TRIBUNAL MARÍTIMO PROCESSO Nº 18.911/2000 ACÓRDÃO



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Transcrição:

TRIBUNAL MARÍTIMO PROCESSO Nº 18.911/2000 ACÓRDÃO B/M JOSILANDE. Água aberta seguida de naufrágio com perda total da embarcação e sua carga. Não houve acidentes pessoais e/ou danos ao meio ambiente marinho. Rompimento das amarras dos dois ferros de fundeio provocado pelo mau tempo, agravado pelo superaquecimento do motor, deixando a embarcação à deriva, cuja origem não restou apurada acima de qualquer dúvida. Arquivamento. Vistos os presentes autos. Consta dos autos que cerca das 03:00h de 12/02/00, nas proximidades do Farol de Pirajuba, na costa marítima do Município de Itapera/MA (CN 411) ocorreu o naufrágio do B/M JOSILANDE, propriedade de José Murilo Nunes de Souza, na ocasião sob a mestrança do Marinheiro Auxiliar de Convés José João Campos Louzeiro, provocando a perda total da embarcação e sua carga. As 45 pessoas entre passageiros e tripulantes foram resgatados são e salvos. Não houve danos ao meio ambiente marinho. Consta dos autos que o B/M JOSILANDE saiu de São Luiz, cerca das 22:00h de 11/02/00, em direção a Guimarães, navegando normalmente até que durante a madrugada de 13/02/00, às proximidades do Farol de Pirajuba, o tempo virou e como era uma área de recifes o que poderia colocar em risco as vidas dos passageiros e a própria embarcação e sua carga, o mestre decidiu por fundear, em local mais raso possível a fim de possibilitar o desembarque dos passageiros, que alcançaram a terra são e salvos, enquanto os tripulantes tentavam levar o B/M JOSILANDE até o porto de Canelatiua o que teria forçado o motor, ocasionando o seu superaquecimento, conseqüentemente sua parada, o que agravou a situação, já que a embarcação ficando a deriva e sujeita a ação violenta do mar, em pouco tempo partiu-se ao meio, provocando o seu naufrágio.

Acionados a equipe do Grupo Tático Aéreo (GTA) que coordenou a operação de resgate dos ocupantes do B/M JOSILANDE, como ainda a Capitania dos Portos e Corpo de Bombeiros, como ainda pescadores da região. A operação terminou cerca das 16:00h de 12/02/00, sem ocorrência de danos pessoais. José João Campos Louzeiro, Moço de Convés, na ocasião no comando da embarcação, as fls. 25/28, e demais tripulantes, como ainda dois passageiros ouvidos (fls. 21/24,29/31,32/33,34) descrevem o acidente como acima relatado e são uníssonos a atribuírem o acidente ao mau tempo. José Murilo Nunes de Souza, proprietário, em seu depoimento de fls. 18/20 afirma que a tripulação tudo fez para evitar o acidente, e correta a atitude tomada pelo mestre da embarcação no sentido de fundear a embarcação, pois caso ele tivesse insistido em prosseguir com a viagem, certamente teria ocorrido um acidente com perda de vidas. Disse que a embarcação estava dotada com material de salvatagem, a tripulação legalmente embarcada, entretanto toda a documentação da embarcação e dos seus tripulantes foi perdida no acidente. Juntados aos autos documentos de praxe. Os Peritos em laudo de exame pericial de fls48/49, com croqui (fls. 50), fotos (fls. 51/64) atestam o bom estado de conservação da embarcação, e atribuem como causa determinante do naufrágio a perda dos dois ferros de fundeio e o motor que não resistiu a manobra de fundeio e o motor que não resistiu a manobra de emergência de levar o barco até a praia pelo mestre, o mau tempo fez a conclusão do episódio afundando o barco nas proximidades da praia. Atestam ainda que a avaria observada no motor propulsor (foto nº 2 mostra o quanto foi forçado o motor) na tentativa desesperada de salvar o barco após o resgate dos passageiros, demonstrando que não houve imperícia por parte dos tripulantes o que 2

aconteceu na verdade foi muito profissionalismo, em sacrificar ob arco e salvar todos os quarenta e dois passageiros ilesos; Que as ordens dadas ao maquinista após o resgate dos passageiros foi colocar o motor um funcionamento e tentar levar o barco até um igarapé que fica em frente ao local do naufrágio, que seria o local seguro para o barco ficar até passar o temporal, tendo o motor sido forçado ate fundir o pistão na camisa com o bloco (foto nº 03). Atestam ainda que a tripulação estava legalmente habilitada na forma da lei para desempenhar suas funções a bordo, além de serem experiente no que diz respeito à navegação interior de travessia. Fazem ainda outras observações quanto ao local do acidente, condições adversas de tempo por ocasião do evento. Na análise dos fatores contribuintes concluíram os peritos: Fator humano: não contribuiu; Fator Material: foi constatado que dependendo do estado do mar, os cabos de nylon que servem de amarra para os ferros de fundeio, não são seguros; e Fator Operacional : não houve. Finalmente atribuíram como causa determinante do evento: o rompimento das marras dos dois ferros de fundeio, ajudado pela força da natureza que formou o mau tempo, o motor não resistiu pois no momento do fundeio o motor já apresentava falhas de superaquecimento, ao ser forçado fundiu-se como demonstram as fotos de nos 07 e 08. Fizeram juntar jornais locais noticiando o evento (fls. 64/66). O encarregado do inquérito em seu relatório de fls. 68/69 analisando os fatores contribuintes, concluiu: Fator humano: não contribuiu; 3

Fator material contribuiu: Os cabos de nylon que se arrebentaram nos 1º e 2º fundeios e também o motor propulsor que fundiu fazendo a embarcação ficar desgovernada em decorrência da entrada de água pelas rachaduras do costado. Fator operacional: contribuiu. O Comandante e o Maquinista não souberam desempenhar bem suas funções. Deixou de apontar possíveis responsáveis diretos por entender que o evento foi conseqüência do mau tempo, portanto de natureza fortuita, entretanto, apontou como possíveis responsáveis indiretos, José João Campos Louzeiros, comandante da embarcação que não fez uma chamada de emergência para outras embarcações que poderiam estar nas imediações para um reboque evitando assim o fundeio, em uma área de risco e o sr. José Aluízio dos Santos (maquinista) que não observou o superaquecimento do motor em tempo, evitando que o mesmo viesse a fundir, este não ouvido na fase inquisitorial por motivo de doença. A D. Procuradoria, então, requereu o arquivamento dos autos (fls. ) por entender que o acidente da navegação em apreciação se equipara aqueles de natureza fortuita. Publicada nota de Arquivamento. Prazos preclusos, sem manifestação de interessados. Considerando que as provas carreadas aos autos apontam para a fortuidade do evento. Considerando ainda que acertada foi a decisão do seu condutor, José João Campos Louzeiro, de fazer um fundeio de emergência visando preservar a vida dos passageiros, como ainda salvar a embarcação, já que não era mais possível continuar a viagem devido ao tempo, o que possibilitou o desembarque seguro quer dos passageiros quer dos tripulantes, chegando todos em terra, onde foram resgatados são e salvos. 4

Considerando que restou comprovado pelos peritos o bom estado de conservação da embarcação antes do evento e que o motor teria fundido devido o superaquecimento, face aos esforços despendidos durante a operação de fundeio, quando as amarras romperam face ao mau tempo que se abateu sobre a região Considerando, ainda, que o fundeio decidido pelo mestre não chegou a bom termo devido o rompimento da amarra na segunda tentativa, ficando assim o barco à deriva para em seguida se partir ao meio nos bancos de areias e pedras como mostra a foto publicada em jornal local (fls. 68). Por tudo isto e por tudo o mais que dos autos constam, conclui-se que o acidente da navegação em apreciação, previsto no artigo 14, letra a da Lei nº 2.180/54, caracterizado pelo naufrágio do B/M JOSILANDE, cerca das 03:00h de 12/02/00, provocando a perda total da embarcação e sua carga, porém sem ocorrência de acidentes pessoais e/ou danos ao meio ambiente marinho, teve como causa determinante o rompimento das amarras dos dois ferros de fundeio provocado pelo mau tempo, agravado pelo superaquecimento do motor, deixando a embarcação à deriva, cuja origem não restou apurada acima de qualquer dúvida. Comprovada, portanto, a fortuidade do evento, arquive-se os autos como requerido pela D. Procuradoria Especial da Marinha em sua promoção de fls. 76/78. Assim, A C O R D A M os Juízes do Tribunal Marítimo, por unanimidade: a) quanto à natureza e extensão do acidente: água aberta, seguida de naufrágio. Danos materiais, sem acidentes pessoais e/ou danos ao meio ambiente marinho; b) quanto à causa determinante: rompimento das amarras dos dois ferros de fundeio, aliado ao mau tempo, agravado pelo superaquecimento do motor, cuja origem não restou apurada acima de qualquer dúvida; c) decisão: determinar o arquivamento dos autos de acordo com a promoção da D. 5

Procuradoria Especial da Marinha em sua peça 76/68. P. C. R. Rio de Janeiro, RJ, em 28 de junho de 2001. MARIA CRISTINA DE OLIVEIRA PADILHA Juíza-Relatora WALDEMAR NICOLAU CANELLAS JÚNIOR Almirante-de-Esquadra (RRm) Juiz-Presidente 6