1 INFECÇÃO POR Cyniclomyces guttulatus EM UM CÃO COM ALTERAÇÕES GASTROINTESTINAIS: RELATO DE CASO Cyniclomyces guttulatus INFECTION IN A DOG WITH GASTROINTESTINAL DISORDERS: CASE REPORT Lucas Cavalli KLUTHCOVSKY 1, Rayane Sol Amaral Silva SGARBOSSA¹, Lilian BEVILACQUA 2, Ana Laura Pinto D Amico FAM², Fábio Rodrigo NOGUEIRA 3 1- Mestrando do Programa de Pós Graduação em Ciência Animal da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), lucaskluth@gmail.com 2- Médica Veterinária, Hospital Veterinário Intensiva, Curitiba-PR 3- Aluno de Graduação em Medicina Veterinária, PUCPR Resumo: O fungo Cyniclomyces guttulatus, habitante natural da flora intestinal de coelhos e roedores, foi identificado em fezes de cães em diferentes países, infectados provavelmente por contaminação ambiental. A importância clínica deste microrganismo para a espécie canina ainda não foi totalmente esclarecida, alguns autores acreditam que possa estar envolvido com alterações gastrointestinais, como agente primário ou oportunista. Este trabalho relata o caso de uma cadela da raça Pastor Alemão com histórico de diarreia e vômitos frequentes. A ultrassonografia adbominal revelou sinais compatíveis com gastroenterite, sem alterações significativas nos exames sanguíneos. O exame parasitológico de fezes revelou estruturas compatíveis com C. guttulatus e ovos de Trichuris vulpis. Iniciou-se tratamento com fembendazol e terapia suporte com medicação antiemética e gastroprotetora. A terapia antifúngica foi composta por fluconazol durante sete dias. Observou-se resolução completa dos sintomas após início do tratamento. O exame coproparasitológico foi repetido após quatro semanas, quando o paciente estava sem sinais clínicos. Novamente foram achados ascomicetos semelhantes a C. guttulatus. A coinfeção por T. vulpis nesse caso pode ter sido caracterizada como um fator desencadeante inicial dos sinais de enterite. Ainda não há consenso sobre o papel deste fungo nas doenças gastrointestinais de cães, entretanto, alguns animais melhoram clinicamente após tratamento antifúngico, apesar de permaneceram como portadores. Palavras-chave: cão, gastroenterologia, fluconazol. Keywords: dog, gastroenterology, fluconazole. Anais do 38º CBA, 2017 - p.2353
2 Revisão de literatura: Cyniclomyces guttulatus é um fungo comensal identificado em fezes de roedores e coelhos, onde reside na camada mucosa do fundo gástrico e piloro. Muitas estruturas fúngicas podem ser liberadas do trato gastrointestinal desses animais para o meio ambiente, onde podem permanecer viáveis por períodos prolongados de tempo, devido à sua habilidade de formar ascósporos (BOUNDY-MILLS e MILLER, 2011). A identificação de C. guttulatus em fezes e lavados gástricos de cães com sinais de vômito e diarreia crônicos levantou a suspeita de que este agente poderia ser um patógeno primário nesta espécie (MANDIGERS et al., 2014). Esse organismo também foi identificado em fezes de cães assintomáticos (FLAUSINO et al., 2012) e associado à quadro de colangite em três animais (FURTADO et al., 2013). Ainda não há consenso sobre a real importância clínica do C. guttulatus em cães. As hipóteses são que o fungo pode ser habitante normal do trato gastrointestinal, resultado de infecção após ingestão de fezes de coelhos ou roedores, ou, um possível agente oportunista causador de doença gastrointestinal (WINSTON et al., 2016). A infecção por este fungo é diagnosticada comumente pela identificação direta em microscópio óptico de células leveduriformes cilíndricas, que podem estar agrupadas em pequenas cadeias ou isoladas (FURTADO et al., 2013). Foi desenvolvido um teste de PCR a partir de fungos colhidos de fezes de coelhos, com resultados compatíveis aos amplicons das colônias isoladas de cães suspeitos (MANDIGERS et al., 2014). Este trabalho teve como objetivo relatar um caso de coinfecção por C. guttulatus e Trichuris vulpis em um cão atendido em um hospital veterinário de Curitiba, Paraná. Descrição do Caso: Uma cadela da raça Pastor Alemão, íntegra, com nove anos de idade, foi atendida com histórico de hiporexia, apatia, perda de peso, vômitos e fezes pastosas com evolução de três dias. O animal habitava ambiente externo, sem acesso à rua e convivia com outro cão, assintomático. A alimentação era composta por dieta caseira balanceada. O protocolo de vacinação estava atualizado e a administração de antiparasitários estava desatualizada. Ao exame físico apresentou discreta desidratação e sem outras alterações nos parâmetros avaliados. Anais do 38º CBA, 2017 - p.2354
3 Foi coletada amostra de sangue para hemograma e avaliação dos seguintes marcadores bioquímicos: ureia, albumina, alanina aminotranferase (ALT), creatinina e fosfatase alcalina (FA). Não foram identificadas alterações no hemograma. Os valores de ALT e ureia estavam discretamente aumentados. O exame de ultrassonografia abdominal revelou ovários policísticos, espessamento da parede gástrica e da camada submucosa de alças intestinais e cólon, compatíveis com gastroenterite. Uma amostra de fezes foi coletada para exame parasitológico por flotação em solução salina e sulfato de zinco, com a identificação de estruturas compatíveis com C. guttulatus e ovos de T. vulpis. A abordagem terapêutica inicial foi composta pela administração de omeprazol, metronidazol e maropitant. O tratamento para a infecção por T. vulpis foi realizado com administração de fembendazol na dose de 25 mg/kg, via oral, a cada 12 horas, durante cinco dias. Após controle dos vômitos, foi iniciada terapia antifúngica com administrações diárias de fluconazol na dose de 5,0 mg/kg, durante sete dias. Houve melhora clínica significativa após o tratamento, sem recidiva de vômitos ou alteração na consistência fecal. Após quatro semanas do fim do tratamento, o exame coproparasitológico foi repetido, e novamente estruturas compatíveis com C. guttulatus foram identificadas, apesar de o animal não apresentar alterações clínicas no momento do exame. Discussão: O C. guttulatus é um fungo comensal do trato gastrointestinal de coelhos e roedores e alguns estudos identificaram uma correlação deste agente com doenças gastrointestinais crônicas e recorrentes em cães (MANDIGERS et al., 2014; FURTADO et al., 2013). Entretanto, ainda não existe consenso sobre sua real importância clínica. Por exemplo, Flausino e colaboradores (2012) sugeriram que o C. guttulatus pode ser um componente normal da microflora gastrointestinal canina, no qual identificaram a presença do fungo nas fezes de 22% de cães hígidos (n=63). Os relatos de gastroenterite associados ao C. guttulatus citam como sinais clínicos perda de peso, apatia, vômitos recorrentes e principalmente diarreia crônica (MANDIGERS et al., 2014), características observadas no cão relatado. Para o diagnóstico, foi realizado exame coproparasitológico e observação microscópica de estruturas cilíndricas compatíveis com o fungo, que está de acordo com a literatura. Anais do 38º CBA, 2017 - p.2355
4 O exame ultrassonográfico abdominal pode revelar distensão das paredes intestinais e aumento moderado a severo na espessura da parede gástrica (FLAUSINO et al., 2012), fato observado no presente caso, que constatou também espessamento da camada submucosa das alças intestinais e cólon, compatíveis com gastroenterite. Há um relato de colangite biliar associada ao C. guttulatus (FURTADO et al., 2013), contudo, no presente caso, não foram observadas alterações condizentes com colangite nas análises bioquímicas e exame ultrassonográfico. Em um estudo histopatológico da mucosa gastrointestinal de cães com diarreia crônica infectados pelo C. guttulatus, não foi observada invasão intracelular do fungo, sugerindo que este não seja o patógeno primário e sim um possível agente oportunista (MANDIGERS et al., 2014). Reforçando esta hipótese, outro trabalho identificou a presença deste fungo nas fezes de cães com outras doenças gastrointestinais de base, como doença intestinal inflamatória e neoplasias (WINSTON et al., 2016). A observação simultânea do C. guttulatus e do T. vulpis no exame coproparasitológico do animal supracitado pode contribuir com a ideia de que este fungo não atue como agente infeccioso primário. Neste caso, secundário à infecção pelo nematódeo, visto que o T. vulpis também pode provocar diarreia crônica e perda de peso (LONGO et al., 2008). Alguns antifúngicos foram utilizados na literatura para o tratamento do C. guttulatus, com respostas variadas. No presente caso, foi utilizado fluconazol 5mg/kg de peso corporal de acordo com o estudo de Furtado e colaboradores (2012), além de fembendazol 25 mg/kg de peso corporal para eliminação do nematódeo. Apesar da melhora clínica do animal, um novo exame coproparasitológico foi positivo para C. guttulatus, após o tratamento, o que poderia reforçar a teoria de portador assintomático ou agente oportunista. Conclusão: A infecção por C. guttulatus em cães com vômitos e diarreia recorrentes tem sido relatada. O presente relato identificou a presença do fungo associado a sinais clínicos gastrointestinais e coinfecção por nematódeo em um cão. Apesar da boa resposta terapêutica com antifúngico, o animal permaneceu portador, sugerindo um possível papel de agente infeccioso secundário neste caso. Anais do 38º CBA, 2017 - p.2356
5 Referências: BOUNDY-MILLS, K.; MILLER, M.W. Cyniclomyces van der Walt & D.b. Scott (1971). In: KURTZMAN, C.P.; FEL, J.W.; BOEKHOUT, T. The Yeasts, a Taxonomic Study. San Diego: Elsevier, 2011. p.357-360. FLAUSINO G. et al. Isolation and characterization of Cyniclomyces guttulatus (Robin) Van Der Walt and Scott, 1971 in Dog in Brazil. Current Microbiology, v.65, p.542-546, 2012 FURTADO, T. T. et al. Diagnosis of cholangitis associate to mucocele in gallbladder due to Cyniclomyces guttulatus in dogs Case reports. Revista Brasileira de Medicina Veterinária, v.35, n.1, p.1-6, 2013. GJERDE, B.; HOLTET, L.; SANDEN, B. S. S.Cyniclomyces guttulatus-lignende sopp som mulig årsak til gastroenteritt hos hund en kasusbeskrivelse. Norsk VeterinaerTidsskrift, v.121, n.6, p.507-510, 2009. LONGO, C.E.M. et al. Trichuris vulpis. Revista Científica Eletrônica de Medicina Veterinária, n. 11, 2008 (online). Disponível: http://faef.revista.inf.br/imagens_arquivos/arquivos_destaque/xykkjv9ymlwqfqm_20 13-6-13-15-14-48.pdf. [Capturado em 14 jan. 2017]. MANDIGERS, P. J. J. et al. The clinical significance of Cyniclomyces guttulatus in dogs with chronic diarrhea, a survey and a prospective treatment study. Veterinary Microbiology, 2014. Disponível: http://dx.doi.org/10.1016/j.vetmic.2014.05.018. [Capturado em 14 jan. 2017]. WINSTON, J. A., et al. Cyniclomyces guttulatus infection in dogs: 19 cases (2006-2013). Journal of American Animal Hospital Association, v.52, n.1, p.42-51, 2016. Anais do 38º CBA, 2017 - p.2357