UNIDADE 6 - VIBRAÇÕES ATÔMICAS E DIFUSÃO NO ESTADO SÓLIDO

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Transcrição:

UNIDADE 6 - VIBRAÇÕES ATÔMICAS E DIFUSÃO NO ESTADO SÓLIDO 6.1. TAXA DE UM PROCESSO Um grande número de processos que tem a temperatura como força motriz são regidos pela Equação de Arrhenius Q / RT (6.1) taxa = C e onde C é uma constante independente da temperatura, Q é a energia de ativação, R = 8,314 J/(mol.K) = 1,987 cal/(mol.k) é a constante universal dos gases e T é a temperatura absoluta. Este tipo de expressão rege processos como a difusão de elementos em ligas metálicas e a condutividade elétrica em semicondutores, dentre muitos outros.

A equação 6.1 pode ser reescrita como ln (taxa) = ln C - Q R 1 T (6.2) Um gráfico semilogarítmo de ln(taxa) versus 1/T possibilita encontrar a inclinação como -Q/R e o valor de ln C como a interseção onde 1/T = 0 (ou T ).

A energia de ativação Q pode ser melhor entendida dividindo-se Q e R pelo Número de Avogadro N AV na Eq. 6.1: taxa = C e q / kt (6.3) onde q=q/n AV é a energia de ativação atômica e k=r/n AV =1,38x10-23 J/K é a constante de Boltzmann. A equação 6.3 pode ser comparada à Distribuição de Maxwell-Boltzmann das energias moleculares em gases P( ΔE) ΔE/ kt (6.4) onde P é a probabilidade de encontrar uma molécula com energia acima, por um fator ΔE, da energia média característica a uma dada temperatura T. Apesar desta expressão ter sido originalmente desenvolvida para gases, ela pode ser aplicada diretamente aos sólidos. e

Portanto, a energia de ativação q=q/n AV é a barreira de energia que deve ser vencida para ocorrer ativação térmica de um processo, e o mesmo acontecer. Esquema de como um átomo deve vencer a energia de ativação q para se mover entre duas posições estáveis. Análogo mecânico mostrando como uma caixa deve vencer um aumento de energia potencial ΔE para se mover entre duas posições estáveis.

6.2. DISTRIBUIÇÃO DE ENERGIA TÉRMICA Com a termodinâmica pode-se demonstrar que a energia cinética total Ec de um mol de gás é dada por 3 3 Ec = R T = (kt) N (6.5) 2 2 Esta equação não implica que todas as moléculas de um gás tenham a mesma energia. As moléculas seguem uma distribuição estatística de energia, ou distribuição de Maxwell-Boltzmann, como dado pela equação 6.4. Conforme a temperatura aumenta, a energia média das moléculas aumenta e existe um maior número de moléculas com energias superiores a um dado valor. O mesmo princípio se aplica para a distribuição de energia vibracional dos átomos em um líquido ou sólido.

Nos processos de movimentos atômicos o maior interesse é na análise do número de átomos n com altas energias superiores a um dado valor E (ou o número n de defeitos). A solução estatística do problema foi elaborado por Boltzmann n N total = f(e (E E)/ kt (6.6) onde N total é o número total de átomos e n é função da temperatura. ) Se E >> E, a equação 6.6 pode ser reduzida a n N total = M e E/ kt (6.7) onde M é uma constante. Esta expressão nos dá a fração de átomos com energia acima de E.

Defeitos puntuais ocorrem como um resultado direto da vibração térmica dos átomos na estrutura cristalina. Quando a temperatura aumenta, aumentam a intensidade das vibrações e a possibilidade de rompimentos estruturais, causando o desenvolvimento de mais defeitos puntuais. Seguindo a distribuição de Maxwell-Boltzmann, a concentração de defeitos puntuais pode ser escrita como n n defeitos sítios = K e (6.8) onde n defeitos é o número de defeitos na estrutura cristalina contendo n sítios sítios, E defeito é a energia necessária para criar um defeito puntual simples no cristal e K é uma constante. A expressão 6.8, que é do tipo Arrhenius também pode ser usada para vazios ou lacunas, da mesma forma que para qualquer defeito puntual. E defeito / kt

EXERCÍCIOS 1 a 3

6.3. DIFUSÃO ATÔMICA Sob a ação da temperatura, a ativação térmica pode ser suficiente para que átomos se movam dentro dos sólidos. Para isto acontecer é necessário que a energia dos átomos seja superior à energia de ativação de difusão. A difusão também pode acontecer para os defeitos puntuais. Acontecerá difusão também em sistemas que tenham um gradiente de concentração de elementos químicos. Difusão por um mecanismo intersticial.

DIFUSIVIDADE (1ª LEI DE FICK) Quando existe um gradiente de concentração, o fluxo J de átomos, expresso em átomos/m 2 s, é proporcional ao gradiente de concentração C de um elemento seguindo a 1ª Lei de Fick J C = D x (6.9) A constante D é chamada de coeficiente de difusão ou difusividade. O sinal negativo indica que o fluxo se dá na direção decrescente do gradiente. O coeficiente de difusão varia com a natureza dos átomos solutos, com o tipo de estrutura cristalina e com a temperatura.

COMENTÁRIOS D aumenta quando T aumenta porque os átomos têm maior energia térmica e maior ativação térmica. O carbono tem difusividade no Fe maior que o Ni devido ao menor tamanho dos átomos de carbono. O Cu se difunde mais facilmente no Al do que no próprio Cu devido às mais fortes ligações no cristal Cu-Cu do que no cristal Al-Al. A difusão é maior em sistemas com menor empacotamento. Ex. difusão no ferro CCC é mais fácil do que no ferro CFC. A difusão acontece com mais facilidade pelos contornos de grãos e outras imperfeições cristalinas.

COEFICIENTES DE DIFUSÃO A expressão comumente utilizada para o Coeficiente de Difusão D é talvez o mais conhecido exemplo de equação de Arrhenius: E/ kt Q / RT (6.10) D = D 0 e = D0 e onde E é a energia de ativação para os movimentos atômicos da difusão, Q é a energia de ativação por mol de átomos, k = 1,38x10-23 J/(átomo.K) é a constante de Boltzmann, R = 8,31 J/(mol.K) = 1,987 cal/(mol.k) é a constante universal dos gases e D 0 é uma constante independente da temperatura. Os coeficientes de difusão D 0, Q e E são tabelados para inúmeros sistemas soluto-solvente, como veremos a seguir.

T -1 *1000 (K -1 )

DIFUSIVIDADE PARA SISTEMAS NÃO-METÁLICOS AUTODIFUSÃO EM DEFEITOS ESTRUTURAIS

SEGUNDA LEI DE FICK A Figura 4-24 mostrou que o gradiente de concentração em um determinado ponto ao longo do passo de difusão muda com o tempo t. Esta condição dinâmica é representada pela 2ª Lei de Fick C t x = x C D x (6.11) onde C x é a concentração na distância x dentro do material. x Para muitos problemas práticos, D é independente da concentração e da distância x, levando à expressão C t x = 2 C D x x 2 (6.12)

As Figuras abaixo mostram uma aplicação comum da Equação 6.12: a difusão de material em um sólido semiinfinito enquanto as concentrações nas superfícies C s permanecem constantes.

A solução da equação diferencial dada pela 2ª Lei de Fick com as condições de contorno acima resulta em C C x s C C 0 0 = 1 erf 2 x Dt (6.13) onde C s é a concentração na superfície, C 0 é a concentração inicial no interior do material, C x é a concentração na distância x dentro do material e erf é a função erro Gaussiana (tabela nas próximas páginas). Os resultados de difusão em função do tempo poderiam ser resumidos pela figura ao lado.

CEMENTAÇÃO

EXERCÍCIOS 4 e 5