MATERIAL DE APOIO DIREITO CIVIL DIREITOS REAIS

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1 1 MATERIAL DE APOIO DIREITO CIVIL DIREITOS REAIS Apostila 02 Prof.: Pablo Stolze Gagliano 1. Modos de Aquisição da Propriedade Imobiliária 1 a) usucapião; b) acessão; c) registro Registro Base legal: Art Transfere-se entre vivos a propriedade mediante o registro do título translativo no Registro de Imóveis. 1 o Enquanto não se registrar o título translativo, o alienante continua a ser havido como dono do imóvel. 2 o Enquanto não se promover, por meio de ação própria, a decretação de invalidade do registro, e o respectivo cancelamento, o adquirente continua a ser havido como dono do imóvel. (há, aqui, uma presunção de veracidade relativa, dada a possibilidade de impugnação) 1 Lembre-se de que os direitos reais na coisa alheia e o condomínio integram outra grade do Curso.

2 2 Obs.: Escapando à regra, o denominado Registro TORRENS firma presunção absoluta de propriedade, consoante observa o professor EDUARDO SOUZA: A abordagem do registro Torrens deve ser introduzida pela análise da publicidade, fim dos sistemas registrais, o que fizemos nos itens 1 e 2, pois se trata de sistema que confere efeitos absolutos à publicidade, significando o acesso ao registro uma situação jurídica inatacável. O sistema foi idealizado pelo irlandês Robert Richard Torrens, que lhe deu o nome. É adotado na Austrália e em algumas partes dos E.U.A. (os sistemas registrais norte-americanos variam de acordo com a legislação de cada estado). Foi introduzido no Brasil em por influência de Rui Barbosa (Decreto 451- B, regulamentado pelo Decreto 955-A), e compreendia inicialmente imóveis urbanos e rurais. A legislação atual o regula nos arts. 277 a 288 da Lei 6.015, restringindo-o aos imóveis rurais. Os imóveis urbanos submetidos ao sistema na legislação anterior assim o permanecem. Atualmente o registro Torrens tem pouquíssimo uso no Brasil, pelo desconhecimento, pelos custos e sistemática complexa há notícia de uso no Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso e Pará. Segundo Afrânio de Carvalho, o sistema caiu em desuso, só restando agora à lei lavrar o seu atestado de óbito. Para a submissão de um imóvel rural ao sistema Torrens, exige-se requerimento instruído com prova do domínio do requerente; prova de atos que modifiquem ou limitem a propriedade; memorial com encargos do imóvel, nome dos ocupantes, confrontantes e quaisquer interessados; planta com

3 3 memorial (georreferenciada); publicação de edital; oitiva do Ministério Público e decisão judicial (processo expurgativo). Há, como se vê, todo um procedimento que permite conferir à publicidade presunção absoluta. Coexistem no sistema registral brasileiro a presunção relativa, que é a regra, e a presunção absoluta, decorrente do registro Torrens e referente, na legislação vigente, apenas a imóveis rurais submetidos ao sistema. O 1º do art. 278 da Lei dispõe sobre as regras da planta que deverá instruir o requerimento de submissão do imóvel ao registro Torrens. Depreende-se da análise do dispositivo que havia preocupação do legislador em se obter uma precisão posicional do imóvel, indispensável para que o registro atinja a presunção juris et de jure. Por tratar o sistema Torrens de imóveis rurais, e por ser necessária a identificação inequívoca do imóvel, deve a planta obedecer às regras do georreferenciamento, aplicando-se os prazos do art. 2º do Decreto 5.570/05. Segundo Maria Helena Diniz, a ação do registro Torrens tem natureza real, por objetivar a tutela de um direito real; é contenciosa, porque a propriedade alegada será apreciada por sentença definitiva com força de coisa julgada; é constitutiva, porque a sentença consolida definitivamente o domínio do imóvel rural na pessoa do requerente; a sentença que julgar procedente o pedido valerá erga omnes, como decorrência lógica da estrutura do processo do registro Torrens (procedimento edital). Deferido o pedido, registra-se a decisão no Livro 2 Registro Geral (pratica-se um ato de registro em sentido estrito na matrícula do imóvel). Com o registro, surge a presunção absoluta, tornando o título inatacável por qualquer ação, exceto rescisória. Fonte: acessado em 07 de dezembro de 2008.

4 4 Diferenças terminológicas relevantes: a) matrícula nome que se dá ao primeiro número de registro do imóvel; b) registro anteriormente denominava-se transcrição. Trata-se do ato que consubstancia a transferência de propriedade. A cada registro, recebe-se um novo número; c) averbação é qualquer alteração feita à margem do registro, para demonstrar alterações sofridas pelo imóvel (uma construção, por exemplo) Obs.: O tema registros públicos integra outra grade do Curso LFG. Nesta seara, recomendamos a leitura da Lei de Registros Públicos Lei n. 6015/73 em cotejo com as normas do CC pertinentes ao tema Acessão Trata-se de um modo de aquisição de propriedade imobiliária, mediante a união física da coisa acessória à principal, aumentando o volume desta última. Não se confunde com a benfeitoria, conforme veremos em sala de aula, basicamente por duas diferenças: a) a acessão pode ser natural (a benfeitoria sempre é artificial); b) a acessão traduz aumento de volume da coisa principal, dada a sua natureza de modo de aquisição de propriedade imobiliária (a benfeitoria implica uma obra na estrutura da própria coisa, não tendo por nota característica o aumento de volume, especialmente por conta da sua natureza de bem acessório ). O brasileiríssimo hábito de bater

5 5 uma laje para erguer um segundo andar traduz, em tese, uma acessão artificial (construção). Espécies: Art A acessão pode dar-se: I - por formação de ilhas; II - por aluvião; III - por avulsão; IV - por abandono de álveo; V - por plantações ou construções Usucapião (artigos a serem comentados em sala de aula, com algumas observações doutrinárias e jurisprudência selecionada) Sobre o gênero da palavra usucapião, anotamos, em nossa obra Comentários ao Código Civil vol. XIII (Direito das Coisas. Superfície. Servidões. Usufruto. Uso. Habitação. Direito do Promitente Comprador). São Paulo: Atlas, 2004, que: Embora exista divergência linguística quanto ao gênero da palavra, e, bem assim, o codificador houvesse preferido grafá-la no feminino ( a usucapião ), manteremos a utilização no masculino, em respeito à 2 Ver apostila que será inserida no site, com esquema didático para compreensão das normas do Código Civil, referentes às construções.

6 6 tradição legislativa. CALDAS AULETE, por exemplo, clássico dicionarista, prefere empregar a expressão no masculino (cf. Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Delta, 1958, v.5, p ). No entanto, registramos que, hoje, está se difundido o seu emprego no feminino, sobretudo pós a entrada em vigor do Código Civil de 2002, razão por que esta forma pode passar a ser a mais adotada ou recomendável. Outra intrigante questão se nos apresenta: é possível haver posse de coisa pública? Em sendo assim, pode ser usucapida? Responde-nos, com erudição, o professor ARRUDA ALVIM: É preciso ter presente que, ao afirmar-se que o objeto da posse está limitado às coisas corpóreas, não quer isso dizer em alguns sistemas jurídicos que todas as coisas corpóreas, 3 inclusive as sediadas no plano do direito público, afetadas a pessoas jurídicas de direito público, são suscetíveis de posse por particulares ou no plano do direito privado. No direito brasileiro, todavia, essa afirmação não é verdadeira, de que não pode haver posse de particulares sobre bem/coisa pública. 4 O que se deve remarcar como assunto correlato é que pela Constituição Federal de 1988 os imóveis públicos são insuscetíveis de usucapião (art. 191, parágrafo único; no mesmo texto, com o mesmo 3 V., com profundidade, Moreira Alves, Posse Estudo Dogmático, 2.ª ed., 1.ª tiragem, Rio de Janeiro, Forense, 1991, vol. II, tomo I, nº 13, a respeito do que pode ser objeto de posse, especialmente pp. 160 e ss ( As coisas que podem ser objeto de posse ). 4 V. Moreira Alves, ob ult. cit., vol. II, tomo I, nº 13, pp , especialmente, onde está referida legislação em que é, expressamente, admitida a posse de determinados bens públicos, dentro do contexto do sistema constitucional anterior, i.e., Emenda Constituição 1/69.

7 7 sentido, art. 183, 3º). Ou seja, o que se passa é a inaptidão do imóvel público para ser objeto de usucapião, ainda que possa existir ou ter existido posse de particular sobre esse imóvel. 5 Passemos, então, à análise do Código Civil: Código Civil Da Usucapião Art Aquele que, por quinze anos, sem interrupção, nem oposição, possuir como seu um imóvel, adquire-lhe a propriedade, independentemente de título e boa-fé; podendo requerer ao juiz que assim o declare por sentença, a qual servirá de título para o registro no Cartório de Registro de Imóveis. Parágrafo único. O prazo estabelecido neste artigo reduzir-se-á a dez anos se o possuidor houver estabelecido no imóvel a sua moradia habitual, ou nele realizado obras ou serviços de caráter produtivo. Trata-se do usucapião extraordinário que tem o seu prazo reduzido para dez anos, caso o prescribente exerça a denominada posse-trabalho (Miguel Reale), reflexo da função social da posse. Art Aquele que, não sendo proprietário de imóvel rural ou urbano, possua como sua, por cinco anos ininterruptos, sem oposição, área de terra em zona rural não superior a cinqüenta hectares, tornando-a produtiva por seu trabalho ou de sua família, tendo nela sua moradia, adquirir-lhe-á a propriedade. Trata-se do usucapião rural pro labore ou rústico, com base no art. 191, CF. 5 Texto que nos foi gentilmente cedido pelo Prof. Arruda Alvim, de obra ainda inédita. Trata-se de matéria de alta complexidade (ver, em sentido diverso, o Resp /DF).

8 8 OBS.: O que é usucapião indígena? Trata-se da modalidade de prescrição aquisitiva prevista no art. 33 da Lei n /73 (Estatuto do Índio), com prazo de dez anos, em favor do índio integrado ou não, desde que tenha por objeto trecho de terra inferior a 50 h. Tal regra não se aplica às terras de domínio da União, ocupadas por grupos tribais, às áreas reservadas de que trata o Estatuto, nem às terras de propriedade coletiva de grupo tribal. Art Aquele que possuir, como sua, área urbana de até duzentos e cinqüenta metros quadrados, por cinco anos ininterruptamente e sem oposição, utilizando-a para sua moradia ou de sua família, adquirir-lhe-á o domínio, desde que não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural. 1 o O título de domínio e a concessão de uso serão conferidos ao homem ou à mulher, ou a ambos, independentemente do estado civil. 2 o O direito previsto no parágrafo antecedente não será reconhecido ao mesmo possuidor mais de uma vez. Trata-se do usucapião urbano pro misero, com base no art. 183, CF; há também previsão no art. 9. do Estatuto da Cidade Lei n /01 que contém preceito quase idêntico;e, ainda, temos o art. 10 do mesmo Estatuto, que criou também uma forma de usucapião urbano coletivo) Obs.: Sobre usucapião de apartamento, confira esta interessante notícia extraída do Informativo 428 do STF: Usucapião de Apartamento Iniciado julgamento de recurso extraordinário em que se discute a possibilidade de usucapião de apartamento. Trata-se, na espécie, de recurso

9 9 interposto contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul que, ao fundamento de que o dispositivo constitucional que instituiu a usucapião urbano (CF, art. 183) destina-se somente a lotes e não a unidades de um edifício, mantivera sentença que extinguira o processo sem julgamento de mérito por impossibilidade jurídica do pedido (CF: "Art Aquele que possuir como sua área urbana de até duzentos e cinqüenta metros quadrados, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, utilizando-a para sua moradia ou de sua família, adquirir-lhe-á o domínio, desde que não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural."). O Min. Marco Aurélio, relator, deu parcial provimento ao recurso para afastar o óbice ao julgamento do mérito, por entender que o imóvel em questão está enquadrado no art. 183 da CF. Asseverou que, neste preceito, não se distingue a espécie de imóvel e que os requisitos nele previstos têm por objeto viabilizar a manutenção da moradia. Aduziu que, no caso, a recorrente pretende usucapir a unidade autônoma e não todo o prédio, não estando a propriedade, unidade condominial, vinculada à área global em que ocorrida a edificação, mas somente à fração de terreno a ela correspondente, conforme escritura constante do registro de imóveis, cuja área é inferior a duzentos e cinqüenta metros quadrados. No ponto, citou as Leis 4.591/64 - que dispõe sobre o condomínio em edificações e as incorporações imobiliárias - e 6.015/73 (Lei de Registros Públicos), as quais prevêem a necessidade de se averbar a individualização de cada unidade condominial; a Lei /2001 (Estatuto da Cidade), que admite a usucapião de área ou edificação urbana, sem ressalvar a unidade condominial; e a Lei /2002 (Código Civil), que também dispõe sobre usucapião de área urbana, sem qualquer restrição. Após, pediu vista dos autos o Min. Carlos Britto. RE /RS, rel. Min. Marco Aurélio, (RE ) Fonte: sucapião%20de%20apartamento acessado em 07 de dezembro de 2008

10 10 Art Poderá o possuidor requerer ao juiz seja declarada adquirida, mediante usucapião, a propriedade imóvel. Parágrafo único. A declaração obtida na forma deste artigo constituirá título hábil para o registro no Cartório de Registro de Imóveis. Este dispositivo, em nosso sentir, deixa clara a natureza declaratória da sentença na ação de usucapião, pondo fim, definitivamente, a uma antiga controvérsia. Aliás, assim o é, pois a propriedade é constituída pelo usucapião, e não pela sentença, que tem a precípua finalidade de regularizar o domínio adquirido, no âmbito do registro. Por isso, aliás, é que o usucapião pode ser alegado em sede de defesa (S. 237 do STF). A respeito deste tema, confira-se o seguinte julgado do STJ: Ação demarcatória. Usucapião como matéria de defesa. Momento em que pode ser alegada. 1. A prescrição extintiva pode ser argüida em qualquer fase do processo, mas a prescrição aquisitiva somente tem pertinência como matéria de defesa se argüida na contestação, momento próprio para tanto, sob pena de preclusão. 2. Recurso especial não conhecido. (REsp /PR, Rel. Ministro CARLOS ALBERTO MENEZES DIREITO, TERCEIRA TURMA, julgado em , DJ p. 259) Art Adquire também a propriedade do imóvel aquele que, contínua e incontestadamente, com justo título e boa-fé, o possuir por dez anos. Parágrafo único. Será de cinco anos o prazo previsto neste artigo se o imóvel houver sido adquirido, onerosamente, com base no registro constante do respectivo cartório, cancelada posteriormente, desde que os possuidores nele tiverem estabelecido a sua moradia, ou realizado investimentos de interesse social e econômico.

11 11 Trata-se, aqui, do usucapião ordinário, em que, para a sua configuração, importa o justo título e a boa-fé. Note-se que o seu prazo poderá ser reduzido para cinco anos, caso verificado o exercício de posse-trabalho. Art O possuidor pode, para o fim de contar o tempo exigido pelos artigos antecedentes, acrescentar à sua posse a dos seus antecessores (art ) 6, contanto que todas sejam contínuas, pacíficas e, nos casos do art , com justo título e de boa-fé. Art Estende-se ao possuidor o disposto quanto ao devedor acerca das causas que obstam, suspendem ou interrompem a prescrição 7, as quais também se aplicam à usucapião. Estatuto da Cidade (Lei n /01) Art. 9 o Aquele que possuir como sua área ou edificação urbana de até duzentos e cinqüenta metros quadrados, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, utilizando-a para sua moradia ou de sua família, adquirir-lhe-á o domínio, desde que não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural. 1 o O título de domínio será conferido ao homem ou à mulher, ou a ambos, independentemente do estado civil. 2 o O direito de que trata este artigo não será reconhecido ao mesmo possuidor mais de uma vez. 3 o Para os efeitos deste artigo, o herdeiro legítimo continua, de pleno direito, a posse de seu antecessor, desde que já resida no imóvel por ocasião da abertura da sucessão. 6 Art O sucessor universal continua de direito a posse do seu antecessor; e ao sucessor singular é facultado unir sua posse à do antecessor, para os efeitos legais. Mas note-se que, a teor do 1.206, a posse transmite-se aos herdeiros ou legatários do possuidor com os mesmos caracteres. 7 Ver arts. 197 a 204 da Parte Geral do Código Civil.

12 12 Trata-se do usucapião urbano, a teor do art. 183 da CF. Art. 10. As áreas urbanas com mais de duzentos e cinqüenta metros quadrados, ocupadas por população de baixa renda para sua moradia, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, onde não for possível identificar os terrenos ocupados por cada possuidor, são susceptíveis de serem usucapidas coletivamente, desde que os possuidores não sejam proprietários de outro imóvel urbano ou rural. cuidou-se, aqui, do usucapião coletivo urbano M. SALLES, seguindo pensamento de DABUS MALUF, critica a norma, sustentando que perpetuará o problema das favelas (cf. a excelente obra Usucapião de Bens Móveis e Imóveis, RT, págs. 317 e ss., do Professor M. SALLES). a norma é melhor redigida, em nossa opinião, do que a prevista no art. 1228, 4º e 5º do CC, pois não exige pagamento de indenização, não gerando, portanto, o grave problema de não se saber quem paga. 1 o O possuidor pode, para o fim de contar o prazo exigido por este artigo, acrescentar sua posse à de seu antecessor, contanto que ambas sejam contínuas. 2 o A usucapião especial coletiva de imóvel urbano será declarada pelo juiz, mediante sentença, a qual servirá de título para registro no cartório de registro de imóveis. 3 o Na sentença, o juiz atribuirá igual fração ideal de terreno a cada possuidor, independentemente da dimensão do terreno que cada um ocupe, salvo hipótese de acordo escrito entre os condôminos, estabelecendo frações ideais diferenciadas. 4 o O condomínio especial constituído é indivisível, não sendo passível de extinção, salvo deliberação favorável tomada por, no mínimo, dois terços

13 13 dos condôminos, no caso de execução de urbanização posterior à constituição do condomínio. 5 o As deliberações relativas à administração do condomínio especial serão tomadas por maioria de votos dos condôminos presentes, obrigando também os demais, discordantes ou ausentes. Art. 11. Na pendência da ação de usucapião especial urbana, ficarão sobrestadas quaisquer outras ações, petitórias ou possessórias, que venham a ser propostas relativamente ao imóvel usucapiendo. Art. 12. São partes legítimas para a propositura da ação de usucapião especial urbana: I o possuidor, isoladamente ou em litisconsórcio originário ou superveniente; II os possuidores, em estado de composse; III como substituto processual, a associação de moradores da comunidade, regularmente constituída, com personalidade jurídica, desde que explicitamente autorizada pelos representados. 1 o Na ação de usucapião especial urbana é obrigatória a intervenção do Ministério Público. 2 o O autor terá os benefícios da justiça e da assistência judiciária gratuita, inclusive perante o cartório de registro de imóveis. Art. 13. A usucapião especial de imóvel urbano poderá ser invocada como matéria de defesa, valendo a sentença que a reconhecer como título para registro no cartório de registro de imóveis. Art. 14. Na ação judicial de usucapião especial de imóvel urbano, o rito processual a ser observado é o sumário.

14 14 Jurisprudência Usucapião e Crime 8 STJ: RESP / MG ; RECURSO ESPECIAL 2000/ Relator(a) Ministra NANCY ANDRIGHI (1118) Órgão Julgador T3 - TERCEIRA TURMA Data do Julgamento 04/12/2001 Data da Publicação/Fonte DJ p LEXSTJ VOL.:00154 p RDR VOL.:00023 p Ementa Recurso Especial. Usucapião ordinário de bem móvel. Aquisição originária. Automóvel furtado. - Não se adquire por usucapião ordinário veículo furtado. - Recurso Especial não conhecido. TJRS: TIPO DE PROCESSO: APELAÇÃO CÍVEL NÚMERO: RELATOR: ERNANI GRAEFF 8 Na doutrina, ver: Chaves, Raul. A Usucapião e o Crime. São Paulo, Saraiva, 1981.

15 15 EMENTA: USUCAPIAO DE COISA MOVEL: AUTOMOVEL FURTADO. RECONHECE- SE USUCAPIAOEXTRAORDINARIO PELA POSSE SUPERIOR A CINCO ANOS, MESMO QUE O PRIMEIRO ADQUIRENTE CONHECESSE O "VITIUM FURTI". "O LADRAO PODE USUCAPIR; O TERCEIRO USUCAPE, DE BOA OU MA-FE, A COISA FURTADA" (PONTES DE MIRANDA). SENTENCA CONFIRMADA. REGISTRO DETRAN. FINALIDADE. (APELAÇÃO CÍVEL Nº , QUARTA CÂMARA CÍVEL, TRIBUNAL DE ALÇADA DO RS, RELATOR: ERNANI GRAEFF, JULGADO EM 17/05/1990) 2. Perda da Propriedade Imobiliária Art Além das causas consideradas neste Código, perde-se a propriedade: I - por alienação; II - pela renúncia; III - por abandono; IV - por perecimento da coisa; V - por desapropriação. Parágrafo único. Nos casos dos incisos I e II, os efeitos da perda da propriedade imóvel serão subordinados ao registro do título transmissivo ou do ato renunciativo no Registro de Imóveis. Art O imóvel urbano que o proprietário abandonar, com a intenção de não mais o conservar em seu patrimônio, e que se não encontrar na posse de outrem, poderá ser arrecadado, como bem vago, e passar, três anos depois, à propriedade do Município ou à do Distrito Federal, se se achar nas respectivas circunscrições.

16 16 1 o O imóvel situado na zona rural, abandonado nas mesmas circunstâncias, poderá ser arrecadado, como bem vago, e passar, três anos depois, à propriedade da União, onde quer que ele se localize. 2 o Presumir-se-á de modo absoluto a intenção a que se refere este artigo, quando, cessados os atos de posse, deixar o proprietário de satisfazer os ônus fiscais. Obs.: Reputamos inconstitucional este parágrafo segundo, pois, ao firmar uma (injustificável) presunção absoluta de abandono, criou uma espécie de confisco velado, em dissonância com o art. 150, IV da Constituição Federal. Nessa mesma linha, o Enunciado 243 da III Jornada afirma: A presunção de que trata o parágrafo segundo do art não pode ser interpretada de modo a contrariar a norma-princípio do art. 150, IV, da Constituição da República. 3. Questões Especiais Referentes ao Direito de Propriedade O que é multipropriedade ou time sharing? Esta interessante figura, segundo Maria Helena Diniz, na linha de pensamento de Gustavo Tepedino, é uma espécie condominial relativa aos locais de lazer, pela qual há um aproveitamento econômico de bem imóvel (casa, chalé, apartamento), repartido em unidades fixas de tempo, assegurando a cada cotitular o seu uso exclusivo durante certo período (Curso de Direito Civil Brasileiro, vol. 4, 23. Ed., Saraiva, pág. 247). Afonso Rezende, por seu turno, preleciona:

17 17 1 CONCEITO Podemos definir multipropriedade como sendo uma situação jurídica peculiar, onde distintos proprietários de um imóvel têm, sobre o mesmo, o direito de fruição somente por um tempo específico, período esse estabelecido quando de sua aquisição, composto por semanas, quinzenas e até meses. À primeira vista, sem maiores perquirições, a importância da multipropriedade imobiliária parece estar restrita às instâncias turísticas, onde a possibilidade econômica de aquisição de um imóvel pelo sistema convencional fica razoavelmente dificultada, devido à sua não-utilização por prolongados espaços de tempo, gastos com manutenção, impostos, taxas, serviçais ou segurança. No entanto, nas cidades onde a característica turismo não vem a se constituir como fonte primordial de divisas, principalmente as de maior porte, começam a optar por tal sistema e conhecidos como Apart-hotel ou Flat Service e Residence Service. Como é notório, o custo de vida numa sociedade, destacadamente nos grandes centros, é geralmente elevado, fato que tem levado o indivíduo a procurar uma propriedade conjugada com descanso e lazer em outras plagas e alheias à vida agitada que normalmente está acostumado. Por essa razão e pelo custo proporcionalmente não muito acima dos padrões, é que a multipropriedade tem um obtido um resultado prático-econômico de uma operação comercial de êxito. Esta fórmula original de subdivisão da propriedade remanescente da França e recente entre nós (anos 80) tem sido difundida no país como grande oferta turística, fazendo com que a sociedade opte por um regime sociabilizante de uma propriedade imóvel, adequando as normas de convivência às necessidades humanas. A vantagem é puramente econômica, permitindo ao adquirente usufruir de um imóvel para seu descanso de cada ano, sem suportar gastos astronômicos, bem como isentar-se do possível "sofrimento" e mesmo desagrado das reservas de hotéis ou mesmo possibilidade de nada encontrar para o merecido repouso, enfim, com dificuldades para um alojamento cômodo e saudável. A outra vantagem do sistema é que este tipo de co-propriedade também está localizado em cidades praianas, montanhas,

18 18 estâncias hidrominerais ou termais, vindo, assim, cumprir parcialmente o preceito constitucional quanto à função social da propriedade, pois se utiliza de maneira completa de um bem, satisfazendo o interesse de uma multiplicidade de sujeitos. 2 ESTRUTURA JURÍDICA A multipropriedade é um direito sobre determinado imóvel, do tipo pro diviso (divisão de particulares), onde múltiplos proprietários, por distribuição do tempo, aproveita da coisa. Diz Gustavo Tepedino que, "através da multipropriedade imobiliária, diversos proprietários repartem o aproveitamento econômico de certo imóvel em turnos intercorrentes, normalmente semanas anuais, destinando-os discriminadamente a cada um dos titulares, com exclusividade e em caráter perpétuo, de tal sorte que a cada multiproprietário corresponda o direito de aproveitamento econômico de uma fração espaçotemporal, incidente sobre determinada unidade imobiliária em período certo do ano, sem o concurso dos demais." (Multipropriedade imobiliária, Saraiva, SP,1993, p. 3). Assim, a faculdade de aproveitamento está por períodos e, conseqüentemente, cada co-proprietário tem limitação quanto ao seu exercício. No entanto, a faculdade jurídica de disposição da coisa, inerente ao direito de propriedade, os co-proprietários a possuem, podendo alienar, hipotecar e transmitir, apenas o direito de uso é que está limitado ao tempo reservado. Portanto, o caráter essencial da multipropriedade é a periodicidade no aproveitamento ou no exercício das faculdades dominiais (fonte: acessado em 06 de dezembro de 2009). O que se entende por propriedade aparente? Com base na teoria da aparência e à luz do princípio maior da boa-fé objetiva, uma situação de aparente exercício do direito de propriedade poderá surtir efeitos na órbita do Direito.

19 19 Exemplificam, sobre o tema, Simão e Tartuce, na vereda de pensamento de Vítor Kümpel: relativamente à propriedade dos bens imóveis, a propriedade aparente pode surgir em casos de falsidade do registro, em que a propriedade não existe ou que o registro está em nome de outro titular. Nos dois casos, deve-se pensar na proteção dos direitos de terceiros de boa-fé (Direito Civil, vol. 4, 2. Ed, Método, pág. 158). Qual é a diferença entre propriedade resolúvel e propriedade ad tempus? Esta matéria não é pacífica na doutrina. Alguns autores aceitam a distinção, outros não. 9 Para os que aceitam tal diferença, a propriedade resolúvel é aquela em que a desconstituição do direito do proprietário é prevista no próprio título, ou seja, a limitação temporal da propriedade (sua duração) está previamente regulada por cláusula contratual: é o caso da cláusula de reversão prevista em contrato de doação (art. 547, CC), que permite o retorno do bem ao patrimônio do doador caso sobreviva ao donatário; já a propriedade ad tempus, é aquela em que inexiste estipulação contratual prévia de dissolução do direito, mas uma circunstância superveniente pode extinguir a propriedade. Exemplo: propriedade conferida ao donatário que cometa ato de ingratidão contra o doador: verificado o cometimento do ato gravoso, poderá ser revogada a doação (circunstância superveniente), nos termos do art. 557 do CC, prejudicando o direito do donatário, que até então seria exercido indefinidamente. A distinção é por demais sutil, não se afigurando, assim, em nosso sentir, de grande utilidade prática. 9 Consultem-se as excelentes obras de Tartuce e Simão (Ed. Método) e Chaves e Rosenwald (Ed. Lumen Juris).

20 20 4. Resumo dos Modos de Aquisição da Propriedade Mobiliária Quanto aos modos de aquisição da propriedade móvel, temos disciplina semelhante, posto não igual, àquela referente aos bens imóveis. Adquire-se a propriedade mobiliária (de um CD ou de um livro, por exemplo) por USUCAPIÃO (arts e ss), com prazo de 3 ou 5 anos. Na mesma linha, adquire-se a propriedade móvel por OCUPAÇÃO (art. 1263), que traduz a apropriação de uma coisa de ninguém (res nullius), um pedregulho na praia, por exemplo. Cuidado no concurso! A coisa PERDIDA deve ser devolvida (arts e ss.)! Temos, ainda, as regras referentes ao achado de TESOURO (arts e ss.), à TRADIÇÃO (modo de transferência voluntária de bens móveis arts e ss.), à ESPECIFICAÇÃO (quando se trabalha uma matéria-prima, transformando-a em obra acabada arts e ss.), e, finalmente, temos a CONFUSÃO, a COMISTÃO e a ADJUNÇÃO (arts e ss.) Confusão opera-se quando há a mistura de LÍQUIDOS; Comistão opera-se quando há a mistura de SÓLIDOS; Adjunção opera-se quando há a justaposição de uma coisa à outra, como no caso do sujeito que pega uma argila sua para completar o braço de uma escultura feita por terceiro. Vemos, pois, que todas essas três formas de aquisição de propriedade sugerem haver, segundo pensamento da doutrina, uma espécie de mistura ou agregação de uma coisa à outra.

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