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Conexão 32 Setembro/Outubro 2010 23 Enfermagem na gestão de resíduos Uma das etapas mais complexas da segurança e da limpeza hospitalar está relacionada à gestão dos Resíduos Sólidos de Saúde, tarefa na qual os profissionais de enfermagem são protagonistas Por Rodrigo Moraes Acidentes nem sempre acontecem por acaso. Muitas vezes, ocorrem por descaso. A afirmação é contundente. Mas talvez seja uma das formas mais claras de ilustrar a importância da gestão dos Resíduos Sólidos de Saúde. E, por conseqüência, a responsabilidade que recai sobre os profissionais de enfermagem, atores de forma direta neste processo. Os RSS, como também são chamados, causam preocupação decorrente de seu potencial de periculosidade, em função de contaminação biológica, química ou radioativa, associada ou não à sua característica mecânica termo que compreende a resposta dos materiais a influências mecânicas externas, manifestadas pela capacidade de desenvolverem deformações e resistirem a fraturas.
24 Reportagem Gestão de Resíduos A categoria dos RSS é composta por diferentes produtos residuais gerados em: hospitais; farmácias e drogarias; laboratórios de análises clínicas; consultórios médicos e odontológicos; clínicas e hospitais veterinários; bancos de sangue e outros estabelecimentos similares. De acordo com o Coordenador do Departamento de Resíduos Especiais da ABRELPE (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais), Odair Luiz Segantini, o manuseio incorreto dos resíduos pode gerar graves infecções e perfurações. Inclusive alguns são altamente tóxicos, enquanto outros possuem alto índice radioativo. Nestes casos, o cuidado deve ser redobrado, uma vez que, em contato com o organismo, não existe remédio que cure a contaminação. É necessário desenvolver instrumentos de avaliação e controle com indicadores claros, que permitam acompanhar a eficácia na gestão dos RSS Lorena Carvalho Silva Coelho é a enfermeira supervisora técnica e responsável pelas ações de implementação e coordenação das atividades de Higienização Hospitalar da empresa terceirizada que presta serviços para o Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo (HSPE). Para ela, o principal fator de risco apresentado no ambiente hospitalar é o acidente com perfurocortantes depositados em locais inadequados. Muitas vezes é possível minimizar esses riscos de contaminação biológica com o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) adequados. Gerenciamento Baseado em Resolução da Diretoria Colegiada da Anvisa RDC Nº 306, de 7 de dezembro de 2004, o gerenciamento desses resíduos deve ser constituído por um conjunto de procedimentos de gestão planejados e implementados a partir de bases científicas e técnicas, normativas e legais, com o objetivo de minimizar a produção de resíduos de serviços de saúde. Proporcionar aos resíduos gerados, um encaminhamento seguro, de forma eficiente, visando à proteção dos trabalhadores, a preservação da saúde pública, dos recursos naturais e do meio ambiente. O gerenciamento inicia pelo planejamento dos recursos físicos e dos recursos materiais necessários. E culmina com a capacitação dos recursos humanos envolvidos. Ainda de acordo com a RDC, todo gerador deve elaborar um Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde (PGRSS), baseado nas características dos resíduos gerados. Este Plano deve ser compatível com as normas federais, estaduais e municipais, e também com os procedimentos institucionais de biossegurança, relativos à coleta, transporte tratamento e disposição final dos RSS.
Conexão 32 Setembro/Outubro 2010 25 A enfermagem Pela abrangência das etapas descritas em relação ao gerenciamento, o profissional de enfermagem é um dos principais atores na gestão dos RSS. Os enfermeiros podem exercer diversos papeis importantes nesse processo. Dependendo da organização em que atua, pode ser o responsável técnico pelo estabelecimento, respondendo pela gestão de resíduos. Mesmo em seu dia a dia, com base em seu conhecimento técnico, ele pode atuar como orientador cuidando para que todo resíduo gerado seja bem administrado, destaca Odair Luiz Segantini, da ABRELPE. Ampliando tais incumbências, a enfermeira e coordenadora técnica Regina Marta Farinha Silva ressalta a importância de o enfermeiro conhecer a legislação para estabelecer o planejamento adequado de todas as etapas do gerenciamento dos resíduos sólidos de saúde: manejo, segregação, acondicionamento, identificação, transporte interno e armazenamento temporário. O enfermeiro que assume as responsabilidades de gestor dos RSS deve possuir habilidades de educador e facilitador no ambiente de trabalho. Suas ações visam desde a minimização da produção de resíduos, até a conscientização ecológica dos trabalhadores nas unidades de trabalho e redução desta geração para o meio ambiente. Entretanto, como supervisora técnica de uma numerosa equipe de profissionais, Lorena ressalta que exercer essa função é um desafio, pois não basta apenas implementar as normas estabelecidas pelas legislações. Também é preciso traçar um plano de monitoramento e acompanhamento constante dos resídu-
26 Reportagem Gestão de Resíduos Lorena Carvalho Silva Coelho e Odair Luiz Segantini, especialistas em gestão de resíduos hospitalares os gerados no ambiente hospitalar. Isso envolve um grande empenho na educação continuada do público hospitalar. Sejam usuários, equipe de assistência ou funcionários da área de limpeza. Por isso, ela aponta para a necessidade de desenvolver instrumentos de avaliação e controle, incluindo a construção de indicadores claros, objetivos e confiáveis, que permitam acompanhar a eficácia da gestão dos resíduos de saúde. Levando em consideração essas exigências, a enfermeira e diretora de imprensa do Sindicato dos Enfermeiros do Estado de São Paulo (SEESP), Ana Firmino, aponta para a necessidade da criação de uma lei específica para este serviço. A limpeza é um dos fatores determinantes em infecções hospitalares. Isso tem relação direta com os custos de internação do paciente, ou seja, é um dos fatores de gerenciamento de gastos de um hospital. A diretora vai além, ao afirmar que o ideal seria haver subsídios legais para aumentar o vínculo do enfermeiro responsável pelo serviço de limpeza no hospital. Por exemplo, na prática, apenas os grandes hospitais têm um profissional de enfermagem presente fisicamente para o desempenho dessa função. No entendimento de Segantini, dada a notória importância das atividades de higienização nos estabelecimentos de atenção à saúde, as autoridades da área deveriam regulamentar especificamente essa atividade deixando clara a necessidade da presença do profissional de enfermagem neste vital processo. Em resumo, Segantini acredita que a gestão de resíduos deve ser praticada com consciência. Além do necessário cumprimento da legislação, os estabelecimentos de atenção à saúde devem cumprir um papel de excelência em questões que envolvem saúde e meio ambiente, mesmo que isso tenha um custo. E essa nobre tarefa quase sempre está nas mãos do(a) enfermeiro(a). Área de limpeza O profissional de limpeza hospitalar deve receber uma carga de treinamento contínuo e possuir o conhecimento do descarte correto. Estes procedimentos específicos têm de ser transmitidos por um profissional de enfermagem. No geral, os trabalhadores que lidam diretamente com a limpeza possuem baixa escolaridade e formação, considerando as desigualdades existentes no País. Eles não são os principais geradores de resíduos. Mesmo assim, são os que mais sofrem as consequências do descarte inadequado. A enfermeira Lorena ressalta que, entre as atividades deste trabalho, estão as funções de coleta e armazenamento. Dentro do HSPE, a enfermeira explica que o treinamento é contínuo, com a valorização da importância do papel do profissional de limpeza na instituição de saúde, bem como na sociedade. Estes são elementos fundamentais para motiválo na realização de suas tarefas com eficácia. Por isso, cabe ao enfermeiro responsável capacitar esses trabalhadores dentro de conceitos técnicos da área da saúde. Entre os assuntos estão as noções básicas de microbiologia, técnicas de limpeza hospitalar, postura, cortesia no atendimento, noções de higiene, lavagem das mãos e uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI s), prevenção de acidentes. O treinamento é feito de forma sistemática dentro de um cronograma anual, que deve ser cumprido mensalmente e sempre que for necessário, com conteúdo técnico, saúde ocupacional e comportamental.
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