GRAMSCI: uma educação da práxis

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Transcrição:

GRAMSCI: uma educação da práxis Odorico Ferreira Cardoso Neto 1 Resumo Gramsci, comunista italiano, propõe uma transformação da sociedade capitalista a partir da luta contra-hegemônica, ou seja, em uma formulação de uma ideologia da classe proletária para, posteriormente, posicionar-se para uma luta efetiva de classe. E esta luta contrahegemônica da classe proletária ele chamou de Filosofia da Práxis. Palavras-chave Revolução. Práxis. Consciência. Realidade. Introdução A proposta de Gramsci, tratada aqui, é a luta contra-hegemônica a partir da educação da práxis, ou, poderia chamar-se uma pedagogia revolucionária pelo motivo de seus caminhos trilhados desde o início, passando pela mediação até a intenção última: a transformação social objetiva e subjetiva à uma unificação 2 plena do humano consigo e social. Gramsci, assim como Marx, observou que aqueles que possuem os meios de produção e o excedente econômico detêm, simultaneamente, o poder ideológico, político etc. Estes últimos são a bolha de defesa que impedem as classes subalternas (proletários, campesinos, serviços, exército de reserva, lupenproletário) de chegarem a ver a realidade burguesa tal como ela é: uma sociedade que o lucro está acima de tudo e todos e que utiliza de todos os mecanismos conhecidos para chegar à sua natureza teleológica. Assim, Gramsci, desta cristalização do status quo (consentimento ao progresso e conformidade à ordem ), propõe uma luta contra-hegemônica em que a classe trabalhadora promoveria a criação e o desenvolvimento de uma nova cultura tanto no que se refere aos valores e normas quanto à visão de homem e de mundo (CARVALHO & SILVA, 2006, p. 48). 1 Pós-doutorado em Educação. Universidade Federal de Mato Grosso. E-mail: kiko@gmail.com 2 A unidade é determinada pelo desenvolvimento dialético das contradições entre o homem e a matéria (natureza forças materiais de produção) (GRAMSCI, 1978, p. 112). 162

E esta luta não se finaliza em uma revolução intelectual, mas chega a uma prática, como o próprio italiano afirmou que deveria ser uma passagem da utopia à ciência e da ciência à prática (GRAMSCI, 1978, p. 93). Então, a pedagogia revolucionária gramsciana parte de uma intenção subjetiva a partir de uma conscientização da realidade social vivenciada, para depois sistematizar cientificamente (materialismo-dialético) a tomada de consciência e por fim, a própria prática de transformação da estrutura capitalista, ou seja, na sua base, em sua raiz para criar algo novo, humano, justo, solidário: o comunismo. Primeiro, Gramsci, expõe uma análise que supera toda forma de pré-conceito tanto da aristocracia intelectual quanto da vanguarda revolucionária (que por vezes pensa e age pela massa) a qual é que todos os homens são filósofos (GRAMSCI, 2006, p. 93). Toda forma de manifestação da atividade intelectual é filosofia. Toda visão de mundo, mesmo o mais simples senso comum é filosófico, mesmo que contenha nesta visão de mundo uma imposição externa, um imperativo categórico kantiano. Contudo, ainda que necessário afirmar que todos e todas são dotados de racionalidade tem-se que dar outro passo: elaborar a própria concepção do mundo de uma maneira consciente e crítica e, portanto, em ligação com este trabalho do próprio cérebro, escolher a própria esfera de atividade, participar ativamente na produção da história do mundo, ser o guia de si mesmo e não mais aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da própria personalidade (GRAMSCI, 2006, p. 94). Tanto para Gramsci quanto para Marx a produção da consciência é na prática. É na ação que nasce a consciência do novo homem revolucionário comunista. E para este a compreensão crítica de si mesmo é obtida, portanto, através de uma luta de hegemonias políticas, de direções contrastantes, primeiro no campo da ética, depois no da política, atingindo finalmente, uma elaboração superior da própria concepção do real. A consciência de fazer parte de uma determinada força hegemônica (isto é, a consciência política) é a primeira fase de uma ulterior e progressiva autoconsciência, na qual teoria e prática finalmente se unificam (GRAMSCI, 2006, p. 103). Vejamos! Gramsci primeiro afirma que para se ter uma compreensão crítica de si mesmo tem-se que participar ativamente da luta hegemônica política. Nesta a ética está no primeiro plano. Esta ética não é qualquer ética (conservadora, reacionária, ou pelega), mas 163

uma ética que tem por premissa a luta hegemônica. Então, a ética proposta por Gramsci é uma formação subjetiva de classe, uma formação de caráter a partir de normas, regras de classe. E esta só se terá pela luta hegemônica, pela experiência de classe com a realidade política, social, econômica, social, cultural. Esta experiência só poderá surgir na subjetividade humana quando este contrapor o lucro e as pessoas; quando contrapor sua lida diária com a riqueza de patrões; quando contrapor a enorme quantidade de terras, meios de produção de poucos e somente o corpo para trabalhar duro da imensa maioria. E toda esta condição não esta fora deste indivíduo para ele analisar teoricamente, mas ele sente esta própria realidade em si mesmo. Quem melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora? Quem sentirá, melhor que ele, os efeitos da opressão? Quem, mais que eles para ir compreendendo a necessidade da libertação? (FREIRE, 2003, p. 31) Ao sentir sua própria condição e refletir sua historicidade e não uma realidade cristalizada, a-histórica, eterna que este indivíduo, esta classe se indignará politicamente, possibilitando a segunda fase : consciência política ou uma autoconsciência crítica. Gramsci tinha plena compreensão da força revolucionária da autoconsciência crítica. Em suas palavras: autoconsciência crítica significa, histórica e politicamente, criação de uma elite de intelectuais: uma massa humana não se distingue e não se torna independente para si sem organizar-se (em sentido lato); e não existe organização sem intelectuais, isto é, sem organizadores e dirigentes, ou seja, sem que o aspecto teórico de ligação teoria-prática se distinga concretamente em um estrato de pessoas especializadas na elaboração conceitual e filosófica (GRAMSCI, 2006, p. 104). A autoconsciência crítica já é a concretização do ser político. É a práxis. Quando Gramsci faz este questionamento: Mas como cada indivíduo conseguirá se incorporar ao homem coletivo e como se fará pressão educativa sobre cada um obtendo acordo e Etimologia: ex-peri-ência é a ciência ou o conhecimento (ciência) que o ser humano adquire quando sai de si mesmo (ex) e procura compreender um objeto por todos os lados (peri). A experiência não é um conhecimento teórico ou livresco. Mas é adquirido em contato com a realidade que não se deixa penetrar facilmente e que até se opõe e se resiste ao ser humano (BOFF, 2002, p. 39-40) Não somente no sentido aristotélico, mas simultaneamente marxista. 164

colaboração, transformando a necessidade e a coerção em liberdade? (GRAMSCI, 2005, p. 97) 1 A resposta é a práxis. Para Gramsci a filosofia da práxis tinha duas tarefas: combater as ideologias modernas em sua forma mais refinada, a fim de poder constituir o próprio grupo de intelectuais, e educar as massas populares, cuja cultura é medieval (GRAMSCI, 1978, p. 104). O combate ideológico já é a práxis, pois a pedagogia gramsciana é teleológica, no sentido de que a intenção final (a destruição radical do capitalismo) já está em sua mediação (luta ideológica); assim não há uma bifurcação em sua teoria e prática. Para melhor compreender esta filosofia, eis uma emblemática citação de Gramsci: A filosofia da práxis é uma reforma e um desenvolvimento de hegelianismo, é uma filosofia libertada (ou busca libertar-se) de qualquer elemento ideológico unilateral e fanático, é a consciência plena das contradições, na qual o mesmo filósofo entendido individualmente ou como grupo social global não só compreende as contradições, mas coloca si mesmo como elemento da contradição, eleva este elemento a princípio de conhecimento e, consequentemente, de ação (GRAMSCI, 1978, p. 114). Práxis. Para Gramsci, este conceito é rico e revolucionário. Abarca a libertação do indivíduo e a emancipação da sociedade de seus grilhões capitalista junto à sua personificação burguesa e pequeno burguesa. Desta compreensão (de sua pedagogia) que se pode dizer: ecce homo! (eis o homem). Eis o homem Gramsci: um jovem revolucionário marxista que desejava emancipar a sociedade a partir dos proletários, rumo ao comunismo. Referências biblográficas CARVALHO, Alonso B. & SILVA, Wilson C. L. (org). Sociologia e Educação. Leituras e Interpretações. SP: Avercamp, 2006. BOFF, L. Experimentar Deus. A transcendência de todas as coisas. Campinas, SP: Ed Verus, 2002. FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. RJ: Paz e Terra, 2003 GRAMSCI, A. Gramsci: Poder, política e partido (org. Emir Sader). SP: Expressão popular, 2005.. Concepção dialética da história. RJ: Civilização Brasileira, 1978.. Caderno do Cárcere. RJ: Civilização Brasileira, 2006. 165

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