NOTHING HURTS. Falk Richter

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1 NOTHING HURTS Falk Richter Archibald

2 PERSONAGENS K., realizadora, especialista na arte da vida, antes, depois e durante o seu sucesso B., jornalista, uma mulher acossada O DJ A MULHER JOVENS RAPAZES E RAPARIGAS NO ATELIER OS SOBREVIVENTES DA SALA DE CHILL-OUT Um grande espaço vazio, um corredor de um aeroporto, um atelier, uma galeria de arte, uma clínica, um espaço para corpos exaustos incapazes de encontrar repouso. Os diferentes espaços também podem apenas ser sugeridos por instalações sonoras; as cenas podem-se diluir umas nas outras, sem cortes ou mudanças de cenário. Nenhuma indicação cénica é obrigatória. 1. INVERNO Atelier, noite. Numa divisão que poderia ser o seu atelier, Silvana escreve um texto no seu computador, recita parte dele, as palavras inscrevem-se num ecrã, à sua volta jovens rapazes e raparigas, põem discos, estão deitados, bebem, dormem uns com os outros, filmam os objectos presentes na divisão, filmam-se a si próprios (o filme aparece no ecrã), aproximam-se dela, tocam-lhe, afastam-se dela, dizem o texto ao mesmo tempo que ela, dançam e atiram-se para o chão. Sim, era Inverno. Muito frio, dentro e fora, sem movimento e Como se alguém me tivesse arrancado a alma e E agora olho-me de frente, tenho medo, ou, que a colisão De repente, alguém me chama e diz a rir-se "Estás uma lástima." e desato a correr, pergunto angustiada: "O que é que estás a dizer? Estou o quê?", "Estás com ar de não estares bem. Mas não importa, isso vai passar." Um prazer destes acaba com o medo 2

3 Pois, o desespero e o prazer extremos tocam-se, para explodir algures. Eu não sei se me devo mexer, dançar, sem parar, dançar desesperadamente rápido e e, e e quando finalmente descobri o repouso a minha cabeça sussurrou todas as cores, como um choque, uma explosão, como é que se diz? Mas, muito, muito lentamente não, na minha cabeça, nada, nada choca; o azul, o vermelho alternavam; a música flui, fluía, como é que se diz, que outra estava lá. ( I d rather be in a soft place now and melt with the bodies around me, warm and soft bodies and music ) que ninguém se interessa por mim, que de qualquer forma colo-me ao muro, só, negligente - cool, trágica - ou que me colo ao chão? E que as minhas energias atravessam o meu corpo e o espaço sem a mínima concentração como se se quisessem precipitar para fora de mim através de mim, para depois se verem livres de mim. Sinto que neva em mim E isto, não é uma metáfora, não, não falo de metáforas, cai neve em mim, e é muito agradável, ela apodera-se do calor, do ardor do meu corpo, arrefece as feridas, ela gela o meu desejo de outro corpo, por algum tempo. Depois deito-me numa espécie de banco e todos os corpos à minha volta são maravilhosos e uma ameaça, e por vezes um olhar difuso passa sobre mim, todos parecem ter posto os seus olhos em modo olhar longínquo e perdido. Que não podemos nunca ver o espaço e os homens como um todo, como a música, tudo flui. Não há nada a reflectir. Nenhum pensamento. Nenhuma informação. A troca de informação mantém-se tremendamente desinteressante, o importante é que sosseguemos os amigos com uma frase, ou que os mantenhamos a par, em contacto "Ainda estou aqui, não tenhas medo." É o que dizemos verdadeiramente? 3

4 "e, como é que te sentes?" "porque é que a Terra gira tão rápida? Não pára. Mas é agradável" "neste momento não posso dizer nada" De repente uma viatura precipita-se dentro de mim. Há um choque, e alguém me ajuda a levantar e diz: " Não é grave, não se passou nada, ainda sinto a tua respiração, sim. Esta noite ainda é necessário que eu me bata com o meu próprio corpo, que eu expluda, que eu sangre, que eu seja ferida, que me corte, hoje é preciso que eu me atire de mim mesmo contra um muro uma vez mais, oh, já estou a dormir, hmmm, hmmmmm, tocamo-nos docemente, hmmmm, seria bom fazer amor agora, ou, para falar sinceramente, seria indispensável, preciso de outro corpo, agora, já, que choque contra o meu e que o faça quebrar agora, um choque tão belo, lento, doce, agradável, hmmmm, será que poderia chocar agora? mas não há ninguém aqui hmmmm, tocando-nos lentamente, unimo-nos um ao outro tocando-nos lentamente reconstruimos qualquer coisa, como alguém, qualquer coisa que possa novamente nomear os sentimentos que passam, que o atravessam, lentamente, sim, sim, lentamente, que o atravessam a nado, Porque aquilo que olha há já duas horas esta massa graciosa de homens que brilham, vê-os com um olhar intensamente vazio, apercebe qualquer coisa sem a perseguir. olha esta massa imprecisa de homens que brilha por causa de uma reacção química, uma massa de homens, em que se um avança, estrebucha, atira-se de volta para trás, com medo dos olhos vazios grandes abertos que o fixam, que querem qualquer coisa, que ocultam um desejo, um desejo sem fim, concreto, um simples desejo vazio, que se atira como um louco de uma mancha para outra, como um ser desesperado, sufocado, mas que não é infeliz rápido, como um ser desesperado, ou muito, muito feliz, ligado a ele mesmo, ou anulado, flutuando livremente como Não é o meu corpo de ontem. Não, não é o meu corpo de ontem. Sinto que neva em mim, e isto não é uma metáfora 4

5 Neve cai em mim, e é muito agradável, ela apodera-se do calor, do ardor do meu corpo, arrefece as feridas, ela gela o meu desejo de outro corpo, por algum tempo. Próximas Apartamento, noite, tudo arrumado. Silvana e Viviana estão no apartamento de Viviana, de fundo ouve-se o som de explosões e colisões, trata-se do som do filme de que elas falarão mais tarde. Um homem (um dos DJs) está deitado no sofá, meio a dormir, intervém na acção ocasionalmente. Eu gostava que fossemos próximas. Mas nós somos próximas. Quer dizer sim, sim, nós somos próximas, mas eu quero dizer, oh Deus, eu quero dizer próximas próximas, realmente próximas, próximas de uma forma diferente, sim, nós somos próximas, mas não somos próximas. Mas nós somos próximas. Sim, eu sei, mas eu quero dizer, não sei. Eu quero dizer próximas de outra maneira, meu Deus, de outra maneira. Estás a querer dizer que devíamos dormir juntas? Não, não sei. Porque isso já nós o fizemos. Quer dizer, eu não sei o que é que queres dizer com próximas próximas, o que é que entendes por próximas? Bem, isso mesmo, próximas. Próximas como? Próximas. 5

6 Próximas. Próximas. Próximas? Sim, mas um próximas diferente, mesmo próximas, não "próximas" próximas. É demasiado abstracto para mim. Próximas. "Próximo" desculpa, mas é demasiado abstracto para mim. Abstracto? Sim, abstracto. Próximo é abstracto? Bom. Sim, abstracto. O que é que quer dizer abstracto? Oh meu Deus, abstracto é abstracto. Ok, mas abstracto como? Bem, abstracto. Próximo, abstracto. Sermos próximas? Próximas. 6

7 É demasiado abstracto para mim Sermos próximas, abstracto? Bem, sim. Essa forma de proximidade. Qual? Sê mais concreta. Mas ela não consegue. Mas explica simplesmente, concretamente. Mas ela não consegue. Próximas, próximas, próximas. Isso é completamente abstracto. Está bem. Concordo. Eu amo-te. Mas isso é completamente abstracto. Eu gostaria realmente que fossemos próximas. Sim. Próximas. 7

8 Sim, próximas. Silvana uiva. Silêncio. Não sei. Não sei. Viviana gesticula É isso que queres dizer? Não sei. É o que eu digo, é completamente abstracto. Próximas. Hmm. Long Distance Relationship Aeroporto, noite. Sala de espera vazia. Som de telemóveis. Anúncios sonoros. No ecrã ao fundo explosões, imagens e sons do filme de Silvana. Estou Eu Que horas são ai? Pensei Talvez agora E Talvez seja simplesmente difícil Estou? Estás aí e não atendes? 8

9 Estás com medo? Talvez seja simplesmente difícil tornarmo-nos um só? Pode-se dizer assim? Estou? Eu pensei, hum, estás aí? Tu tinhas dito Estou? Partiu-se qualquer coisa, fomos todos atirados sei lá para onde, tudo o que eu tenho está num sítio que eu não sei. Estou Que barulho é este? Tu disseste que telefonavas, que irias telefonar de qualquer maneira ou esperavas até eu, estás com medo? Tu tinhas dito à hora do costume e que devíamos tentar, querias pelo menos deixar uma mensagem a dizer aonde eu poderia ir ter contigo ou quando tentarias vir ter comigo, para que pudéssemos ao menos falar, antes que um de nós tivesse de partir. Estou, o que é que se passa? Bem, agora claro que não vou saber e não posso esperar a noite toda, tenho de ir embora. Tu querias Não nos deixaram sair mais cedo, tens medo? De repente já não podíamos passar Gritos, houve uma mulher que se passou, não sabia do marido nem da mala, desapareceu tudo de repente. Estou? Não vais atender? Ela atirou-se contra o vidro, horrível. Merda, agora não ouço mesmo nada, O que é que se está a passar? Não consigo ouvir nada. Estou, ouves-me O que é que aconteceu agora? Foda-se, merda, o que é que aconteceu agora, Está tudo morto ou quê? Estou? Por amor de Deus atende, espera, ainda estou aqui, também tenho de ir embora. De repente ficou tudo tão calmo, ninguém, absolutamente ninguém, absolutamente ninguém. A minha pele está a começar a desfazer-se, está cheia de cortes, manchas, feridas minúsculas por todo lado, como se já estivesse morta, ou qualquer coisa assim, horrível, esta máquina, este corpo estranho, será que não o podes agarrar outra vez, senão desintegra-se, desaparece de qualquer maneira, já nem se reconhece, esconde-se de mim, 9

10 horrível, meu Deus, onde é que estás? Querias dizer-me, de qualquer forma, onde e quando eu te poderia encontrar, sim, merda, foi abaixo, e a seguir não vai haver mais nada. Estou, estás com medo? Que barulho súbito é este agora Quem é que está a falar? 2. CRASH to somebody, to myself, to the blood, to the bones, and to count the bones Viviana e Silvana num estúdio de gravação em frente a um ecrã vazio. Viviana está a entrevistar Silvana. No início, a banda sonora do filme começa por ser suave, como um ruído de fundo, depois vai aumentando até se sobrepor a acção. Viviana vai descrevendo e observando cada vez menos, ela passa a fazer parte do filme. Lentamente, o filme vai ganhando forma no ecrã. O seu novo filme começa por nos mostrar, nos primeiros dez minutos que precedem o genérico, um jovem muito belo, de capuz, com uma cara, podemos dizer assim, bastante interessante, passada, que ele não pára de bater à noite contra o vidro de uma estação de serviço, enquanto pede à empregada!? Sim, o quê? Sim, hum, bem, ele está a convidá-la a Sim? Exactamente. Sim, é um filme bastante comovente, e também bastante violento. Mostrar durante bastantes minutos esse jovem que cai e que continua a tentar levantar-se uma e outra vez, na estação de serviço, e depois deixa-se escorregar pelo vidro ao som de uma espécie de 10

11 música flutuante, indistinta, enfim, uma música não música, e nós a vermos como ele tenta levantar-se uma e outra vez só para bater com a cabeça contra o vidro uma vez mais Sim, ele deseja outro corpo Sim, estou a ver, e ao mesmo tempo Um carro vem a acelerar atrás dele, vai contra a estação de serviço em câmara lenta e o seu corpo desfaz-se em pedaços que voam pelos ares Sim. Sim Sim, e a cabeça da empregada da caixa é lançada com a força do impacto para fora do seu corpo em chamas contra a janela e despedaça-se, enquanto o tal jovem continua a escorregar, sempre muito lentamente, muito concentrado, quase como um insecto em sangue, a sua carcaça interior Os insectos não sangram. Explodiu, certo? Os insectos não sangram. Sim, pois Enfim Decompõe-se lentamente, mas mesmo em agonia, continua a esforçarse para se levantar, na essência do seu esplendor. Fica apenas uma espécie de baba. Cair, levantar-se, sozinho, outra vez, sim, cair, lutar para se levantar outra vez, e aí, manter-se concentrado para conseguir continuar a dizer: "por favor, beija-me, fode-me" 11

12 Volta a cair. "Agarra-me com força, qualquer coisa, mas faz qualquer coisa comigo, não interessa o quê, o que quiseres, não interessa o quê. Mas, por favor, agarra-me com força." Devagar, volta a levantar-se, cai, o sangue escorre-lhe da cabeça, atrás dele tudo está o mais atrozmente devastado possível Sim, filmámos isso na Jugoslávia. E lá, em grande plano, sussurra muito muito lentamente, eu acho que o plano dura cerca de cinco minutos, como se o tempo quase ficasse suspenso: "Agarra-me com força, esta noite ainda preciso de um corpo para chocar contra ele, ainda preciso de abrir mais feridas, procuro um parceiro de acidente" Sim, é a Silvana que interpreta esse jovem Sim. Esta é a primeira vez desde há muitos anos que volta a trabalhar como actriz nos seus filmes. Sim. Escorrega a sangrar contra uma bomba de gasolina, apesar de uma vã tentativa para se manter de pé, atrás de si acidentes fatais, pessoas a chocar contra paredes, a arder, os gritos que se misturam com essa espécie de música e depois, outra vez uma série de grandes planos do jovem, isto é, de si, que já nem sequer consegue falar. Sim. Sim, e durante cerca de quinze minutos vemo-la a mutilar-se, escorregando e levantando-se contra a bomba de gasolina. 12

13 Sim. E a pedir às pessoas que passam para lhe baterem. Sim. E acho que para violá-la também. Sim. Bem Enfim E depois escorrega e levanta-se, fere-se à força de tanto esfregar o corpo dorido contra a bomba de gasolina, mutila-se? as feridas que faz a si mesma são o assunto do filme? é possível dizer isto, acha que sim? tendo em conta que mistura pedaços de corpos desfeitos à sua volta com os destroços da estação de serviço Sim. Misturados e Sim Sim, o quê? Sim, o quê? Eu só estou a fazer uma pergunta. Mas está a perguntar o quê? Nada. "Nada". O que é que se passa ali? Parece tudo muito real. 13

14 Sim. Por exemplo, quem são aquelas pessoas que passam Bem, pessoas que passam. Sim. Sim. Sim, e depois há uma analepse. Sim. Um televisor explode, em frente, um homem de uma certa idade sentado numa espécie de sofá em pele, a cara é rasgada pelos bocados de vidro, e isto mistura-se tudo com a imagem do ecrã, em plano de fundo uma mulher jovem chega, bate com um bastão de basebol no que resta deste corpo masculino que estremece à sua frente. uma mulher velha, deitada no sofá, grita em estado de choque quando reconhece a rapariga, sua filha, a Silvana. tenta fugir, mas é apanhada pela rapariga, interpretada por si, o seu grito é abafado pelos golpes do bastão de basebol, o cérebro da senhora espalha-se pelos cantos da sala, a rapariga curva-se sobre ela, e, bem, como é que eu hei-de dizer isto, começa uma espécie de acto sexual com o que resta do corpo em sangue. Não, ela ainda está viva. Beija-a ao de leve, enquanto a penetra, isto é, enfim euh a filha penetra a mãe e continua a bater com a cabeça dela contra o chão até a mãe não se mexer mais, e se submeter a tudo enquanto se ouve cantar docemente: "Good-bye to a perfect world" "See you in a perfect world" Sim 14

15 Sim Bom, tudo explode à sua volta. Bem, sim. Claro que a mãe é interpretada pela sua própria mãe, e a câmara volta uma última vez ao olhar vazio dela. Sim, a violação da mãe que se esvai em sangue e a procura de um outro corpo na estação de serviço decorrem quase ao mesmo tempo. Há uma relação lógica de uma com a outra, uma é consequência da outra? Não sei Que tipo de sensação é essa, a de primeiro desfazer o cérebro dos seus pais com um bastão de basebol e depois violá-los? Bem, ela não chega a violar o pai no filme, só a mãe. Sim Bem é uma sensação muito particular Sim Para ambas as partes Sim Traz uma nova dimensão à relação que temos com os nossos pais. Sim 15

16 Sim, enfim foi só uma tentativa de trabalhar com os meus pais Sim Mais alguma coisa? Sim. Pode-se dizer, talvez que bem, falar sobre experiências nas quais as pessoas se usam a si e aos seus sentimentos, roçando o limite do explicável, num domínio que, de qualquer forma, ninguém consegue alcançar, Enfim, onde lhes acontece alguma coisa, Bem, pode-se dizer isto? É sobre isto, não sei, a tal zona, pode-se pôr a questão assim? Trata-se de trata-se de, não sei, colisões que libertam energias e permitem aos homens sair das suas estruturas? Então, podemos dizer que as pessoas colocam-se propositadamente em situações que as transformam em actores de si próprios, uma espécie de cobaias, situações através das quais se libertam das suas estruturas, que mesmo assim permanecem inexplicáveis enfim, podemos dizer isto, não? Sim, acho que sim. Creio que podemos dizer tudo isso. Sim. Please, I love you, I want you, I need you, I am thinking about you all the time, kiss me, touch me, sleep with me, fuck me, don t let me go, I love you I love you I love you I love you, don t let me go, please, don t let me go, I have been thinking about you all the time, every day, every minute, every second, even if I have sex with someone else I only have you on my mind, you are so beautiful and strong and free and sensitive and sexy and cool and intelligent and talented... I need you. Banda Sonora com acidentes, ambulâncias, gritos, sirenes, barulhos de hospital. Gradualmente, vemos imagens no ecrã ainda difusas. Eu sonho com colisões, quero-te encontrar no momento do embate, partilhar a viatura contigo, a ambulância contigo que nos leva para o hospital. Num dia quente de Verão, às cinco da tarde, eu espero pelas viaturas num cruzamento isolado no limite da floresta e salto de dentro de mim directamente para cima de um carro, o teu carro, vou contra a 16

17 janela, voo pelo ar e encontro-me com o teu carro outra vez vinte metros à frente, atinjo o teu corpo, sou projectada para trás, travo, atravesso a rua a derrapar até parar completamente, o teu carro enfiado numa vala, entre dois pinheiros. O rapaz, inexperiente e ansioso, que por acaso estava de serviço, desata a chorar durante a viagem até ao hospital, segura-nos nas mãos e eu pergunto: A que distância estão os meus ossos do meu corpo? Porque é que o sangue da minha cabeça não escorre para baixo? Para onde é que vão estes tubos todos que saem das profundezas das minhas feridas? Alguém me vai ajudar? Será que vou passar o resto da minha vida assim, em estado de alerta, em estado de choque? Em que tudo, até o mais pequeno ruído, é claro e preciso e em que a minha vida corre fora de mim? As rodas continuavam a girar no vazio, tudo continuava a girar no vazio, até ao momento em que os dois jovens médicos da equipa de emergência nos levaram às duas ligadas ao mesmo soro, na única ambulância da vila. Numa divisão do pequeno hospital cheia de máquinas, tudo era frio e azul e verde e tremíamos, o médico chefe aproximou-se, logo seguido por três enfermeiras, de cara séria, angustiada, olhou para nós e só disse: "Sempre as mesmas!" Outra vez e outra vez e outra vez e sempre diferentes de cada vez, e de cada vez de um ponto de vista diferente, um novo ritmo, uma nova cor e com personagens diferentes a aparecerem e a desaparecerem. E porque é que estes lençóis estão vermelhos? Sim, porque é que estes lençóis estão vermelhos? Ele tremia e chorava e agarrava as nossas mãos com ainda mais força. Viviana torna-se visível no ecrã, torna-se uma personagem do filme. À volta dela acidentes de carro, pessoas a sangrar, ela procura desesperadamente qualquer coisa. 17

18 Onde é que foi parar o meu cartão de crédito? Onde é que está a mola do meu cabelo, por favor? Onde é que está o meu batôn? Estava tudo aqui ainda agora, tinha tudo no bolso das calças. Tinha ou não tinha? Hei! Hei! Agora, quem são vocês? Quem és tu? Não digas nada à minha mãe, por favor não contes nada, ela matava-me, a minha mãe matava-me se descobrisse. Mas onde é que está o meu cartão de estudante e o meu cartão de crédito, o cartão do clube de vídeo, e o meu código secreto? Hei! Porque é que ninguém me ouve? Esqueci-me do meu código secreto Mas onde é que está o meu passe de comboio? Hei! O meu cartão visa, o cartão do ginásio e o meu cartão de membro? Sou cliente habitual, não sou? Vocês reconhecem-me? Sabem quem eu sou? Hei! Onde é que está o meu batôn? Hei! O meu telemóvel, onde é que está? Quem é que o levou? Onde é que está o meu pente e a minha escova de cabelo, a minha mãe mata-me se descobre, por favor, tens de me prometer não dizer uma palavra sobre o assunto. E o meu amigo, onde é que está o meu amigo? Ele estava aqui. Eu tinha tudo aqui no bolso das calças, na minha mochila. O meu amigo estava aqui no fundo da minha mochila, no meu porta-moedas ou então no bolso das minhas calças, onde é que ele está? Merda! Onde é que está tudo, o cartão do clube de vídeo, onde é que está tudo? Eu tinha tudo aqui no bolso das calças, agora onde é que está o meu porta-moedas, o meu dinheiro, tenho a certeza que estava tudo aqui no bolso das minhas calças. Podes, por favor, dar-me o meu batôn? Silvana aparece também no ecrã, observa-se e vai ficando cada vez mais calma, apesar das suas feridas visíveis. Os meus olhos não mexem e eu acho, sim, acho que é agradável, muito, mesmo muito agradável, muito agradável, uma calma tal é muito muito agradável, esta calma assim de repente, de repente tudo tão calmo, uma queda tão rápida. 18

19 Huuuuuumm. Os meus olhos já não se mexem e eu acho, sim, acho que é agradável, muito muito agradável, muito agradável, esta calma, esta calma é tão tão agradável, uma calma, de repente, tão rápida, uma calma, uma queda, tão rápida. Huuuuummmmmm. 3. CHILL-OUT Uma grande sala vermelha com pessoas deitadas, que se mexem muito muito lentamente, tocam-se ao de leve, param a cada movimento, levantam-se, caem, falam-se, continuam deitadas, procuram qualquer coisa, agarram-se e colam-se umas às outras.são cerca de oito horas da manhã, os últimos sobreviventes da noite estão deitados pela sala, dois DJs (o Rapaz e o DJ) põem os seus discos mais raros, cada um tenta obter melhor som que o outro, uma mulher dança sozinha na pista. Em plano de fundo, um televisor passa uma entrevista com Silvana. / TELEVISÃO Acredito que passámos todos o ano inteiro deitados numa espécie de banco ou um género de sofá? levantávamo-nos um pouco, corríamos um pouco, dizíamos algumas palavras, olhávamo-nos, voltávamos a cair por terra, escutávamos, não escutávamos, sim, acredito que pensávamos muito, sim, chegávamos a algum lado, sim, algures, era diferente ou será que existia só eu? é possível que estivesse sozinha e que já não me conseguisse mexer? Maybe it s just difficult to become one A mulher que dança avança na direcção de um dos DJs, ele quer tocá-la, mas a tentativa de contacto é mal sucedida, de repente a música pára. A MULHER I'm so sorry The DJ laughs. Silence for a long time, we hear them breathing, waiting for the other one to talk. O DJ Maybe, it s just very very difficult to... to become one Pausa. A MULHER I m so sorry, that s all I can say O DJ Well, that s not very much 19

20 A MULHER I know, I m sorry O DJ Yeah, you re always sorry, wow, yeah, always sorry A MULHER I am, really, I am really really sorry, peço desculpa O DJ Yeah, just be sorry A MULHER I m sorry. And I don t know what you are talking about O DJ Sim A MULHER Yeah, sorry. Reparaste O Rapaz aproxima-se de Viviana, que está deitada, exausta. Reparaste? Sim. Sim? Sim. Silêncio. Amo-te. Chiu. Amo-te. Eu sei. 20

21 Sabes? Sei. E então? E então o quê? Amo-te O DJ aproxima-se de Silvana que está deitada a um canto da sala a escutar o ritmo das batidas da música. Calam-se. O DJ Então. Não, deixa-me em paz. Calam-se de novo. O DJ Então, eu. Não, isso não! Deixa-me em paz um segundo, merda. O DJ Mas O quê o quê o quê? Silêncio. O que é que foi agora? Silêncio O que é que queres? O DJ Amo-te Silêncio Isso é completamente idiota, pá. Não é nada o teu género. Silêncio. 21

22 Bom, por outro lado até é agradável. O DJ Então, eu, ehh Não, cala-te, schh. Silêncio Schh, schh. I Can Be Cruel And I Don t Know Why O DJ e o Rapaz voltam para os seus lugares e começam a pôr discos e a mexer nos botões, criam diferentes efeitos, depois conseguem um som harmonioso. O Rapaz pega num microfone e começa a dizer o próximo texto. Os outros estão deitados na sala de chill-out e de vez em quando dizem partes do texto, o DJ passa a consola ao Rapaz e dirige-se para a pista de dança, está só, começa a mexer-se muito lentamente, muito suavemente, mergulha na música. Silvana e Viviana observam-no entusiastas. Depois Silvana aproxima-se dele, seguida de perto por Viviana. I CAN BE CRUEL AND I DON T KNOW WHY THE DAY I TRIED TO NUMB MYSELF AND WANTED TO LISTEN TO MY BLOOD STREAM HMMM FELL TO THE FLOOR HEARD THE SOUND AND AHHH DID NOT FEEL ANY PAIN The day I watched the chemicals work my body and watched a chemically coloured sun-rise in an orange city sky... everything just happened and I was the coolest insect around, nobody could harm me, and if I harmed myself, I did it just to experiment on the facts of life, hmmm, stop breathing, hmm, fall to the ground, kiss that spider, kiss that lion, kiss that dead body on the floor, hmm, tell them how much I love them, I have this uhm strange ticking in my head and it s getting faster and faster and it s forcing my body to move faster and faster, move on and slam my head against the wall, hmm, and float with the sound of my blood stream: I WAS MY OWN TEST TUBE INSECT WATCHING MYSELF CRAWL THROUGH A NIGHT MAZE, rooms, and video screens and people talking, telling their stories, hmmmmm, and me in between it all, all these arms holding me, I felt these people breathing, they were close to me, I heard them breathing, hmmm, touching me and, yeah hmmmm, falling, hmmmm, falling, hmmm, hold me, hold me, falling hmmm, crawling, hmmm, like an insect, 22

23 darkness, early morning noise, sound of engine, sound of seagulls, cats screaming, hmmm, crawling, fast, and curling, hmmm, five in the morning, hold me, cold and ugly my blood going faster, falling, catch me, imagine all these colours in my blood, all these chemicals and how they mix and how they move around inside of me and how they move me around and what they do to my head, and my body, and what they do to all these different people inside of me, hmmm, and everybody wants to drink from it, hmmm, drink from me, swallow my blood, hmmm, follow my trace, hmmm, touch my skin, hmmm, I need this, my blood going crazy, make my head explode, and all these pictures inside of me, and all these funny little pills and drinks and powders, how they love and hate each other inside of me, hmmm, and make me run and fall and catch myself, hmmm, I am moving in all different directions at the same time and it feels kinda nice, kinda shaky, kinda hmmmm, can I feel your tongue on my, on my, on my, uhm, uuh, uhm, take me or leave me, but lick my body with your tongue, whoever you are, I don t care, I enjoy, falling, crawling, catch me as I catch you, hah, did you hear that: my skull: did it break?, uhm, the music sounds like trains passing by, crashing into each other and people flying all over mixing with glass, free fall, bodies mixed with plastic, the music sounds like people crashing into each other, bodies collide, moving around, kinda fast, kinda weird, hmmm, I am amidst the flying body parts in the second of the explosion, hmm, feels kinda interesting, blood, faster, seeing clearer, hmmm, yes, please, faster, weirder, straighter, I m seeing clearer now, much clearer, hmmm. Silvana tenta em vão criar contacto com o DJ, ele está a dançar e não a vê, não sendo ofensivo. Subitamente Viviana lança-se para cima do DJ, a música pára. Sorry, lamento, a sério. O DJ responde antes mesmo dela acabar a frase. I know. Não, peço mesmo desculpa. Dizes sempre isso. O quê Dizes sempre isso. de novo para o DJ Eu só queria dizer isto, quer dizer, isto. 23

24 Dizes sempre isso. Estás sempre a pedir desculpa de alguma coisa. Estás sempre a pedir desculpa de alguma coisa para o DJ I'm sorry Mas o que é que na verdade lamentas, se te estás sempre a desculpar. para o DJ I'm sorry Mas deixa-o em paz. O DJ Não, não há problema. No Big Deal. Deixa-o em paz, por amor de Deus. para o DJ como se Silvana estivesse a dizer outra coisa Desculpa lá, a sério, sinceramente. Breve Silêncio. E pára de te atirares assim. Pára de te atirares assim a ele, o que é que queres com isso? Não podes ficar quieta? Deixa-me em paz. Não 24

25 Não. Deixa-me em paz. O que é que se passa contigo?, sempre a atirares-te, não te aguentas em pé ou quê? para o DJ Bem, eu só queria pedir desculpa. Mas deixa-o em paz. Peço desculpa. O DJ Ok, não há problema. Não, mas a sério. Mas deixa-o em paz, por amor de Deus. Deixa-me em paz. E pára de te atirares a ele. para o DJ Percebes, alguma coisa mudou. Alguma coisa mudou em mim. E agradeço-te Meu Deus, isto é horrível. E desculpa. Agora já chega. Deixa-o em paz. Não. E não o agarres. 25

26 Vou agarrá-lo. Não Eu quero agarrá-lo. Silêncio. Olha, vou agarrá-lo. Ela agarra-o e beija-o. Meu Deus, que nojo. Silêncio. Um Outro Corpo Uma sala vazia, muito iluminada, silêncio total O que é que foi? Nada. Passa-se alguma coisa? O quê, então? Tu não estás bem. Não estou bem? Sim. Alguma coisa tens. Eu estou bem. Não. 26

27 Não. Não. Como não? Não, tu não estás nada bem. Vê-se. Silêncio. Nos teus olhos, no teu corpo, qualquer coisa mudou. E o que é que mudou? Qualquer coisa mudou. Qualquer coisa mudou. Na verdade, já não é o mesmo corpo, na verdade tornou-se outro corpo. Perdeste o equilíbrio? Eu ouvi-te a cair, não? Não. Tu tinhas um chapéu bizarro, estavas nua, deitada no chão, mas eu ouvi-te cair, não? 27

28 Não. Mas tu tens qualquer coisa. Não. Alguma coisa mudou. Não. Houve qualquer coisa que realmente mudou. Não. É um corpo completamente diferente. Não. Não é o mesmo corpo. O quê, este aqui? Sim esse aí, não é o teu corpo. Mas claro que é o meu corpo, sim, acho eu, bem? Claro que é. Mas há qualquer coisa que não está bem no teu corpo, há qualquer coisa que não está bem. Eu ouvi-te cair, estatelares-te, como é que se diz? Não. Então nada mudou? Não. 28

29 Bom, então não é nada? Não. Mas Não Eu Não. Caipirinha Manhã, muito tarde, cerca das onze horas da manhã na sala de chill-out, corpos exaustos, completamente estourados. Silvana está no bar, Viviana está sozinha na pista de dança, dir-seia a representação de uma novela das duas mulheres. Num computador vê-se o filme de Silvana: imagens de choques violentos, Viviana pasmada ao centro, a voz de Silvana na banda sonora, percebem-se pedaços da cena seguinte ditas em voz pedrada. Silvana dá uma entrevista e são difundidos extractos do seu filme. Os dois Djs e outras raparigas que ficaram, estão ao lado uns dos outros. Diz-me, ainda têm aquele cocktail completamente fora, caipirinha, ou qualquer coisa do género. Não, não temos. Não era aqui, cocktails completamente fora: Jager Bomb, Black Russian, cenas hiper tripantes. O DJ I don't know Desculpa. Sim? 29

Em algum lugar de mim

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