O TRÁFICO DE ANIMAIS SILVESTRES A LEGISLAÇÃO BRASILEIRA

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1 O TRÁFICO DE ANIMAIS SILVESTRES A LEGISLAÇÃO BRASILEIRA Francisco Carrera* Decorridos mais de seis anos após a publicação da Lei nº 9605/98 ( Lei dos Crimes Ambientais), ainda encontramos quadros não muito positivos em relação ao tráfico de animais silvestres no Brasil. Por outro lado, contemplamos avanços extremamente promissores de instituições que dedicam suas atividades ao combate desta prática criminosa e atentatória ao equilíbrio natural de nosso planeta Terra. Um cenário ainda flagrante pode ser visto nas ruas do município de Duque de Caxias, no Estado do Rio de Janeiro, onde todos os domingos realiza-se uma feira livre, de grande extensão. Percorrendo esta feira, encontramos os mais variados tipos de produtos expostos à venda, desde CD s pirateados, artigos de vestuários, cestarias, alimentos, plantas ornamentais, caranguejos, e, finalmente, animais silvestres, domésticos e exóticos. O panorama inicial depende da situação da fiscalização no local. Se a polícia estiver presente, nenhum animal silvestre é exibido para venda, somente permanecem nas gaiolas de exposição animais exóticos e domésticos. Por outro lado, circulam pela feira crianças e adolescentes, ainda acobertados pela menoridade penal, que anunciam, discretamente, o nome vulgar de animais silvestres e seus respectivos preços. Ao perceberem qualquer manifestação de interesse dos clientes que circulam pela feira, os meninos imediatamente levam o interessado ao encontro do animal silvestre, que em geral está acondicionado em galpões distantes do local. O tráfico se perfaz da maneira mais natural possível e milhares de animais silvestres são comercializados sem qualquer tipo de punição e sem nenhuma aplicabilidade dos dispositivos previstos na Lei dos Crimes Ambientais. Certamente estes fatos demonstram a necessidade de implementarmos de forma mais extensiva e descentralizada a educação ambiental no Brasil, voltada, principalmente, para a eliminação do tráfico de animais silvestres e conscientização da população de que quanto mais se pratica o crime previsto no Art. 29 da Lei 9605/98 1, mais se estimula o tráfico. O trabalho das instituições do terceiro setor, das Academias de polícia e sobretudo dos órgãos internacionais, é elemento essencial à modificação do comportamento do cidadão, que, estimulado pela beleza e afeição do animal silvestre, dá preferência ao tráfico, ao invés de se dirigir às lojas devidamente credenciadas junto à Administração Pública. O estímulo à aquisição ilegal de animais silvestres também se dá em virtude de 01 29

2 algumas práticas dolorosas e criminosas que são realizadas nestes inocentes componentes da fauna. Asas cortadas, mutilações, olhos queimados com cigarros, marcas na pele, e casos típicos como o banho de sagüis em água oxigenada para serem vendidos como mico leão dourado, são fatos que certamente impressionam o cliente e fazem com que a dor no coração seja maior do que no bolso, resultando na lastimável aquisição criminosa do animal. É patente que a lei dos Crimes ambientais no Brasil, de certa forma promoveu uma revisão das condutas até então praticadas. Hoje em dia o cidadão, conscientizado, repensa as suas ações, diante da repressão instituída pela lei. Por outro lado, outros cidadãos, respaldados por algumas situações jurídicas e até mesmo orientados por juristas que olvidam a ética, fazem uso de lacunas do texto legal e desenvolvem e aprimoram práticas que facilitam em muito a sua inaplicabilidade. Alguns fatos podem comprovar os efeitos positivos do advento da Lei dos Crimes ambientais. O primeiro deles está representado pelo retorno das aves silvestres às regiões próximas às áreas urbanas, e ainda o aumento de aves silvestres nos grandes centros urbanos. Aves como sanhaço cinzento (Thraupis sayaca) e o sanhaço de coqueiro ( Thraupis palmarum), que eram veneradas pelos traficantes, podem ser vistas em bando, pela Avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro. Sabiás-laranjeira (Turdus rufiventris) também ilustram o cenário da cidade, com seus cantos melodiosos, sem falar nos colibris que, agora estimulados até mesmo por pequenos bebedouros instalados nas janelas dos grandes prédios, retornam à cidade de forma harmônica. Outro fator de grande importância é o abandono de práticas tradicionais utilizadas pelas crianças como diversão, como a utilização dos bodoques ou atiradeiras (instrumento feito com uma forquilha de madeira e dois elásticos para o arremesso de pedras em aves e animais silvestres). Tais práticas estão sendo abandonadas pelas crianças e substituídas por outras voltadas, acima de tudo, para a educação ambiental. Estes são, na verdade, efeitos positivos que podemos constatar em virtude da modificação da educação ambiental no Brasil e da instituição de penalidades mais severas para as condutas criminosas praticadas em face de qualquer objeto da tutela ambiental. A dor no bolso constitui, primordialmente, um forte elemento a fomentar a mudança de condutas dos agentes. As multas instituídas pela Lei 9605/98, que podem variar de R$ 50,00 (cinqüenta Reais) a R$ ,00 (cinqüenta milhões de Reais), de fato consistem em elementos de sanção pecuniária que demontram-se eficazes na repressão e combate ao tráfico de animais. A operatividade do Direito nos revela outro elemento que ainda contribui de forma negativa para as práticas delitivas em face da fauna silvestre brasileira. Trata-se da aplicação e instituição do pagamento de fiança, para aqueles que são presos em flagrante quando da prática dos delitos previstos na Lei 9605/98. O que se tem observado é o arbitramento de valores muito baixos. Este fato estimula a 01 30

3 reincidência delitiva, e certamente contribui para a continuidade do tráfico. O tráfico de animais silvestres representa hoje um elemento de grande importância financeira no mercado internacional. Já é mais do que consagrada a sua posição de 3º lugar no Ranking de modalidades de tráfico internacional, somente perdendo espaço para o tráfico de drogas e de armas. 2 A tutela legal da fauna em nosso país ainda merece uma contemplação legislativa mais abrangente. Não podemos mais permitir embustes lesivos ao patrimônio ambiental brasileiro, sob pena de infringirmos até mesmo dispositivo contido na Convenção da Diversidade Biológica, que em seu Art 3º 3 dispõe sobre a obrigatoriedade e soberania do país detentor da biodiversidade em promover a segurança e conservação da mesma. A lei 5197/67, conhecida com Lei de proteção à Fauna, ainda continua em vigor em nosso país, tendo sido apenas revogada parcialmente em relação aos dispositivos penais hoje previstos em lei específica (lei no. 9605/98). Desta forma, todos os demais conceitos legais de fauna ainda podem ser encontrados na lei de 1967, e nas Portarias do IBAMA. 4 A biopirataria é outro elemento que acoberta o tráfico de animais, apesar de hoje já convivermos com um dispositivo de ordem legal que estabelece normas para a proteção ao acesso ao patrimônio genético brasileiro (MP no. 2186/2001). A legislação ambiental vigente, por mais abrangente que seja, ainda não possui um caráter mais repressivo, suficiente o bastante para coibir o tráfico de animais silvestres. O Brasil necessita de um dispositivo de ordem penal mais eficaz, cujos resultados possam transparecer na coibição da prática delitiva. As portarias, instruções normativas e demais atos administrativos do IBAMA, ainda não são suficientes o bastante para sustentarem as atividades de seus próprios agentes. A Lei 9605/98, teve o seu artigo 47 vetado pela Presidência da República. Este fazia referência expressa à prática da biopirataria e sobretudo à questão dos bancos de germoplasmas. Por isso a inibição das condutas criminosas ainda carece de um instrumento legal capaz de estabelecer penalidades e restrições de direitos mais severas. A doutrina ambiental brasileira é quase unânime em afirmar que a biodiversidade é um fator de extrema relevância para o sustento das relações sócio ambientais 5. A conservação da biodiversidade é uma garantia para a preservação das gerações presentes e futuras, imposição de direito constitucional, estabelecida expressamente no Art. 225 da CF 6 e que deve aplicada por todos os cidadãos. Afinal, na expressa assertiva de Lovelock em sua teoria de Gaia, todos nós somos parte integrante de um sistema vivo e inteligente, capaz de administrar todas as relações travadas em seu ventre. É a verdadeira expressão da nossa Grande Mãe Terra, a pacha mama dos Incas e a Gaia dos gregos. Como filhos e representantes deste grande sistema vivo, devemos, acima de tudo fazer uso das disposições oriundas do Direito Ambiental, para através de dispositivos legais, honrarmo-nos com nossas iniciativas no sentido de assegurarmos a integridade deste sistema. Daí a flagrante necessidade de implementação 01 31

4 da Política Nacional de Educação Ambiental, prevista hoje na Lei Federal no. 9795/99 em conjunto com a fiscalização imposta pela Administração Pública e pelo respaldo de uma legislação penal mais restritiva. De nada adianta estabelecermos políticas nacionais, se não aplicamos suas diretrizes e seus princípios. 7 Realmente estamos entre dois titãs: de um lado o Tráfico de Animais Silvestres, aliado ao poderio econômico das facções criminosas em conjunto com o respaldo de instituições que preferem atuar à margem da lei; de outro lado, iniciativas extremamente promissoras do Poder Público Federal e do atual governo do Presidente Lula, que na árdua tarefa de reorganizar o Estado Brasileiro, enfrenta entraves extremamente difíceis na solução dos problemas ambientais nacionais. As iniciativas tomadas até então pela Ministra Marina Silva merecem aplausos pois não é nada fácil enfrentarmos gigantes do lobby e do tráfico. Mesmo assim, a luta tem se demonstrado positiva no cenário nacional e os resultados já refletem o início da glória. As apreensões de animais crescem a cada dia, a participação de ONGs como a RENCTAS auxiliam, em muito, o Poder Público na árdua tarefa de combate ao tráfico de animais silvestres. A conscientização da importância do animal silvestre para as comunidades locais só vem a somar às iniciativas positivas, tomadas pelo poder executivo Federal. Mas tudo isto ainda não é suficiente para eliminarmos esta chaga de nosso sistema. Torna-se imperiosa uma plena conscientização, não só da população como também do poder público, quanto aos fatores negativos oriundos do tráfico de animais. Os impactos e danos ambientais advindos de solturas ilegais e doenças transmitidas pelos animais são elementos que contribuem para uma lesão no patrimônio ambiental brasileiro e aumentam o desequilíbrio ambiental. Não teremos acesso à cidadania e a uma qualidade de vida sadia, se não encontrarmos uma maneira de convivermos harmonicamente com nossos irmãos integrantes da fauna silvestre. O dispositivo contido no Art. 225 da Constituição Federal é expresso ao determinar o Direito ao Meio Ambiente Ecologicamente Equilibrado e ainda continua afirmando que este meio ambiente, é bem de uso comum do povo e essencial a uma qualidade de visa sadia. Este é um reconhecimento expresso de todas as determinações emanadas da Conferência de Estocolmo (1972), posteriormente contempladas no documento Our Common future e definitivamente inserida em nosso ordenamento jurídico pela Lei 6938/81, que foi recepcionada pelo dispositivo constitucional. Assim, não podemos silenciar diante das afrontas a um patrimônio que nos pertence. A f a u n a silvestre não é brinquedo e muito menos instrumento de uso insustentável. É, sim, um instrumento de valor, que na forma da lei pode ser comercializada por criadores devidamente registrados junto ao IBAMA, e que sujeitam-se a um rigoroso processo de licenciamento ambiental. Não devemos silenciar diante do tráfico de animais! Diante de qualquer ilegalidade, a denúncia é um instrumento de potencial valor, daí a importância da linha verde do IBAMA, da RENCTAS e da ação das Polícias Federal, Estaduais e 01 32

5 Militares. Os convênios e parcerias públicas e privadas não podem ser olvidados e devem ser estimulados. A Educação ambiental há que ser fomentada para que uma criança, hoje, já possa distinguir uma atividade criminosa de uma legal, concebendo a possibilidade de convívio sustentável com a fauna silvestre, sem espoliação criminosa. Por fim, um dos fatores de maior importância em nosso país, que ainda merece inúmeros reparos, está representado pela forma em que o cidadão brasileiro ainda trata a questão do tráfico de animais silvestres. Para maioria dos cidadãos, o tráfico de animais silvestres ainda não consegue atingir os princípios éticos e morais do indivíduo. O ethos 8 deve ser implementado na consciência do povo. Principalmente o ethos que cuida! Somente assim estaremos prontos definitivamente para recebermos uma retribuição de gratidão de nossa grande Mãe Terra. Vale mencionar uma pequena citação feita pelo professor Leonardo Boff, 9, quando explica a relação de cuidado que devemos ter com o patrimônio ambiental, através do Ethos que cuida: observados por uma Inteligência Superior. As normas de Direito Ambiental e as atividades dos operadores do direito que tomam por objeto a fauna silvestre constituem-se em elementos provadores do elo de relação intergeracional, muito bem reconhecido pelo dispositivo constitucional vigente. Alguns juristas costumam elencar o direito ambiental como um direito difuso por excelência, uma vez que suas normas não possuem sujeitos e objetos especificamente determinados. As leis ambientais valem para tudo e para todos. Por outro lado, ousaríamos aqui sustentar que o direito ambiental, e sua tutela, é muito mais do que difuso, é transindividual, transdisciplinar, e, acima de tudo, intergeracional (impondose ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações). Combater o tráfico de animais é obrigação de todos em benefício de todos. Honremos, pois, a nossa grande Mãe Terra! *Advogado, Assessor jurídico da RENCTAS- Rede Nacional de combate ao Tráfico de Animais Silvestres -, mestre em Direito da Cidade pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, pós graduado em Auditoria e Perícias Ambientais. (...) A falta de cuidado no trato da natureza e dos recursos escassos, a ausência de cuidado com referência ao poder da tecnociência que construiu armas de destruição em massa e de devastação da biosfera e da própria sobrevivência da espécie humana, nos está levando a um impasse sem precedentes. Ou cuidamos ou pereceremos (...). (Footnotes) 1 Lei 9605/98 - Art. 29 Matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida: pena detenção, de seis meses a um ano, e multa. Assim, hoje em dia, estamos sendo 01 33

6 2 Fonte; WWF CONVENÇÃO DA DIVERSIDADE BIOLÓGICA - Art. 3º PRINCIPIO - Os Estados, em conformidade com a Carta das Nações Unidas e com os princípios de Direito Internacional, têm o direito soberano de explorar seus próprios recursos segundo suas políticas ambientais, e a responsabilidade de assegurar que atividades sob sua jurisdição ou controle não causem dano ao meio ambiente de outros Estados ou das áreas além dos limites da jurisdição nacional 4 a Portaria nº 93/98 conceitua fauna silvestre brasileira, fauna silvestre exótica e fauna doméstica. 5 em ecologia, considera-se que quanto maior o número de espécies e de ligações entre elas, maior a tendência à manutenção do equilibrio ecológico. Ecossistemas simplificados tendem a oscilar de forma mais violenta diante de pertubações, pois o número de seus componentes é menor e o ajuste entre eles menos firme ( MIRRA, Álvaro Luiz Valery. Fundamentos do direito ambiental no Brasil. Revista dos Tribunais, v.706 p.22, 1994.) 6 Art Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondose ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. 7 Exemplo prático é o da Política Nacional da Biodiversidade, a Política Nacional de Educação Ambiental, e a Política Nacional para os Recursos Hídricos, fatores de grande importância em nosso país. Muito bem contemplados pela AGENDA 21 Brasileira, mas ainda sem muitos resultados eficazes. 8 Segundo a concepção de Leonardo Boff, em sua obra Ética e Moral a busca dos fundamentos Ed. Vozes, Petrópolis, 2003, Ethos significa o conjunto ordenado dos princípios, valores e das motivações últimas das práticas humanas, pessoais e sociais. Ethos significa também o caráter, o modo de ser de uma pessoa ou de uma comunidade. 9 Op.cit. pág.48/

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