Entrevista sobre o Programa Pica Ficha de Identificação Nome: Artur Ribeiro Cargo/Função: Co-Argumenista Programa: Pica Questões 1. Qualidade - Na sua opinião, o que pode ser considerado qualidade em televisão em referência aos programas dedicados ao público infanto-juvenil? Indique 3 atributos relevantes: 1. Não ser paternalista. 2. Não tratar o público infanto-juvenil como atrasados mentais. 3. Ter sentido de humor e sensibilidade para as realidades deste público e não insistir numa versão cor-de-rosa moralista da infância e juventude. - Considera que a A:2, actual RTP 2, emite uma programação de qualidade? Se sim, por quê? Não. A produção própria é pobre e, no caso do PICA, a dedicação à promoção ou mesmo programação de horários foi desastrosa. O facto de exibirem séries de qualidade estrangeiras e alguns documentários não faz necessariamente de um canal sem sabor e sem identidade um canal de qualidade. Mas ainda assim, antes isso que o nível provinciano dos outros canais generalistas.
- A produção do programa Pica tem por base parâmetros de qualidade? Se sim, poderia explicar brevemente quais são eles? O que são parâmetros de qualidade? O que quisemos fazer no PICA foi seguir os três pontos referidos na primeira pergunta. - Considera que o Pica consegue cumprir com a qualidade que se espera de um programa de uma estação de serviço público? Se sim, por quê? Espero bem que não pois cumprir qualidade que se espera de uma estação de serviço público é algo que me assusta como conceito. A ideia do PICA é furar precisamente esses preconceitos e tentar algo diferente. 2. Temas - Como são seleccionados e tratados os temas a serem abordados no programa? Atenção que a parte de reportagens tinha um staff diferente de escritores/jornalistas. Na parte da ficção que era escrita pelo Tiago R. Santos e por eu próprio os temas eram seleccionados sem qualquer método a não ser talvez até onde se poderia ir antes de ser censurado pela estação (aconteceu várias vezes mas curiosamente onde menos esperávamos)... - A equipa de produção tem algum tipo de preocupação em contribuir para gerar a reflexão e, consequentemente, o debate de ideias quando da escolha e abordagem dos temas? Estas questões são pensadas quando da escolha dos temas e das reportagens, ou é apenas uma consideração teórica que não se efectiva na prática? Sim, esperamos que a irreverência dos temas levasse os jovens a deixar de beber para se sentarem a discutir como curar a ressaca...
3. Informação - Quais os critérios utilizados na selecção e na preparação das reportagens? Não era a minha área. 4. Personagens - O perfil dos personagens está muito bem trabalhado na página na Internet, porém no programa o contacto que temos se limita às reportagens. Os guionistas não têm a intenção de trabalhar mais com a parte ficcional do programa? Ou esta escolha, quero dizer, a intervenção dos personagens por meio das reportagens é mesmo a base da proposta do programa? Aparentemente há aqui um equívoco. As reportagens eram feitas por um grupo diferente de escritores/jornalistas, mas as personagens são as mesmas, e não percebo porque diz que no programa o contacto que têm com as personagens se limita às reportagens... De facto, a base do programa era cerca de 8 minutos de ficção intercalado com reportagens num total de 20 minutos. Mas era na ficção que as personagens se revelavam, só que, aparentemente, dado o teor desta pergunta, não foi isso que passou... Mas pergunto: quantos episódios viram do PICA? Viram por exemplo a semana final em que as personagens assumem consciência de si próprias, percebendo que são de ficção e que estão num programa de televisão supostamente abandonado pelos seus produtores, julgando ter livre arbítrio para depois descobrir que são presas de um guião e as suas personalidades definidas por guionistas e que só existem até o programa ser cancelado e serem chutados para fora do estúdio?
5. Público O programa tenta atrair um público diferenciado daquele que assiste às novelas dos canais generalistas. - Em termos da escrita do guião, são utilizados alguns mecanismos para gerar o interesse deste público? Tentamos evitar os clichés das novelas e antes pelo contrário procurar o que nunca foi feito em ficção juvenil. Tivemos uma mudança de sexo, beijos pseudolésbicos, referências a Kafka e Tomas Pynchon, personagens que desapareciam pelo tecto, um menino-ébola, um jovem monarca com tendências homossexuais e admirador do Paulo Portas que se fazia por vezes anunciar por um jovem pajem e outras vezes ser transportado ao colo por um lacaio, chegaram-se a ouvir lobos uivar num cenário absolutamente urbano, foram defendidas e refutadas teorias anarco-niilistas, socialistas, capitalistas, foram sugeridos muitos maus conselhos e raramente se foi politicamente correcto, tudo coisas que não se encontram nos Morangos com Açucar, contudo estes ganharam largamente nas audiências... - O programa promove a participação do público por meio do jogo BeCool. Há alguma outra estratégia? Boa pergunta, mas os guionistas sempre acharam essa história do Be Cool um absoluto disparate e fomos contra esse pseudo-jogo disparatado desde o princípio (assim como não achamos piada às raquetes das notícias, ou o cenário da casa dos irmãos, e muitas vezes escrevemos cenas em que gozávamos com os mesmos). No entanto, os fóruns no website do PICA tiveram uma participação entusiasta desde uns primeiros comentários a perguntar que porcaria de programa era aquele, à defesa incondicional do mesmo, e
levamos várias vezes ao programa espectadores registados no site para fazer pequenas participações. Ao analisarmos o programa Pica, percebemos o trabalho com a linguagem televisiva, isto é, principalmente o imbricamento entre ficção e informação e o uso da metalinguagem. - Neste sentido, a equipa de produção tem algum tipo de preocupação em educar para os media, considerando que a televisão tem a possibilidade de ser educativa sem ser didáctica no sentido pejorativo do termo? Trata-se de uma pergunta principalmente para a equipa que escrevia as reportagens. Do nosso ponto de vista na parte da ficção não tínhamos qualquer intenção de ser nem educativos nem didácticos e metalinguagem não sabemos o que é... 6. Serviço Público - Na sua opinião, como a RTP2 poderia agir para alcançar maiores parcelas do público infanto-juvenil? Porque, sendo um canal de serviço público, seria interessante se conseguisse contribuir ainda mais no desenvolvimento da consciência crítica das crianças e adolescentes. Sim, contratando uma segunda série do PICA, mas promovendo-a devidamente e não escondê-la por baixo da alcatifa...