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Transcrição:

Categorias da narrativa Acção Dá-se o nome de acção ao conjunto de acontecimentos que constituem uma narrativa e que são relatados, mas há que distinguir a importância de cada um deles para a história. Narrador Acção principal: constituída pelo ou pelos acontecimentos principais. Acção secundária: constituída pelo ou pelos acontecimentos menos importantes que valorizam a acção central. Numa narrativa, as várias acções relacionam-se entre si de diferentes maneiras: - por encadeamento: quando as acções sucedem por ordem temporal e em que o final de uma acção se encadeia com o início da seguinte, - por alternância: quando as acções se desenrolam separada e alternadamente, podendo fundir-se em determinado ponto da história, - por encaixe, isto é, quando se introduz uma acção noutra. O narrador é uma entidade imaginária criada pelo autor, que tem como função contar a história. Não deve, por isso, ser confundido com o autor, que é o responsável pela criação da história. Presença Quanto à presença, o narrador pode ser não participante ou participante. Narrador não participante: conta uma história na qual não participa. Ex: "Os automobilistas que nessa manhã de Setembro entravam em Lisboa pela Avenida Gago Coutinho, direitos ao Areeiro, começaram por apanhar um grande susto (...)" (1) (1) CARVALHO, Mário de, A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho e outras Histórias, Lisboa, Editorial Caminho, 1992. 1

Narrador participante: conta uma história em que participa como personagem principal ou uma história em que participa como personagem secundária ou figurante. Posição Ex.: "Para lá do telefone e das calorias das trouxas de ovos, a minha mãe também odeia palavras foleiras tipo "tchauzinho", "ôi!", "tudo bem, fofa?", coisas assim." (2) Quanto à posição relativamente ao que conta, o narrador pode ser objectivo ou subjectivo. Narrador objectivo: mantém uma posição imparcial em relação aos acontecimentos, narrando os factos com objectividade. Ex.: " Sexta-feira colhia flores por entre os rochedos junto da antiga gruta quando viu um ponto branco no horizonte, para leste." (3) Narrador subjectivo: narra os acontecimentos com parcialidade, emitindo a sua opinião, emitindo juízos de valor, tornando a narração subjectiva. Ex.: " (...) quando os primeiros alfanges assomavam ao lado de um autocarro da Carris, já os briosos homens da Polícia de Intervenção corriam a bom correr até à Cervejaria Munique, onde se refugiavam atrás do balcão (...)" (1) Focalização Focalização omnisciente: o narrador detém um conhecimento total e ilimitado da narrativa. Controla os acontecimentos, o tempo e as personagens. Ex.: "De que Alá era grande estava o chefe da tropa convencido, mas não lhe pareceu o momento oportuno para louvaminhas, que a situação requeria antes soluções práticas e muito tacto." (1) (1) CARVALHO, Mário de, A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho e outras Histórias, Lisboa, Editorial Caminho, 1992. (2) VIEIRA, Alice, Cadernos de Agosto, Lisboa, Editorial Caminho, 1995. (3) TOURNIER, Michel, Sexta-Feira ou a Vida Selvagem, Lisboa, Editorial Presença,1998. 2

Narrador Presença Narrador participante Narrador não participante Definição Narrador que participa na história que narra. Pronomes pessoais da 1ª pessoa eu, me, comigo; nós, nos, connosco Narrador que não participa na história que narra. Pronomes pessoais da 3ª pessoa ele(s)/ela(s), lhe(s), Características Determinantes/Pronomes pessoais e demonstrativos da 1ª pessoa meu(s), minha(s), nosso(s), nossa(s); este(s), esta(s) Formas verbais da 1ª pessoa vi, encontrei, gostava; vimos, encontrámos, gostávamos Determinantes/Pronomes pessoais e demonstrativos da 3ª pessoa dele(s), dela(s), seu(s), sua(s); esse(s), essa(s), aquele(s), aquela(s) Formas verbais da 3ª pessoa viu, encontrou, gostava; viram, encontraram, gostavam Posição Narrador objectivo Narrador subjectivo Definição Narrador que relata os acontecimentos com imparcialidade e objectividade. Narrador que narra os acontecimentos com parcialidade e subjectividade. Focalização Narrador omnisciente Definição Narrador que é detentor de um conhecimento ilimitado da narrativa, que lhe permite ter um controlo total dos acontecimentos, do tempo e das personagens. 3

Personagem A personagem é uma categoria essencial da narrativa. Regra geral, a acção desenvolve-se à volta da personagem, daí a sua importância. Podemos caracterizar a personagem quanto ao relevo na acção e quanto à sua composição. Tempo Relevo Protagonista: personagem que desempenha o papel de maior importância para o desenrolar da acção. Personagem secundária: personagem que desempenha um papel com menos relevo, mas ainda assim é essencial para o desenvolvimento da acção. Figurante: personagem que é, normalmente, irrelevante para o desenrolar da acção, mas pode ser muito importante para ajudar a ilustrar um ambiente. Composição Personagem plana: uma personagem sem complexidade e que não evolui para além da sua caracterização inicial mantém as mesmas ideias, as mesmas acções, as mesmas palavras, as mesmas qualidades e defeitos. Personagem redonda: uma personagem complexa, apresentando uma personalidade forte. A caracterização deste tipo de personagens está sempre em aberto, pois os seus medos, os seus objectivos, as suas obsessões vão sendo revelados pouco a pouco. O tempo é uma das categorias da narrativa com mais relevo. Estabelece a duração da acção e marca a sucessão cronológica dos acontecimentos. No entanto, é necessário distinguir o tempo da história do tempo do discurso. O tempo da história é a sucessão dos acontecimentos por ordem cronológica, ou seja, a ordem real dos acontecimentos. A ordem real dos acontecimentos pode ser representada desta forma: 1. A B C D E F G 4

O tempo do discurso é a representação do tempo da história na narrativa, ou seja, é a ordem textual dos acontecimentos. O tempo do discurso nem sempre respeita o tempo da história, ou seja, os acontecimentos nem sempre são relatados pela ordem de sucessão. A ordem textual dos acontecimentos pode ser representada desta forma: 2. B C A D G E F Quando ocorre esta alteração da ordem dos acontecimentos, há uma organização do tempo do discurso através de vários recursos: analepse, prolepse, resumo e elipse. Analepse A analepse é um recuo no tempo para relatar acontecimentos anteriores ao presente da acção. Ex.: "Oito dias antes, a madrinha tinha aparecido em casa de Lúcia." Prolepse A prolepse é um avanço no tempo para antecipar acontecimentos futuros. Ex.: "Muito mais tarde, nessas caves quase vazias e cheias de teias de aranhas e sustos, os netos de Hans, às escondidas das mestras e das criadas, divagaram em explorações sonhadoras." (4) Resumo O resumo é um sumário da história que provoca uma redução do tempo do discurso. Este fica reduzido a um intervalo de tempo menor do que aquele que demoraria a ocorrer. Ex.: "Daí a dias Lúcia foi viver com a tia." (5) (4) ANDRESSEN, Sophia de Mello Breyner; "Saga", in Histórias da Terra e do Mar, Edições Salamandra, Lisboa, 1984. (5) ANDRESSEN, Sophia de Mello Breyner; "A História da Gata Borralheira", in Histórias da Terra e do Mar, Edições Salamandra, Lisboa, 1984. 5

Espaço Elipse A elipse é uma supressão de intervalos temporais relativamente alargados. Ex.: "E assim passaram vinte anos." (5) O espaço de uma narrativa refere-se não só ao lugar físico onde decorre a acção, mas também ao ambiente social e cultural onde se inserem as personagens. Espaço físico e geográfico: lugar ou lugares onde decorre a acção. Pode definir-se como um espaço aberto/fechado, interior/exterior, público/privado. Espaço social e cultural: meio, situação económica, cultural ou social das personagens. Podem ser definidos grupos sociais, conjuntos de valores e crenças desses grupos, posição que ocupam na sociedade, referência às tradições e costumes culturais de um povo. (5) ANDRESSEN, Sophia de Mello Breyner; "A História da Gata Borralheira", in Histórias da Terra e do Mar, Edições Salamandra, Lisboa, 1984. 6