SE ALUGAR O MARIDO, PEÇA RECIBO

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1 SE ALUGAR O MARIDO, PEÇA RECIBO Peça Teatral de ESTAINE ALENCAR

2 SE ALUGAR O MARIDO, PEÇA RECIBO Peça Teatral de Estaine Alencar Rio de Janeiro, Marisa é uma professora de História apaixonada pela figura do Imperador brasileiro D. Pedro II. Ela é casada com Elton, que está desempregado e descrente da vida. Devido a uma dívida com sua amiga Laura, Marisa propõe um estranho trato de aluguel de seu marido, que acaba não saindo do exato jeito em que planejava. 2

3 PERSONAGENS MARISA esposa de Elton, 34 anos ELTON marido de Marisa, 34 anos LAURA amiga de Marisa, 34 anos D. PEDRO II Imperador do Brasil no período de

4 SE ALUGAR O MARIDO, PEÇA RECIBO Autor: Estaine Alencar Ato I (Sala de uma casa simples. Estante cheia de livros. Numa mesa estão cadernos, pastas e muitos papéis. Elton está de pijamas lendo um jornal, quando entra Marisa.) MARISA- (Grita) Elton!!! ELTON- O que foi Marisa? Precisa gritar? MARISA- Olhe o que eu acabei de comprar num antiquário ali no Centro. (Tira da bolsa um livro grande e luxuoso) (Empolgada) Um livro raríssimo, de 1900 e pouco. É uma biografia do D. Pedro II, editado na Áustria, todo escrito em alemão, com pinturas e fotografias da época. Lindo, lindo, lindo! ELTON- Você bebeu o juízo Marisa, quanto custou este livro? MARISA- Setecentos reais. ELTON- (Pula da cadeira) O quê?! Agora você passou dos limites, isto é mais do que o nosso aluguel! O que tem este livro de tão especial? MARISA- Já te falei, é raríssimo, uma biografia do D. Pedro II escrita em alemão... ELTON- Você fala alemão por acaso? MARISA- Não. ELTON- Então para que gastar o nosso dinheiro com estas coisas? MARISA- É uma relíquia. ELTON- Marisa, você não precisa ter esta coleção de livros antigos aqui em casa. Nós ficamos brigando com as traças e as baratas o tempo todo. Você se acha uma pesquisadora, mas você é apenas uma professorinha de História, ponha isto na sua cabeça. MARISA- Ah não! Agora você me ofendeu, eu sou sim, uma pesquisadora. Pesquisadora e professora também. Tanto que eu fui a escolhida para coordenar a Feira de História do Brasil lá da escola. Por isso que eu estou tão louca ultimamente. Esse livro vai me servir muito. ELTON- Você é louca desde que te conheci e este livro não vai servir para nada. 4

5 MARISA- E o quê que tem? Comprei com meu dinheiro. Eu mereço comprar algo que eu goste. ELTON- Está bem, não está mais aqui quem falou. (Volta a ler o jornal) MARISA- Será muito trabalho nesta Feira de História, mesmo assim estou muito entusiasmada. Serão temas relacionados ao Segundo Reinado. D. Pedro II, o velhinho de barba branca, olha aqui no livro. ELTON- Eu sei, lembro dele. MARISA- Sempre gostei de estudar este período. O que você sabe do Brasil Império? ELTON- Eu? Nada, como a maioria das pessoas. E de que me interessa isso agora? MARISA- (Pega o livro) Nossa! Este é grande e grosso. Eu dividi a turma em grupos, cada um falará na Feira sobre um tema. Um sobre o Período Regencial, outro sobre as Revoltas nos Estados, tem a Economia Cafeeira, Imigração, Guerra do Paraguai, Abolição da Escravatura, Movimento Republicano... (Pára de falar e percebe que Elton voltou a ler o jornal. Vai até ele e dá um tapa na folha de jornal assustando-o.) ELTON- Você está doida Marisa?! MARISA- Estou sim Elton. Tenho que ficar. Você não me ouve. ELTON- Ah! Ouço sim, quando você põe os pés em casa, só o que você sabe fazer é falar. Fala de seus alunos bagunceiros, dos inteligentes, dos professores com mau-hálito, dos que se acham o máximo, fala do Município, do Estado... Gente que nunca vi e nem quero ver. Está vendo como eu te ouço. MARISA- Mas não me dá atenção, não participa da minha vida. ELTON- Já dou atenção, ainda quer que eu participe? Acontecem muitas coisas na sua vida. MARISA- O D. Pedro II era educadíssimo, nunca me deixaria falando sozinha. ELTON- Marisa, pelo amor de Deus! Vai, fale aí o que você quer, prestarei a atenção juro. MARISA- Agora não quero mais. Seu chato! (Sai) ELTON- (Fala para si) Chato eu? Fala sem parar um monte de inutilidades e eu que sou chato. (Volta ao jornal) (Grita para a coxia) O governo que você votou Marisa, prometeu 10 milhões de empregos! Eu só estou procurando um e não acho! Só quero um, unzinho. (Telefone toca) MARISA- (Grita da coxia) Eu atendo aqui. 5

6 ELTON- (Volta ao jornal) Corretor, não. Garçom, também não. Acompanhante de idosos, Deus me livre! (Entra Marisa gritando e fingindo chorar) MARISA- Não! Não! ELTON- (Assustado) O que foi Marisa? MARISA- Não! Eu não acredito. Não! ELTON- Fala! Anda! MARISA- Morreu! Ai meu Deus, ele morreu!!! ELTON- Quem morreu Marisa? Alguém da família? Fala, fala!!! MARISA- Ai, ele não podia ter morrido. ELTON- Quem meu Deus? Quem? MARISA- O D. Pedro II. (Ri) Ele morreu no dia 5 de dezembro de 1891 em Paris. (Ri dele) ELTON- (Desapontado) Que palhaçada Marisa! Que palhaçada! Você achou isso engraçado? MARISA- Deixa de ser mal-humorado Elton, uma brincadeirinha destas. ELTON- Minha cabeça, que dor. Está vendo, acabou voltando. Eu aqui cheio de problemas e você vem com esta. MARISA- Que problemas? Sou eu quem trabalha, sou eu quem te sustento. Que problemas? Você está até realizando uma fantasia sexual de muitos homens: dar uma de cafetão, ser sustentado pela mulher. ELTON- Você só fala besteiras mesmo. Quem era? MARISA- Era a Laura, vem aqui daqui a pouco, disse ter um assunto sério para falar comigo. ELTON- A Laura é? Humm. MARISA- Humm o quê? ELTON- Não simpatizo muito com ela. MARISA- Ora, mas por quê? Ela é tão boazinha, a ajuda tanto a gente. 6

7 ELTON- Eu sei disso, mas é solteira! Só fala em carros, noitadas, viagens, praias, coisas caras... Isto é o que ouço, mas com certeza também deve falar em homens. Solteira, ora! Não é legal tê-la como amiga, você sabe: passarinho que anda com morcego, acaba amanhecendo de cabeça para baixo". MARISA- Ela que é o morcego? É bem mais fácil eu ser o morcego e ela o passarinho. ELTON- Ela é do time das solteiras, só isso. Você gosta quando eu ando com meus amigos solteiros? MARISA- Não. Não, porque eu sei como são os homens solteiros, e os casados também, enfim, eu sei como são os homens. ELTON- Então pronto, eu sei como são as mulheres. (Volta ao jornal) Jornal só serve para me deixar deprimido. MARISA- Então largue o jornal. ELTON- Marisa, Marisa... Você não entende nada mesmo, nascemos para sermos derrotados, fracassados. Perceba só: mal acabamos de nascer, segundos depois levamos um tapa e já iniciamos as nossas vidas chorando. MARISA- Que visão triste! ELTON- Não nasci para ganhar dinheiro, para ser líder ou construir impérios. Sempre recebo rasteiras, copiam as minhas idéias, embarreram os meus projetos... MARISA- De novo esta história? ELTON- Sério Marisa, sofro desde pequeno. MARISA- Ai. ELTON- Quando eu era criança morava longe da escola, por isso eu pegava carona com o caminhão da peixaria e sempre chegava fedendo na aula. Me infernizavam todo dia, a adolescência toda me chamaram de Podrinho. Como sofri. MARISA- Que chato. ELTON- Com 17 anos, eu jogava no juvenil do Cabofriense, o técnico, a diretoria, meus companheiros invejosos do meu talento, todos sabiam que eu era craque, eu comia a bola... Mas num jogo contra o São Pedro, um zagueiro, que, aliás, não era um zagueiro, era um cavalo, quebrou minha tíbia... Nunca, nunca mais eu quis jogar futebol. MARISA- Você não teve muita força de vontade para voltar a jogar, não foi? ELTON- Acabaram com o meu sonho de ser jogador de futebol. Acabaram. O resto da tragédia você bem conhece: fiz Administração, meu pai faleceu, conheci você... 7

8 MARISA- Engraçadinho, sua sorte foi ter me conhecido. ELTON- Volta e meia eu me lembro de nós dois e penso: Será que o cupido não estava bêbado quando tentou me ajudar? MARISA- A culpa do seu fracasso sempre são os outros, não é? É de Deus, do chefe, dos colegas, até do cupido? Você não tem nenhuma parcela nisso? Estou cansada de ouvir esta ladainha. Elton vai dar uma volta vai. Sei lá, pense um pouco na vida, vai, anda. ELTON- Sair um pouco de casa? Marisa, você é a única mulher que eu conheço que pede para o marido sair um pouco de casa. Todos os meus amigos reclamam que suas mulheres querem prendê-los dentro de casa, que não podem sair para beber, para irem a um churrasco, ao futebol... MARISA- É porque estes seus amigos são uns safados, por isso que elas não querem que eles saiam de casa. Mas em você eu confio meu amorzinho. (Tira uma nota de dinheiro da carteira) Toma, vá beber um pouco no bar. ELTON- Você acha que eu gosto de pedir dinheiro para você?! Eu fico envergonhado na frente dos meus amigos. Se não saio com eles, eles sabem que é porque estou desempregado; se saio e tenho dinheiro para gastar, eles sabem que você quem me deu. Que vergonha! Prefiro ficar em casa. MARISA- Você é um poço de orgulho. ELTON- Está bem, eu vou lá pro bar do Torresmo que deve estar passando o jogo do Brasil. O Jorge deve estar lá também, só que no caso dele, fugiu da mulher. Até. (Pega o dinheiro e sai) MARISA- Até. (Pega um maço de provas para corrigir) Este Rodrigo não vai passar de ano mesmo, olha só: D. Pedro II, pai de Pedro I, deixou seu filho aqui para ser rei em Portugal... (Ri) Que anta! Só porque nas fotos e quadros Pedro II está com cabelos grisalhos, não significa que ele seja pai do Pedro I. Nestas fotos, o Pedro II não tinha nem 50 anos. Estes alunos... Pior que muita gente adulta se confunde também. (Campainha toca. Entra Laura). MARISA- Laura querida! Tudo bem? LAURA- Mais ou menos. MARISA- Ih! Eu não gosto de gente que diz que a vida está mais ou menos. (Ri) LAURA- Você não vai gostar é do que eu vim falar com você. MARISA- O quê? LAURA- Sabe Marisa, é um assunto delicado... Você é minha amiga desde a época da sexta série, te considero demais. 8

9 MARISA- Vai, fala. LAURA- É difícil falar isso. Poxa, quantas vezes almoçamos juntas no restaurante árabe e paguei a conta? Quantas vezes fomos para Búzios e meu pai bancava tudo: alugava a casa, comprava cerveja, tudo, até a maconha ele comprava. Sempre te considerei uma irmã. MARISA- Isso, joga na cara mesmo. LAURA- Como? MARISA- Fale logo o que é caramba. LAURA- Então vou ser direta. É esta dívida do aluguel que você tem comigo. Já está em quase R$ ,00 reais e eu preciso deste dinheiro para comprar um negócio. MARISA- Um negócio? Que negócio? LAURA- Um negócio aí. MARISA- Que negócio? LAURA- Não te interessa, o dinheiro é meu. Eu preciso comprar um... Um carro novo, pra firma. MARISA- Você não é minha amiga! LAURA- Ah! Com certeza eu sou sua amiga sim, não estou nem cobrando os juros, já são seis anos que você mora aqui sem pagar. Agora é a hora. MARISA- Mas você é rica, tem esse apartamento! Você não precisa deste dinheiro. LAURA- Ora, quem é que não precisa deste dinheiro? MARISA- Mas Laura, você sabe, o Elton está desempregado há quase um ano, eu tenho sustentado a casa sozinha, dou aula em três colégios, dou aula em cursinho, está tudo difícil. Para você ver, estamos cortando garrafa para fazer copo. LAURA- Mentira! Marisa pense bem, vocês nem tem filhos? Se tivessem, eu até compreenderia o desespero. MARISA- Ainda bem que não tive filhos. (Tentando mudar o rumo da conversa) Imagina Laura, se eu tivesse tido filhos? Isto eu tomei bastante cuidado. Eu até imaginava: enjôos, tudo me faria vomitar. Nasce a criança, eu iria ficar sem dormir, teria que dar comida, banho cuidadoso e limpar bunda suja toda hora. LAURA- Cruzes! 9

10 MARISA- Cresceu um pouco iria ficar no meu pé o dia inteiro... Eu não teria tempo para trabalhar e cuidar de mim. Sem falar na adolescência! Eu sei bem como eu era na adolescência... Até esta suposta criança crescer e se virar sozinha, eu já estaria velha e acabada. LAURA- E o extinto materno, o prazer em cuidar de alguém? MARISA- Ser mãe é vocação, não foi toda mulher que nasceu para ser mãe não, isso é machismo puro! Eu não tenho vocação para ser mãe. Já percebeu como toda mãe acha o filho um pequeno gênio? Começam a falar, juntam b com a : ba e elas já acham que a criança é um novo Albert Einstein. Não agüento isso. Deixem eles crescerem que vão logo juntar: b com a : ba, mais b com a : baba, e junta c com a : ca, pronto, babaca é como elas ficam. Nada disso, eu tenho outros sonhos, quero fazer mestrado, doutorado... LAURA- (Se lembrando da conversa anterior) Não me enrole Marisa! Vamos voltar ao assunto capital, a dívida. Como você vai me pagar? MARISA- Assim de repente, você, você me pegou desprevenida. Eu, eu não, eu não posso, eu não posso pagar. LAURA- Marisa, você não está me dando opção, o que você quer que eu faça por você? Eu já tinha jogado umas indiretas meses atrás sobre isso. Eu preciso deste dinheiro, não posso mais fazer caridade. MARISA- Ah! Então era caridade, não era amizade? LAURA- Eram as duas coisas. Eu estou falando sério Marisa, você não vai me enrolar desta vez, se você não começar a se mover para me pagar, eu vou ter que recorrer à Justiça. MARISA- (Nervosa) Á Justiça! Traíra! Traíra! LAURA- Não seja ridícula, vai. MARISA- Caramba Laura, assim, de repente... Deixe-me pensar. LAURA- Este carro velho de vocês? Poderia vendê-lo. MARISA- Este carro não dá nem a metade do dinheiro. LAURA- Somado com estes livros todos. MARISA- Não! Estes livros vão ficar pros meus filhos. LAURA- Mas você disse que não queria ter filhos? MARISA- Foi força de expressão. Toda mulher quer ter filhos. LAURA- O que você tem de valor aí? 10

11 MARISA- Nada. LAURA- E a maçaneta que você roubou naquele museu na Quinta da Boa Vista? MARISA- Opa!!! Roubou? Eu não roubei nada! LAURA- Não lembra? Nós tínhamos uns dez anos, fizemos aquele passeio com o colégio, você aproveitou um desleixo do guarda e pegou a maçaneta. MARISA- Eu não roubei a maçaneta, assim, eu expropriei... Eu só peguei porque vi que alguém mal intencionado poderia pegar, então resolvi guardar comigo num lugar seguro, tenho até hoje. LAURA- Então, deve valer uma fortuna no mercado negro. MARISA- Nem pensar!!! Aquela maçaneta tem o brasão do Império, o D. Pedro II pôs aquelas mãos alvas e delicadas nela milhares de vezes. Ela é minha relíquia! Eu não vendo, não negocio, tem valor inestimável! LAURA- Bem, estou esperando uma proposta melhor. MARISA- Só um minutinho. (Sai) LAURA- Meu Deus, que loucura pelo velhinho. (Grita) Vai demorar muito? (Volta Marisa com a maçaneta) MARISA- Esta é minha relíquia. LAURA- Foi só uma idéia Marisa, fique com sua relíquia, mas me arranje os R$ ,00 reais. MARISA- Só um momento. (Segura a maçaneta, fecha os olhos e começa a pedir) Pedro II, meu amigo, me ajude! Me ajude neste momento de desespero (Pensa) Pronto! Já sei. LAURA- Então. MARISA- Vamos fazer um trato. Você não tem me reclamado que anda solteira? Que está cansada de garotinhos vazios, de maduros complicados e de velhos tarados? LAURA- O quê?! MARISA- Que se sente sozinha em casa, sem ninguém para se quer reclamar do tempo? LAURA- Está maluca? Mas o quê que isto tem haver com a dívida? MARISA- Então, eu te alugo o meu marido por um mês. 11

12 LAURA- Como assim? MARISA- Você pode fazer dele seu escravo, garanto que ele adorará te ouvir, te elogiará todos os dias e fará tudo que você mandar com um sorriso nos lábios. LAURA- Que maluquice é esta Marisa? Você está usando drogas com seus alunos? MARISA- Estou negociando contigo o aluguel de um bem que tenho, garanto que te será muito útil, você fica com meu marido por um mês e quitamos minha dívida. LAURA- Essa é boa, nunca ouvi tamanha loucura. Além do mais, até parece que o Elton vale esta grana toda. R$ num mês? Nem que ele tivesse o pau de ouro! MARISA- Experimente. LAURA- Não, não quero. Pelas coisas que você já me falou dele, não sei não. Comprei minha casa, moro sozinha, o banheiro é só meu, não divido espaço no guarda-roupa, não tem bagunça. Anos para deixar a casa do jeito que eu queria, da cor, do piso, dos móveis que gosto, para um homem vir arranhar e estragar tudo, nem pensar. MARISA- Mas Laura, é um ótimo negócio para você. Não adianta este seu discurso de mulher moderna que não precisa de homem para nada, porque você sempre me reclama da falta de homem, das manias dos homens, da taras dos homens. Você só pensa em homem! Eu te ajudo e você me ajuda. Você não acha o Elton atraente? LAURA- Tirando a parte feia, até que ele é bonitinho. MARISA- Você sabe que beleza não é tudo. LAURA- Tudo bem vamos pensar, o que ele sabe fazer de bom? MARISA- Ele sabe ouvir como ninguém, vai te ouvir falar do que comeu e não devia; das suas amigas invejosas; dos negócios que não conseguiu fechar. Sabe a diferença de cor vermelha pra cereja, de azul anil pra azul turquesa. LAURA- Ih! Homem que sabe diferença de azul anil pra azul turquesa? Não sei se bem homem não hein. MARISA- Deixa eu continuar. Ele só te dirá sim na TPM e irá contigo ao shopping dez vezes no mesmo dia se precisar. LAURA- Nossa! Não sabia que o Elton tinha tantos predicados. Ta ficando bom. Que mais? MARISA- Ele sabe consertar algumas coisas da casa: chuveiro, pia, também lava a louça, faz comida, sabe até fazer uns gatos na fiação elétrica. LAURA- Isto o porteiro e a empregada podem fazer por mim. Que mais? MARISA- Ele sabe mexer no computador. 12

13 LAURA- Não é disto que estou falando. Eu quero é saber se ele chupa bem? MARISA- (Desconcertada) Como? Sim, claro, isto e muito mais. Vai na fé! LAURA- Certeza? MARISA- Absoluta. Uh! De fazer qualquer uma uivar de prazer. LAURA- (Indecisa) Ai, ai. Se ele é tão bom assim, por que quer se desfazer dele? MARISA- Por quê? Ora... (Pensa) Não quero me desfazer dele. Somos um casal moderno e prático. É só um tempo, uma pimenta na relação, sabe? Nós temos nos estranhado muito nestes dias, os gênios que não se batem, entende? Mas não é nada sério, é só um tempo, por isto estou alugando. LAURA- Ai Deus! Eu sou uma mulher corajosa Marisa, você sabe disso, ninguém vai poder dizer que eu não me aventuro nesta vida. (Ansiosa) Conhecer uma pessoa é uma coisa, morar com ela é outra coisa completamente diferente. (Segura) Mas eu sou uma mulher de verdade, enfrento, encaro e experimento. Se não der, não deu. Se der, sugo até a última gota! Vai ser no mínimo divertido. MARISA- Assim que se fala mulher! Você não vai se arrepender. LAURA- Então como fazemos? MARISA- Ele não pode saber que é um negócio, ele pode se sentir usado. Vamos fazer o seguinte, você fica aqui até ele voltar, eu dou uma desculpa e deixo vocês a sós, daí você aproveita e tenta seduzi-lo. LAURA- Seduzi-lo? Aí já é demais. Do que eu devo falar? MARISA- É fácil, fale de como o mundo é injusto com os ingênuos e fale bem mal do governo. Se você focar nestes dois assuntos, ele ficará com uma impressão ótima de você. LAURA- Vou tentar. MARISA- Tentar não, você vai conseguir. É moleza, ele adora também conversar sobre... (Entra Elton) ELTON- Boa noite. LAURA- Boa noite. MARISA- Lembra da Laura? ELTON- Como vou esquecer, ela tem nos ajudado tanto. 13

14 MARISA- Laura veio aqui pegar uns livros emprestados. ELTON- (Para Laura) Livros? Se for sobre D. Pedro II deve ter uns duzentos, pode levar todos. (Ri) LAURA- Que nada, eu odeio História do Brasil. ELTON- Eu também detesto, só têm canalhas! LAURA- Uns safados. MARISA- (Desviando o assunto) Está frio lá fora? ELTON- Está bastante, dentro do bar nem estava frio, mas saí logo, o clima ficou ruim. LAURA- Por quê? ELTON- Eu tava jogando sinuca com o Jorge, quando a Valéria, mulher dele, chegou e deu-lhe uma esculhambação na frente de todo mundo, chamou ele de cachaceiro, mulherengo... Levou ele para casa. O pior era que não havia nenhuma mulher no bar. LAURA- E você não o defendeu? ELTON- Eu? De jeito nenhum, na briga entre o mar e o rochedo, quem se ferra é o marisco". MARISA- Eu é que não faço isso com meu maridinho. ELTON- Estava começando o jogo do Brasil, que pena. MARISA- Assisti aqui ora. ELTON- Aqui não tem graça. O bom é com a rapaziada tomando uma cerveja, gritando palavrão, comendo churrasquinho, falando mal das mulheres, ouvindo um samba... Antes do jogo é claro. Isto é que legal. Sozinho em casa é chato. Você não gosta de futebol. LAURA- Eu adoro futebol. Todo jogo do Brasil eu paro o que estiver fazendo para assistir. ELTON- Sério?! LAURA- Nós estávamos assistindo ainda pouco, desligamos a TV quase agora. O jogo estava duro, muita violência em campo. ELTON- Deve ser mesmo, contra o Uruguai é assim. MARISA- Elton, você pode fazer sala para a Laura, um instante, enquanto vou ao banheiro? É uma emergência. (Sai) 14

15 LAURA- Estava olhando seus CDs, quanta coisa boa você ouve, Altamiro Carrilho, Jacob do Bandolim, Época de Ouro... ELTON- (Surpreso) Nossa! Eu nunca pensei que você conhecesse... Pois é, uma pequena coleção de CDs de chorinho, tenho quase tudo do Pixinguinha também. LAURA- Por mim só ouviria isto. ELTON- (Empolgado) Tenho algumas coisas de samba antigo também: Noel Rosa, Geraldo Pereira, Wilson Batista, algumas gravações raras da década de 30, ao vivo em rádios. LAURA- Eu tenho algumas coisas do Cartola e do Nelson Cavaquinho. Poderíamos um dia, nós três irmos à Lapa e vermos algumas apresentações. Tem vários grupos bons nos fins de semana. ELTON- Claro! Vamos sim. Com maior prazer. Tudo que eu quero fazer é ir à Lapa curtir um samba.você terá que convencer a Marisa, ela só gosta de música barulhenta, mas se você for para assistirmos, já vai ser legal. LAURA- Com certeza. E ao Maracanã, você vai? ELTON- Ah não! Nada de tumulto, só acompanho a Seleção pela televisão mesmo. LAURA- Já percebeu como a nossa Seleção é igual à nossa sociedade? ELTON- Não. Como assim? LAURA- Somos individualistas socialmente, queremos sempre o melhor para gente, não para o grupo. ELTON- Você que dizer: Se a farinha é pouca, o meu pirão primeiro.? LAURA- Sim. O nosso time reflete bem isto, são todos jogadores maravilhosos em suas posições, mas quando se juntam para jogarem em equipe, nem sempre conseguimos fazer uma boa seleção. São todos individualistas, como nós em sociedade somos. ELTON- Interessante. LAURA- Você vê o time da Alemanha, não há nenhum craque excepcional em sua posição, mas no conjunto, no trabalho em equipe, sempre fazem grandes seleções e quase sempre chegam às finais, a Seleção alemã reflete a sociedade alemã, eficiente e organizada socialmente. ELTON- (Surpreso) Laura, você realmente... Se você está certa não sei, mas que você é uma filósofa do futebol, você é. LAURA- O futebol explica o mundo. (Risos) 15

16 MARISA- (Volta) Então, sentiram minha falta? Laura, você vai ficar para jantar não vai? LAURA- Não, não, tenho que ir. ELTON- Fique mais um pouco. LAURA- Tenho uns contratos para estudar ainda hoje. Nos falamos outro dia. Até mais. Boa Noite. (Sai) ELTON- Sabe Marisa, não sabia que a Laura era tão simpática, inteligente, muito menos que gostava de futebol e de samba. MARISA- Futebol e samba? ELTON- Sim, ela elogiou meus CDs de chorinho, falou como o futebol reflete a sociedade. Ela me surpreendeu. MARISA- Nossa! Eu pensei que ela fosse falar mal do governo, de como o mundo é injusto entre outras coisas... Enfim, que bom que você se sentiu bem com ela, gosto que você goste das minhas amigas, principalmente dela. Vou me deitar, você vem? ELTON- Não. Vou comer alguma coisa. MARISA- Então te espero. (Sai) ELTON- Que surpresa agradável foi a visita da Laura hoje. Preciso encontrá-la mais vezes. (Sai) ATO II (Marisa está na sala corrigindo provas. Elton aparece na sala com duas malas.) ELTON- Bem, já arrumei minhas malas. MARISA- Quanto tempo você vai ficar na casa da sua mãe? ELTON- Pretendo ficar umas três semanas, sei lá. Iguaba tem praia, campinhos de futebol, aqui tenho andado muito angustiado. Vou recarregar minhas baterias e quando eu voltar será bem mais fácil arranjar um emprego. MARISA- Claro, não tenho dúvidas de que será muito bom para você. Fique o tempo que quiser, umas quatro semanas, isto, umas quatro semanas. Se divirta, reflita bastante, volte cheio de vontade. ELTON- (Desconfiado) Humm. Você está muito boazinha. MARISA- Como assim? 16

17 ELTON- Sei lá, me deixando à vontade demais. Carne oferecida, ou está podre ou está moída. MARISA- Que nada, eu sou boazinha assim mesmo. ELTON- Beijo. MARISA- Beijo, até! (Se beijam e se despedem)(elton sai) MARISA- (Pega o telefone e disca) Laura, é a Marisa, o Elton já saiu de casa e está indo para aí. (Tempo) Ta tudo certo, ele acha que eu penso que ele vai passar uns dias na casa da mãe dele. (Tempo) Qualquer coisa me liga. Beijinho. (Desliga o telefone) MARISA- Agora sim!!! Este apartamento é todo meu, só meu. Tenho que corrigir provas, silêncio total, sem som de televisão com jogo de futebol, nem filme, nem nada. Ah! Todo mundo merece férias do marido. Posso ouvir minhas músicas sem ninguém dizer que é brega. (Põe uma música e dança sozinha) Não, agora eu quero ver TV, programa de fofoca, programa de culinária, só de pirraça!!! (Desliga o som e liga a TV) Agora eu quero ler em silêncio absoluto (Desliga a TV e pega um livro na estante) Que maravilha!!! Eu faço o que quero aqui. Quem manda aqui sou eu!!! Tem mais, vou lavar a calcinha e deixar dependurada na torneira do box, todos os dias!(gargalha) (Sai) (Casa de Laura. Elton chega com suas malas) LAURA- Estou tão feliz. ELTON- Feliz estou eu agora. LAURA- Fique à vontade, eu vou guardar suas malas. ELTON- Me dê um beijo antes! (Tenta agarrá-la) LAURA- (Se desvencilha dele) Não. Está pensando que minha casa é bagunça? Mala não fica na sala. (Ela pega a mala e leva para dentro.) ELTON- Está bem. (Sai) (Mudas-se a luz. Elton está na sala de pijama lendo um jornal. Laura entra) LAURA- Bom dia. ELTON- Bom dia. LAURA- Alguma coisa boa neste jornal? (Remexe o jornal) Você só lê a parte de esportes e os classificados? ELTON- Sim. LAURA- Não lê sobre a cidade, a Economia e a Política? 17

18 ELTON- Casado com a Marisa eu não precisava ler esta parte do jornal, ela mesma me comunicava. Pra que vou ler sobre Economia, Política... È sempre a mesma história, pra no fundo ser resumido pelo que minha avó sempre dizia: Se merda fosse dinheiro, pobre não teria cu. LAURA- (Ri surpresa) Não acredito que ouvi isto. ELTON- Os classificados sim, leio todos os dias, na luta e esperança de um emprego bom. LAURA- Tem visto algo. ELTON- Não. LAURA- Por que você não tenta conversar com seu antigo chefe? Às vezes ele pode te indicar para uma outra empresa, ou até mesmo, numa situação melhor, recontratá-lo. ELTON- Não, não. LAURA- (Muda de assunto) Você acha que estou bonita? ELTON- Acho. LAURA- (Suspira) Urff. ELTON- O que foi? Eu não disse que estava bonita? LAURA- Mas eu queria que você dissesse maravilhosa. ELTON- Você é maravilhosa. (Muda de assunto) Eu já queria saber o que vamos almoçar? LAURA- Mas ainda nem tomamos café. ELTON- Sim, mas gosto de programar o meu dia inteiro. Eu estava reparando, Laura, não tem carne nesta geladeira? LAURA- Não, eu sou vegetariana. ELTON- O quê?! Você sobrevive como? Ah! Eu não quero passar o dia inteiro com fome! LAURA- Mas Elton, tem pão integral, pasta de berinjela, bolo de cenoura, tudo quanto é fruta e verdura na geladeira... ELTON- Não tem carne mesmo? LAURA- Não. ELTON- E se eu quiser comer um bife no almoço? 18

19 LAURA- Pode se dirigir a um restaurante. ELTON- Caramba. LAURA- Não se cozinha animais aqui, regra da casa. ELTON- (Irritado) Também é regra da casa deixar tufos de cabelo no ralo do box? LAURA- Não, é regra pessoal, a casa é minha. ELTON- Por acaso é regra pessoal sua ser tão escrota? LAURA- E por acaso é regra pessoal sua transar só numa posição, e ao terminar, se virar e dormir? ELTON- (Desconcertado) O quê?! Como? Ora, você está baixando o nível! LAURA- Ai se arrependimento matasse. Sabia que eu iria sair perdendo nesta história. ELTON- Que história? LAURA- Nada não. Esta nossa agora. ELTON- Tem alguma coisa errada? Fala! LAURA- Droga! Droga! A Marisa que me perdoe, mas vou falar logo, isto está me incomodando. Vou abrir logo o jogo. ELTON- A Marisa? O quê que ela tem haver com isso? LAURA- Foi o seguinte: você ficaria um mês aqui em casa comigo e eu perdoaria a dívida do aluguel do apartamento de vocês. Simples. ELTON- O quê?! Isto tudo estava armado? Aquele dia lá em casa, que você falou que gostava de chorinho, falou de futebol, aquilo tudo era armado? LAURA- Saiu de improviso. ELTON- Vocês são duas filhas da puta mesmo! E agora o que faço? LAURA- Continue aqui, podemos conversar mais, sei lá, fique calmo. ELTON- Que sacanagem esta a de vocês! LAURA- Não foi tão sacanagem assim, foi um experimento, eu só queria ver se você conseguia ser diferente do que era com ela. ELTON- Como vocês fizeram isto comigo? 19

20 LAURA- Não fique zangado, foi com a melhor das intenções. Ela disse que foi para apimentar a relação, eu também estava tão carente. ELTON- (Pensa) Sabe Laura, eu posso ser diferente sim, posso provar que não fico só reclamando da vida. Posso provar que sou homem, que sou macho de verdade, que faço todas as funções de um craque. LAURA- Claro que pode. ELTON- Você é sensível, inteligente, muito corajosa para me falar isto, você merece um tratamento melhor, com mais carinho, com mais paciência. Vamos conversar mais sobre isto? Vamos? LAURA- Vamos. (Saem) (Entra Marisa) MARISA- Meu Deus, esta casa está tão vazia, ninguém para falar nada, ninguém nem se quer para reclamar do tempo... Já enjoei, são duas semanas que estou sozinha, angustiada. (Pega a maçaneta imperial e começa a passá-la pelo corpo) D. Pedro II me ajude, me ajude neste momento de solidão. Me ajude! (Ventanias e trovões; portas começam a bater; aparece a figura alta, de barba e cabelos grisalhos, é D. Pedro II) PEDRO II- (Com voz fina) Boa Noite. MARISA- (Grita) Ahhhh! Sai alma penada! PEDRO II- Sou eu, Pedro Alcântara, seu amigo. Não me reconheces? MARISA- É você? D. Pedro II? Você veio me ajudar? Eu sabia que poderia contar contigo, você nunca me abandonaria! PEDRO II- Tranqüiliza-te, estou aqui para ajudá-la. MARISA- (Decepcionada com a voz fina) Pedro, eu pensei que com este corpo avantajado sua voz fosse mais... Deixa para lá. Que bom que está aqui, meu ídolo. PEDRO II- Então caríssima, como posso afagar seu coração? MARISA- Ai Pedrinho, estou muito só, ninguém para me fazer um carinho. PEDRO II- Senhora, eu... MARISA- Senhora? Pedrinho, não me chame de senhora. PEDRO II- Está bem, mas quantas primaveras a senhorita têm? MARISA- Pedrinho?! Não se pergunta a idade para uma mulher!!! 20

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