POBREZA INFANTIL E DISPARIDADES

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1 POBREZA INFANTIL E DISPARIDADES EM MOÇAMBIQUE 2010 Nações Unidas Moçambique

2 A reprodução de qualquer parte desta publicação não carece de autorização, excepto para fins comerciais. Exige-se, no entanto, a identicação da fonte. UNICEF, Maputo, Moçambique, 2011

3 AGRADECIMENTOS O estudo Pobreza Infantil e Disparidades em Moçambique 2010 é uma iniciativa conjunta das Nações Unidas em Moçambique. Longo foi o processo de pesquisa e redacção para a elaboração do relatório, e muitas foram as pessoas que nele participaram. Embora demasiadas para mencionarmos cada uma delas em particular, queremos manifestar a nossa gratidão pelo seu forte empenho e dedicação para com as crianças de Moçambique. À equipe da Secção de Política Social, Planificação, Informação e Monitoria (SPPIM) da Representação do UNICEF Moçambique coube a principal responsabilidade de coordenação e redacção do relatório. Realizou a pesquisa Brendan Kelly, em estreita colaboração com as secções da Representação do UNICEF Moçambique, que preparou os documentos preliminares de base para os capítulos temáticos. O relatório beneficiou enormemente das generosas contribuições e orientação intelectual de um Comité Director multissectorial composto pelo Governo (MPD, MISAU, MINED, MMAS, MINJUS, INE e CNCS), a Sociedade Civil (Fórum Mulher, FDC, Aliança Save the Children, Rede da Criança e Grupo 20); Organizações Bilaterais (DFID, Banco Mundial e Embaixada da Suíça) e as Nações Unidas (ONUSIDA e UNICEF). Pelos seus proveitosos comentários e contributos, agradecemos especialmente a Carlo Azzari (Banco Mundial), Gabriel Dava (PNUD), Baiba Gaile (PNUD), Isabel Kreisler (PNUD), Pierre Martel, Wim Ulens (UE), Bridget Walker (Ajuda Irlandesa), Karin Metell (Embaixada da Suécia), António Nucifora (Banco Mundial) e Zainul Sajan Virgi (Universidade McGill). Pela sua liderança e visão no desenvolvimento de todo o relatório, Leila Gharagozloo-Pakkala, que desempenhou a função de Representante do UNICEF Moçambique em fases cruciais da preparação deste estudo, merece também o nosso agradecimento especial.

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5 Prefácio O estudo Pobreza Infantil e Disparidades em Moçambique 2010 constitui uma oportunidade para se inventariarem os progressos alcançados na materialização dos direitos dos dez milhões de crianças moçambicanas desde o estudo A Pobreza na Infância em Moçambique: Uma Análise da Situação e das Tendências e os imensos desafios que persistem para os próximos anos. O Governo de Moçambique demonstrou o seu empenho na realização dos direitos das crianças moçambicanas ao ratificar, em 1994, a Convenção sobre os Direitos da Criança. Os direitos e necessidades das crianças são distintos dos direitos e necessidades dos adultos uma vez que enfrentar pobreza e privação quando se é ainda uma criança afecta, ao longo de toda a vida, a saúde, a produtividade e a capacidade de criar uma família e viver uma vida feliz. Sendo assim, é preciso que se invista hoje para garantir uma próxima geração de moçambicanos produtiva, saudável e realizada. Nos últimos seis anos a pobreza estagnou em Moçambique. Mais de metade da população, o que inclui mais crianças do que adultos, continua a viver com menos de meio dólar americano por dia. Um surpreendente número de crianças têm baixa altura para a idade sofrem de desnutrição crónica, cujos efeitos são irreversíveis. O número de crianças com acesso a água potável tem vindo a diminuir, sendo ainda inferior o de crianças com acesso a saneamento básico. A não satisfação dessas necessidades básicas das crianças torna-as mais fáceis vítimas das quatro principais causas de mortalidade infantil: malária, problemas neonatais, infecções respiratórias agudas e SIDA. Dada a grande desigualdade com que deparam no acesso a serviços já de si escassos, as meninas, os órfãos, as crianças portadoras de deficiência e a viver em áreas rurais e as famílias mais pobres encontramse em situação de vulnerabilidade ainda maior. Não quer isto dizer que nos últimos anos não se tenham registado progressos. A pobreza absoluta, medida pela privação de necessidades e serviços básicos, diminuiu significativamente em Moçambique, com mais crianças tendo acesso a serviços básicos como a saúde e a educação, como resultado directo do empenho do Governo nesse domínio. Nunca é de mais referir a importância da educação, pois uma mãe instruída é um factor determinante na saúde e bem-estar dos seus filhos. Eliminar a disparidade geográfica é igualmente crucial, pois as crianças das províncias do centro e do norte, como a Zambézia, estão a ser deixadas para trás, com mais baixas dotações orçamentais e a correspondente inacessibilidade aos serviços de que tanto necessitam para se equipararem às suas congéneres do sul. Restam-nos apenas quatro anos para 2015, a meta dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM). Não obstante ser cada vez mais evidente a improbabilidade de Moçambique alcançar todos esses objectivos, os próximos quatro anos são uma oportunidade para se ampliarem as intervenções visando reduzir o fardo resultante da pobreza, da fome, da mortalidade infantil, da desigualdade de género e das doenças que muitas crianças continuam a enfrentar. Cada meta dos ODM que vier a ser alcançada dever-se-á a esforços concertados e colaboração entre o Governo de Moçambique, a família das NU, a comunidade de doadores, a sociedade civil e o povo moçambicano. Os últimos anos têm demonstrado que se pode investir para melhorar a vida das crianças em Moçambique. Chegou a hora de se redobrarem esses esforços para que cada criança e cada moçambicano possam ansiar por uma vida longa, saudável, feliz e gratificante. Coordenadora Residente do Sistema das Nações Unidas, Jennifer Topping

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7 Índice Lista de figuras... XVII Lista de Tabelas... XVII Siglas... XIX Mapa de Moçambique... XXII Sumário Executivo... XXIII CAPÍTULO 1: POBREZA EM MOÇAMBIQUE 1. Introdução Medindo a pobreza Pobreza baseada no consumo Medidas de pobreza baseada em privações Comparação entre a medida de pobreza baseada em privações e a medida baseada no consumo Análise por privação Privação severa de educação nas crianças Privação severa de nutrição nas crianças Privação severa de água nas crianças Privação severa de saneamento nas crianças Privação severa de saúde nas crianças Privação severa de abrigo nas crianças Privação severa de informação nas crianças Conclusões Referências CAPÍTULO 2: O CONTEXTO DE DESENVOLVIMENTO 1. Introdução Transição para a paz, democracia e economia de mercado Tendências demográficas Crescimento económico e estabilidade macroeconómica Objectivois de Desenvolvimento do Milénio O processo de descentralização em Moçambique Análise das políticas e institucional Políticas e mecanismos de planificação Monitorização e avaliação Quadro legal para apoiar a realização dos direitos da criança VII

8 4. Ajuda externa ao desenvolvimento Coordenação da assistência internacional ao desenvolvimento Análise das implicações para as crianças Conclusões Referências CAPÍTULO 3: SOBREVIVÊNCIA E DESENVOLVIMENTO INFANTIL 1. Introdução Saúde e nutrição Sobrevivência infantil Nutrição infantil Sobrevivência, saúde e nutrição materna Doenças da infância Malária Infecções respiratórias agudas Doenças diarreicas Cólera Doenças preveníveis por vacinação e imunização HIV e SIDA Financiamento e alocação orçamental ao sector da saúde Água e saneamento Quadro Institucional Programa Nacional de Abastecimento de Água e Saneamento Rural Abastecimento de água Saneamento Sustentabilidade das infra-estruturas de ASH Água e saneamento nas escolas Financiamento do sector e dotações orçamentais Conclusões Referências VIII

9 CAPÍTULO 4: A EDUCAÇÃO E O DIREITO DAS CRIANÇAS AO DESENVOLVIMENTO 1. Introdução A actual situação e recentes tendências no sector da educação O sistema de educação em Moçambique Crianças na escola Crianças fora da escola Atrasos no início da escolarização Conclusão do ensino primário e transição para o ensino secundário Progressão pelas classes Equidade na Educação Alfabetização Ensino superior Barreiras à participação na educação Custos directos com a educação Custos de oportunidade para as comunidades Impacto de tradições e da cultura no direito das crianças à educação Impacto da violência e do abuso nas escolas Qualidade de ensino Infra-estruturas escolares Disponibilidade de professores Formação pré-docência e formação contínua de professores Gestão escolar Falta de enfoque em saúde escolar Impacto da língua nos resultados educacionais Outras questões no sector da educação Estratégia de habilidades para a vida visando combater a SIDA Participação das crianças Educação para crianças com necessidades especiais Financiamento e alocação orçamental do sector da educação Programa Apoio Directo às Escolas Conclusões Referências IX

10 CAPÍTULO 5: PROTECÇÃO DA CRIANÇA 1. Introdução Reforma legislativa e das políticas Violência, abuso e exploração Violência e abuso sexual nas escolas A violência doméstica Exploração e abuso sexual comercial Tráfico de crianças e migração Trabalho infantil Casamento infantil As crianças e o sector da justiça Acesso das crianças a propriedade e herança Registo de nascimento Crianças portadoras de deficiência Mecanismos de cuidados alternativos Crianças órfãs e vulneráveis e outras crianças marginalizadas Protecção Social Básica Atestados de Pobreza Análise de capacidade Parcerias da sociedade civil Financiamento do sector e dotações orçamentais Conclusões Referências CAPÍTULO 6: QUESTÕES TRANSVERSAIS 1. Introdução Género Aspectos de género da pobreza em Moçambique Desenvolvimento ajustado ao género e empoderamento com base em género Disparidades de género Questões de género na educação Violência, abuso e exploração Sistemas de Linhagem HIV e género Conclusões X

11 3. Disparidades geográficas Disparidades nas dotações orçamentais Disparidades na saúde Disparidades no acesso à educação Disparidades na protecção da criança Conclusões HIV e SIDA Perfil da epidemia do HIV em Moçambique Acções prioritárias em prol das crianças no âmbito do HIV e da SIDA P1 Prevenção primária P2 Prevenção da transmissão vertical do HIV P3 SIDA Pediátrica P4 Proteger as crianças órfãs e vulneráveis afectadas pela SIDA Nutrição e HIV Conclusões Questões ambientais e mudança climática Questões ambientais em Moçambique O desenvolvimento sustentável em Moçambique O impacto da degradação ambiental e das situações de emergência nas crianças em Moçambique O contexto institucional Conclusões Comunicação para o Desenvolvimento Desenvolvimento dos órgãos de comunicação social em Moçambique O papel de mudança dos media: comunicação para o desenvolvimento e mobilização da comunidade Iniciativas promissoras nos media moçambicanos Redes e parcerias amigas da criança Privação de informação Conclusões Referências BIBLIOGRAFIA XI

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13 Lista de Figuras Figura 1.1: Percentagem de crianças com duas ou mais privações severas, 2003 e Figura 1.2: Percentagem de crianças que sofrem privações, 2003 e Figura 1.3: Figura 1.4: Percentagem de crianças com duas ou mais privações severas por província, 2003 e Pobreza baseada em privações comparada com pobreza baseada no consumo nas crianças, 2008, percentagem Figura 1.5: Níveis de privação severa de educação por província, 2003 e Figura 1.6: Privação nutricional severa nas crianças, por província, 2003 e Figura 1.7: Privação severa de água por quintil de riqueza, Figura 1.8: Privação severa de saneamento nas crianças, por província, Figura 1.9: Níveis de privação severa de saúde por província, 2003 e Figura 1.10: Privação severa de abrigo por quintil de riqueza, Figura 2.1: Instrumentos de Planificação em Moçambique Figura 3.1: Taxas de mortalidade em Moçambique por nados vivos, de 2003 e 2008 (média dos cinco anos precedentes ao inquérito) Figura 3.2: Figura 3.3: Figura 3.4: Taxas de mortalidade infantil por nados vivos em Moçambique, de 2003 e 2008 (média dos cinco anos que antecederam a pesquisa) Parcela de agregados familiares situados a menos de 45 minutos a pé de uma unidade de cuidados de saúde primários, 2002/03 e 2008/09 (percentagem) Probabilidade de sobrevivência das crianças (0-17 anos) nos últimos 12 meses, por nível de escolaridade do chefe de família, Figura 3.5: Causas da mortalidade infantil em Moçambique, Figura 3.6: Taxas de desnutrição crónica por país, Figura 3.7: Figura 3.8: Figura 3.9: Taxas de desnutrição (moderada) em crianças menores de cinco anos, 2003 e Percentagem de baixo peso para a altura em crianças menores de cinco anos por província, Percentagem de baixo peso em crianças menores de cinco anos, por província, Figura 3.10: Percentagem de desnutrição crónica (baixa altura para a idade) em crianças menores de cinco anos, por província, Figura 3.11: O quadro conceptual da desnutrição Desnutrição infantil, morte e deficiência XIII

14 Figura 3.12: Percentagem de crianças com amamentação exclusiva: dados de diferentes grupos etários, 1997, 2003 e Figure 3.13: Amamentação exclusiva em crianças com menos de 12 meses, 1997, 2003 e Figura 3.14: Padrões alimentares de crianças menores de um ano de idade, Figura 3.15: Crianças com 6-11 meses alimentadas com leite materno e alimentos complementares pelo menos três vezes por dia, por província, Figura 3.16: Uso de sal iodado por província, Figura 3.17: Uso de sal iodado por quintil de riqueza de Figura 3.18: Cobertura da suplementação com vitamina A, 2003 e Figura 3.19: Continuum de cuidados de saúde materna e neonatal Figura 3.20: Mulheres atendidas pelo menos uma vez por pessoal de saúde qualificado durante a gravidez, 1997, 2003 e Figura 3.21: Percentagem de mulheres que beneficiaram de cuidados pré-natais e deram à luz em unidades sanitárias, por quintil de riqueza, Figura 3.22: Percentagem de crianças que receberam tratamento adequado para malária, 2003 e Figura 3.23: Prevalência de infecções respiratórias agudas, por província, em Figura 3.24: Percentagem de crianças menores de cinco anos que recebem tratamento adequado para infecções respiratórias agudas por província, Figura 3.25: Vacinação de crianças de meses por antígeno, em 1997, 2003 e Figura 3.26: Dotações per capita para a saúde por província (meticais), Figura 3.27: Dotações para o sector da saúde, CFMP Figura 3.28: Percentagem de agregados familiares com acesso a água potável, 2004 e Figura 3.29: Uso de fonte de água melhorada por província, Figura 3.30: Tempo médio gasto para se chegar a uma fonte de água (em minutos), Figura 3.31: Probabilidade de acesso a fonte de água melhorada, por classificação de riqueza Figura 3.32: Acesso a saneamento seguro por localização geográfica, 2004 e Figura 3.33: Acesso a instalações sanitárias melhoradas, Figura 3.34: Probabilidade de acesso a fonte de saneamento melhorado XIV

15 Figura 4.1: Taxas líquidas de frequência, 2003 e Figure 4.2: Probabilidade de não frequentar a escola primária, Figura 4.3: Figura 4.4: Figura 4.6: Figura 4.8: Percentagem de crianças de 6-12 e anos fora da escola, por sexo, local de residência e condições socioeconómicas, Distribuição da população de acordo com a idade de entrada na escola, Percentagem dos que entram na primeira classe que chegam à última classe do ensino primário, por características seleccionadas de riqueza, 2003 e Rácios líquidos de frequência no ensino secundário por quintil de riqueza, 2003 e Figura 4.9: Taxas de alfabetização em mulheres de anos por quintil de riqueza, Figura 4.10: Casamentos infantis e raparigas fora da escola secundária por província, Figura 4.11: Resultados dos alunos em leitura, 2000 e Figura 4.12: Resultados dos alunos em matemática, 2000 e Figura 4.13: Rácio professor-aluno, Figura 4.14: Dotação orçamental para a educação em milhões de meticais, 2009 e Figura 5.1: Figura 5.2: Figura 5.3: Figura 5.4: Figura 5.5 Percentagem de mulheres de anos que acham que um marido pode bater na sua esposa, por motivo específico, Percentagem de mulheres (15-49 anos) que acreditam que bater na esposa se justifica em determinadas circunstâncias, Probabilidade de aceitação da violência doméstica pelas mulheres, Percentagem de crianças de 5-14 anos que estão envolvidas em trabalho infantil, por província e sexo, Prevalência de trabalho infantil por nível de escolaridade da mãe, Figura 5.6: Trabalho infantil e frequência escolar, por área geográfica, Figura 5.7: Mulheres de anos que se casaram antes dos 15 e dos 18 anos, 2003 e Figura 5.8: Razões para não registar os nascimentos, Figura 5.9: Percentagem de crianças com menos de cinco anos com registo de nascimento, por província, Figura 5.10: Percentagem de crianças (2-9 anos) com pelo menos uma deficiência relatada, XV

16 Figura 5.11: Percentagem de crianças órfãs e vulneráveis devido à SIDA, Figura 6.1: Figura 6.2: Figura 6.3: Percentagem de agregados familiares chefiados por homens por quintil de riqueza, 2002, 2005 e IDG baseado em diferentes métodos de determinação da diferença salarial, Despesa per capita combinada para saúde, educação e justiça, 2005, 2006 e Figura 6.4: Despesa de saúde per capita, percentagem da média nacional, Figura 6.5: Despesa per capita na saúde (2008) e sobrevivência da criança ( ) Figura 6.6: Prevalência de HIV por província, Figura 6.7: Percentagem de mulheres que receberam informação sobre o HIV e fizeram teste em consultas de cuidados pré-natais, Figura 6.8: Despesa per capita na educação, percentagem da média nacional, Figura 6.9: Despesa per capita na Educação e taxas de alfabetização, Figura 6.10: Rácio líquido de escolarização no ensino primário (EP1 & EP2) por província, Figura 6.11: Percentagem de mulheres com anos casadas ou em união antes completarem os 15 anos, Figura 6.12: Distribuição de novas infecções por modo de exposição em Moçambique, Figura 6.13: Incidência e prevalência de HIV estimada por região em Moçambique, Figura 6.14: Identificação de concepções erróneas sobre o HIV, mulheres de anos, Figura 6.15: Probabilidade de não uso de preservativo em relação sexual, mulheres de anos, Figura 6.16: Tendências na cobertura de PTV entre 2002 e Figura 6.17: Testagem e aconselhamento em consultas pré-natais, 2003 e Figura 6.18: Testagem e aconselhamento de HIV em consultas pré-natais, por quintil de riqueza, Figura 6.19: Partos assistidos, 1997, 2003 e Figura 6.20: Cascata de PTV pré-natal e pós-natal, Figura 6.21: Número estimado de crianças com menos de 15 anos vivendo com HIV, menores de 5 vivendo com HIV, número de novas infecções em menores de 15, e número de crianças com menos de 15 anos a necessitar de tratamento/terapia anti-retroviral, Figura 6.22: Custo da degradação ambiental por ano, XVI

17 Lista de Tabelas Tabela 1.1: Privação em Moçambique, Tabela 2.1: Indicadores Económicos, Tabela 2.2: Evolução rumo aos ODM Tabela 2.3: Financiamento interno e externo no Orçamento do Estado, (pressupondo um crescimento do PIB de 6,1 por cento) Tabela 3.1: Regressão linear multivariável de todas as variáveis explicativas relevantes sobre o Z-score do indicador altura/idade (height-for-health Z-zcore) em crianças menores de cinco anos incluídas no MICS, excluindo a classificação da riqueza, Tabela 3.2: Casos de cólera em Moçambique, Tabela 3.3: Análise comparativa das dotações para a saúde, 2007 e Tabela 3.4: Número de alunos matriculados, por sexo, em cinco distritos de Escolas Amigas da Criança, Tabela 3.5: Financiamento do sector da água como percentagem do orçamento do estado, , anos seleccionados Tabela 4.1: Relação professor-aluno por província, Tabela 5.1: Transferências de dinheiro projectadas para agregados familiares chefiados por idosos, portadores de deficiência e doentes crónicos, Tabela 5.2: Transferências de dinheiro para famílias com crianças órfãs e vulneráveis, Tabela 6.1: Scorecard para a resposta do Governo de Moçambique à SIDA numa perspectiva de género Tabela 6.2: Percentagem de crianças que enfrentam duas ou mais privações severas, 2003 e Tabela 6.3: Metas relativas ao HIV pediátrico, Tabela 6.4: Estratégias para fazer face a dificuldades usadas anualmente na época seca no Moçambique rural, 2009, percentagem XVII

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19 Siglas ADE ADE-COV ADPP AIDI AIDNI AIM AMCOW APE ASH AZT C-AIDI C-AIDNI C-IMCI C-IMNCI C4D CEDAW CLTS CMC COV DNA DNRN DPI DPT EFA-FTI EP1 EP2 EPC EPE EPF ESG1 ESG2 FASE FORCOM FRELIMO Apoio Directo às Escolas Apoio Directo às Escolas - Crianças Órfãs e Vulneráveis Ajuda de Desenvolvimento de Povo para Povo Atenção Integrada às Doenças da Infância Atenção Integrada às Doenças Neonatais e da Infância Agência de Informação de Moçambique African Ministers Council on Water (Conselho de Ministros Africanos da Água) Agente Polivalente Elementar de Saúde Água, Saneamento e Higiene Zidovudine Atenção Comunitária Integrada às Doenças da Infância Atenção Comunitária Integrada às Doenças Neonatais e da InfânciaINCM Community-Integrated Management of Childhood Ilness (Atenção Comunitária Integrada às Doenças da Infância) Community-Integrated Management of Neonatal and Childhood Ilness (Atenção Comunitária Integrada às Doenças Neonatais e da Infância) Comunicação para o Desenvolvimento Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres Community Led Total Sanitation (Saneamento Total Liderado pela Comunidade) Centro Multimédia Comunitário Crianças Órfãs e Vulneráveis Direcção Nacional de Águas Direcção Nacional dos Registos e Notariado Desenvolvimento na Primeira Infância Difteria-Tosse convulsa-tétano Educação para Todos Fast Track Initiative Ensino Primário do Primeiro Grau Ensino Primário do Segundo Grau Ensino Primário Completo Escolas Primárias Expandidas Escola de Professores do Futuro Ensino Secundário Geral do Primeiro Grau Ensino Secundário Geral do Segundo Grau Fundo de Apoio ao Sector Educação Fórum Nacional de Rádios Comunitárias Frente de Libertação de Moçambique XIX

20 GABINFO HAART HIV IAF ICS IDG IDS IFP Gabinete de Informação Hihgly Active Antiretroviral Therapy (terapia antiretroviral altamente activa) Vírus de Imunodeficiência Humana Inquérito aos Agregados Familiares Instituto de Comunicação Social Índice de Desenvolvimento Ajustado ao Género Inquérito Demográfico e de Saúde Instituto de Formação dos Professores IFTRAB Inquérito Integrado à Força de Trabalho (2004/05) INGC INSIDA IOF IPAJ IPG IRA LOLE MICOA MICS MINED MMAS MPG NVP ODM OIM OMS PACOV PAP PARP Instituto Nacional de Gestão de Calamidades Inquérito Nacional de Prevalência. Riscos Comportamentais e Informação sobre o HIV e SIDA em Moçambique Instituto Nacional das Comunicações de Moçambique Inquérito sobre o Orçamento Familiar Instituto do Patrocínio e Assistência Jurídica Índice de Paridade de Género Infecção Respiratória Aguda Lei dos Órgãos Locais do Estado Ministério da Coordenação da Acção Ambiental Inquérito de Indicadores Múltiplos Ministério da Educação Ministério da Mulher e da Acção Social Medida de Participação segundo o Género Nevirapina Objectivos de Desenvolvimento do Milénio Organização Internacional para as Migrações Organização Mundial de Saúde Plano de Acção para Crianças Órfãs e Vulneráveis Parceiros de Apoio Programático Plano de Acção para a Redução da Pobreza PARPA I Plano de Acção para a Redução da Pobreza Absoluta ( ) PARPA II Plano de Acção para a Redução da Pobreza Absoluta ( ) PASD PES PESA-ASR PIB PIDOM PRONASAR Programa de Apoio Social Directo Plano Económico e Social Plano Estratégico de Abastecimento de Água e Saneamento Rural Produto Interno Bruto Pulverização Residual Intra-domiciliar Programa Nacional de Abastecimento de Água e Saneamento Rural XX

21 PSA PTV QFMP QUIBB RCP RED RENAMO RM RMM RMTILD SACMEQ SANTOLIC SETSAN SISTAFE TIC TVM UEM UP ZIP Programa de Subsídio de Alimentos Prevenção da Transmissão Vertical Quadro Fiscal de Médio Prazo Questionário de Indicadores Básicos de Bem-Estar Reacção em cadeia da polimerase Reaching Each District (Atingir Cada distrito) Resistência Nacional Moçambicana Rádio Moçambique Rácio de Mortalidade Materna Redes Mosquiteiras Tratadas com Insecticida de Longa Duração Southern and Eastern Africa Consortium for Monitoring Education Quality (Consórcio da África Austral e Oriental para a Monitorização da Qualidade Educacional) Saneamento Total Liderado pela Comunidade Secretariado Técnico de Segurança Alimentar e Nutricional Sistema de Administração Financeira do Estado Tecnologia de Informação e Comunicação Televisão de Moçambique Universidade Eduardo Mondlane Universidade Pedagógica Zona de Influência Pedagógica XXI

22 XXII Maputo Cidade Namaacha Boane Marracuene Magude Bilene Xai-Xai Chibabava Báruè Mutarara Tete Moma Mocimboa da praia Nipepe Metarica Cuamba Mecanhelas Mandimba Maua Muembe Mavago Mecula Marrupa Majune N gauma Lichinga Sanga Lago Quissanga Muidumbe Meluco Macomia Mueda Nangade Palma Pemba Ancuabe Montepuez Balama Namuno Chiure Mecuti Mossuril Ilha Monapo Nacala-a-Velha Nacaroa Memba Erati Muecate Mecuburi Lalaua Malema Ribaue Nampula Morrupula Mogovolas Mogincual Angoche Gile Alto Molocue Gurue Namarroi Ile Milange Lugela Pebane Morrumbala Mocuba Maganja da costa Namacurra Quelimane Cap Nicuadala Mopeia Inhassunge Chinde Moatize Tsangano Angonia Chiuta Chifunde Macanga Maravia Zumbu Magoe Cahora Bassa Changara Tambara Guro Macossa Manica Gondola Sussundenga Mossurize Machaze Chemba Caia Maringue Marromeu Cheringoma Gorongosa Muanza Nhamatanda Dondo Beira Buzi Machanga Govuro Inhassoro Mabote Vilankulo Massinga Funhalouro Morrumbene Maxixe Homoine Panda Jangamo Inharrime Zavala Massangena Chicualacuala Chigubo Mabalane Massingir Guijá Chibuto Chokwe Mandlakazi Xai-Xai Cap Manhiça Moamba Matutuíne Niassa Cabo Delgado Nampula Zambezia Canal de Moçambique Tete Manica ZIMBABWE ZÂMBIA MALAWI TANZÂNIA SWAZILÂNDIA ÁFRICA DO SUL Sofala Inhambane Maputo Gaza Mapa de Moçambique

23 SUMÁRIO EXECUTIVO Sumário Executivo A pobreza vivida na infância tem efeitos imediatos e de longo prazo nas crianças. Desnutrição crónica, por exemplo, nos dois primeiros anos de vida pode influenciar permanentemente o crescimento da criança, resultando em baixa altura para a idade e reduzido desenvolvimento mental. O impacto da pobreza intergeracional na infância e sua natureza cíclica também é evidenciado pelo comprovado papel da pobreza como obstáculo ao acesso a serviços sociais. As famílias pobres têm mais dificuldade em aceder a cuidados de saúde de qualidade, menor probabilidade de ter os seus filhos na escola e também menor probabilidade de aceder a água potável e instalações sanitárias adequadas. É elevado o risco que as crianças pobres correm de crescer para se tornarem adultos pobres e, por sua vez, terem filhos também pobres. Em 2008/2009, 12 milhões dos cerca de 21,5 milhões de pessoas em Moçambique, ou seja, 55 por cento da população, vivia abaixo da linha de pobreza de 18,4 meticais (cerca de meio dólar americano) por dia. Comparativamente a 2002/03, a taxa de pobreza estagnou. Outros indicadores baseados no consumo incluem a quantidade de calorias consumidas diariamente. Mais de metade das crianças moçambicanas consomem diariamente calorias abaixo do considerado adequado pela Organização Mundial de Saúde. No entanto, entre 2002 e 2008 as taxas de pobreza baseada no consumo estagnaram, principalmente devido a falta de progressos no sector agrícola. Moçambique tem registado, nos últimos anos, grandes progressos na redução da pobreza na infância baseada em privações e no aumento do acesso a serviços essenciais. O nível do rendimento familiar não nos dá uma imagem completa da saúde e bemestar da criança. A abordagem baseada em privações, centrada nas necessidades básicas e principais serviços públicos de que a criança está privada, permite uma compreensão mais multidimensional da pobreza. Recorrendo a esse indicador, 48 por cento das crianças moçambicanas vivem em situação de pobreza absoluta - medida por uma metodologia baseada em privações decaindo-se assim dos 59 por cento registados em A redução deveuse a significativas alterações nos sectores de saúde e educação. As crianças são particularmente vulneráveis a privações de água, saneamento e informação. Sobrevivência e Desenvolvimento Infantil A pobreza e a sobrevivência infantil estão intrinsecamente ligadas. Baixos níveis de sobrevivência infantil e estado de saúde deficiente são, simultaneamente, causa e sintoma de pobreza. O principal indicador utilizado para medir o nível de bem-estar da criança e sua taxa de mudança num país é a taxa de mortalidade de menores de cinco anos, que desceu de 153 mortes por nascidos vivos em 2003 para 141 em A taxa de mortalidade de menores de cinco anos resulta de uma ampla gama de factores, nomeadamente estado nutricional e conhecimento das mães sobre a saúde, práticas relativas aos cuidados a dar, disponibilidade, uso e qualidade dos serviços de saúde materno-infantil, rendimento e disponibilidade de alimentos na família, disponibilidade de água limpa e saneamento seguro, e segurança global do ambiente da criança. Embora continue a haver disparidade, foram feitas melhorias na taxa de mortalidade de menores de cinco pelas áreas rurais. A malária, causas neonatais, infecções respiratórias agudas e a SIDA são as quatro principais causas imediatas de mortalidade nas crianças em Moçambique. A desnutrição é a principal causa subjacente. A baixa altura para a idade (ou desnutrição crónica) permanece muito elevada - 44 por cento XXIII

24 POBREZA INFANTIL E DISPARIDADES EM MOÇAMBIQUE 2010 das crianças menores de 5 anos têm baixa altura para a idade, um decréscimo de apenas 4 pontos percentuais desde A baixa altura para a idade afecta a criança, mas está também intimamente ligado ao desenvolvimento global do país, uma vez que a desnutrição afecta o desenvolvimento cognitivo e tem relação com os resultados educacionais futuros. A prevalência de malária (causa de um terço das mortes em crianças menores de cinco anos de idade) alterou-se muito pouco nos últimos anos. Em 2007, a prevalência global era de 51 por cento da população. Apesar das significativas melhorias, continuou a ser baixo o acesso a medicamentos antimaláricos; pouco mais de um terço das crianças com febre recebem tratamento, o que reflecte baixa consciência e procura de tratamento pelos encarregados de cuidar das crianças e baixo acesso a serviços de saúde. Infecções Respiratórias Agudas (IRA) são mais uma das principais causas de morbilidade e mortalidade nas crianças em Moçambique, sendo a pneumonia a infecção mais grave. Há uma grande disparidade entre a percentagem de crianças que recebem tratamento para IRA. As que vivem em áreas urbanas, as das famílias mais ricas e as crianças cujas mães são instruídas têm muito mais probabilidade de receber tratamento para sintomas de IRA. Água insalubre, saneamento precário e higiene inadequada também contribuem para a mortalidade e morbilidade infantil. Água, saneamento e higiene estão intimamente ligados a desnutrição infantil. O acesso a água potável tem também um efeito significativo sobre as taxas de pobreza por aumentar o tempo que as famílias (em particular as mulheres e meninas) podem despender em actividades mais produtivas. O acesso a água potável e saneamento básico continua a ser baixo, situando-se em 43 e 19 por cento dos agregados familiares, respectivamente. É elevado o nível de desigualdades geográficas no que respeita a acesso a água potável e saneamento. Educação Uma população instruída é um dos requisitos fundamentais para uma ampla redução da pobreza. Moçambique teve, ao longo da sua história, um sistema educativo extremamente limitado. Apesar das significativas melhorias alcançadas, continuam a ser enormes os desafios no sector. Estão agora a frequentar a escola primária cerca de 3,3 dos 4,1 milhões de crianças de Moçambique com idades compreendidas entre os 6 e os 12 anos. As taxas líquidas de escolarização no ensino primário têm aumentado drasticamente. Foram também registadas melhorias em termos de paridade de género, mas justificase um foco contínuo sobre esta área uma vez que continuam a ficar fora do sistema educativo mais meninas do que rapazes. Foram reduzidas disparidades de longa data no sector. Se bem que as crianças urbanas e mais ricas ainda tenham mais probabilidade de participar no sistema educativo do que as suas congéneres rurais e mais pobres, foi nos dois últimos grupos que se registou um melhoramento mais significativo. Estar acima da idade na escola é um fenómeno generalizado em Moçambique. Embora as crianças tendam a entrar para a escola mais cedo nos últimos anos, é mais provável que as de anos de idade ainda se encontrem a frequentar o ensino primário do que o ensino secundário. O fenómeno acima da idade no ensino básico tem significativas implicações para os resultados de aprendizagem das crianças, uma vez que é ministrado o mesmo currículo a alunos de diferentes idades e níveis de desenvolvimento cognitivo. É generalizado o fenómeno do choque de acesso. O aumento maciço do número de alunos tem colocado enorme pressão sobre o sistema de ensino, com efeitos danosos na qualidade de ensino. Dados recentes indicam que nos últimos anos as competências de leitura e aritmética das crianças moçambicanas se têm deteriorado. É necessário que se registem melhorias no XXIV

25 SUMÁRIO EXECUTIVO número e na qualidade dos professores, nas infra-estruturas escolares e na protecção das crianças contra a violência física e sexual para se conseguir elevar o acesso e a qualidade, e para que o acesso se traduza em resultados de desenvolvimento. Protecção da criança Uma protecção efectiva da criança assegura que as mais vulneráveis sejam protegidas de práticas prejudiciais e não fiquem marginalizadas na redução da pobreza. Abuso e exploração sexual, tráfico, trabalho infantil, violência, deficiência, casamento infantil, entre outros, são questões a tratar no âmbito da protecção das crianças em Moçambique. Sistemas nacionais eficazes de protecção da criança têm como ponto de partida a existência de leis, políticas e regulamentos que visem defender os direitos da criança. Importantes progressos foram feitos nessas áreas nos últimos anos, mas continuam a existir muitos desafios. A violência contra as mulheres e crianças tem devastadoras consequências para a saúde física e mental a curto e longo prazo. A violência física e sexual é comum, chegando a 54 por cento as mulheres que foram espancadas e 23 por cento as submetidas a alguma forma de abuso sexual. É também muito comum nas escolas o abuso sexual cometido contra alunas. Um baixo nível de conhecimento, por parte das vítimas, dos seus direitos e, simultaneamente, uma cultura de silêncio e aceitação da violência são o principal obstáculo à resolução o problema. O trabalho infantil é outra forma comum e grave de abuso e exploração em Moçambique. As crianças trabalhadoras são muitas vezes acrescidamente exploradas com más condições de trabalho, incluindo abuso verbal e sexual, e salários pagos com atraso ou, inclusivamente, não pagos. Reduzir a carga de trabalho sobre as crianças depende tanto da aplicação de regulamentação laboral eficaz contra o trabalho infantil como de garantir às crianças e suas famílias, especialmente às mais pobres e mais vulneráveis, os benefícios resultantes da redução da pobreza. Os casamentos prematuros podem ter graves implicações para a saúde das meninas. Gravidez e parto na adolescência estão associados a problemas de saúde e fracos resultados nutricionais tanto da mãe como dos filhos. Mais de metade das raparigas moçambicanas casam-se antes dos 18 anos de idade. O casamento infantil é mais comum na região norte de Moçambique. O registo de nascimento tem impactos sobre a pobreza uma vez que possibilita às crianças um maior acesso a serviços sociais. Moçambique tem aumentado significativamente, em todo o país, o acesso a serviços de registo de nascimento, que, no entanto, continua baixo. A percentagem de crianças menores de cinco anos com registo de nascimento aumentou de 8 por cento em 2003 para 31 por cento em Estima-se existirem 1,8 milhões de órfãos em Moçambique, dos quais devido à SIDA, número este que deverá crescer nos próximos anos. As crianças órfãs podem enfrentar uma ampla gama de ameaças à sua protecção. Têm maior probabilidade do que os não órfãos de ter uma iniciação sexual precoce, sendo também mais propensos que os não órfãos a casar jovens. Embora a capacidade dos sistemas de justiça na prevenção e combate às diferentes formas de violência, abuso e exploração tenha sido reforçada, a resposta global continua a ser fragmentada, reactiva, fraca e insuficientemente financiada. É também necessário que se aperfeiçoem os mecanismos de recolha de dados, monitoria e apresentação de relatórios a todos os níveis. Questões transversais Em Moçambique, as mulheres têm maior probabilidade que os homens de viver em situação de pobreza. Em 2007, Moçambique, classificou-se, entre 155 países, na 145a posição no índice de desenvolvimento XXV

26 POBREZA INFANTIL E DISPARIDADES EM MOÇAMBIQUE 2010 ajustado ao género baseado na esperança de vida, educação, alfabetização e PIB per capita, o que reflecte os desafios sociais, económicos e culturais enfrentados pelas mulheres. As mulheres são mais propensas que homens a participar na força de trabalho, mas têm menor acesso à educação, menos oportunidades de emprego formal, menor renda e menos oportunidade de diversificar os seus rendimentos. Estudantes do sexo feminino enfrentam barreiras de acesso à educação, incluindo abuso sexual nas escolas e casamento prematuro. Existem desigualdades entre as províncias em todas as áreas, tendo as crianças das províncias do norte e do centro menor acesso aos serviços de saúde, educação, água, saneamento e protecção. Províncias como a Zambézia têm mais baixas dotações orçamentais, menos serviços e menores resultados de desenvolvimento humano em termos de sobrevivência e mortalidade infantil. As províncias do sul têm maior prevalência de HIV/SIDA, bem como, de forma correspondente, mais elevados resultados nos serviços de saúde e tratamento. O HIV e a SIDA afectam a pobreza das famílias, incapacitando os que trabalham para as sustentar e elevando o nível de dependência na população. Através dos seus efeitos sobre o número de professores formados, profissionais de saúde e outros prestadores de serviços, a SIDA tem também impacto sobre a futura geração de capital humano. O Inquérito Nacional sobre o HIV/SIDA 2009 (INSIDA) mostra uma prevalência nacional de HIV no grupo etário de anos de idade de 11,5 por cento. Os resultados desagregados por região confirmaram a maior prevalência no sul, seguindo-se a zona centro. A prevalência do HIV é significativamente mais elevada nas áreas urbanas do que nas áreas rurais em todas as regiões e entre as mulheres, especialmente entre as jovens. Há, contudo, alguma evidência de que a incidência do HIV tem vindo a diminuir. Os dados indicam também uma tendência global positiva no conhecimento e consciência da transmissão do HIV e sua prevenção. Situações de emergência como as secas e inundações, por exemplo, têm graves impactos sobre o bem-estar das crianças. A vulnerabilidade das crianças aumenta em situações de emergência, uma vez que elas ficam com menos acesso a serviços de saúde, ao mesmo tempo que aumentam as doenças transmitidas pela água, como a cólera. Há rotura na educação e na rotina, e as crianças têm menos protecção contra a exploração, por exemplo, contra o abuso sexual e sexo para sobrevivência. As emergências, paralelamente às vulnerabilidades que agravam, podem intensificar-se pois a mudança climática faz aumentar a ocorrência de ciclones no país. Há também factores ambientais relacionados com as principais causas de mortalidade infantil, como a malária e infecções respiratórias agudas. Degradação ambiental significa aumento de poluição, stress hídrico, desflorestação e degradação do solo, que se traduzem em pressão nas necessidades básicas de saúde e segurança alimentar das crianças. Comunicação e fortes órgãos de comunicação social são fundamentais para todos os cidadãos, inclusive crianças, terem uma palavra a dizer nas questões que afectam as suas vidas. São ainda uma forma de transmitir informações vitais para os pais em matéria de educação, saúde e questões de protecção, por exemplo, como proteger os seus filhos da malária ou quais os efeitos nocivos do abuso cometido contra crianças. Uma comunicação inovadora para estratégias de desenvolvimento, incluindo a Rádio Criança para Criança e Unidades Móveis Multimédia têm um enorme potencial para envolver mais pessoas, principalmente jovens, em actividades educativas, diálogo e debate públicos. XXVI

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