthes aponta que todas as fotografias do mundo formam um labirinto, onde os homens deveriam buscar sua Ariadne. A partir daí saber se salvar da banalidade pela singularidade de uma emoção que só pertence a si, ao se conectar com uma imagem realmente essencial. (1984, p.109) Este é olhar que como fotógrafa busco nesse labirinto de águas mitológicas, o olhar das imagens essenciais. Imagens que constituam uma poética visual que transmita sensações, percepções, mistérios, perguntas, devaneios, desejos profundos, sintonia com as profundezas abissais do oceano desconhecido e com a energia misteriosa e plural desta alma feminina que se revela em muitas facetas, como mãe, como sensualidade, como vaidade, como tentação ou como serenidade apaziguante, às vezes mulher, às vezes sereia. Na seqüência de fotografias que irei apresentar em seguida, denominada de Imagens Imaginantes, selecionei as que me remetem a sensações, as que me levem a perguntar em que momento a imagem fotográfica significa outra coisa e faz sonhar? Em que momento ela movimenta os elementos da foto e os entrega às funções da imaginação? Nestas imagens, elementos de linguagem incluem aspectos transcendentes, onde os elementos físicos da imagem trazem uma nova significação, um novo sentido. São imagens que falam em outras dimensões imagens imaginantes; imagens poéticas, que correspondam às minhas imagens internas essenciais e que são capazes de estabelecer vínculos e relações livres e criativas com os elementos da realidade fotografada-compreendida.
2 135 Na visão de Sônia Rangel a imagem funciona como um grande operator que faz livres conexões, extrapola o simbólico, vai além do psicológico, para aproximarse do jogo como invenção, itermediação entre conhecido e desconhecido no devir da poética (2006, p. 311). Para Susan Sontag, a fotografia não explica nada da realidade, pois ela é uma mensagem, ao mesmo tempo, transparente e misteriosa. A fotografia é um segredo do segredo, observou a fotógrafa Daine Arbus (SONTAG,1981, p.107). Ao olhar fotográfico então, caberiam indagações e não explicações e à criação fotográfica a fabula e a imaginação. As narrativas visuais constituem uma forma diversa de pensar. O fotógrafo Lewis Hine no final do séc.xix, já declarava: Se eu pudesse narrar com palavras, não necessitaria arrastar uma câmara atrás de mim. Imagens mostram a exterioridade de fenômenos intersubjetivos que se concretizam em formas. Expressam percepções, saberes, afetos e complexos processos de criação. Para o filósofo Vilém Flusser, o fator decisivo no deciframento de imagens é tratar-se de planos. Ao vaguear pela superfície, o olhar vai estabelecendo relações temporais entre os elementos. O olhar reconstitui a dimensão do tempo. O vaguear do olhar é circular: tende a contemplar elementos já vistos. Assim o antes se torna depois, e o depois se torna antes. (FLUSSER, 1985 p.14). Imagens evocam multiplicidade de sentidos, portanto este deciframento sempre será múltiplo, será a descoberta de que imagens agregam numerosos pontos de vista equivalentes. A leitura múltipla das imagens é equivalente à leitura múltipla que a realidade ofereceu ao fotógrafo ao fotografar. Leituras de imagens não se traduzem em palavras, mas em imagens. Para leituras de imagens se requer pensar visualmente, articulando imagens em níveis de abstração que ultrapassem a imaginação. O pensamento visual precisa ser curto-circuitado pela emoção e funciona como um cristal que filtra aspectos, formas imagens traçando configurações e abstrações que estruturam a compreensão visual (MEIRA, 2003, p. 134). Luigi Pareyson coloca que a obra de arte se deixa reconhecer como tal, somente para quem souber fazê-la viver de sua vida própria. Para ele a interpretação é infinita, passível de releitura, revisão e aprofundamento, havendo sempre um novo contexto que vai desmentir, limitar, corrigir. A obra é vista como um
3 136 organismo vivo, inteiro e enigmático, por onde por qualquer detalhe pode se entrar e interpretar. Para o escritor Alberto Manguel, as imagens possuem vida infinita e inesgotável, portanto, nenhuma narrativa suscitada por uma imagem é definitiva ou exclusiva (2001, p.29). Quando tentamos ler imagens encontramos uma vastidão de interpretações múltiplas. Leituras críticas acompanham imagens desde o início dos tempos, mas nunca assimilam efetivamente as imagens. Para ele, cada obra de arte se expande mediante incontáveis camadas de leituras, mediante a ação do leitor. Quando lemos imagens, atribuímos a elas o caráter temporal da narrativa, portanto, Manguel questiona a possibilidade desta leitura e a possibilidade de se estabelecer um sistema coerente para leitura de imagens, similar àquele criado para a leitura da escrita. No texto escrito, o significado dos signos é estabelecido antes da criação, através de um código lingüístico. Para a leitura de imagens, este código é estabelecido após a imagem se constituir, em processos de imaginar, atribuir ou mesmo inventar significados.
4 Imagens Imaginantes 137
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