educação de SURDOS II

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Transcrição:

10 História da educação de SURDOS II PAULO VAZ DE CARVALHO

5 Prefácio UNIDADE 1: O Movimento Associativo Surdo 7 1. Objectivos da Unidade 1 8 1.1. O Instituto Nacional de Surdos de Paris (1822-1838) 11 1.2. Os Banquetes de Surdos: A génese do movimento Associativo 18 1.3. As Principais Organizações de Surdos no Mundo 18 1.3.1. A Royal Association for Deaf People (RAD) 19 1.3.2. National Association of Deaf (NAD) 20 1.3.3. A Federação Mundial de Surdos (WFD) 21 1.3.4. A União Europeia de Surdos (EUD) 23 1.4. Síntese 24 1.5. Avaliação Formativa UNIDADE 2: Os Surdos na Idade Contemporânea 25 2. Objectivos da Unidade 2 25 2.1. A Idade Contemporânea 25 2.1.1. A Revolução Francesa 26 2.1.2. A Revolução Industrial 27 2.1.3. Os Surdos no início do século XX 28 2.2. Os Surdos na 2.ª Guerra Mundial 29 2.3. O Movimento Deaf President Now! 31 2.4. O Reconhecimento das Línguas Gestuais 32 2.4.1. O Estatuto das Línguas Gestuais na Europa 37 2.5. Síntese 39 2.6. Avaliação Formativa

H i s t ó r i a d a E d u c a ç ã o d e S u r d o s I I UNIDADE 3: Surdos de Destaque 41 3. Objectivos da Unidade 3 41 3.1. Os Surdos na Arte 45 3.2. Os Surdos na Ciência 51 3.3. Os Surdos na Literatura 51 3.4 Os Surdos no Teatro e Cinema 53 3.5 Síntese 54 3.6 Avaliação Formativa UNIDADE 4: História dos Surdos em Portugal 55 4. Objectivos da Unidade 4 56 4.1. O Início da Educação de Surdos em Portugal 61 4.2. O Oralismo em Portugal 69 4.3. O Bilinguismo em Portugal 75 4.4. Legislação 75 4.4.1. Legislação Nacional 82 4.4.2. Legislação Internacional 86 4.5. Resenha histórica sobre a Formação para o Ensino de Surdos em Portugal 93 4.6. Síntese 95 4.7. Avaliação Formativa 97 Bibliografia

PREFÁCIO A importância do conhecimento da História nas comunidades humanas é fundamental para que os seus elementos compreendam a realidade em que vivem e que desta forma possam traçar um caminho de evolução e desenvolvimento tentando evitar o retrocesso e repetição de erros passados. A História é o registo da sociedade humana e mais especificamente, o registo de cada comunidade, do seu percurso, das suas revoluções, lutas, actividades, ocupações e formas de expressão. O conhecimento e compreensão da História fortalece a coesão das comunidades, fornecendo lhes uma identidade singular, permitindo lhes o desenvolvimento e evolução do ponto de vista humanista. Durante muitos séculos a História foi vista como uma soma de datas, factos e acontecimentos. Era uma História positivista, factual, um fim em si próprio. A partir do século XX, nos anos 20, Lucien Febvre e Marc Bloch fundam a Escola dos Annales que tem como base uma nova forma de olhar para a História, associando a à sua dimensão política, social, económica e institucional, passando o seu objecto de estudo a ser os homens que vivem em sociedade no seu aspecto económico, político, social, religioso, cultural, científico, técnico e psicológico. Esta nova abordagem da História é interpretativa, profunda e abrangente. Surge, assim, o método da Nova História. Com a emergência das ciências sociais e humanas, a História passa a recorrer a estas ciências passando a poder estudar o homem ao longo do tempo, inserido numa sociedade e na dualidade passado presente e presente passado. É com base nesta perspectiva da História que foram elaborados os manuais História da Educação de Surdos I e História da Educação de Surdos II. O grande objectivo destes manuais é divulgar, junto dos alunos e pessoas surdas, em geral, mas também às pessoas ouvintes, o difícil percurso de uma comunidade que tem ao longo de séculos lutado pelo seu reconhecimento e igualdade de oportunidades dentro de uma sociedade maioritariamente ouvinte. A história da comunidade surda é praticamente inseparável da história da educação das pessoas surdas, já que os acontecimentos mais marcantes durante o seu percurso histórico estiveram sempre relacionadas, directa ou indirectamente, com as medidas tomadas a nível político e educativo para este tipo de ensino.

H i s t ó r i a d a E d u c a ç ã o d e S u r d o s I I Até ao século XVIII, dificilmente se encontram referências a pessoas surdas como elementos pertencentes a uma comunidade. As referências existentes demonstram que os surdos eram pessoas isoladas, entre ouvintes. Esta situação prende se com o facto de que a sua educação, até à data referida, era efectuada individualmente e na maior parte dos casos os surdos não tinham conhecimento da existência uns dos outros, vivendo isolados. É, sem dúvida, a partir do século XVIII, pela acção do abade de L Epée, em França, que a situação educativa e social das pessoas surdas irá alterar se por completo. Quando da criação da primeira escola de surdos de Paris, L Epée vai receber surdos de todas as classes sociais e pela primeira vez, o ensino deixa de ser individual passando a ser colectivo. Esta concentração de surdos num mesmo local irá dar origem à formação das primeiras comunidades de surdos e que anos mais tarde deixarão de se reunir apenas nas escolas, para formarem as suas comunidades dentro da própria sociedade ouvinte. A mesma situação ter se á passado em Portugal quando o professor sueco Per Aron Borg, fundador do primeiro instituto de surdos na Suécia veio para Portugal a pedido do rei D. João VI, fundar a primeira escola de surdos do nosso país. Foi com a concentração de alunos surdos nesta escola, mais tarde Instituto Jacob Rodrigues Pereira, que se formariam as primeiras comunidades de surdos do nosso país e aí emergiu e desenvolveu se naturalmente a sua língua de eleição para comunicar entre si A Língua Gestual Portuguesa. Assim, os manuais História da Educação de Surdos I e História da Educação de Surdos II têm como principal objectivo dar a conhecer a todos os leitores, em primeiro lugar, o percurso da educação de surdos a nível mundial desde a antiguidade até aos nossos dias fazendo sempre o enquadramento histórico global e realçando aspectos e acontecimentos transversais à educação de surdos mas que viriam a influenciá la, como por exemplo, a génese das primeiras associações de surdos e as reivindicações levadas a cabo em prol do reconhecimento das suas línguas gestuais. Os mesmos procedimentos foram assegurados relativamente à Unidade 4 do segundo manual que aborda a História dos Surdos em Portugal. O conhecimento e compreensão da História da Educação de Surdos por parte das pessoas surdas e ouvintes, contribuirá decerto, para que a educação e inclusão destas pessoas seja uma realidade, no nosso país. Ensinar surdos é menos difícil do que normalmente se supõe. Apenas temos que introduzir nas suas mentes, através dos olhos, o que tem sido introduzido nas nossas mentes através dos ouvidos. Estas duas avenidas estão sempre abertas, cada uma levando ao mesmo ponto Charles Michel de L Epée (1776)