50 ANOS DO CASO LÜCH

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1 Faculdade 7 de Setembro CURSO DE DIREITO 50 ANOS DO CASO LÜCH BRUNA SOBRAL DE QUEIROZ FORTALEZA 2008

2 2 Faculdade 7 de Setembro CURSO DE DIREITO 50 ANOS DO CASO LÜCH BRUNA SOBRAL DE QUEIROZ 1 1 Aluna: Bruna Sobral de Queiroz Curso Direito Faculdade 7 de Setembro Professor Orientador George Marmelstein Lima, Juiz Federal e professor de Direito Constitucional II, Fa7 Site:

3 SUMÁRIO 3 O Caso Lüch...Pág.1 A eficácia horizontal dos Direitos Fundamentais e suas conseqüências...pág.2 A influência do Caso Lüch para o Brasil...Pág.3

4 4 RESUMO O presente trabalho fala sobre o Caso Lüch, cuja a decisão foi proferida na Alemanha, em 1958, portanto, fazendo 50 anos este ano. O caso trata de uma briga aparentemente simples, em que poderia ser resolvida logo no Tribunal Estadual de Hamburgo, por se tratar de problemas relacionados à esfera privada, porém, a situação tomou outro rumo. Um alemão, produtor de cinema, um dos maiores responsáveis pela divulgação das idéias nazistas na época do holocausto, resolveu lançar um filme chamado Amada Imortal, que não fazia qualquer referência à época nazista. Um judeu chamado Eric Lüch, revoltado com o fato de que um dos principais responsáveis por todas as barbaridades que aconteceram à época do holocausto pudesse produzir um filme destinado também ao público judeu, resolveu fazer um boicote para que o filme não fosse assistido. Aconteceu o que Lüch esperava, o filme foi um fracasso de público e só causou prejuízo. Dessa vez quem ficou revoltado foi Veit Harlan, o alemão, produtor do filme. Harlan ajuizou uma ação invocando a figura da lesão, garantida pelo Código Civil Alemão, no Tribunal Estadual de Hamburgo, cuja ação foi julgada procedente. Lüch por sua vez, apelou para o Tribunal Federal de Hamburgo, e também interpôs uma Reclamação Constitucional, alegando uma violação ao seu direito fundamental de liberdade de expressão do pensamento. Em 15 de janeiro de 1958 o TCF julgou a Reclamação procedente, revogando a decisão do Tribunal Estadual de Hamburgo. A partir daí pôde se verificar que os direitos fundamentais não são apenas ferramentas contra o Estado, mas a qualquer um que viole um direito garantido constitucionalmente, inclusive na esfera privada.

5 5 1 Introdução Em 1933 Hitler comandava o gabinete da Alemanha quando foi aprovado o chamado Ato de Habilitação, que conferia aos integrantes o poder de editar normas que eram capazes até mesmo de alterar a Constituição. 2 Com isso os nazistas fizeram barbaridades contra os judeus, episódio que ficou conhecido como Holocausto, atos que justos ou não, estavam protegidos pelas normas alemãs vigentes na época, visto que eram formalmente válidos. Com o fim da segunda guerra mundial os vencedores desta, criaram um tribunal na cidade de Nuremberg, para julgar esses crimes cometidos pelos nazistas. A partir daí e junto ao pós-positivismo surgiu, verdadeiramente, a teoria dos direitos fundamentais, uma garantia contra a opressão do Estado que acabou por espalhar-se pelo mundo e que hoje tem presença imprescindível no ordenamento brasileiro. Porém, atualmente sabe-se que os direitos fundamentais dispostos na nossa carta magna não é só uma ferramenta contra os abusos do Estado, mas também contra todo aquele que ferir qualquer garantia constitucional, seja ele o próprio Estado (eficácia vertical) ou até mesmo um particular (eficácia horizontal). Esse artifício relacionado à eficácia horizontal que a Constituição brasileira de 1988 adota atualmente foi consagrado pela primeira vez na Alemanha, com o Caso Lüch, objeto de estudo dessa pesquisa. 2 MARMELSTEIN, George.Curso de Direitos Fundamentais. Em prole.

6 6 2 O Caso Lüch Tudo começou com uma briga entre particulares, um judeu e um alemão, na esfera do direito privado. Veit Harlan, alemão, era um produtor de cinema, que no auge do nazismo foi o principal responsável pela divulgação das idéias nazistas, principalmente pelo filme Jud Süb(1941), mas que na época tinha lançado um filme chamado Amada Imortal (anos 50), que não tinha qualquer vinculação com o nazismo, a não ser pelo histórico do próprio produtor. Eric Lüch, judeu, presidente do Clube de Imprensa, incentivou a sociedade a não assistir ao filme, através de um manifesto declarado em 20 de setembro de 1950, contra o cineasta. Vejamos: Depois que a cinematografia alemã no terceiro Reich perdeu sua reputação moral, um certo homem é com certeza o menos apto de todos a recuperar esta reputação: Trata-se do roteirista e diretor do filme Jud Süß. Poupemo-nos de mais prejuízos incomensuráveis em face de todo o mundo, o que pode ocorrer, na medida em que se procura apresentar justamente ele como sendo o representante da cinematografia alemã. Sua absolvição em Hamburgo foi tão somente uma absolvição formal. A fundamentação daquela decisão (já) foi uma condenação moral. Neste momento, exigimos dos distribuidores e proprietários de salas de cinema uma conduta que não é tão barata assim, mas cujos custos deveriam ser assumidos: Caráter. E é um tal caráter que desejo para a cinematografia alemã. Se a cinematografia alemã o demonstrar, provando-o por meio de fantasia, arrojo óptico e por meio da competência na produção, então ela merece todo apoio e poderá alcançar aquilo que precisa para viver: Sucesso junto ao público alemão e internacional. (Eric Lüch) 3 As conseqüências da carta-boicote geraram uma ação judicial, visto que o filme foi um fracasso de público, o que gerou enormes prejuízos para o alemão e os empresários que estavam investindo no filme. Os prejudicados ajuizaram uma ação judicial, com base no 826 BGB, Código Civil alemão, alegando que: todo aquele que, por ação imoral, causar dano a 3 Postado em 13 de maio de 2008 / Acesso em 18 de maio 2008.

7 7 outrem, a uma prestação negativa (deixar de fazer algo, no caso, a conclamação ao boicote), sob cominação de uma pena pecuniária 4. O Tribunal Estadual de Hamburgo julgou, no dia 22 de novembro de 1951, a ação procedente. Inconformado, Eric Lüch interpôs um recurso de apelação junto ao Tribunal Superior de Hamburgo e, ainda, uma Reclamação Constitucional, baseada no Art. 5 I 1 GG, alegando violação do seu direito fundamental à liberdade de expressão do pensamento. Foi quando pela primeira vez, em 15 de janeiro de 1958, um tribunal decidiu pela eficácia horizontal dos direitos fundamentais. O TCF julgou a Reclamação procedente, revogando a decisão dada pelo Tribunal Estadual, fundamentando sua decisão na idéia de que a garantia constitucional de direitos individuais, não é somente uma garantia do cidadão contra o Estado, mas sim, se aplicam em todas as áreas do direito, através de um efeito radiante, exercendo sobre todo o ordenamento jurídico uma aplicabilidade ampla. 3 A eficácia horizontal dos Direitos Fundamentais e suas conseqüências Como já pôde ser visto, tem-se reconhecido que os valores contidos nos direitos fundamentais projetam-se também nas relações que envolvem particulares, e não só no caso da proteção de um indivíduo contra o Estado. A partir do exposto cria-se um aparente problema: I) E quando houver colisão de direitos fundamentais entre particulares? II) Que direito prevalece? III) Há uma hierarquia? A resposta não é objetiva e tampouco simples, pois há uma complexidade na análise a ser feita do caso individual e dos direitos que cabem a cada parte. Em primeiro lugar, quando houver uma colisão de direitos fundamentais fica impossível excluir um deles, já que não se tratam de regras, e sim de normas, como pode ser visto na CF/88: Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos 4 Postado em 13 de maio de 2008 / Acesso em 18 de maio 2008.

8 8 tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte 5. Em segundo, não há hierarquia entre os direitos fundamentais. Dessa maneira, a solução encontrada é um balanceamento de interesses a partir de um caso concreto, em que os direitos não são excluídos, mas sim adaptados de acordo com as particularidades dos casos apresentados. 4 A influência do Caso Lüch para o Brasil A jurisprudência brasileira tem utilizado a decisão do caso em apreço para decidir outros casos que envolvam direitos privado em que há a convocação dos direitos fundamentais. Vejamos como dispõe a jurisprudência brasileira nesse sentido: EMENTA: SOCIEDADE CIVIL SEM FINS LUCRATIVOS. UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES. EXCLUSÃO DE SÓCIO SEM GARANTIA DA AMPLA DEFESA E DO CONTRADITÓRIO. EFICÁCIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS NAS RELAÇÕES PRIVADAS. RECURSO DESPROVIDO. I.EFICÁCIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS NAS RELAÇÕES PRIVADAS. As violações a direitos fundamentais não ocorrem somente no âmbito das relações entre o cidadão e o Estado, mas igualmente nas relações travadas entre pessoas físicas e jurídicas de direito privado. Assim, os direitos fundamentais assegurados pela Constituição vinculam diretamente não só os poderes públicos, estando também direcionados à proteção dos particulares em face dos direitos privados. II.OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS COMO LIMITES À AUTONOMIA PRIVADA DAS ASSOCIAÇÕES. (...) A autonomia privada, que encontra várias limitações de ordem jurídica, não pode ser exercida em detrimento ou com desrespeito aos direitos e garantias de terceiros, especialmente aqueles positivados em sede constitucional, pois a autonomia da vontade não confere aos particulares, no domínio de sua incidência e atuação, o poder de transgredir ou de ignorar as restrições postas e definidas pela própria Constituição, cuja eficácia e força normativa também se impõem, aos particulares, no âmbito de suas relações privadas, em tema de liberdades fundamentais. (STF, Diário Oficial, recurso 5 CONSTITUIÇÃO FEDERAL BRASILEIRA, Art. 5, parágrafo 2, de 1988.

9 extraordinário Rio de Janeiro, 27/10/2006). (GRIFO NOSSO). 9 Há decisões em que, até mesmo, os argumentos expostos pelas partes geram um conflito entre direitos fundamentais. É o caso do Lançamento de anão, em que a sua autonomia privada de exercer um trabalho que consiste no arremesso dele próprio, em colchões, pelos clientes do bar em que trabalha e a dignidade da pessoa humana. Nesse caso o Tribunal decidiu que a dignidade do anão estava acima da sua autonomia da vontade, visto que o fato não gera conseqüências apenas para ele, mas sim para toda a classe em que se encontra, pois os anões já são discriminados pela sociedade e por isso deve se resguardar, com ainda mais cuidado, a sua dignidade. Há também vários processos judiciais conhecidos que envolvem celebridades brasileiras em que há divergência entre direitos fundamentais, seja o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente da violação da intimidade, vida privada, honra ou a imagem das pessoas e o direito de informação, liberdade jornalística, liberdade de comunicação ou manifestação do pensamento. Como forma de exemplo há o caso Maitê Proença contra um jornal carioca, Glória Pires e família contra diversos meios de comunicação, Luana Piovani e Dado Dolabella contra o Programa Pânico na TV (RedeTV), entre outros. 6 Os casos supracitados são apenas uma pequena parte dos exemplos em que existe conflito entre direitos fundamentais na esfera privada, conseqüência da horizontalidade desses direitos. 5 Conclusão 6 Postado em 29 de agosto de 2007 / Acesso em 18 de maio 2008.

10 10 O Caso Lüch foi de extrema relevância para a humanidade, visto que ratificou a importância dos direitos fundamentais para todo o ordenamento jurídico, não só da Alemanha, mas também em vários outros países, como é o caso do Brasil. Além disso, demonstrou que os direitos fundamentais funcionam como instrumento para qualquer tipo de opressão, de abuso, seja por parte do próprio Estado ou por parte de particulares no âmbito privado, a chamada eficácia horizontal. Outro fator interessante da decisão é o fato de que os direitos fundamentais, necessariamente, precisam ser observados primordialmente, pois são eles que influenciam todo o ordenamento jurídico e no caso de um conflito entre esses direitos, caberá ao juiz analisar o caso concreto e a partir daí fazer uma espécie de balanceamento sem excluir nenhuma das normas conflitantes. A presente pesquisa serve como incentivo a um aprofundamento do tema, visto que no nosso país têm acontecido muitos casos envolvendo conflitos entre particulares na esfera privada e em muitas vezes as duas partes invocam Direitos Fundamentais. REFERÊNCIAS

11 11 MARMELSTEIN, George. Curso de Direitos Fundamentais. Em prole. MARMELSTEIN, George. Direitos Fundamentais. Disponível em: Acesso em: 18 de maio de Constituição Federal Brasileira, STF.

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