dois séculos de história

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1 A Biblioteca Pública da Bahia: dois séculos de história Sede da BPB à Praça Rio Branco, depois Praça Municipal, 1919 Fonte: Acervo Museu Tempostal.

2 Governo do Estado da Bahia Jacques Wagner Secretaria da Cultura Antônio Albino Canelas Rubim Fundação Pedro Calmon - Centro de Memória e Arquivo Público da Bahia Ubiratan Castro de Araújo Diretoria de Bibliotecas Públicas Ivanise Tourinho Biblioteca Púbica do Estado da Bahia Kilma Alves Gerência de Bibliotecas Públicas do Estado da Bahia Marcos Paulo Viana

3 Francisco Sérgio Mota Soares Laura Berenice Trindade Carmo Carmem Lúcia Cabral Aziz Sizaltina dos Santos Coelho A Biblioteca Pública da Bahia: dois séculos de história Secretaria da Cultura Fundação Pedro Calmon - Centro de Memória e Arquivo Público da Bahia Diretoria de Bibliotecas Públicas Salvador 2011

4 2011 SECULT/FPC/DIBIP ISBN Revisão dos originais Vera Rollemberg Projeto gráfico e editoração eletrônica Carlos Vilmar Fotografias Dario Guimarães Neto José Martiniano dos Santos Junior Lucinéia R. Machado Mila Cordeiro Capa Carlos Vilmar A Biblioteca Pública da Bahia: dois séculos de história / Francisco Sérgio Mota Soares... [ et al.] Salvador : Fundação Pedro Calmon, p.:Il. ISBN: Biblioteca Pública da Bahia História. I. Carmo, Laura Berenice Trindade. II.Aziz, Carmem Lúcia Cabral. III. Coelho, Sizaltina dos Santos. IV. Título. CDD FUNDAÇÃO PEDRO CALMON Av. Sete de Setembro, 282 Edf. Brasilgás Centro Salvador Bahia (71) /12/13

5 Agradecimentos gradecimentos Agradecer é preciso! É impossível não resgatar a dívida de gratidão assumida ao longo desses anos com dezenas de pessoas que, de várias formas, colaboraram com este trabalho, desde a sua concepção, no início do ano de 1996, até os dias de hoje. Para nossos familiares, os agradecimentos são insuficientes. Para as colegas da Gerência do Sistema de Bibliotecas (GESB), que vivenciaram momentos de alegrias e tristezas, acertos e desacertos, convergências e divergências, acordos e desacordos, nossa gratidão transborda. A disponibilidade e competência das bibliotecárias Isailda Britto Pereira, Bernadeth Argôlo Cardôso, Aldérica Sampaio Ferrari e da técnica Ana Verena Cedraz foram a toda prova, assim como o trato cordial de Mercedes Peixoto Pereira, Tereza Timoteo Passos, Eliene Nascimento e a boa vontade de Clarice Conceição, que datilografou nossos originais manuscritos nos primeiros anos da pesquisa. Agradecemos de modo especial a Maria Conceição da Gama Santos, que chefiava a Diretoria de Bibliotecas Públicas do Estado da Bahia (DIBIP) e acolheu o projeto que lhe foi apresentado, viabilizando recursos para as pesquisas, e a Irene Wanderley Pinto, que agilizou e administrou esses recursos. Nossos agradecimentos se estendem aos colegas da Biblioteca Pública do Estado da Bahia (BPEB), especialmente às diretoras Suzana Presídio (in memoriam) e Sandra Damasceno, que disponibilizaram, em momento difícil, o acesso aos acervos restritos das Subgerências de Obras Raras e Valiosas, Periódicos e da Seção de Documentação Baiana, e a Célia Mattos, Cristina Nascimento, Rita Almeida, Raquel d Ávila, Zuleika de Carvalho Bahia (in memoriam), assim como a Antonio Lobão e Luiz José de Carvalho. Agradecemos ao professor Ubiratan Castro de Araújo, que, tão logo investido no cargo de diretor-geral da Fundação Pedro Calmon, ao tomar conhecimento deste trabalho, comprometeu-se a publicá-lo, acreditando nos seus autores. Nosso reconhecimento é ainda extensivo a Kilma Alves, diretora da Biblioteca Pública do Estado da Bahia, a Marcos Viana, responsável pela Gerência de Bibliotecas Públicas do Estado da Bahia, e a Ivanise Tourinho, atualmente à frente da DIBIP, que abraçaram e respaldaram de imediato este trabalho, adotando medidas práticas que viabilizaram sua publicação. Somos particularmente devedores a Pedro Gomes Ferrão Castellobranco (in memoriam), que tornou realidade a criação da Biblioteca Pública da Bahia, e a Jean Bauzin (in memoriam), que, com pesquisas anteriores, corroborou os estudos atuais. A Vera Rollemberg somos gratos pela cuidadosa revisão crítica do texto que lhe foi confiado e por suas muitas e preciosas sugestões. Agradecemos a José Martiniano pelo seu importante trabalho fotográfico. Aos leitores que, supõe-se, virão, ficamos antecipadamente agradecidos. Agradecer é preciso! Esquecer é impossível!

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7 Sumário Sumário Prefácio...9 Apresentação A Biblioteca Pública da Bahia no século XIX A criação...16 A instalação da Biblioteca e seu corpo funcional...22 Os subscritores...25 O acervo e seus primeiros catálogos...30 A visão estrangeira...33 A época da Independência...37 As questões administrativas e financeiras...39 O Parecer de O sistema Garnier...47 A visita do imperador D. Pedro II...52 A classificação das ciências e das artes...58 Bibliotecas populares...68 Os guardiães...69 A questão de espaço...71 Memórias e instituições...77 A peregrinação...80 A Biblioteca Pública da Bahia no século XX Uma instituição centenária...86 O bombardeio...88 A recomposição do acervo...91 A primeira sede própria...93 A Biblioteca Pública da Bahia em sua nova era...98 Novas mudanças A Biblioteca Pública da Bahia como biblioteca escolar.104 Os Salões de ALA A reforma administrativa O Sistema Dewey A remuneração dos funcionários Novas bibliotecas públicas Sérios problemas de espaço físico O delineador das artes A década de O incêndio Livros no porão A reforma de A era feminina A Biblioteca Central do Estado da Bahia A inauguração Os novos serviços Depósito obrigatório

8 Sumário Sumário A superocupação Mudanças e comemorações A retomada do espaço A grande reforma O padroeiro A reabertura A Biblioteca Pública da Bahia no século XXI A difusão cultural O acervo inventariado Novas diretrizes Diretores da Biblioteca Pública do Estado da Bahia Notas Referências

9 dois séculos de história 9 Um monumento de duzentos anos Mais que um registro histórico, esta publicação comemorativa dos 200 anos da primeira biblioteca do Brasil a Biblioteca Pública do Estado da Bahia é uma homenagem à cultura baiana e em especial à classe dos bibliotecários, que tão relevantes serviços prestam ao desenvolvimento do Estado. As bibliotecas públicas são importantes centros educativos, irradiadores de conhecimento, arte e cultura. Mas, preponderantemente, como uma enciclopédia gigante, destinam-se a democratizar o acesso equitativo ao mundo dos livros, possibilitando, assim, o desenvolvimento amplo e justo do indivíduo. Além disso, qualquer biblioteca constitui um lugar insubstituível para os estudiosos, pesquisadores, especialistas, estudantes, escritores: é na biblioteca que eles muitas vezes começam suas carreiras e é para elas que eles voltam, mais tarde, nos livros de sua autoria, que escreveram a partir do que leram. Por estas razões e certamente por algumas outras tantas, as principais nações do mundo se esforçam por preservar os tesouros do acervo de suas bibliotecas, sem os quais qualquer civilização ou povo ficariam empobrecidos. Embora ainda não seja em número ideal, nosso País reúne uma boa quantidade de bibliotecas, dentre as quais a Biblioteca Pública do Estado da Bahia, que há duzentos anos conduz e desenvolve com esmero o seu emblema: expandir o conhecimento e popularizar o acesso ao livro. Minha satisfação, portanto, como Diretor Geral da Fundação Pedro Calmon, não é pequena. Se esta data já é histórica, pelos duzentos anos passados desde a inauguração da Biblioteca Pública do Estado da Bahia, ainda mais o será depois deste livro, em que a história da referida biblioteca se confunde, em grande parte, com a própria existência da Bahia, enquanto povo e Estado. Ubiratan Castro de Araújo Fundação Pedro Calmon

10 10 A Biblioteca Pública da Bahia Apresentação Nesta nova era em que o homem cada vez mais interage em busca de novos horizontes e a tecnologia cibernética tende a envolvê-lo em um mundo moderno e ágil, a sociedade deve estar permanentemente atenta à preservação dos valores culturais, sem esquecer que o passado é uma peça fundamental para o seu próprio processo de desenvolvimento. Da responsabilidade de resgatar e preservar a história, para que as gerações atuais e futuras possam compreender melhor os acontecimentos socioculturais que compõem a sua memória, nasce o livro que descreve a trajetória da primeira Biblioteca Pública não só da Bahia, mas do Brasil e da América Latina, idealizada por Pedro Gomes Ferrão Castellobranco e criada, em 13 de maio de 1811, por Dom Marcos de Noronha e Britto, 8º conde dos Arcos, então governador da Capitania da Bahia, em coincidência com um momento muito especial da história brasileira o da transferência do príncipe regente D. João e sua corte para o Brasil. É o período em que se vê surgir a Tipografia de Manoel Antonio da Silva Serva, com a impressão do primeiro jornal editado em terras baianas e segundo do país o Idade d Ouro do Brazil, e se vê nascer a primeira escola superior do Brasil a Escola de Cirurgia da Bahia, em Salvador.

11 dois séculos de história 11 A Biblioteca Pública da Bahia dá seus primeiros passos na vida cultural da cidade, tornando-se ponto de referência da cultura baiana. Em seus salões, viajantes como James Prior, Jean-Ferdinand Denis, Louis-François Tollenare, Karl Friedrich Philipp von Martius, entre outros, surpreendem-se por encontrar em terra tão exótica uma casa que guarda tão rico acervo; estudantes se debruçam à procura da fonte do saber; pessoas passam seus momentos de lazer lendo um jornal ou uma revista, buscando, entre folhas, sonhos e certezas. Para traçar esta memória cronológica, realizou-se, durante quarenta e cinco meses, investigação em instituições da Bahia e do Rio de Janeiro, pesquisando-se cerca de documentos, em sua grande maioria manuscritos dos séculos XIX e XX, entre ofícios, relatórios, cartas e bilhetes, ordenando os fatos que refletem a responsabilidade e a dedicação de todos aqueles que se empenharam em valorizar a cultura, resgatando, preservando e divulgando o conhecimento acumulado através dos séculos. Os documentos legislativos bem como as falas e mensagens do Governo formaram a base para a compreensão das transformações administrativas ocorridas na Biblioteca Pública da Bahia desde o século XIX até os nossos dias, acompanhando as necessidades sociais e políticas de cada época. Outras fontes de pesquisa foram os periódicos dos séculos XIX e XX, entre eles jornais como Idade d Ouro do Brazil, Diário de Notícias e A Tarde. As visitas aos locais anteriormente ocupados pela instituição bem como o material fotográfico recolhido elucidaram pontos sobre esses espaços que os documentos consultados não deixam claros. Pôde-se, por exemplo, dimensionar com exatidão a destruição do acesso ao salão da antiga Livraria do Colégio dos Jesuítas, na Catedral Basílica, onde inicialmente funcionou a Biblioteca, assim como identificar sua disposição nas dependências do Palácio do Governo, hoje Palácio Rio Branco, no início do século XX. As dificuldades para reunir as informações não foram poucas. Por ocasião da pesquisa, a Biblioteca Pública do Estado da Bahia, depositária de grande parte dos documentos, havia cerrado suas portas em função da completa reforma pela qual vinha passando, e todo o seu acervo, preservado em caixas, era de difícil alcance. Outra instituição a que apenas se teve acesso depois de pratica-

12 12 A Biblioteca Pública da Bahia mente completada toda a fase de pesquisa foi o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, por também encontrarem-se em reforma suas instalações. As contribuições para a execução deste trabalho suplantaram as dificuldades. É de justiça citar-se a doação de material de pesquisa sobre a Biblioteca no século XIX e início do século XX realizada no Arquivo Público do Estado da Bahia, entre os anos de 1976 e 1977, pela equipe do professor e teólogo Jean Bauzin, que em muito contribuiu para confirmar fontes pesquisadas. Cumpre ainda ressaltar a disposição de Suzana Presídio, então diretora da Biblioteca, em promover o acesso a documentos administrativos dos anos de 1960 a 1998 e a alguns jornais dos séculos XIX e XX, parte do acervo não disponível para consulta naquela ocasião, pelo motivo já apontado. O livro foi dividido em três partes: a primeira retrata os acontecimentos que tiveram lugar no século XIX; a segunda acompanha os passos da instituição durante o século XX; e a terceira, em um novo milênio. Nas citações ao longo do texto transcritas em itálico, optou-se por manter a ortografia apresentada nos documentos originais, do mesmo modo se procedendo em relação aos nomes próprios mencionados. Com a divulgação deste trabalho, espera-se estar contribuindo com mais uma página para a história do Brasil e da Bahia, estado que sempre ocupou posição de vanguarda na cultura do país. Os Autores

13 dois séculos de história 13 A Biblioteca Pública da Bahia no século XIX

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15 dois séculos de história 15 A data é 13 de maio, uma segunda-feira. O ano é o de 1811, início da segunda década do século XIX. Este não é, nem será a partir desta data, um dia comum para a vida cultural da Cidade do Salvador. Situada na entrada da Baía de Todos-os-Santos, assim batizada por Américo Vespúcio por ter sido descoberta a 1º de novembro, dia de Todos os Santos, a cidade, fundada em 1549 por Tomé de Souza, primeiro governador-geral, e sede do Governo Colonial até 1763, engalana-se para acontecimento dos mais auspiciosos. Em ato solene, sob a direção de D. Marcos de Noronha e Britto, 8º conde dos Arcos, governador da Capitania da Bahia, é criada a Livraria Pública ou Biblioteca Pública da Bahia. D. Marcos de Noronha e Britto, 8º conde dos Arcos, governador da Capitania da Bahia quando da fundação da BPB em 1811 Fonte: ARAGÃO, 1878, s.p.

16 16 A Biblioteca Pública da Bahia A criação Numa concepção primorosa, o coronel Pedro Gomes Ferrão Castellobranco, intelectual baiano, residente no Solar do Ferrão, na Rua Gregório de Mattos, apresenta a D. Marcos de Noronha e Britto, governador da Capitania da Bahia, em 26 de abril de 1811, um documento denominado Plano para o estabelecimento de huma bibliotheca publica na Cidade de S. Salvador - Bahia de Todos os Santos, offerecido á Approvação do Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Conde dos Arcos, Governador, e Capitão General desta Capitania, nos seguintes termos: As Benéficas Intenções de SUA ALTEZA REAL para com todos os Vassallos deste novo Imperio, para sua felicidade, augmento, e esplendor manifestas nas Leis, e Providencias, tão saudaveis, como liberaes, de que diariamente somos o objecto, e testemunhas, acabão de patentear-se-nos na especial Mercê de conceder a esta Capitanía pela Carta Regia de 5 de Fevereiro annuindo á Paternal representação, e súpplica do nosso Actual Governador e Capitão General, o Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Conde dos Arcos, o uso da Typographia, e authorizando-o para

17 dois séculos de história 17 a escolha, e nomeação de pessoas de probidade, e literatura, para Censores dos Escriptos, que se derem ao Prelo. Conhece o nosso Augusto Soberano que o maior bem que póde fazer aos seus Vassallos, aquelle que nunca se tem recebido senão das Mãos Benéficas dos Principes Justos, e Virtuosos he facilitar-lhes, e promover todos os meios da pública, e particular instrucção: he só talvez á ignorancia dos Póvos que se devem imputar as desgraças que os opprimem, he obsecando-os, que os crimes se arraigão, e que os Tyrannos se enthronizão: he por meio das luzes, e da verdade, que a Virtude se firma, e que os Direitos dos Principes adquirem por bases a Benção do Ceo, o amor dos póvos, e o respeito da Posteridade. E que meio mais efficaz para a difusão das luzes, que a immortal invenção da Imprensa cujo uso acaba de ser-nos concedido! Com tudo, para que elle nos seja util no actual estado deste Paiz, são indispensáveis, e muito urgentes outras providencias. Padece o Brazil, e particularmente esta Capital a mais absoluta falta de meios para entrarmos em relação de idéas com os Escriptores da Europa, e para se nos patentearem os thesouros do saber espalhados nas suas obras, sem as quaes nem se poderáõ conservar as idéas adquiridas, e muito menos promovelas a beneficio da Sociedade. Animado porém pelo actual mais que nosso Governador nosso Amigo he, que me attrevo a offerecer ao Público o seguinte Plano dirigido a remover-se o primeiro, e maior abstaculo que se offerece á Instrucção pública, o qual consiste na falta de livros, e noticias do Estado das Artes, e Sciencias na Europa. Se este Plano tiver a fortuna de agradar no seu objecto, elle pela sua propria constituição he susceptivel de qualquer melhoramento, e por isso mesmo parece que sem receio se poderá adoptar. 1 Em resposta ao projeto apresentado, o governador da Capitania, através de comunicado de 30 de abril de 1811, confirma a aprovação do Plano e encarrega seu autor da implantação da Biblioteca: Sendo a livraria publica, hum Estabelecim. to sumamente analogo ás sempre Bemfazejas Intençoens do nosso Querido Soberano; e sendo mais que nunca opportuna a sua Instituição, nesse momento em que o Mesmo Augusto Senhor, acaba de pronunciar o mais intenso Amor, e Paternal disvelo, por seus fieis Vassalos habitantes da Bahia, concedendo-lhes

18 18 A Biblioteca Pública da Bahia O antigo Palácio do Governo da Província da Bahia à Praça Rio Branco, depois Praça Municipal, século XIX Fonte: SOUZA, 1949, p.106. a magnifica, e para sempre memoravel Graça, do uzo da Imprensa; não perco tempo em approvar o Plano, para o estabelecim. to de huma Bibliotheca publica, que V. S. a me aprezenta. Como nelle, muito refletidam. te se nota, a propriedade de hum dos logares, para dirigir os primeiros arranjamentos, e operaçõens economicas, daquelle estabelecim. to : nomeio, e encarrego a V. S. a não só da execução de todas as medidas, mencionadas naquelle Plano, mas tão bem a direcção, de todos os objectos e trabalhos intermediarios athé a perfeição, daquelle excellente estabelecim. to. Espero que V. S. a impellido pelo amor da sua Patria, e tendo em vista a gratidão da Posteridade, se empregue com a mais forte constancia, no desempenho das importantes funçoens, que desde agora, lhe ficão incumbidas. 2 A ideia da criação de uma biblioteca pública é louvada pelo príncipe regente D. João, como se depreende de Aviso do Governo da Capitania dirigido a Pedro Ferrão, em 9 de julho subsequente: Em observancia da Ordem Regia, em data de 25 de junho do prezente anno, louvo a V. S. a no mesmo Augusto Nome de Sua Alteza Real, o Principe Regente Nosso S. or por ter sido o primeiro que concorreo para o estabelecimento da Livraria Publica desta Capital. 3 Em 4 de novembro do mesmo ano, Pedro Ferrão, em carta ao conde dos Arcos, faz referência ao Aviso: S. A. R. houve por Bem approvar este estabelecimento e pela sua Real Grandeza ordenou ao nosso Governador, que me louvasse em seu Real nome pelo pouco q. para elle tenha concorrido. Esta Mercê e o ardente desejo

19 dois séculos de história 19 que tenho de ser util á minha Patria farão certamente com que eu não cesse de applicar todos os meios para o promover. 4 A data escolhida para a solenidade de criação o mencionado 13 de maio de 1811 homenageia o príncipe regente: é o dia em que comemora seu quadragésimo quarto aniversário natalício. O local da solenidade não poderia ser outro: o salão nobre dos despachos, denominado dossel, do palácio sede do Governo e residência oficial do governador, atual Palácio Rio Branco. Nesse mesmo dia, o Governo autoriza a criação da Tipographia Oficial de Manoel Antonio da Silva Serva, referendando a carta de 11 de abril de 1811 enviada a Serva pelo conde dos Arcos: Sendo o Principe Regente Nosso S servido por Carta Régia de 5 de Fevereiro do presente anno, facultar a Vmª, a necessaria permissão, de estabelecer a Tipograhia, que pretende erigir nesta cidª, com a denominação de Serva, e havendo outrossim por bem, ordenar a forma porque se deve regular este estabelecimento. Previno a Vmª de que nenhum manuzcrito possa imprimir, ou qualquer Livro reimprimir, na sua tipographia, sem preceder licença minha, de acordo com o Reverendo Arcebispo desta Diosese, imprimindo-se sempre em todas os exemplares o ultimo Despacho da permissão concedida, para a qual haja Privilegio exclusivo, facultado ao primeiro Editor, e de todas as mais que na sobredita forma imprimir, ou reimprimir, enviará sempre hum exemplar para a Secretaria deste governo o que participo a Vm a para sua devida execução. 5 Na solene ocasião, o padre Ignacio José de Macedo, pregador de Sua Majestade e professor de Filosofia na Bahia, recita a Oração gratulatoria ao Príncipe Regente..., destacando o papel das bibliotecas no mundo e ressaltando a contribuição do príncipe regente e do conde dos Arcos para a criação de huma Bibliotheca para a geral instrucção. 6 Sobre esse evento, diria mais tarde Moniz de Aragão: Foi um acto solenne a sessão da abertura da Bibliotheca Publica da Bahia, ao qual assistiram o Conde dos Arcos como subscriptor, e quasi todas as pessoas gradas e distinctas da provincia, que tambem o eram; mas n aquella magestosa reunião da população que se agglomerava para assistir á inauguração de um estabelecimento de tão grande utilidade, para o desenvolvimento da instrucção publica, derramou-se uma

20 20 A Biblioteca Pública da Bahia nuvem de desagrado, quando vazios ficaram os logares destinados aos Desembargadores que propositalmente deixaram de comparecer a este acto de tanta magnitude. Dera logar a esta circunstancia a preferencia estabelecida, pelo Governador, no cortejo de 25 de Abril, dos officiais militares sobre os membros da Relação, e da Camara da Cidade; a ausencia porem dessa illustre corporação, em ocasião de tanto regosijo, não só foi estranhada pela população, como tambem asperamente censurada pelo Governo. 7 Folha de rosto da Oração gratulatoria ao Príncipe Regente..., Fonte: Acervo BPEB.

21 dois séculos de história 21 E, referindo-se ao panorama intelectual baiano na época da criação da Biblioteca: Havia então na Bahia uma pleiade illustrada de litteratos, que antecipando a sua epocha, tinham elevado inspirações ousadas de conquistar sciencias e liberdades, nas lições que foram beber no outro continenti, n aquellas que de lá recebiam avidos; distinguai-se, entre elles, o Coronel Pedro Gomes Ferrão Castellobranco, proprietario abastado e oriundo de uma das mais distinctas familias da Provincia, que em repetidas viagens á Europa havia adquirido conhecimentos sufficientes para que podesse empenhar-se na grande contenção da intelligencia contra as preocupações passadas; acompanhava-o o seu primo Alexandre Gomes Ferrão Castellobranco, que foi depois um dos representantes do Brazil nas Cortes Geraes, Extraordinarias e Constituintes da Nação Portugueza, apartando-se desta vida tão de prestes, que nem poude deixar memoria dos desejos que nutria pelo desenvolvimento da prosperidade nacional; avultava o Padre Francisco Agostinho Gomes, representante tambem da Bahia nas Còrtes de Lisbóa, onde se distinguio pelo patriotismo com que recusou jurar a Constituição de 1822; sobresahia o Dr. Domingos Borges de Barros, que foi também deputado ás Còrtes e depois Senador do Imperio e Visconde de Pedra Branca; e a par delles ergueo-se o vulto do intrepido e ousado Inspector das tropas Felisberto Caldeiras Brant Pontes, depois Marques de Barbacena, Mineiro por nascimento, Bahiano de coração, que tanto se illustrou no dia 10 de fevereiro, antecipando as ideias que deviam conquistar para sua patria um lugar distincto entre as nações livres e independentes: alem de muitos outros, cuja vida e aspirações não tinham sido limitadas pelo horisonte acanhado da colonia, em que ainda se não tinham desenvolvido as grandes luctas do progresso. 8

22 22 A Biblioteca Pública da Bahia A instalação da Biblioteca e seu corpo funcional Ao elaborar o referido Plano, a ideia de Pedro Ferrão era de que a Biblioteca ocupasse uma casa ampla, para melhor abrigar os livros e seus usuários: Tomar-se-há huma casa sufficiente para os fins propostos, a qual deve ser dentro da Cidade, em sitio agradavel, bem arejada, e não muito proxima aos lugares mais frequentados. Essa casa será ornada com possivel decencia, e sempre de modo, que se possa estar nella com aceio, e satisfação. Na sála principal, haverá huma grande meza com assentos ao redor, sobre a qual estarão as Gazetas mais recentes, papel, e tudo mais necessario para escripta. 9 A realidade, porém, é outra. A recém-criada Biblioteca enfrenta seu primeiro problema: onde instalar-se? Resolve o Governo que o melhor local é a antiga Livraria do Colégio dos Jesuítas, situada acima da sacristia da Igreja, atual Catedral Basílica, na Freguesia da Sé, construída pelos religiosos da Companhia de Jesus, tendo à frente o padre Manuel da Nóbrega. Depois de passar por uma reforma geral

23 dois séculos de história 23 Sala do diretor da BPB localizada acima da sacristia da atual Catedral Basílica de Salvador Foto de José Martiniano nas suas dependências, é finalmente franqueada ao público no dia 4 de agosto de 1811, em seção solene em que Pedro Ferrão profere discurso. Na ocasião, o jornal Idade d Ouro do Brazil traz a seguinte matéria: Domingo 4 do corrente se fez a abertura solemne da Livraria desta Cidade na mesma casa, que foi Livraria do Collegio dos proscriptos Jesuitas. A presença do excellentissimo Senhor Conde dos Arcos nosso amavel Governador deu o maior lustre a este acto brihantissimo pela deliciosa situação da sala, que elevada na eminencia da Cidade, e do edificio do Collegio domina esta Bahia; pelo concurso de pessoas de todas as Ordens; e pelas doces esperanças de melhoramento, que prognostica a diffusão das luzes. Conhecimentos de todos os generos postos ao alcance de todos os curiosos hão de excitar os talentos atégora amortecidos, e a Bahia no Zenith de sua gloria abençoará perpetuamente os dias verdadeiramente d ouro desta não-pensada regeneração. Nesta occasião recitou o Coronel Pedro Gomes Ferrão Castel-branco huma elegantissima oração, em que se notava erudição escolhida, e literatura vasta com profundas reflexões adequadas ás circunstancias, e a atual situação politica do mundo. 10 Detalhes da escadaria de acesso às dependências da BPB na atual Catedral Basílica de Salvador Foto de José Martiniano

24 24 A Biblioteca Pública da Bahia Salão de leitura da BPB e seu artístico teto na atual Catedral Basílica de Salvador Fonte: Acervo BPEB. Pedro Ferrão também aponta em seu Plano a formação e as atribuições de um corpo funcional: Os officiaes da Casa, por agora, serão unicamente hum Bibliothecario, um moço servente, hum porteiro, e hum moço empregado em a trazer sempre no maior aceio. Criar-se-hão depois os mais Officiaes, que os Subscriptores julgarem necessarios. O Bibliothecario, deverá ser um sugeito de uma boa conducta, que saiba bem ler, escrever, e contar, sendo muito para desejar-se, que tenha conhecimento das Linguas, principalmente a Latina, Franceza, e Ingleza. Os moços serventes deveráõ tambem saber ler, escrever, e contar. O Porteiro terá as mesmas qualidades. Todos estes Officiaes, e tudo quanto for relativo á execução do que estiver determinado pelos Subscriptores, a boa ordem, e regimen da Casa, ficão debaixo da Authoridade do Censor. O Author deste Plano offerece desde já em dom perpetuo todos os seus Livros, e cinquenta mil reis para o Fundo do Estabelecimento. 11 Da Livraria do Colégio dos Jesuítas, a Biblioteca incorpora os livros deixados pelos religiosos quando expulsos pelo marquês de Pombal.

25 dois séculos de história 25 Detalhe do teto do salão de leitura da BPB na antiga Livraria do Colégio dos Jesuítas, acima da sacristia da atual Catedral Basílica de Salvador Foto de Dario Guimarães Neto Os subscritores No seu Plano para o estabelecimento de huma bibliotheca publica..., Pedro Ferrão indica ao Governo quem poderia contribuir para a sua manutenção: os subscritores. Far-se-há hum Fundo, por subscripção, para se mandarem vir de Londres, e de quaesquer outros Paizes, que tiverem relações com esta cidade os Periodicos de melhor reputação literaria, e de mais ampla instrucção. Estes viráõ remettidos a qualquer dos Censores da Typographia desta Cidade que a rogo dos Subscriptores quizer servir o Público, com ausencia aos outros, e por elle seráõ abertos, e communicados ao Governo donde passaráõ á casa para esse fim destinada, e nella estarão patentes por espaço de tres dias ao exame, e leitura, que qualquer dos assignantes quizer nelles fazer, e passado esse termo poderáõ pedir, e ser-lhes- -há confiado um dos ditos Periodicos, ou Folhas por tempo de vinte quatro horas prefixas deixando recibo á pessoa encarregada da sua guarda, e conservação, e depois de vistos, serão recolhidos em huma Estante fechada, e não se darão mais a ler, senão aos assignantes, e na mesma casa, quando por estes forem pedidos. 12

26 26 A Biblioteca Pública da Bahia Quanto à compra e escolha dos livros para compor o acervo, o idealizador ressalta que: O excedente da Subscripção, depois de deduzidas as despezas necessárias á conservação deste Estabelecimento, será applicado á compra de Livros, e Mappas, que tambem serão conservados debaixo da mesma guarda, e condições dos Periodicos, até que a abundancia delles, e os fundos da Sociedade sejão taes, que se possa constituir em huma Bibliotheca pública, para a qual se formaráõ Estatutos. Para a escolha dos Livros, que se devem mandar vir da Europa, haverá de tres em tres mezes huma Sessão dos Subscriptores que se acharem presentes, a qual será presidida pelo Censor, e cada hum delles poderá lembrar os livros que bem lhe parecer dando a razão da sua escolha, e depois de ouvidos, e tomados os apontamentos necessarios nomear-se-hão dois Socios, com os quaes o Censor fará a lista das encommendas á proporção dos Fundos do Estabelecimento. Os Subscriptores assim juntos poderáõ lembrar, tratar, e decidir tudo o mais que for conernente ao estabelecimento, sua conservação, e augmento. Hum dos Subscriptores será eleito por maioridade de votos Thesoureiro, e outro Secretario, e para que este encargo se não faça pezado, far-se-ha annualmente huma nova Eleição. As obrigações destes Socios, serão declaradas em hum Regimento approvado pela pluralidade dos Subscriptores, no qual se ordenaráõ igualmente as obrigações das mais pessoas empregadas neste Estabelecimento, sua economia e conservação. 13 No que se refere às contribuições e doações, Pedro Ferrão sugere: A subscripção será de doze mil reis de entrada, e de dez anualmente, tão pequena quantia, que he muito menor que a que pagão os assignantes de qualquer Gazeta da Europa; e por meio della não só adquiriráõ os Subscriptores a gloria de haverem concorrido para hum Estabelecimento de utilidade universal, mas tambem o de terem accesso á leitura de todos os bons periodicos, e dos livros que existirem nelle. Para que destes Elementos se possa formar com mais brevidade huma Bibliotheca ampla, e capaz de preencher os fins de huma geral instrucção, serão convidados os Subscriptores a entrarem para este Estabelecimento com as suas Livrarias particulares, ou com aquellas obras, que poderem dispensar do seu uso ordinario, as quaes serão recebidas pelo Bibliothecario, em depósito, ou por doação, do que se lhes dará huma clareza, e far-se-hão os assentos necessarios. A doa-

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