Relatório da Cúpula de Sanya

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1 Agosto de Relatório da Cúpula de Sanya I. Introdução No dia 14 de abril de 2011, os líderes do Brasil, da Rússia, da Índia, da China e da África do Sul se reuniram em Sanya, na província de Hainan, na China, para a III Cúpula dos BRICS, quando tiveram a oportunidade de debater e definir a agenda do agrupamento. Este relatório tem como objetivos principais resumir os debates do encontro e analisar a significância deste evento no contexto mais amplo da formação dos BRICS e da sua agenda internacional. A meta principal da Cúpula foi a de promover o diálogo entre os BRICS sobre áreas de cooperação econômica, financeira, técnica e comercial, além de aprofundar o debate acerca de questões relacionadas ao desenvolvimento, tais como os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, sobre a reforma da governança global, mudança climática e cooperação técnica em áreas como agricultura, energia, e estatística. Além da Presidenta Dilma Rousseff, participaram do encontro o Presidente da China, Hu Jintao, o Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, o Primeiro-Ministro da Índia, Manmohan Singh, e o Presidente da África do Sul, Jacob Zuma. A reunião também contou com a presença de outros representantes destes governos, dentre eles diplomatas e assessores, assim como membros da mídia dos países BRICS. O encontro foi realizado no ano em que todos os países do grupo participam (rotativamente) do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Um momento único em que os cinco representantes dos BRICS se empenham para aumentar a influência do grupo nos principais debates de política internacional. Ao mesmo tempo, a crise financeira, que até o momento afeta principalmente os países industrializados, gera 1

2 oportunidades e desafios que os BRICS trataram de abordar durante a Cúpula, assim como nas reuniões a nível subnacional que vêm acontecendo desde Sanya. II. Contexto: Formação dos BRICS A Cúpula de Sanya foi apenas o mais recente evento a nível de chefes de estado na formação do agrupamento hoje conhecido como BRICS. Em 2001, o economista americano Jim O Neill, chefe de pesquisa em economia global da Goldman Sachs, publicou o estudo Building Better Global Economic BRICs, no qual ressaltava o peso crescente do Brasil, da Rússia, da Índia e da China no âmbito da economia global 1. Desde a publicação do estudo inicial, o crescimento econômico destes países tem confirmado a tendência: entre 2003 e 2010, o crescimento dos países do BRICS representou cerca de 40% da expansão do PIB mundial. O PIB do grupo, calculado pela paridade de poder de compra, chegou a US$ 19 trilhões, ou seja, cerca de 25% da economia mundial. Um segundo estudo da própria Goldman Sachs, datado de 2010, prevê que a produção econômica total dos BRICs deverá ultrapassar a do G7 em Estas tendências tem importância estratégica para o Brasil. Entre 2003 e 2010, foi registrado um aumento de 575% na corrente de comércio entre o Brasil e os países do BRICS (de US$ 10,71 bilhões em 2003 para US$ 72,23 bilhões em 2010). Além disso, os BRICS representam uma plataforma de debate e colaboração importante para a atuação do Brasil no exterior, mesmo além do âmbito comercial. Apesar das origens do acrônimo no mundo financeiro, desde então os governos destes países mais recentemente, com o ingresso da África do Sul, em 2011 vêm se empenhando para debater e implementar uma agenda conjunta de cooperação e 1 O'Neill, Jim (2001) Building Better Global Economic BRICs. Global Economics Paper 66. New York: Goldman Sachs. 2 Goldman Sachs (2010) Equity in Two Decades: A Changing Landscape Goldman Sachs Global Economics Paper 204. New York: Goldman Sachs. 2

3 posicionamento político no cenário mundial. Os BRICS não são uma associação de comércio formal, e o agrupamento não possui sede fixa. No entanto, as cúpulas de chefes de estado, acompanhadas por reuniões ministeriais e de agências do governo e da sociedade civil, vêm dando continuidade à iniciativa e expandindo a influência geopolítica conjunta dos cinco países em algumas áreas da política internacional. A Cúpula de Sanya é a terceira reunião dos chefes de estados. A primeira reunião, realizada em 16 de junho de 2009, ocorreu em Ecaterimburgo, na Rússia. O encontro resultou em uma declaração apelando para o estabelecimento de uma ordem mundial multipolar e para a reforma do sistema financeiro mundial. Desde então, o grupo tem tomado medidas para aumentar a sua cooperação no âmbito político, promovendo cúpulas anuais, além de diversos encontros em nível subnacional. Conferências entre bancos de desenvolvimento, institutos de estatística e ministérios da saúde já estão sendo realizadas. A segunda cúpula, realizada em Brasília entre os dias 15 e 16 de abril de 2010, ressaltou temas de cooperação e de reforma da governança global. Os BRIC sugeriram um novo sistema de votação no Banco Mundial, bem como a reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI) e uma série de acordos de cooperação para facilitar o financiamento de obras e projetos entre os membros do agrupamento. Os bancos de desenvolvimento dos BRICs se comprometeram a colaborar na criação de novas formas de incentivo à concessão de crédito entre os países. III. A Cúpula de Sanya: temas principais Na terceira cúpula, o bloco ganhou um novo membro, a África do Sul, e com isso o grupo passou a denominar-se BRICS. O ingresso da África do Sul permitiu ao agrupamento ampliar a sua representatividade geográfica, uma estratégia considerada essencial dada a iniciativa de maior democratização da governança global. Do ponto de 3

4 vista do Brasil, a admissão da África do Sul representa mais um mecanismo de cooperação com o país africano, que também integra o IBAS (Índia-Brasil-África do Sul). No plano substantivo, o bloco retomou as discussões sobre a reforma do sistema monetário internacional, afirmando o interesse comum em tornar o G-20 o principal mecanismo de gerenciamento da economia mundial. Os líderes dos cinco países também debateram temas econômicos, financeiros e comerciais, estratégias de desenvolvimento, a situação internacional, segurança, a mudança climática e a cooperação técnica em áreas como energia, agricultura e estatística. Antecederam à Cúpula alguns encontros preparatórios, tais como o Seminário de Think Tanks do BRICS (Pequim, 24 e 25 de março de 2011), o Encontro de Bancos de Desenvolvimento dos BRICS (Sanya, 13 de abril de 2011) e o Fórum Empresarial do BRICS (Sanya, 13 e 14 de abril de 2011). Estes eventos refletem algumas das resoluções tomadas ao final da Cúpula de Brasília, e retomadas mais detalhadamente em Sanya. O tema geral da Cúpula de Sanya foi Visão Ampla, Prosperidade Compartilhada, e o objetivo central foi o de debater as prioridades do grupo, fortalecendo o consenso sobre a necessidade de maior cooperação entre os BRICS, e lançando algumas iniciativas mais concretas nas áreas prioritárias identificadas durante os debates. A Declaração de Sanya A Declaração 3 debatidos durante a cúpula: divulgada ao final do encontro reflete os principais temas e metas 3 III BRICS Summit Sanya Declaration (14 de abril de 2011). Disponível online: 4

5 1) Reforma da governança monetária Na área de cooperação internacional, os BRICS reconhecem a necessidade de maior cooperação inter-regional e afirmam sua posição a favor da reforma da governança global, inclusive maior representatividade no Conselho de Segurança. Na Declaração de Sanya, os BRICS propõem um sistema monetário internacional amplo, reduzindo a dependência do dólar e ampliando a função internacional do Direito Especial de Saque (SDR), um ativo de reserva internacional do Fundo Monetário Internacional (FMI), como moeda mundial. 2) Cooperação comercial A retórica em torno da cooperação também lida com outro problema que afeta todos os BRICS: a atual volatilidade dos preços dos commodities. Os BRICS querem que o sistema de governança internacional faça mais para garantir maior estabilidade nestes mercados, que não apenas fortaleceria a segurança alimentícia mundial mas também ajudaria na continuidade do crescimento dos BRICS. b) Política internacional No que diz respeito à política internacional, os BRICS reiteram a posição que já haviam adotado em relação à Líbia: defendendo o diálogo com a ONU para a resolução do conflito. Os líderes dos cinco países criticaram os ataques à Líbia justificados pela necessidade de pressionar o líder líbio, Muammar Kadafi, a deixar o poder e suspender os ataques contra civis. A Declaração evita condenar de forma mais específica as ações militares ordenadas pela OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) no país. d) Cooperação técnica e científica A Declaração também identifica áreas de cooperação além do âmbito comercial que devem ser fortalecidas: dentre elas, esforços na área de ciência, tecnologia e inovação; mudança climática (defendendo a implementação do Protocolo de Kyoto e o 5

6 desenvolvimento sustentável); investimentos; e políticas sociais, tais como programas de prevenção e tratamento para HIV/AIDS. O Plano de Ação Além da Declaração, foi divulgado ao final da Cúpula um Plano de Ação com 23 objetivos concretos na sua maioria, envolvendo a organização de reuniões sobre temas específicos divididos em três principais metas: a. Reforçar os programas de cooperação existentes (reuniões ministeriais e de outas agências governamentais, além de think tanks); b. Estabelecer novas áreas de cooperação (acordos entre cidades e governos locais, iniciativas na áreas de Saúde, pesquisa conjunta sobre economia e relações comerciais, e o lançamento de uma bibliografia conjunta); c. Lançar novas propostas (nas áreas de cultura, esportes, economia verde, ciência, tecnológica e de inovação, além de estabelecer uma parceria com a UNESCO. IV. Resultados: iniciativas desde a Cúpula Desde a realização da cúpula, podem ser observados dois resultados principais: o estabelecimento de consenso ao redor de temas chave sobre reforma da governança global, política internacional e cooperação inter-brics e o estabelecimento de uma agenda relativamente intensa de reuniões a nível subnacional, dedicadas a temas específicos e iniciativas mais concretas. Algumas das reuniões ministeriais e governamentais agendadas durante a cúpula já foram realizadas. Por exemplo, em 11 de julho de 2011 foi realizada, em Pequim, a 6

7 Reunião dos Ministros da Saúde do BRICS. Os ministros, com a presença do Diretor Executivo da UNAIDS, Michel Sidibé, e a Diretora-Geral da Organização Mundial da Saúde, Margaret Chan, debateram estratégias para melhorar o acesso universal a medicamentos essenciais, contribuindo, entre outros objetivos, para o alcance das Metas de Desenvolvimento do Milênio 4. Os líderes se comprometeram a colaborar para preservar as condições da Declaração de Doha, sobre o Acordo de TRIPS e Saúde Pública, da Organização Mundial do Comércio, que afirma que a saúde pública é prioritária em relação aos interesses comerciais e às patentes. Permitindo, assim, a produção de medicamentos genéricos essenciais para a saúde pública. Entre os dias 3 e 6 de agosto de 2011, também em Pequim, foi realizado o Encontro do Grupo de Trabalho de Especialistas em Agricultura do BRICS. O encontro deu continuidade aos debates tomados entre 25-27, 2010 durante reunião dos Ministros da Agricultura dos BRICS, no qual foram aprovadas uma série de medidas visando fortalecer a segurança alimentar. Entre elas: a criação de uma base de dados Agrícola para os países BRICS; a elaboração de uma estratégia geral para assegurar o acesso alimentício para as parcelas mais vulneráveis da popula cão; a reduçãoo do impacto negativo da mudança climática na segurança alimentar, e a adaptação dos métodos agricultura as mudanças climáticas; e o fortalecimento da cooeperação e inovação na áreas da tecnologia para agricultura 5. Outra iniciativa já concretizada é a publicação do catálogo bibliográfico dos BRICS. A primeira edição do Catálogo foi apresentada durante a Cúpula de Sanya, e o material foi atualizado e lançado em versões eletrônica e impressa nos cinco países poucas semanas depois 6. 4 UNAIDS (2001) First meeting of BRICS health ministers brings new leadership to global health. Disponível online: A versão eletrônica em português está disponível no site do Ministério das Relações Exteriores: ). 7

8 Outras reuniões já realizadas, ou sendo realizadas, desde a Cúpula incluem: um Encontro para discutir o estabelecimento do Grupo de Contato para Assuntos Econômicos e Comerciais do BRICS, outra reunião de Think Tanks dos países BRICS, para fomentar relações acadêmicas, e reuniões durante a Assembléia Gerald a ONU em setembro de Ainda é cedo para avaliar o cumprimento das metas da Cúpula, mas fica claro que o encontro serviu para, no mínimo, esclarecer os objetivos principais do agrupamento e estabelecer uma agenda intensa de reuniões a nível subnacional. Nos próximos meses, o BRICS Policy Center estará se empenhando para acompanhar estes eventos, assim como outras iniciativas dos BRICS. 8

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