Fotografias de Raquel Porto

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2 Fotografias de Raquel Porto

3 A RAPARIGA QUE SABIA ANTES Não se lembra da primeira vez que aconteceu. Foi talvez na infância, não se lembra ao certo. Para ela sempre foi assim. Vê as coisas acontecerem antes das coisas acontecerem. Quer dizer, ela sabe o que vai acontecer antes. Não muito tempo antes. Muito pouco tempo antes. Sabe que daqui a pouco vão tocar à porta e é o carteiro, sabe que o telefone vai tocar e é engano, sabe que vai começar a chover e um pássaro há-de vir pousar no parapeito da janela, para logo esvoaçar É uma pequena antevisão do futuro, sempre. Mas a curto prazo. Um tempo antes do tempo depois. Como uma lembrança ao contrário de uma coisa que aconteceu mesmo agora. Nunca pode fazer nada para o evitar. Quando há um acidente, por exemplo. Como quando um carro atropelou o filho da vizinha. Ela apercebeu-se de que ia acontecer, tentou avisar, mas não chegou a tempo. (Houve uma vez que deu tempo, parece-lhe que deu tempo. Quando, durante um passeio de montanha, viu uma amiga a escorregar e a cair num precipício (agora não sabe ao certo se ela caía no precipício). Foi a tempo de se antecipar e, sem evitar a escorregadela, agarrá-la a tempo. Por uma vez, ficou confundida, sem se lembrar se na sua antevisão salvava a amiga ou se só a salvou depois. Mas foi a única vez. Das outras vezes nunca pôde evitar nada. Ou simplesmente deixou de fazer o que quer que fosse para alterar o que sabia que ia acontecer). A verdade é que se fizesse algo para alterar o que ia acontecer, nunca o poderia saber, porque o que antevia era sempre o que acabava por acontecer, quer fizesse alguma coisa ou não. Fosse como fosse, era sempre muito pouco tempo antes das coisas acontecerem. Nunca falou disso a ninguém e habituou-se a viver com essa muito breve memória ao contrário. Ou com um excesso de memória que vindo do passado

4 transbordava para o futuro. Como uma dessincronia com o fluir do mundo dos outros. Não vivia aquilo com dramatismo, habituou-se, as pessoas habituam-se a tudo. E sabia que um dia quando fosse morrer havia de ver a sua morte um pouco antes, só um pouco antes, de ela acontecer. Chegou a pensar que podia estar enganada, que o que tinha não era uma capacidade de antecipar mas antes uma sensação de dejá vu quando vivia as coisas. Como um problema de percepção que fizesse com que coisas que estava a viver e a tomar conhecimento pela primeira vez lhe parecessem já ter sido vividas ou conhecidas antes. Um curto- -circuito entre o que é a memória e a percepção. Era pôr o problema ao contrário: ela não antecipava o que ia acontecer ela lembrava-se, quando as coisas aconteciam, que já as tinha antecipado. Mas nunca procurou saber ao certo, não contou a ninguém. A verdade (o seu segredo), é que naquele curto espaço de tempo entre o antecipar e o acontecer ela sabia, e só ela sabia, que o que estava a antecipar ia acontecer. De uma forma ou de outra, era como se a sua vida, ou a sua memória, estivesse em permanente erro de paralaxe. Quando o conheceu, já sabia que o ia conhecer, quando o desejou, já sabia que o ia desejar, quando se apaixonou já sabia que se ia apaixonar, antecipando ainda um pouco mais o prazer da antecipação que o desejo traz. O que ela não previu foi que o mecanismo secreto da sua memória do avesso começasse a funcionar ao contrário que o seu sentimento fosse ficando para trás, um tudo nada para trás, ligado, intimamente ligado, não ao presente que vivia, mas ao passado que acabara de acontecer. E passou, desde um instante preciso, que nunca poderá determinar qual foi, em que se apaixonou (ou que soube que se ia apaixonar), a viver com uma imensa saudade do momento antes das coisas acontecerem.

5 A REALIDADE Todos os dias lêem os jornais. Já não são só os jornais diferentes em línguas diferentes são jornais de diferentes dias: de dias anteriores, de meses anteriores, de anos anteriores. Lêem, com igual curiosidade e indiferença, a notícia de um terramoto ontem na China ou de um furacão, há um ano, nas Caraíbas; da queda do Muro de Berlim ou da declaração de paz em Timor; da guerra na Bósnia ou do assassinato de Kennedy; da libertação de Nelson Mandela ou da Revolução dos Cravos; da greve dos pilotos da semana passada ou da primeira travessia aérea do Atlântico Sul; do homem que ontem morreu ao cair de uma obra em construção ou da chegada da Apollo 11 à Lua, em 20 de Julho de 1969

6 RELATÓRIO SOBRE A VIDA DESCONTÍNUA DOS HABITANTES DO TERCEIRO PLANETA TERCEIRO DIA TERRESTRE: Cumpridas setenta e duas horas, tempo terrestre, de observação no local, confirma-se a tese de que a descontinuidade da vida dos terrestres não é por eles percepcionada. Efectivamente os terrestres vivem na ilusão da continuidade temporal. A imobilização do planeta e do fluxo temporal é um fenómeno unicamente detectável por observadores exteriores ao planeta. As diferentes civilizações terrestres partilham desta ilusão temporal. Todos os terrestres observados, em colectivo ou individualmente, partilham a crença na continuidade do tempo simbolizado pela metáfora universal de um rio sempre fluindo sem interrupção. Nenhum dos momentos de interrupção do fluxo foi em nenhuma circunstância percepcionado por qualquer terrestre. É como se nesses momentos de imobilidade absoluta ficassem adormecidos num tempo interior para depois, como num encantamento, acordarem, sem se aperceberem que acordaram. Não nos foi ainda possível determinar a actividade inconsciente dos humanos nesses intervalos de tempo (se é que ela existe). A observação no local continua.

7 ESTAÇÕES DE COMBOIOS I Na estação está um homem a perder um comboio. Há mil e uma coisas a acontecer na estação nesse preciso instante, contudo uma única nos serve de ponto de partida: um homem que perdeu um comboio. Perdeu-o agora mesmo e tem de esperar meia-hora pelo próximo. Meia-hora com que não contava na estação. Não sabe bem o que fazer, fica a andar de um lado para o outro. Pensa no que há- -de fazer em meia-hora. Não sabe, não pode saber, que é uma meia-hora decisiva na sua vida.

8 II Um telemóvel toca e interrompe o que era para ser a história anterior. É um telemóvel esquecido num banco de estação. Um homem ouve-o tocar, vê-o, hesita e acaba por pegar nele e atender. (Pode ser, ou não, o homem que perdeu o comboio no princípio da história anterior. No caso de não ser, esta história interrompe a outra; no caso de ser, a outra história e esta passam a ser uma só). Estou Uma última coisa É que Não me interrompas! Tenho que te dizer Não podia desaparecer da tua vida sem te dizer isto Sabes eu fui nós fomos felizes por um tempo Se calhar estávamos enganados mas no nosso engano fomos felizes Por um tempo Houve um tempo em que coincidiu Mas agora é tarde, para nós é tarde demais. Não posso, percebes? Não podemos continuar como estamos. E já te disse, sou eu que saio (Um comboio apita no preciso momento em que ele diz:) Espere, espera Estás na estação? Eu também. É coincidência A última coincidência. Só que eu vou em sentido contrário. Trouxe as minhas coisas A chave ficou debaixo do vaso. Não me procures. Adeus. Ficou um tempo com o telemóvel na mão, parado. Depois ainda procurou na estação, sem saber quem procurava se uma mulher que tivesse desligado um telemóvel, ou um homem que procurasse outro. Lembrou-se de ligar para o número de onde lhe tinham ligado, mas estava desligado. Vagueou de um lado para o outro com o telemóvel na mão. Acabou por se sentar. O seu comboio chegou. Levantava-se para ir embora decidido a deixar o telemóvel onde o tinha encontrado, quando este tocou de novo. Hesitou. Acabou por voltar para trás e atendê-lo. Era ela a dizer que voltava. Que estava na estação. Para ele a ir buscar.

9 33 HORAS (trailer) Um homem acorda e percebe que não acordou no dia seguinte à noite em que se deitou, mas sim um dia depois. Primeiro é a incredulidade, depois a inquietação, (como é possível?), a necessidade de uma explicação lógica para o facto de ter passado não nove, mas trinta e três horas a dormir. Não encontrada explicação nenhuma, vem a angústia de não saber e a certeza de que algo de muito importante terá acontecido nesse dia que ele perdeu. A sequência da história é a da espiral da obcessão dele por esse lapso na sua memória que não sabe se é um lapso na sua vida. Ao procurar o seu único amigo, encontra-o morto, e ao descobri- -lo morto faz igualmente a descoberta de que ele tinha um caso com a sua mulher que entretanto desapareceu sem deixar rasto. Quando está no quarto do amigo, a remexer nas coisas dele, alguém entra em casa. É a polícia que vem com a sua mulher. Primeiro, ele procura esconder-se mas acaba por fugir, depois de ter sido visto e incriminado. Regressa a casa e no seu quarto encontra a arma do crime que nunca vira antes. Aqui a espiral adensa-se na dúvida que ele próprio tem sobre a sua inocência, mas como nos trailers dos filmes, não sabemos o desfecho. Podemos imaginar que ele foi drogado, posto a dormir e incriminado pelo verdadeiro assassino, que se calhar foi a sua própria mulher, ou que ele foi realmente o assassino e o trauma do sentimento de culpa causou-lhe uma amnésia parcial, ou que foi o amigo que encenou a sua própria morte para o incriminar e fugir com a sua mulher, ou que foi vítima de uma forma rara de sonambulismo que o leva a agir contra os seus fantasmas íntimos A solução não é revelada, será sempre uma hipótese no jogo da ficção, não é o essencial, o essencial é a inquietação dele: 33 horas, e ele sem se lembrar de nada, do que aconteceu, se aconteceu

10 AS FÁBULAS O fio perdeu-se, o labirinto perdeu-se também. Agora nem mesmo sabemos se nos rodeia um labirinto, um secreto cosmos ou um caos imponderável. O nosso mais grato dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos e o percamos num acto de fé, numa cadência, no sonho, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade. (O Fio da Fábula, Jorge Luis Borges) Primeiro ouvindo uns dos outros, depois lendo nos livros, vendo nos filmes no cinema, e em casa na televisão, nos múltiplos canais, nos filmes alugados nos videoclubes horas e horas de histórias que ouvimos e vemos num zapping incessante, esquecendo enredos e personagens sobre os enredos e personagens de outras histórias, dia a dia mais ausentes de nós, enfeitiçados pelas fábulas onde sonhamos o tempo ou onde o tempo nos sonha, nunca havemos de saber

11 A REALIDADE É REAL? Foram fazendo do jornalismo, como da História de que ele é o primeiro esboço - uma variante literária. A realidade foi abandonada como um romance que já ninguém lê, e os jornais foram sendo habitados por histórias e personagens cada vez mais implausíveis.

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