Capítulo 0: Conjuntos, funções, relações
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- Aurélio Lopes Cesário
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1 Capítulo 0: Conjuntos, funções, relações Notação. Usaremos Nat para representar o conjunto dos números naturais; Int para representar o conjunto dos números inteiros. Para cada n Nat, [n] representa o conjunto dos naturais menores ou iguais a n: [n] = { i Nat 0 < i n }. Este conjunto [n] é às vezes representado por {1, 2,, n}, convencionando-se que nos casos especiais n = 0 e n = 1, essa notação indica, respectivamente, o conjunto vazio e o conjunto unitário {1}. Produto Cartesiano. O produto cartesiano de dois conjuntos A e B é o conjunto A B de pares ordenados de elementos de A e B: A B = { (x, y) x A e y B }. Esse conceito pode ser estendido, usando n-tuplas, para definir o produto cartesiano de n conjuntos: A 1 A 2 A n = { (x 1, x 2, x n ) para cada i [n], x i A i } Podemos definir potências de um conjunto, a partir da definição de produto Cartesiano: A n = A A A (n vezes) = { (x 1, x 2, x n ) para i [n], x i A}. Naturalmente, A 1 = A. Exemplo: Sejam A = { a, b, c }, B = { d, e }. Então, A B = { (a, d), (a, e), (b, d), (b, e), (c, d), (c, e) } B A = { (d, a), (d, b), (d, c), (e, a), (e, b), (e, c) } A 1 = A = { a, b, c } A 2 = A A = { a, b, c } { a, b, c } = = { (a, a), (a, b), (a, c), (b, a), (b, b), (b, c), (c, a), (c, b), (c, c) } Relações. Podemos agora definir relação: dados n conjuntos A 1, A 2,, A n, uma relação em A 1, A 2,, A n é um conjunto qualquer de tuplas de elementos de A 1, A 2,, A n. Portanto, usando a definição acima, R é uma relação em A 1, A 2,, A n se R A 1 A 2 A n. Um caso especial que será muito importante no que se segue é o caso n=2, com A 1 =A 2 =A. R é uma relação binária em um conjunto A, se R A A. J.L.Rangel - Ling. Formais - 0-1
2 Funções. Outro caso especial é o das funções: uma relação f em A B, ou seja, um conjunto f A B, é uma função, com domínio A e codomínio B, se para cada x A existe em f um único y B tal que (x, y) f. Essa unicidade pode também ser expressa por (x, y) f e (x, z) f implicam em y = z. Naturalmente, esse valor único de y que f faz corresponder a x é indicado pela notação habitual f(x), e podemos escrever também f: x a y. Escrevemos f: A B, para indicar que f é uma função com domínio A e codomínio B. Definimos o contradomínio de f: A B como sendo o conjunto { y B ( x A) (f(x) = y) }. Exemplo: Se considerarmos o conjunto Int dos números inteiros, e a função suc: Int Int que a cada valor em Int associa seu sucessor, poderemos escrever ou ou ainda para cada i Int, suc(i) = i + 1, suc: i a i + 1 suc = {, (-2, -1), (-1, 0), (0, 1), (1, 2), } Injeção, sobrejeção, bijeção. Dizemos que uma função f: A B é uma injeção se para cada b B existe no máximo um a A tal que f(a) = b; dizemos que f: A B é uma sobrejeção se para cada b B existe no mínimo um a A tal que f(a) = b; dizemos que f é uma bijeção se f é ao mesmo tempo, uma injeção e uma sobrejeção. No caso de sobrejeções (e bijeções), codomínio e contradomínio são iguais. Alternativamente, podemos falar em funções injetoras, sobrejetoras ou "sobre", e bijetoras. Conjuntos enumeráveis. Um conjunto A é enumerável se é vazio, ou se existe uma função sobrejetora f: Nat Α. O nome enumerável se deve ao fato de que, se A não é vazio, a sequência f(0), f(1), f(2), f(3), é uma lista infinita da qual fazem parte todos os elementos de A, ou seja, uma enumeração de A. Em particular, como não estão proibidas repetições em uma enumeração, temos: Fato: Todos os conjunto finitos são enumeráveis. Dem.: Exercício. J.L.Rangel - Ling. Formais - 0-2
3 No que se segue, estaremos interessados principalmente em conjuntos enumeráveis infinitos. Neste caso, podemos usar uma numeração, em vez de uma enumeração. Por numeração entendemos aqui uma função como a função g mencionada na propriedade abaixo, que associa a cada elemento de A um número natural distinto. Fato: Um conjunto infinito é enumerável, se e somente se existe uma função injetora g: A Nat. Dem. ( ) Seja A um conjunto enumerável infinito. Pela definição, existe uma função sobrejetora f: Nat A. Podemos definir a injeção g:a Nat fazendo, para cada a A, g(a) ser igual ao menor valor de i tal que f(i) = a. Assim, a função g é definida para qualquer valor de a, porque f é sobrejetora. Além disso, g é injetora, porque, pela própria definição, g(a) = g(b) implica em f(g(a)) = f(g(b)). ( ) Seja A um conjunto tal que existe uma injeção g:a Nat. Uma vez que A não é vazio, seja q um elemento qualquer de A. Defina agora a sobrejeção f: Nat A por a, se existir um a tal que g(a) = i f(i) = q, se não existir Note que f é bem definida para todos os valores de i, porque g é uma injeção, e, para cada i, pode haver, no máximo, um a tal que g(a) = i; f é uma sobrejeção, porque g é definida para todos os elementos de A. Fato: Um conjunto infinito A é enumerável se e somente se existe uma bijeção f: A Nat. Dem.: Exercício. Fato: Entre dois conjuntos infinitos enumeráveis A e B existe sempre uma bijeção f: A B. Dem.: Exercício. Exemplo: O conjunto Nat é enumerável. Basta tomar f como sendo a função identidade I: Nat Nat, que é, claramente, uma bijeção. Exemplo: O conjunto Nat 2 = Nat Nat de pares de números naturais é enumerável. Podemos fazer a caracterização de diversas maneiras: 1. através da injeção g:nat 2 Nat definida por g( (i,j) ) = 2 i 3 j. Esta numeração dos pares de inteiros é às vezes chamada de numeração de Goedel. Esse processo pode ser estendido a potências superiores de Nat. Por exemplo, podemos associar à tripla (i, j, k) o número 2 i 3 j 5 k. Para n-uplas, poderiam ser usados como bases os primeiros n números primos. 2. definindo diretamente a ordem de enumeração: repita para cada k = 0, 1, 2, enumere os pares (i, j) tais que i+j = k, na ordem crescente de i: (0, k), (1, k-1),, (k-1, 1), (k, 0). J.L.Rangel - Ling. Formais - 0-3
4 Isso corresponde a (0, 0), (0, 1), (1, 0), (0, 2), (1, 1), (2, 0), (0, 3) ou seja, a uma sobrejeção f: Nat Nat dada por f(0) = (0,0), f(1) = (0,1), f(2) = (1,0), f(3) = (0,2), Exemplo: O conjunto Int dos inteiros é enumerável. Basta usar uma enumeração como 0, -1, +1, -2, +2, -3, +3, Teorema: O conjunto P(Nat) dos subconjuntos de Nat não é um conjunto enumerável. Dem.: por "diagonalização". Uma vez que a definição de conjunto enumerável se baseia na existência de uma função com certas propriedades, devemos mostrar que tal função não existe, e a demonstração será feita por contradição (ou redução ao absurdo). Suponhamos que o conjunto P(Nat) é enumerável. Isto significa que existe uma enumeração de P(Nat), ou seja uma sobrejeção f: Nat P(Nat). Assim, para cada elemento A de P(Nat) (um conjunto A de naturais), existe um número i tal que f(i) = A. Vamos considerar o conjunto X definido a seguir: X = { j Nat j f(j) } Como X é um conjunto de naturais, X P(Nat). Entretanto, veremos que X não faz parte da enumeração acima. Seja k qualquer. Duas possibilidades podem ocorrer: ou k f(k), e neste caso k X, ou k f(k), e neste caso k X. Em qualquer das possibilidades, portanto, os conjuntos X e f(k) diferem em pelo menos um elemento. Assim, X f(k) para todos os k. Desta forma, X não faz parte da enumeração definida por f, caracterizando-se a contradição. Consequentemente, P(Nat) não é enumerável. Esta técnica de demonstração recebeu o nome de diagonalização. Representamos um conjunto A Nat por uma sequência infinita de 0's e 1's: se i A, o i-ésimo símbolo da sequência será 1; caso contrário, será 0. Assim, se fizéssemos uma tabela infinita com uma linha correspondendo a cada conjunto f(k), k Nat, o conjunto X seria definido invertendo o que se encontra na diagonal da tabela: se na posição (i,i) se encontra um 1, indicando que i f(i), na linha correspondente a X teríamos um 0 na i-ésima coluna, indicando que i X, e (vice-versa) se na posição i,i se encontra um 0, indicando que i f(i), na linha correspondente a X teríamos um 1 na i-ésima coluna, indicando que i X. Desta forma, podemos ver que, para qualquer i, f(i) X. Para isso, basta notar que i pertence a exatamente um dos dois conjuntos f(i) e X. Portanto, qualquer que fosse a enumeração de P(Nat), X não pertenceria a ela. J.L.Rangel - Ling. Formais - 0-4
5 Esta técnica será usada neste curso em diversas ocasiões para demonstrações semelhantes à anterior; foi usada por Cantor, para mostrar que a cardinalidade de um conjunto P(A) é sempre superior à cardinalidade de A. O mesmo vale aqui: a cardinalidade de todos os conjuntos enumeráveis infinitos A é a mesma, equivalente à de Nat, mas a cardinalidade dos conjuntos potência P(A) é superior à de Nat, sendo equivalente à de P(Nat). Falando informalmente, "todo conjunto enumerável tem o mesmo número de elementos que Nat." "há mais elementos em P(Nat) do que em Nat." "para qualquer conjunto A enumerável, P(A) tem o mesmo número de elementos que P(Nat)." Fato: Se um conjunto A é enumerável, e se B é um subconjunto de A, B também é enumerável. Dem. Exercício. Exercícios: (1) Mostre que, se A e B são conjuntos enumeráveis, então A B também é enumerável. Sugestão: se A e B são enumeráveis, existem numerações n A : A Nat e n B : B Nat; seja então g: Nat 2 Nat a mesma numeração de Nat 2 vista anteriormente; considere então a função n: A B Nat definida por n( (a, b) ) = g(n A (a), n B (b)). (2) Uma das definições possíveis para par ordenado é a seguinte: definimos o par ordenado (a, b) como sendo o conjunto {{a, b}, {a}}. Mostre que, com esta definição, vale a propriedade fundamental: (a, b) = (c, d) se e somente se a=c e b=d. (3) Podemos definir uma tripla (ou 3-tupla) a partir da definição de par ordenado: (a, b, c) = ((a, b), c). Isto corresponde a definir Nat 3 como Nat 2 Nat. Mostre que com esta definição, vale a propriedade fundamental: (a, b, c) = (d, e, f) se e somente se (a=d) e (b=e) e (d=f). (4) Para definir uma numeração dos elementos de Nat, podemos usar as funções F 1 e F 2 definidas a seguir: F 1 ( (i,j,k) ) = 2 i 3 j 5 k F 2 ( (i,j,k) ) = g( (i, g( (j,k) ) ) ), onde g é a função definida anteriormente: g( (i,j) ) = 2 i 3 j. Experimente calcular F 1 ( (5, 5, 5) ) e F 2 ( (5, 5, 5) ). Relações binárias. Quando tratamos de relações binárias, normalmente usamos uma notação mais simples para indicar que (x, y) é um elemento de uma relação binária R em J.L.Rangel - Ling. Formais - 0-5
6 A: escrevemos apenas x R y. Essa notação é semelhante à usada para relações comuns, como as relações de ordem <,, etc.: não escrevemos (x, y), mas, mais simplesmente, x y. Vamos a seguir introduzir algumas propriedades de relações binárias. Seja R uma relação binária em um conjunto A (R A 2 ). Então dizemos que R é reflexiva se para qualquer x A, x R x; R é simétrica se, para quaisquer x, y A, x R y implica y R x. R é transitiva se, para quaisquer x, y, z A, x R y e y R z implicam em x R z. Exemplos: As relações <,, =, são relações binárias definidas no conjunto Nat, e tem as propriedades indicadas a seguir: reflexiva simétrica transitiva < não não sim sim não sim = sim sim sim não sim não Equivalência. Uma relação R é uma relação de equivalência (ou simplesmente uma equivalência) se é reflexiva, simétrica, e transitiva. Exemplo: A relação = no conjunto Nat é uma relação de equivalência; outros exemplos de relações de equivalência são as relações de paralelismo entre retas, de semelhança de triângulos, de congruência módulo n. (Dois naturais x e y são congruentes módulo n se o resto da divisão de x por n é igual ao resto da divisão de y por n.) Composição de relações: definimos a composição de relações da forma a seguir: se R A B e S B C são relações, definimos a relação R S A C, a composição de R e S, por R S = { (x, z) A C y B, (x, y) R e (y, z) S }. Se as relações R e S são funções, a composição R S se reduz exatamente à composição de funções: se (x, y) R e (y, z) S, temos y = R(x), z = S(y) = S(R(x)), e portanto (R S)(x) = S(R(x)), como era de se esperar 1. Exemplo: Sejam as relações R = { (1, 2), (1, 3), (1, 4), (2, 3), (2, 4), (3, 4) } S = { (2, 1), (3, 2), (4, 3) } Temos: R S = { (1, 1), (1, 2), (1, 3), (2, 2), (2, 3), (3, 3) } S R = { (2, 2), (2, 3), (2, 4), (3, 3), (3, 4), (4, 4) } 1 Alguns autores preferem a ordem inversa: (R S)(x) = R(S(x)). A diferença é apenas de notação. J.L.Rangel - Ling. Formais - 0-6
7 Exemplo: Sejam as relações R = { (1, 2), (2, 3), (3, 4), (4, 1) } S = { (1, 1), (2, 1), (3, 1), (4, 2) } Já que R e S são funções, o mesmo vale para as composições: R S = { (1, 1), (2, 1), (3, 2), (4, 1) } S R = { (1, 2), (2, 2), (3, 2), (4, 3) } Operações com relações binárias. Se R é uma relação binária num conjunto A (isto é, R A A), podemos definir as potências R i de R, para i Nat de forma recursiva: R 0 = I A = { (x, x) x A } R i+1 = R i R, para i Nat Fato: 1. A relação I A é a identidade para a composição de relações, associada ao conjunto A, ou seja, para qualquer R A 2, R I A = I A R = R. 2. Para qualquer R A 2, R 1 = R. 3. Para quaisquer R A 2, i, j Nat, R i R j = R j R i, ou seja, potências da mesma relação sempre comutam. Dem.: Exercício. Exemplo: Sejam A = { 1, 2, 3, 4 } e R = { (1,2), (1,3), (1,4), (2,3), (2,4), (3,4) }.As potências de R são: R 0 = I = { (1,1), (2,2), (3,3), (4,4) }. R 1 = R = { (1,2), (1,3), (1,4), (2,3), (2,4), (3,4) } R 2 = R 1 R = R R = { (1,3), (1,4), (2,4) } R 3 = R 2 R = { (1,4) } R 4 = R 5 = =. No caso do exemplo, podemos provar que (x, y) R se y-x 1. Assim, em geral, (x, y) R i se y-x i. Naturalmente, no conjunto A, a maior diferença possível é 3, e todas as potências além da terceira são relações vazias: nunca podem ser satisfeitas. Fechamento. Definimos o fechamento reflexivo-transitivo R* de uma relação binária R em um conjunto A através de x R* y se e somente se para algum i Nat, x R i y, ou, equivalentemente, * i R = U R = R U R U R U R U L i= 0 Exemplo: Seja a relação R, no conjunto Nat definida por x R y se e somente se y = x + 1. Temos x R i y se e somente se y = x + i, de forma que x R* y se e somente y x. J.L.Rangel - Ling. Formais - 0-7
8 O nome de fechamento reflexivo-transitivo de R dado à relação R* se deve ao fato de que R* é a menor relação (no sentido da inclusão de conjuntos) que contém R e é reflexiva e transitiva. Ou seja, qualquer relação S (1) que satisfaça x R y implica x S y (isto é, S R) e (2) que seja reflexiva e transitiva satisfaz também S R*. De forma semelhante, a notação R + é frequentemente utilizada para descrever o fechamento transitivo da relação R: + i R = U R = R U R U R U L i= 1 ou seja, x R + y se e somente se para algum i>0, x R i y. Exemplo: Seja a mesma relação R do exemplo anterior. Neste caso, temos x R + y se e somente se y > x. Partições. Dado um conjunto A, definimos uma partição de A como sendo uma família de conjuntos (chamados de blocos da partição) Π = { B i i I } com as seguintes propriedades: (1) para cada i I, B i. nenhum bloco é vazio (2) U Π = U Bi = A a união dos blocos é A i I (3) se i j, B i I B j =. blocos são disjuntos dois a dois Dessa maneira, cada elemento a de A pertence a exatamente um bloco da partição P. Observação: Na maioria das vezes o conjunto I usado para indexar os elementos da família Π será um conjunto enumerável, um subconjunto dos naturais. Exemplo: Seja o conjunto A = { a, b, c, d, e }. Temos a seguir alguns exemplos de partições de A: { { a, b, c, d, e } } { { a }, { b }, { c }, { d }, { e } } { { a, b }, { c, d, e } } { { a, e }, { b, c, d } } Exercício: Escreva todas as partições de { a, b, c, d, e }. Classes de equivalência. Seja R uma equivalência em um conjunto A. Definimos a classe de equivalência [a] de a A da seguinte maneira: [a] = { x A x R a }, J.L.Rangel - Ling. Formais - 0-8
9 ou seja, a classe de equivalência de a A é o conjunto dos elementos de A que são equivalentes a a. Note que como R é uma equivalência, a [a], para qualquer a. Exemplo: Seja a equivalência R em A = {a, b, c, d, e, f}, dada pelas seguintes propriedades: (1) R é uma equivalência (2) a R b, b R c, d R e. (3) x R y somente se isto decorre de (1) e (2). Temos então, examinando todos os casos possíveis: a R a, b R b, c R c, d R d, e R e, f R f b R a, c R b, e R d a R c, c R a (reflexividade) (simetria) (transitividade) e R é composta dos pares: (a, a), (a, b), (a, c), (b, a), (b, b), (b, c), (c, a), (c, b), (c, c), (d, d), (d, e), (e, d), (e, e), (f, f). Assim podemos ver diretamente que [a] = [b] = [c] = { a, b, c }, que [d] = [e] = { d, e } e que [f] = { f }. Conjunto quociente. Definimos o conjunto quociente A/R de A por uma equivalência R em A, através de A/R = { [x] x A }, ou seja, A/R é o conjunto das classes de equivalência de R em A. Exemplo: Sejam A e R como no exemplo anterior. As classes de equivalência de R formam uma partição de A, que é exatamente o conjunto quociente A/R: A/R = { { a, b, c }, { d, e }, { f } } Fato: Seja R uma equivalência em um conjunto A. Então A/R é uma partição de A. Dem.: (1) note que as classes de equivalência não são vazias: à classe [a] pertence pelo menos o elemento a; (2) a união das classes de equivalência é A, porque cada elemento a de A pertence a pelo menos uma classe de equivalência: a [a]. (3) Classes de equivalência diferentes são disjuntas. Com efeito, suponha que duas classes [a] e [b] tem sua interseção não vazia, com um elemento c em comum: c [a] e c [b]. Neste caso, usando o fato de que R é simétrica e transitiva, temos c R a, c R b, e, portanto, a R b. Assim, pela propriedade transitiva, x R a se e somente se x R b, e [a] = [b]. Consequentemente, as classes de equivalência são disjuntas duas a duas, e formam uma partição de A. J.L.Rangel - Ling. Formais - 0-9
10 Fato: Dada uma partição P de um conjunto A, a relação R definida por x R y se e somente se x e y fazem parte do mesmo bloco de P é uma relação de equivalência em A, e A/R = P. Dem.: Exercício. Indução finita. Muitas das demonstrações que veremos nas seções seguintes utilizam uma técnica conhecida por indução finita. A idéia fundamental é simples: suponha que desejamos provar que a propriedade P vale para todos os elementos de Nat, isto é, que queremos provar que, para todo x Nat, P(x). Uma propriedade fundamental de Nat é que Nat é composto por um elemento especial, 0, e por seus sucessores. Dito de outra forma, Nat é o menor conjunto que contém 0 e é fechado para a função sucessor s. Esquematicamente, Nat = { 0, s(0), s(s(0)), s(s(s(0))), s(s(s(s(0)))) }. Assim, se provarmos I. (base da indução) II. P(0) (passo de indução) Para qualquer i Nat, P(i) implica P(s(i)). estaremos provando P para todos os naturais, pois teremos (0) P(0) (I) (1) P(0) P(1) (II) (2) P(1) P(2) (II) (3) P(2) P(3) (II) e, portanto, P(0), P(1), P(2), P(3), Exemplo: Suponhamos que queremos demonstrar a fórmula da soma dos elementos de uma progressão geométrica de razão q 1, a 0, a 1, a 2, a 3,, com a i+1 = a i q. A fórmula da soma é (a nq a 0) Sn = f(n) = (q 1) Devemos provar inicialmente a base de indução (para n=0): S 0 = f(0). A demonstração se resume à verificação de que (a nq a 0) f(0) = = a 0 (q 1) J.L.Rangel - Ling. Formais
11 Para provar o passo de indução, devemos assumir a hipótese de indução S i = f(i) e provar a tese de indução S i+1 = f(i+1). Temos a i+1 = a i q, e S i+1 = S i + a i+1. Portanto, (a iq a 0 ) (ai+ 1 a 0 ) Si+ 1 = Si + a i+ 1 = f (i) + a i+ 1 = + a i+ 1 = + a i+ 1 = (q 1) (q 1) (a i+ 1 a0 + a i+ 1q a i+ 1) (a i+ 1q a 0 ) = = = f (i+ 1). (q 1) (q 1) Uma forma alternativa de indução, que pode facilitar as demonstrações, em vez de usar apenas o último resultado anterior P(i) para provar P(i+1), usa todos os resultados anteriores, ou seja, P(0), P(1),, P(i). Assim, para mostrar P(i) para todos os naturais i, mostramos I. P(0) II. j i P(j) P(i+1). Indução em estrutura. Quando trabalhamos com estruturas que apresentam uma lei de formação bem definida, tais como cadeias, árvores, expressões, podemos usar para a indução um número natural, como, por exemplo, o tamanho da estrutura considerada; muitas vezes, entretanto, isso não é necessário, ou não é conveniente, e podemos fazer a indução de outra forma, baseada na própria estrutura. Por exemplo, dados um conjunto I e uma propriedade Q, suponha um conjunto X definido como o menor conjunto, no sentido da inclusão, que satisfaz 1 e 2 a seguir: 1. todo x I pertence a X, ou seja, I X. 2. se x X e Q(x,y), então y X. Ou seja, um elemento x de X ou pertence a um conjunto inicial I, ou satisfaz a propriedade Q, que liga x a um (outro) elemento y de X. Para provarmos uma propriedade P(x) para todos os elementos de X, basta provar: I. (base da indução) se x I, P(x) II. (passo de indução) se x X, P(x) e Q(x,y), então P(y). Este esquema pode ser generalizado para permitir várias propriedades Q, e para incluir a possibilidade que essas propriedades relacionem vários elementos de X a um (novo) elemento. Este caso mais geral de indução em estrutura está ilustrado a seguir. Exemplo: Suponha que definimos uma expressão da seguinte maneira: 1. a, b, c são expressões. 2. Se α e β são expressões, então α+β é uma expressão. 3. Se α e β são expressões, então α*β é uma expressão. 4. Se α é uma expressão, [α] é uma expressão. J.L.Rangel - Ling. Formais
12 Suponha adicionalmente que queremos provar a propriedade: "toda expressão tem comprimento (número de símbolos) ímpar". Vamos indicar "α tem comprimento ímpar" por P(α). Devemos então, para provar "para qualquer expressão α, P(α)", provar: 1. P(a), P(b), P(c). 2. Se P(α) e P(β), então P(α+β). 3. Se P(α) e P(β), então P(α*β). 4. Se P(α), então P([α]). Neste caso, (1) é a base da indução; (2)..(4) são passos de indução. Naturalmente, para mostrar (1), basta observar que a = b = c = 1; αβ para mostrar os demais, basta observar que α+β = α + β + 1, α*β = α + β + 1, e [α] = α + 2. (revisão de 27fev97) J.L.Rangel - Ling. Formais
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