DESIGN CONTRA O CRIME Roberson Luiz Bondaruk Analisamos a seguir a questão do Design Contra o Crime, que é o projeto e fabricação de produtos de utilização geral, que possam reduzir a chance de vitimização dos seus futuros usuários, através da forma como são projetados e fabricados. Procura-se assim, inserir neles características que reduzam facilidades para a atuação de delinqüentes. 1. Experiências internacionais. Principalmente nos países do Reino Unido, o Design Against Crime (Desenho no sentido de projetos - contra o crime) 1 efetua estudos, principalmente nas universidades sobre as formas de melhorar a conformação de bens de consumo para a melhor segurança de quem os irá consumir. Nestes países há o envolvimento nesta questão, não apenas das universidades, mas principalmente da indústria e do comércio, em muitos produtos colocados no mercado. Estes produtos passam pelo crivo de comissões especializadas, como o Design Council (Conselho de Desenho - no sentido de projetos) 2, filiado ao Department of Trade and Industry (Departamento de Indústria e Comércio, do Governo Britânico) que analisa o produto quanto ao aspecto de segurança. Num estudo realizado pela associação de três grandes universidades britânicas a UNIVERSITY OF CAMBRIDGE, SHEFFIELD HALLAM UNIVERSITY e THE SALFORD UNIVERSITY, no ano 2000, são analisados vários aspectos sobre a questão de Desenho contra o Crime. Há referência a diversos produtos, (embalagens, layout de veículos particulares e de transporte coletivo, acessórios do vestuário para homens e mulheres, como bolsas, carteiras, mesas e cadeiras a serem alocados em espaço público, terminais 1 Tradução sob responsabilidade do autor. 2 Tradução sob responsabilidade do autor.
computadorizados de informação, lojas em shoppings centers, normalmente contra furto e vandalismo e outros), enfim tudo que possa ser melhorado quanto ao aspecto segurança. O estudo inclui também pesquisas de opinião com arquitetos, engenheiros e projetistas em geral (designers) a respeito do tema. Há, naquele estudo, críticas no sentido de que dos entrevistados, apenas 30% tiveram cargas horárias de Design against crime na universidade, fato que lá era posto como de gravidade considerável, momento em que os autores da pesquisa, propunham medidas enérgicas para melhorar a preparação dos profissionais da área, neste tema. Um caso emblemático é o da Vodca Smirnoff (UNIVERSITY OF CAMBRIDGE, 2000:70). Para evitar a falsificação do produto, largamente contrafeito ( pirateado ) em países como a Rússia e a Ucrânia (como também ocorria com outras bebidas, como Johnnie Walker, Gordon s e Bell s), os fabricantes do produto ( United Distillers and International Distillers and Vintners - União dos Destiladores e União Internacional dos Destiladores e Vinhateiros), introduziram modificações na garrafa, que iam desde imagens holográficas no verso do rótulo, visível externamente, modificações no seu formato e números de série de segurança, gravados com tinta termo crômica 3, o que dificulta a falsificação. Como resultado o consumidor pode facilmente reconhecer o produto original com base nas mudanças introduzidas. Os casos de falsificação caíram drasticamente. 2. A realidade nacional Procuramos saber se no comércio e na indústria brasileiros há produtos com tais características. Constatamos que, em geral, há muito pouco ou quase nenhum item comercial que observe aspectos de Design Contra o Crime. Passamos a seguir, a analisar os itens de maior importância para o esclarecimento básico que pretendemos dar à questão, aproveitando-se os resultados das preferências 3 Espécie de tinta que muda de cor quando exposta a aumento de temperatura, largamente utilizada para se impedir a falsificação ou contrafação de produtos, na indústria (Disponível em http://ram.uol.com.br/materia.asp?id=120. Acesso em 22.05.06).
declaradas pelos delinqüentes entrevistados na pesquisa de campo, conforme se vê no item O que pensam os delinqüentes, a seguir. Acrescentamos também algumas humildes sugestões de elaboração de produtos segundo o Design Contra o Crime, algumas delas encontradas em sites especializados, os quais seguem com a devida referência. 3. Mobiliário a. Problemas O mobiliário utilizado principalmente no espaço público em geral, não está adaptado para este mister. A figura 94 mostra os bancos usados em um terminal de transporte coletivo em Curitiba, que apresenta problemas, por não dispor de nenhuma forma de proteção contra furtos de bolsas e malas de quem ali senta. Em nossa pesquisa, verificamos vários relatos de pessoas que tiveram seus pertences furtados ao serem puxados por baixo do banco onde a pessoa se assentava. FIGURA 94 BANCOS EM TERMINAL DE TRANSPORTE COLETIVO
Igualmente mesas em locais públicos ou abertos ao público, desprovidas de um sistema de proteção mínimo para os pertences do usuário do espaço, se tornam um foco de problemas para a segurança pública. b. Sugestões A modificação da constituição física de mesas e cadeiras pode reduzir ou eliminar o problema. No caso dos bancos mostrados na foto, a simples colocação de um anteparo (como uma pequena grade) impedindo o acesso de um lado para o outro do banco, por baixo deste, pode ser útil, conforme figura 95. FIGURA 95 BANCOS COM GRADE PROTETORA GRADE PROTETORA No caso de cadeiras ou bancos individuais em espaço público, estes podem ser fabricados com dispositivos de segurança para os pertences de quem os utiliza, conforme ilustramos na figura 96 a seguir.
FIGURA 96 CADEIRA COM COMPARTIMENTO DE PROTEÇÃO Compartimento com grade debaixo do assento para proteção de pertences Outra sugestão interessante e já comum no Brasil, é a colocação de um pequeno compartimento gradeado sob o assento, para a guarda de bolsas e mochilas. Ocorre que este dispositivo é utilizado quase que exclusivamente em salas de aula, mais por uma questão de comodidade dos alunos do que de segurança. O mesmo dispositivo disponibilizado em outros espaços públicos, poderia acrescentar melhores níveis de proteção para pertences dos usuários destes espaços. Conforme a figura 97 4, sulcos na parte frontal do assento onde se engata a alça da bolsa, garantem um local prático e seguro para tais pertences. 4 Disponível em http://pages.123-reg.co.uk/sclaxton-255126/ctl/id6.html. Acesso em 30. jun. 06
FIGURA 97 CADEIRA COM DISPOSITIVO DE SEGURANÇA SULCO NA PARTE DA FRENTE DO ASSENTO BOLSA COM ALÇA ENGATADA NO ASSENTO Igualmente para o caso de mesas em espaços públicos pode se criar dispositivos igualmente simples, práticos e seguros, conforme ilustramos a seguir. A figura 98 mostra dois sistemas de engate de segurança, que dificultam o furto da bolsa ou mochila portada pelo usuário da mesa. FIGURA 98 GANCHOS DE ENGATE PARA BOLSAS E MOCHILAS Engate para bolsa Bolsa ou mochila
Igualmente ao caso anterior, a figura 99 mostra dois sistemas onde bolsas ou mochila podem ser fixas soltando-se a fivela da alça desta e passando-a por dentro de uma abertura na própria mesa ou num engate. Neste caso, a bolsa ou mochila só poderá ser removida se novamente se soltar a fivela destas dos engates respectivos. c. Acessórios masculinos e femininos Com base nos estudos realizados, também com base nas informações prestadas pelos delinqüentes entrevistados, além de informações obtidas de outros países, principalmente via sites especializados na Internet, constata-se que há um número muito grande de delitos contra o patrimônio principalmente o caso de furto 5 (simples e qualificado), facilitados pela FIGURA 99 SISTEMAS DE ENGATE DE SEGURANÇA PARA BOLSAS E MOCHILAS Engate fixo na mesa Engate para bolsa perfurado na própria mesa Bolsa ou mochila 5 Furto simples (art.155, Código Penal Brasileiro): subtrair coisa alheia móvel, para si ou para outrem. Furto qualificado (art. 155, 4º [...] se o crime é cometido: I. com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa; II. com abuso de confiança, ou mediante fraude escalada ou destreza; III. com emprego de chave falsa; IV. mediante concurso de duas ou mais pessoas [...].Furto qualificado (art. 155, 4º [...] se o crime é cometido: I. com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa; II. com abuso de confiança, ou mediante fraude escalada ou destreza; III. com emprego de chave falsa; IV. mediante concurso de duas ou mais pessoas [...].
estrutura dos acessórios masculinos e femininos hoje disponíveis no comércio, aliados ao comportamento das pessoas que os utilizam. A seguir apresentamos algumas sugestões e comentários, que são apenas exemplificativos no sentido de chamar a atenção das pessoas, empresas, universidades e outros setores da sociedade, além do próprio consumidor, para esta importante questão. d. Bolsas e mochilas 1) Problemas Quando inquirimos os delinqüentes quanto ao tipo de bolsa que preferiam, citaram bolsas com zíper e de amarrar, por poderem ser abertas suavemente, sem que a vítima perceba. Estes afirmaram não gostar de fechos de velcro ou de botões de pressão, pois fazem barulho e são mais difíceis de serem abertos suavemente. Fizemos então uma pesquisa informal em oito grandes lojas de comércio deste tipo de acessórios e constatamos não haver nenhum deles que seja desenhado ou contenha aspectos de Design Contra o Crime. Nestas lojas, no caso das bolsas femininas, verificamos 97 modelos de bolsas femininas com zíper, um modelo com o fecho de amarrar e um com botão de pressão. A informação dada pelos gerentes das lojas, é de que as mulheres preferem bolsas que possam ser abertas discretamente, por isso uma maioria esmagadora de modelos com estas características. Outra informação trazida pelos delinqüentes na pesquisa já referida, é de que preferem como vítimas, as pessoas que trazem bolsas e carteiras na parte de trás do corpo. Verificamos também que há um número muito grande de bolsas e mochilas, projetadas para serem carregadas nesta parte do corpo, pela praticidade que dá, principalmente mantendo as mãos e a parte da frente do corpo do usuário livre para os gestos e ações normais do cotidiano, de mãos e braços. Ocorre que isto facilita em muito a ação do delinqüente, pois em locais de aglomeração, a pessoa não percebe quando está sendo vitimada pela forma suave e rápida com que ele age. As mochilas, femininas e masculinas, apresentam ainda um facilitador a mais, pois o fecho é sempre localizado em cima ou para o lado de fora é não para o lado do
corpo do seu usuário, quando ela está posicionada às costas. Isto permite que o delinqüente a abra facilmente. Acrescenta-se a isso, o fato de que a maioria destes acessórios é feito com material de pouca resistência a cortes (couro, lona e outros), não havendo no seu interior nenhum tipo de reforço ou compartimento reforçado resistente a cortes, onde objetos de valor pudessem ser guardados. 2) Sugestões Primeiramente, com referência ao caso de bolsas femininas e mochilas, poderia ser feito um compartimento constituído de material mais rígido e mais difícil de ser cortado, onde se acondicionaria a carteira, cheques, ou cartões de crédito. Este material necessitaria ser resistente e leve para não aumentar demasiadamente o peso da bolsa, posto ser recomendado por ortopedistas evitarem-se bolsas mais pesadas, a fim de se evitar, lesões articulares da cintura escapular. Igualmente, o fecho de mochilas precisaria ser deslocado para o lado do corpo do usuário, de forma que só quando ela fosse retirada das suas costas poderia ser aberta. Há também a sugestão de um site britânico de se fazer um fecho onde a parte da mochila seria enrolada, fixada com velcro e complementada por um fecho para o lado do corpo do usuário. 3) Cintos, carteiras e porta-celulares a. Problemas Carteiras e aparelhos de telefonia celular, costumam ser objeto constante de furto, principalmente pela forma como são portados pelos usuários, normalmente na parte de trás do corpo (no caso de carteiras, principalmente masculinas), no bolso de trás. No caso dos celulares são portados na lateral do corpo, ou mesmo na frente, mas com porta-celulares apenas enroscado ao cinto, o que facilita a ação do delinqüente.
O problema cresce quando a pessoa atende chamadas telefônicas em via pública, o que chama a atenção do delinquente e facilita uma ação de arrebatamento deste pertence. b. Sugestões Dispositivos que sejam presos ao cinto já reduzem bastante o risco de vitimização, embora não haja poucos modelos que contemplam esta necessidade. Os próprios usuários preferem aqueles que podem ser removidos facilmente do cinto, não atentando para o fato de que isto facilita a ação do delinqüente. Quanto ao caso de cintos, um site britânico especializado em Design Contra o Crime 6, (BODYSAFE PRODUCTS) sugere um cinto que pode ser usado sob a calça, onde objetos menos volumosos podem ser guardados. A medida poderia parecer exagero, mas a pesquisa de opinião entre delinqüentes revelou que vários deles afirmam categoricamente, que o único lugar seguro para objetos de valor, portados pelas vítimas, seria dentro das roupas íntimas. O mesmo site, disponibiliza um dispositivo que fixa o celular no antebraço do seu usuário. Este permite que ele possa ser atendido permanecendo preso ao braço, o que eliminaria a possibilidade de arrebatamento durante o atendimento. Houve comentários por alguns gerentes de lojas, que teria havido um cinto masculino, que possuía um pequeno bolso pelo lado de dentro, que permitia que pequenos objetos fossem ali protegidos, principalmente cartões de crédito e dinheiro, mas este por não ter procura saiu de linha e não é mais comercializado, segundo se constatou. 4. Roupas Conforme já referimos anteriormente, quando inquirimos os delinqüentes sobre em quais partes do corpo preferiam e que a vítima guardasse objetos de valor e quais locais não preferiam, estes afirmaram que preferiam que a vítima os guardasse na parte de trás do 6 Disponível em http://pages.123-reg.co.uk/sclaxton-255126/ctl/id6.html. Acesso em 30. jun.06
corpo, como o bolso de trás e não preferiam que os guardasse nos bolsos internos de paletós e casacos e nos bolsos da frente. Assim, fomentar a disponibilidade de roupas que obedeçam estas características seria uma importante forma de prevenção de delitos. Inclusive bolsos pelo lado de dentro da calça, na altura da cintura, poderiam acondicionar também com segurança tais objetos, desde que estes não fossem volumosos. 5. A criatividade na luta contra o crime Concluindo, pretendemos aqui apenas dar alguns poucos exemplos sobre o que poderia ser feito para melhorar a segurança das pessoas, com o uso da criatividade, dos designers que projetam móveis, roupas, acessórios, embalagens, equipamentos e tudo o que possa ser adaptado para melhorar a segurança dos consumidores de tais produtos. As ideias aqui retratadas são apenas uma humilde sugestão do que poderia ser feito neste sentido, com base nas referência acima citadas e nas constatações que as informações carreadas para o bojo deste trabalho nos permitem propor. Os artigos comerciais que podem ser alterados segundo o Design Contra o Crime, obviamente vão muito além destes poucos aqui relatados, ficando por conta dos especialistas nesta área como designers industriais, a própria indústria, o comércio, as universidades, bem como as pessoas do povo que dêem suas sugestões, aliado a informações que poderiam ser repassados pelos órgãos de segurança pública para orientar tais iniciativas, no que tange a estatísticas criminais, geoprocessamento entre outros, trariam grandes avanços nesta importante linha de trabalho para a melhoria da qualidade de vida de todos os paranaenses. Do livro BONDARUK, Roberson Luiz. Design contra o crime: prevenção situacional do delito através do design de produtos. Curitiba PR, Roberson L. Bondaruk, 2.008. 152p. www.comunidadecontraocrime.com.br