Rastreio da Audição em Idade Pediátrica
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- Ruy Morais Cesário
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1 Rastreio da Audição em Idade Pediátrica Luisa Monteiro RESUMO A deficiência auditiva infantil tem uma incidência superior a todas as doenças congénitas para as quais já existe rastreio sistemático e condiciona o normal desenvolvimento das capacidades linguísticas. O rasteio universal dos recém-nascidos e a intervenção precoce (antes dos seis meses de idade) são actualmente recomendados como boa prática clínica. Ao longo da infância pode surgir deficiência auditiva de variados graus provocada por doenças, traumatismos, ou por expressão tardia de hipoacúsia de causa genética. Há por isso necessidade de reconhecer estas situações, estabelecendo programas de rastreios adequados. O rastreio em idade pré-escolar visa detectar os casos de hipoacúsia que possam interferir com o desempenho escolar e não tenham sido previamente diagnosticadas. Palavras-chave: hipoacúsia, rastreio, intervenção precoce, crianças. Nascer e Crescer 2004; 13 (3): INTRODUÇÃO A audição é uma função sensorial complexa, que resulta da integração central (e interpretação) dos sons previamente captados e processados pelo órgão periférico, sendo o sinal transmitido pela via auditiva ao cortex auditivo. Qualquer som será analisado nas suas três principais dimensões: frequência, amplitude e tempo. A via auditiva está completamente desenvolvida na altura do nascimento, sofrendo uma maturação ao longo dos primeiros anos de vida e Serviço de Otorrinolaringologia - Hospital de Dona Estefânia Quadro I Desenvolvimento da via auditiva e aquisição de linguagem (1) Os RN nascem com a via auditiva periférica completamente desenvolvida O sistema auditivo é modelado durante o 1º ano de vida pela experiência auditiva, sobretudo pela exposição à fala Embora só produzam palavras reconhecíveis ao ano de idade, podem reconhecer nomes de objectos familiares, entoar a fala e exercer funções auditivas muito sofisticadas muito antes de produzir a sua própria fala às 27 semanas de gestação é possível identificar ondas nos potenciais evocados auditivos Ao nascer, o sistema auditivo periférico possui as capacidades semelhantes às do adulto, pronto a estabelecer as conexões neurais baseadas na experiência auditiva O tronco cerebral, vai-se desenvolvendo ao longo dos dois primeiros anos Plasticidade:...as formas neurais e conecções produzem-se segundo um padrão (provavelmente geneticamente determinado) e que se designa como especificidade neural; em certas circunstâncias podem ocorrer excepções, representando a plasticidade neural A via auditiva periférica não possui plasticidade, mas esta é mantida a nível do SNC (colliculus superior muito importante) atingindo tempos de condução nervosos semelhantes aos dos adultos cerca dos dezoito meses de idade (Quadro I). Após exposição ao som vão ocorrer processos de desenvolvimento e maturação neuronal a nível cortical, sobretudo até aos seis meses de idade, sendo portanto esta a idade crítica para que ocorra a estimulação auditiva. Uma audição normal é um factor crítico para uma correcta aquisição de competências linguísticas adequadas. (Quadro II) SURDEZ INFANTIL Considera-se surdez significativa a hipoacúsia permanente, superior a 40dB, nas frequências conversacionais, no melhor ouvido. Esta definição tem em conta que é a partir destes valores que a hipoacúsia tem repercuções negativas na aquisição de linguagem e no desenvolvimento de competências de comunicação da criança. No entanto, menores valores de hipoacúsia podem influenciar negativamente a integração social e escolar da criança. Na infãncia ocorrem frequentemente períodos mais ou menos longos (semanas, meses ou anos ) em que as crianças sofrem de hipoacúsia de transmissão, bilateral ou unilateral, o que influencia o seu desenvolvimento. Estes períodos correspondem a episódios de otite serosa (também denominada seromucosa, otite com efusão ou otite com derrame) em que ocorre hipoacúsia de transmissão (reversível) até 40dB. A hipoacúsia pode ser classificada quanto à causa em sensorioneural (endo ou retrocolear), de transmissão (ouvido externo ou médio) e mista. Existem vários graus de hipoacúsia: ligeira, moderada, S283
2 Quadro II Aquisição da linguagem A fala é emitida em diferentes contextos (de timbre, intensidade, velocidade de produção) O ser humano pode analisar as características dos sons da fala (fonemas e palavras) com grande fidelidade e exatidão, começando estas capacidades e desenvolver-se após o nascimento A aquisição de linguagem perceptiva precede a linguagem expressiva Os bebés aprendem a organização dos sons na sua língua nativa na 2ª metade do 1º ano de vida Pequenas alterações da audição podem alterar a aquisição e a percepção de linguagem sobretudo em cndições de ruído - escolas) Audição Normal Def. Auditiva Ligeira Def. Auditiva Média Def. Auditiva Severa Def. Auditiva Profunda Def. Auditiva Total Quadro III Graus de deficiência auditiva Perda tonal média <20 db Perda tonal média >21 e <40 db Perda tonal média >41 e <70 db Perda tonal média >71 e <90 db Perda tonal média >91 e <119 db A perda tonal média é de 120 db Figura 1 - Incidência de surdez infantil e outras doenças congénitas passíveis de rastreio. severa e profunda, correspondendo a dificuldades crescentes de comunicação audio-verbal (Quadro III). EPIDEMIOLOGIA Estima-se que a incidência da hipoacúsia infantil significativa ocorra em um ou dois de cada mil recém-nascidos normais, sendo a doença congénita mais frequente para a qual existem rastreio e intervenção precoces (2,3,4,5,6,) (Fig. 1). Em determinadas situações de aumentado risco de hipoacúsia (grupo de alto risco) esta incidência pode subir para um por cada cem recém-nascidos (5,6,7). Grande parte dos factores de risco relacionamse com ocorrências desfavoráveis durante o período perinatal (muito baixo peso, prematuridade, anóxia, sepsis, ototoxicidade, hiperbilirrubinémia grave). As causas genéticas correspondem a cerca de 30 % dos casos de surdez congénita, sendo a maioria dos casos de transmissão autossómica recessiva. A maioria das vezes a surdez surge isoladamente, raramente se integra num sindroma (8). As causas infecciosas prénatais (rubéola, sífilis, herpes, toxoplasmose, citomegalovirus) são felizmente cada vez menos frequentes. A - Rastreio auditivo dos recémnascidos e intervenção precoce: desde longa data se tentaram programas de rastreio da deficiência auditiva, nomeadamente no período perinatal, utilizando métodos assentes na pesquisa de reacções motoras dos recém-nascidos (reflexo oto-palpebral, reflexo de sobressalto) após apresentação de estímulos auditivos de elevada intensidade. Estes testes baseavam-se na interpretação das reacções dos recém-nascidos feita por observadores treinados, consumindo assim muitos recursos humanos. Existia no entanto uma grande variabilidade de resultados entre os vários observadores, e além da pouca fiabilidade destes testes, apenas se detectavam graus de surdez severa e profunda, tendo sido por isso abandonados (8). Em 1972 o Joint Commitee on Infant Hearing, grupo multidisciplinar, elaborou uma lista de circunstâncias em que se reconhecia que os recém-nascidos tinham um risco S284
3 Quadro IV Lista de situações de elevado risco de surdez infantil, elaborado em 1972 pelo Joint Commitee on Infant Hearing e que foi sendo alargado ao longo dos anos História familiar de surdez infantil de origem hereditária Infecções intrauterinas tais como citonmegalovírus, rubéola, sífilis, herpes e toxoplasmose Anomalias craniofaciais, incluindo anomalias do pavilhão auricular e canal auditivo externo Baixo peso à nascença <1,5 Kg Hiperbilirrubinémia não conjugada atingindo níveis que necessitem exsanguineotransfusão Medicações ototóxicas, incluindo, mas não limitadas a aminoglicosídeos, usados em terapêuticas múltiplas uo em combinação com diuréticos de ansa Meningite bacteriana Índice de Apgar de 0 a 4 ao primeiro minuto ou de 0 a 6 aos 5 minutos Ventilação assistida durante cinco ou mais dias Estigmas associados a síndroma conhecido por se associar a hipoacusia sensorioneural ou de condução Preocupação paterna em relação à audição do recém-nascido Traumatismo craniano com perda de conhecimento ou com fractura craniana Otite recorrente ou com efusão de duração superior a 3 meses Recomendações de organizações internacionais Joint Commitee on Infant Hearing (1994): recomenda o diagnóstico de surdez antes dos 3 meses de idade e a reabilitação antes dos 6 meses European Consensus on Development Conference on Infant Screening (1998):...embora os sistemas de saúde na Europa variem de país para país em termos de organização e financiamento, a implementação de programas de rastreio de audição neonatal não deverá ser atrasada. Isto dará aos novos cidadãos da Europa mais oportunidades e melhor qualidade de vida no próximo milénio acrescido de ocorrência de surdez, devendo por isso ser obrigatoriamente sujeitos a rastreio, que normalmente era efectuado por volta dos nove meses de idade. Esta lista foi sendo progressivamente alargada ao longo dos anos (5,7) (Quadro IV). No entanto, este rastreio de alto risco apenas permitia identificar metade das crianças com surdez congénita ou perinatal, uma vez que cerca de 50% das crianças surdas não possuem nenhum factor reconhecível de risco de surdez. As crianças sem risco de surdez, em que esta ocorre inesperadamente, não sendo sujeitas a rastreio sistemático nos primeiros meses de vida, não seriam diagnosticadas precocemente, sendo a média de idade de diagnóstico variável conforme os países, mas normalmente a situava-se acima dos dois anos, quando as crianças manifestavam evidentes atrasos de aquisição de linguagem. Assim, mantinha-se a necessidade de implementar rastreios universais da audição dos recém-nascidos, como sendo a única forma de detecção sistemática e precoce da surdez infantil, uma vez que a simples observação clínica, sem testes específicos e sensíveis, se manifestava claramente insuficiente (9,10,11). Durante a década de noventa foram sendo organizados rastreios universais dos recém-nascidos, mercê da disponibilidade de técnicas de rastreio sensiveis, específicas, rápidas, de preço acessível e de aplicação fácil: os aparelhos de otoemissões acústicas que surgiram na prática clínica nesta altura. Estes rastreios foram sendo divulgados a partir dos Estados Unidos da América, sendo a sua aplicação facilitada pelo posterior aparecimento de aparelhos automáticos, quer de otoemissões acústicas, quer de potenciais evocados auditivos. Estes aparelhos dão resposta passa / refere, não necessitando de interpretação dos resultados por parte do técnico, pelo que podem ser utilizados por profissionais sem formação específica em audiologia, após um determinado tempo de treino (enfermeiros, pediatras, voluntários). Estes rastreios devem ser coordenados por profissionais da área da audiologia pediátrica e com o apoio de uma unidade de audiologia com recursos técnicos e humanos apropriados (6,7,8,10,11). Actualmente os rastreios universais da audição dos recém-nascidos estão implementados na maioria dos países desenvolvidos, segundo condições mais ou menos estandartizadas. Prevê-se que nos próximos anos surjam critérios normativos para as diferentes características técnicas dos rastreios. A eclosão destes programas, cujo objectivo é o diagnóstico de hipoacúsia antes dos 4 meses de idade e o início da reabilitação até aos 6 meses, permite que muitos recém-nascidos possam usufruir dos benefícios da intervenção precoce, que se traduzem em níveis de aquisição de linguagem S285
4 Quadro V Condições a que deve obedecer um rastreio para ser considerado universal da audição Condições para implementar um rastreio universal (5,7) 1. Um mínimo de 95% dos recém-nascidos terá de ser sujeito a rastreio conclusivo (só poderão ser perdidos para seguimento 5%) 2. Deverão utilizar-se métodos objectivos (potenciais evocados auditivos ou otoemissões acústicas) e testar-se os 2 ouvidos 3. O rastreio deverá detectar todas as crianças com hipoacúsia significativa, isto é, com limiares superiores a 35 db no melhor ouvido PROFUNDA SEVERA MODERADA LIGEIRA NORMAL Graus de Surdez Intervenção antes dos 6 meses de idade Intervenção após os 6 meses de idade Figura 2 - Quociente de Aquisição de Linguagem para os vários graus de surdez, após intervenção, antes ou depois dos seis meses. Christine Yoshinaga-Itano, Colorado superiores aos que iriam adquirir se o diagnóstico continuasse a ser tardio. De salientar que trabalhos publicados pelo grupo do Colorado vieram demonstrar que a idade de intervenção (abaixo dos seis meses de idade) é o factor que mais positivamente influencia a reabilitação e aquisição de linguagem, para qualquer grau de surdez (2,3) (Fig. 2). Frequentemente os rastreios dos recém-nascidos saudáveis (de berçário normal), são organizados em 3 fases com início na maternidade, nas primeiras horas de vida. São utilizadas técnicas automáticas, geralmente otoemissões acústicas automáticas, pelo fácil manejo e rapidez de execução, mas podem ser utilizados potenciais evocados auditivos automáticos. Os bebés que não passam na primeira fase (por exemplo por existência de exsudado no ouvido médio, colapso ou preenchimento do canal auditivo externo), serão sujeitos à segunda fase do rastreio, geralmente uma ou duas semanas depois. Pode utilizarse a mesma técnica que foi utilizada na primeira fase e na maioria dos casos o resultado será normal. Caso contrário, a criança será encaminhada para uma consulta de otorrinolaringologia e sujeita a potenciais evocados auditivos diagnósticos e impedancimetria. Esta terceira fase, diagnóstica, deverá ter lugar até aos quatro meses (7,8,10,11) (Fig. 3). No caso particular dos recémnascidos com necessidade de internamento em unidades de cuidados intensivos neo-natais, reconhece-se que o risco de terem surdez é de 1:100. O rastreio nas unidades de cuidados intensivos neo-natais deverá ser feito utilizando os potenciais evocados auditivos, por existir maior incidência de neuropatia auditiva (circunstância em que a função coclear está normal, mas a condução nervosa está alterada, pelo que as otoemissões acústicas podem ser normais e os potenciais evocados auditivos podem estar alterados) (7,8,14), recomendando-se que a criança seja referenciada a consulta de otorrinolaringologia para seguimento até à aquisição de linguagem. Os programas de rastreio auditivo terão de ser integrados, apoiados por programas de reabilitação apropriados que envolvem a adaptação protética, a estimulação auditiva e verbal e por vezes a aplicação de implantes cocleares. Há necessidade de formar equipas multiprofissionais dotadas de meios técnicos apropriados, motivadas para o objectivo final que consiste em diagnosticar e reabilitar precocemente, apoiando as famílias nas suas decisões e necessidades. Estas equipas deverão incluir pediatras, otorrinolaringologistas, audiologistas, enfermeiros, terapeutas de fala, professores de surdos, psicólogos, assistentes sociais e administradores hospitalares. É evidente que novos desafios se perfilam aos profissionais envolvidos nesta área, pois o grande desafio é a identificação, correcto diagnóstico e início da reabilitação cada vez mais precoces, sendo por isso mais difíceis, com necessidade de meios técnicos sofisticados e treino específico na área da audiologia pediátrica (Fig. 4). B - Rastreios ao longo da infância: Após o período perinatal, há a possibilidade da criança vir a desenvolver hipoacúsia significativa, nomeadamente por ocorrerem circunstâncias adversas, ou haver uma expressão tardia de doenças congénitas ou infecciosas. Por vezes pode ocorrer expressão tardia de surdez genética (S. de Usher, neurofibromatose tipo II, osteopetrose), ou de doença infecciosa intra-uterina (citamegalovirus). Doenças neuro-degenerativas (S. de Hunter, ataxia de Friedreich, S. de Charcot-Marie-Tooth, neuropatia sensoriomotora) podem também evoluir com hipoacúsia ao longo da vida (5). S286
5 Figura 3 - Rastreio organizado em três fdases, utilizado no H. D. Estefânia (10,11). Teste Diagnóstico Ao longo da infância, a criança normo-ouvinte ao nascer, pode sofrer de doenças que provoquem hipoacúsia de diversa gravidade, por exemplo: meningite bacteriana, infeccções otológicas de repetição, traumatismos cranianos, doenças metabólicas, insuficiência renal (doença de Alport). A administração de medicações ototóxicas, tais como o cisplatinio, a estreptomicina, a gentamicina e os diuréticos de ansa (a administracção simultânea destes dois últimos potencia o risco de lesão coclear) pode provocar também surdez. Por estes Esquema de Organização de Rastreio Exemplo 1 Passa Informação Família Pediatra Passa Informação Família Médico Na Maternidade AOEA AABR Falha 2ª Fase OAE AABR às 4 semanas Audição Normal Binómio: Passa/Falha "Falha=Refere" Positivos (verdadeiros) 2-4/1 000 Positivos (falsos) < 3% Falha 3ª Fase ORL Impedância ABR "Passa" Negativos (verdadeiros) Negativos (falsos) 0%!! Total = 100% Deficiência Auditiva Intervenção Apropriada Antes dos Seis Meses Parabéns! Controle de Qualidade Figura 4 - Resultados possíveis e controle de qualidade do rastreio universal (10,11). motivos, os profissionais responsáveis pelo tratamento e acompanhamento de crianças devem reconhecer estas circuntâncias especiais e sujeitar estas crianças a rastreios de audição desenhados de acordo com a idade e o desenvolvimento de cada criança. I - Rastreio pós-meningite bacteriana: a meningite bacteriana é, na maioria das séries, a principal causa de surdez sensorioneural severa ou profunda adquirida (5), sendo responsável por muitas indicações para implantes cocleares. A meningite causada por Streptococcus pneumoniae é a que mais frequentemente pode provocar surdez, chegando em algumas séries a 35 % dos casos. No entanto as outras duas etiologias mais frequentes, Haemophilus influenzae e Neisseria meningitides, podem também provocar surdez. (Quadro VI) A causa da surdez parece ser uma labirintite purulenta que provavelmente ocorre precocemente no decurso da doença; esta labirintite pode evoluir com rapidez para uma labirintite ossificante, que dificulta ou impede a colocação de implantes cocleares (estão descritos casos em que esta ossificação ocorre após quatro semanas do início da doença). Todas as crianças que sofram de meningite bacteriana deverão ser sujeitas a rastreio de audição, de preferência imediatamente antes da alta. Até aos três anos deverão ser utilizados testes ditos objectivos, impedanciometria e otoemissões acústicas ou potenciais evocados (12,15). A partir desta idade, se a criança colaborar em audiometria comportamental, permitindo a colocação de auscultadores, a determinação de limiares auditivos comportamentais será suficiente. Estas crianças deverão ser reobservadas e sujeitas a novos testes dentro de seis meses. Se for detectada alguma alteração de audição a criança deverá ser sujeita a uma apertada vigilância e no caso de surdez severa ou profunda deverá ser submetida a tomografia computorizada para exclusão de sinais precoces de ossificação da cóclea, sendo nestes casos referidas com urgência a um centro de implantes cocleares. Neste casao particular de surdez pós-meningite, a rápida intervenção permite uma reabilitação auditiva adequada (protética ou por implante coclear) que pode não ser possível numa fase mais tardia da evolução da doença. II - Rastreio durante a administração de fármacos ototóxicos (12,15) : as crianças sujeitas a medicações reconhecidamente ototóxicas (cisplatinio, estreptomicina, aminolicosídeos, diuréticos de ansa), utilizadas normalmente em doenças graves, deverão ser testadas periódicamente em relação à sua função coclear. S287
6 Quadro VI Surdez sensorioneural após meningite bacteriana Sequelas Otológicas das Meningites Bacterianas É a complicação Major mais frequente das meningites bacterianas É a causa mais frequente de surdez sensorioneural profunda adquirida Em alguns centros é responsável por 50% dos Implantes Cocleares Surdez Sensorioneural uni ou bilateral de grau variável Incidência: 5 a 35% das M. Bacterianas S. pneum: 30 a 35% N. menin: 10 a 20% H. infl: 10 a 20% As otoemissões acústicas deverão ser preferidas, se possível, uma vez que parecem ser as células ciliares externas as que mais precocemente são lesadas por estas substâncias, e por isso as otoemissões acústicas podem estar alteradas mais precocemente que o audiograma tonal, o que permite, se possível alterar a terapêutica em fases reversíveis de lesão coclear (15). III - Rastreio pré-escolar (12) : estes rastreios visam detectar alterações auditivas que não tenham sido diagnosticadas anteriormente e possam contribuir para dificuldades de aprendizagem. Neste grupo ectário serão de prever numerosas situações de hipoacúsia de transmissão provocadas por patologia inflamatória do ouvido médio, sobretudo otite média com derrame, muito prevalente nesta idade, com oscilações de acordo com a estação do ano em que se efectue o rastreio. Casos de surdez sensorioneural de grau moderado ou unilateral podem passar sem diagnóstico até esta idade e são reconhecidamente situações que podem contribuir para dificuldades escolares, sobretudo se estiverem associadas a outras deficiências, o que é relativamente frequente. Nestas idades, os rastreios deverão incluir, além da otoscopia, a realização de impedancimetria e audiometria comportamental, via aérea e óssea. Situação dos rastreios da surdez infantil em Portugal: a situação actual no nosso país é caracterizada, de um modo geral, por uma ausência de directivas nacionais que orientem e coordenem os esforços isolados de diversas instituições e grupos de profissionais que actuam nesta área. Não são conhecidos os dados epidemiológicos relativos à surdez infantil, pelo que é difícil o estabelecimento de esquemas de reabilitação adequados às necessidades da população infantil e juvenil. A escassez de profissionais e equipamentos vocacionados para audiologia e otorrinolaringologia pediátrica, faz prever que a cobertura total da população infantil na área auditiva, nomeadamente, rastreio universal e intervenção precoce e rastreio universal em idade pré-escolar, sejam objectivos ainda longinquos. Pensamos que os grupos de recém-nascidos de risco são, desde há muitos anos, reconhecidos e referenciados pelos pediatras a centros onde estes são sujeitos a rastreio sistemático, haverá no entanto necessidade de monitorização destes casos. Algumas maternidades possuem já rastreios universais bem implementados e controlados, outras planeiam o seu início. Existem também esforços envolvendo profissionais da saúde, autarquias e instituições de ensino, que visam o rastreio sistemático de todas as crianças em idade pré-escolar ou do primeiro ano de escolaridade. Todas as iniciativas individuais são louváveis e úteis, no entanto a generalização destas práticas deveria ser extensível a toda a população infantil, num esforço concertado e coordenado a nível nacional. A detecção e diagnóstico da deficiência auditiva é o primeiro passo para uma reabilitação apropriada e plena do cidadão, cujas necessidades especiais devem ser avaliadas e providas, nas vertentes clínicas, educacionais e sociais. CONCLUSÃO A audição é uma função sensorial necessária ao completo desenvolvimento da linguagem verbal e das competências linguísticas da criança. Actualmente reconhece-se o impacto positivo que o diagnóstico e a intervenção precoces (antes dos seis meses) desempenham no desenvolvimento das crianças com surdez congénita ou peri-natal. É por isso desejável a implementação de rastreios universais da audição. Ao longo da infância pode ocorrer surdez sensorioneural definitiva após algumas doenças graves pelo que determinados grupos deverão ser sujeitos a rastreio sistemático. As crianças em idade pré-escolar são um grupo em que se deveria efectuar um rastreio sistemático da audição com vista à detecção de alterações da audição, nomeadamente as hipoacúsias de condução frequentes neste grupo etário e que podem contribuir para dificuldades de aprendizagem. A generalização destas práticas a nível nacional está longe de ser alcançada, sendo necessário um investimento significativo em meios humanos e de equipamentos. AUDITORY SCREENING OF NEW- BORNS AND CHILDREN ABSTRACT Pediatric hearing loss is the most frequent congenital disease detectable by systematic screening and may interfere with normal acquisition of linguistic skills. Universal newborn hearing screening and early intervention (before six months of age) is considered a good clinical practice, according to present standards. During childhood, new cases of hearing loss of different degrees of severity can occur: after some diseases, trauma, or as late manifestation of genetic hearing loss. Professionals should recognize this situations and appropriate screening programs should be designed. The goal of pre-school screening pro- S288
7 grams is the detection of undiagnosed cases of hearing loss, which may difficult normal academic performance. Key-words: hearing loss, screening, early intervention, children. Nascer e Crescer 2004; 13 (3): BIBLIOGRAFIA 1 - Musiek F, Shinn J, Hare C. Plasticity, Auditory Training and Auditory Processing Disorders. Seminars in Hearing, Vol 23 No 4 November Downs M, Yoshinaga-Itano C. The Pediatric Clinics of North America: Hearing Loss, Vol 46, No 1, February Yoshinaga-Itano C, Sedley A, Coulter D, Mehl A. Language of Early and Lateridentified Children with Hearing Loss. Pediatrics Vol 102: , Nov Joint Committee on Infant Hearing. American Academy of Pediatrics, 1994 Position Statement. Pediatrics, Vol 95: , Jan Joint Committee on Infant Hearing. Year 2000 Position Statement: Principles and Guidelines for Early Hearing Detection and Intervention Programs. Pediatrics Vol 106 No 4 October Oudesluys M, van Straaten H, van Zanten. Neonatal Hearing Screening. Eur J Pediatr 1996 Vol 155: American Academy of Pediatrics. Task Force on Newborn and Infant Hearing Loss: Detection and Intervention. Pediatrics Vol 103 No 2 February Proceedings from Newborn Hearing Systems Seminars in Hearing Vol 21 No 4 November Mehl L, Thomson V. Newborn Hearing Screening: The Great Omission. Pediatrics Vol Jan Monteiro L, Calado V. Rastreio Universal do Recém-nascidos: um pequeno teste para o Audiologista, um grande passo para a Humanidade?, Revista Portuguesa de Otorrinolaringologia Vol 38, Dezembro Monteiro L, Calado V. Como organizar um Rastreio Universal da Audição dos Recém-nascidos. Revista Portuguesa de Otorrinolaringologia Vol 39, Março American Speech-Language-Hearing Association. Panel on Audiological Assessment, Guidelines for Audiological Screening European Consensus on Neonatal Hearing Screening. J Laryngol Otol, Vol 112: 1219 Dec Sininger Yvonne. Identification of Auditory Neuropathy in Infants and Children. Seminars in Hearing Vol 23 No 3 August Lonsbury-Martin B, Martin G K. Distortion Products Otoacustic Emissions, Clinical Applications. Thieme :162. S289
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