Henrique Honigsztejn*
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- Vergílio Caldeira Figueiredo
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1 Henrique Honigsztejn Henrique Honigsztejn* Pela extensão que a resposta à pergunta acima implica, limitar-me-ei a explorar alguns pontos sugerindo que se vá adiante, assim como venho sendo estimulado a ir, entre outros, as observações de Freud em Sobre Psicoterapia (1904): ao fazer a distinção entre psicoterapia e psicanálise, ele as compara à pintura e à escultura, ocorrendo na primeira, per via di porre (acrescenta-se algo onde nada existe), e a segunda, per via di levare (faz-se emergir o que jaz oculto). Esta última seria a via da psicanálise, que não põe algo no paciente, mas lhe vai retirando, para que o encoberto se revele, surgindo assim o ser que chegou à análise encoberto por defesas, distorções. Para que o analista possa, durante anos e anos, exercer sua condição per via di levare, ele tem de ter em si a confiança de que, ao final do processo, um ser humano emergirá; ou melhor, ele já inicia o processo visualizando esse ser. E Freud (1905, p. 276) expressa isso nas seguintes linhas, em Tratamento Psíquico (ou Anímico), de 1905: Tem extremo direito a nosso interesse o estado anímico da expectativa, por meio do qual pode ser mobilizada uma série de forças anímicas de suma eficácia para a instauração e a cura das doenças físicas. Após algumas linhas sobre a expectativa angustiada, ele escreve: O estado * Membro Efetivo em Função Didática da SBPRJ.
2 inverso a expectativa confiante e esperançosa é uma força atuante com que temos de contar, a rigor, em todas as nossas tentativas de tratamento e cura. Freud refere-se em todo o artigo ao que o paciente espera do médico, e a extensão dessa expectativa ao médico eu a fiz, mas não me afastando tanto do autor, que mais uma vez cito: A expectativa confiante [...] depende [...] de sua confiança em ter dado o passo certo para isso, ou seja, de seu respeito pela arte médica em geral; depende ainda do poder que ele atribui à pessoa do médico, e até mesmo da simpatia puramente humana que este desperta nele. Há médicos cuja capacidade de conquistar a confiança dos doentes tem um grau mais elevado que em outros; nesses casos é freqüente o enfermo já sentir um alívio ao ver o médico entrar em seu quarto. (FREUD, , v. 7, 1904, p. 279) Estou tentando colocar o foco de um microscópio sobre a dinâmica do encontro entre duas pessoas, e acredito que a abordagem do encontro médico terapeuta-paciente é adequada, colocando em destaque o anseio de cura (de encontro); a expectativa confiante de um e de outro; o respeito e o amor do terapeuta em relação a seu paciente, vislumbrando o ser humano naquele que lhe aparece à frente como o irrealizado, e o cortejo de adjetivos correlatos; a satisfação narcísica criativa de exercer seu poder a serviço de alguém, e não o uso maligno de cobrir suas deficiências, usando o paciente como prótese. Na busca de manter o foco, recorro a Winnicott (1960) para entender o que possibilita a expectativa confiante ou o que amplia a confiança. Cito, pois, o artigo True and False Self (Em Processos Maturacionais e o Ambiente Facilitador), examinando o estágio das primeiras relações com o objeto: Nesse estágio, o bebê está, na maior parte do tempo, não-integrado, e nunca plenamente integrado; [...] Periodicamente o gesto do bebê dá expressão a um impulso espontâneo; a fonte do gesto é o verdadeiro
3 Self, o gesto indica a existência de um verdadeiro Self potencial...eu liguei aqui a idéia de um verdadeiro Self com o gesto espontâneo. (Tradução nossa). Henrique Honigsztejn A mãe suficientemente boa (good-enough) encontra a onipotência do bebê [expressa pelo gesto] e de algum modo dá a ela um sentido. Ela faz isso repetidamente. Um verdadeiro Self começa a ter vida através da força dada ao ego frágil do bebê pela implementação dada pela mãe às expressões onipotentes do bebê. (Tradução nossa). Continuo com tradução livre: Sendo a adaptação da mãe suficientemente boa, o bebê começa a acreditar na realidade externa, aparecendo e se comportando magicamente (pela adaptação bem-sucedida da mãe aos gestos e necessidades do bebê). A espontaneidade do verdadeiro Self se ligou com os eventos do mundo à volta, dando ao bebê a ilusão de criação e controle onipotente. (Tradução nossa). Com a experiência de onipotência, banhado pela sensação de ser seu criador, e nisso firmando a ilusão de criar ou controlar o ambiente, esse ser lança-se ao mundo, ao encontro. É um ser que criou, usando a expressão de Winnicott, a condição de belief in, e que se alia a algo que, no entender do autor, é o mais forte elemento herdado pelo ser humano: o impulso à integração, para possibilitar o sentimento Eu Sou. Só compreendendo e visualizando a inter-relação do que é herdado com o ambiente que fornece as condições necessárias para a sua realidade, que se pode falar em Ser e não correr o perigo de nos perdermos em palavras vãs. No encontro de dois seres circularão experiência de onipotência, ilusão, confiança (resultantes das primeiras), impulso à integração. Quero destacar algo: as pulsões do Id buscam a descarga, e nela e na tensão prévia experimentam o prazer, ao fim surgindo alívio e lamento por um prazer já passado, enquanto as pulsões do Ego buscariam a expansão, possibilitando a experiência chamada por
4 Winnicott de orgasmo do ego que se experimenta em uma sala de concerto, na leitura de um livro, enfim, na área cultural. A experiência de expansão é, a meu ver, a expressão da circulação do impulso à integração, e creio que esse impulso não será diferente da energia chamada por Freud (1996, v. 19, cap. IV, p. 58) de sublimada, e que ele iguala à libido dessexualizada, a qual reteria a finalidade principal de Eros a de unir e ligar, na medida em que auxilia no sentido de estabelecer a unidade, ou a tendência à unidade, que é particularmente característica do ego. Freud conclui esse parágrafo com algo altamente estimulador: Se os processos de pensamento, no sentido mais amplo, devem ser incluídos entre esses deslocamentos, então a atividade de pensar é também suprida pela sublimação de forças motivadoras eróticas (FREUD, 1996, v. 19, cap. IV, p. 58). Freud, em várias ocasiões, referiu que não é para todos a possibilidade de sublimar. Seria uma marca constitucional. Penso que juntamente ao constitucional está a presença da mãe suficientemente boa (WINNICOTT) ou a que recompõe para o bebê o útero psíquico, retomando a continuidade intra e extra-uterina (Freud, em Inibição, Sintoma e Angústia ), possibilitando a calma, a espera, o admitir que no futuro algo virá, pois há um registro do que já veio, possibilitando satisfação. A sublimação não seria um substituto de um prazer maior renunciado, mas ela mesma possibilitaria o prazer do fluir, da espera confiante, da ilusão vivenciada. A sublimação é possível quando a espera é possível. É a segurança de que algo virá e será bom não necessariamente o que de início se quis. A espera é calma; e as urgências se despreza. O prazer dessa calma se irradia ao que vem. A calma que permite a não-urgência; o não-poder exercitado quando ocorre a ameaça de um outro sempre prestes a faltar; a delicadeza, o tato. Volto a colocar o foco na relação analítica: a atenção flutuante e a associação livre são uma colocação em prática do tato humano. Encerro com duas citações de um autor descoberto por mim há pouco, Ernest Bloch, em O Princípio Esperança. Percebo que a citação de um trecho resulta de eu tê-lo experimentado como a thing of beauty is a joy for
5 ever, misto de vivência de expansão e ganho de sentido. Espero que elas se juntem para os leitores como as senti com tudo o expresso anteriormente: Henrique Honigsztejn O mundo está, antes, repleto de disposição para algo, tendência para algo, latência de algo, e o algo assim intencionado significa plenificação do que é intencionado... Essa tendência, porém, está em curso para aquele que justamente tem o novum diante de si. É somente no novum que o para-onde do real mostra a determinação mais fundamental do seu objeto, e esta convoca o ser humano, em quem o novum tem os seus braços [...] (BLOCH, 2005, p. 28). [...] se o vago anseio se transforma em desejo pleno de conteúdos ao imaginar seu objeto, da mesma forma o mundo dos afetos é regido pelo amor a algo, pela esperança de algo, pela alegria trazida por algo. De qualquer maneira, nem existiriam aversões ou anseios sem esse algo exterior que os provoca (Ibid., p. 73). A partir dessas linhas, sintetizo as páginas anteriores: além das conclusões finais. O bebê, que saiu da condição de mero descarregador de tensões para, pelo encontro com o objeto que o atendeu, um ser que se unificou, passando a ter a condição de desejar, isto é, de dirigir-se a um objeto determinado com a condição de poder esperá-lo (calma), sai do repetitivo e pode encontrar o novum, pois o objeto tem a chance de lhe aparecer em suas nuances, e ele tem a condição de encontrá-lo em sua condição de expansão: ele é, a cada momento, novo. Se não há o revestimento unificador e tonificador da onipotência primária e da ilusão, o indivíduo está defrontado com o nãoeu, que se qualifica como apavorante o próprio eu é assustador, parecendo sempre pronto a se fragmentar. Um recurso é a procura da geração de ódio, que passa a ser o tonificador do precário Self, mas a um alto preço: a falta de espontaneidade, de alegria, do fluir, substituídas por espasmos, e a
6 relação humana se resume a quem aprisiona quem, quem domina quem esse quem podendo melhor ser expresso por que coisa. BLOCH, E. Princípio: esperança. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, FREUD, S. (1905). Tratamento psíquico (ou anímico). In:. Standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, v. VII.. (1904). Sobre Psicoterapia. In:. Standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, v. VII.. (1923). O Ego e o Id. In:. Standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, v. XIX. WINNICOTT, D. W. Ego distortion in terms of true and false self. In:. The maturational processes and the faciliting environment. Richmond: The Hogarth Press, 1965.
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