97 Gênero e trabalho na terceira idade Norma Herminia Kreling* Com as transformações demográficas ocorridas nos últimos anos, o envelhecimento populacional deixa de ser um fenômeno restrito aos países mais desenvolvidos, atingindo intensamente países como o Brasil. A combinação da redução da fecundidade com a queda da mortalidade repercutiu profundamente sobre a configuração etária da população adulta do País, particularmente da idosa. A esperança de vida ao nascer da população brasileira, em 1999, foi estimada em 64,6 anos para os homens e 72,3 anos para as mulheres. 1 Resultados da Pesquisa de Emprego e Desemprego na Região Metropolitana de Porto Alegre (PED-RMPA) 2 revelam, para o ano 2000, que as pessoas com 60 anos e mais correspondiam a 10,0% (340 mil pessoas) da população total da RMPA 3 e a 12,0% da População em Idade Ativa (PIA): população com 10 anos e mais de idade. Porém as pessoas do sexo feminino dessa faixa etária representavam, no mesmo ano, 11,5% da população total e 13,5% da PIA, enquanto os homens, com uma participação menor, representavam 8,4% e 10,2% respectivamente. As mulheres, então, são a maioria nesse segmento (60%). 4 A maior longevidade da população feminina explica esse diferencial na composição por sexo. No ano de 1993, as pessoas com 60 anos e mais correspondiam a 7,9% (244 mil pessoas) da população total e a 9,7% da PIA. Dessa forma, com um incremento de 96 mil idosos no período 1993-00, houve um crescimento de 39,3% nesse contingente, bastante significativo, quando comparado com o crescimento da população total, que foi de apenas 9,6% no mesmo período, na RMPA. Assim, essa redistribuição da pirâmide etária, evidenciada pelo envelhecimento da população metropolitana, pode, por sua vez, afetar profundamente a composição etária da População Economicamente Ativa (PEA) 5. De fato, observa-se na Região, para o período 1993-00, uma significativa expansão na participação dos segmentos mais adultos, com idade de 40 anos e mais (42,1%) e, em especial, com 60 anos e mais (59,5%), enquanto o número de indivíduos entre 10 e 17 anos apresentou redução de 10,7%. Note-se a importância do crescimento da participação desses segmentos com idades mais elevadas, quando comparado com o aumento da PEA total, a qual representou um incremento de apenas 17,3%, no mesmo período, na Região. * Socióloga, Técnica da FEE. A autora agradece pela leitura atenta e pelas valiosas críticas e sugestões à versão preliminar deste texto às colegas Sheila S. W. Sternberg (CEES/NET) e Irene M. S. Galeazzi (PED-RMPA). Agradece, ainda, a Jeferson Daniel de Matos pela análise estatística e à estagiária Laís Cristina Siebel Kley pela especial colaboração na programação e digitação das tabelas. 1 Estimativas para 1999 extraídas do documento IBGE/DPE/DEPIS (2000). 2 A Pesquisa de Emprego e Desemprego na Região Metropolitana de Porto Alegre vem sendo executada, desde abril de 1992, pelo convênio celebrado entre a FEE, FGTAS/SINE-RS, SEADE-SP e DIEESE. Tem como objetivo conhecer e acompanhar a situação do mercado de trabalho regional através de levantamento sistemático, com periodicidade mensal, de dados sobre emprego, desemprego e rendimentos da PEA. A PED vem sendo realizada também nas Regiões Metropolitanas de São Paulo, de Belo Horizonte, de Recife, de Salvador e do Distrito Federal. 3 Segundo estimativas da PNAD-IBGE (2001), no Brasil, em 1999, os idosos com 60 anos e mais representavam 9,1% sobre o total da população, e, segundo projeções da FEE, Núcleo de Indicadores Sociais (2001), em 2000, no Rio Grande do Sul, esse segmento representava 9,4%. 4 Segundo estimativas da PNAD-IBGE (2001), no Brasil, em 1999, 55,3% da população com 60 anos e mais era representada por mulheres, enquanto, no Rio Grande do Sul, em 2000, as mulheres nessa condição representavam 56,7%, segundo projeções da FEE, Núcleo de Indicadores Sociais (2001). 5 Consideram-se economicamente ativas todas as pessoas inseridas no mercado de trabalho, seja na condição de ocupadas, seja na de desempregadas.
98 Tendo como referência a maior fragilidade das formas de inserção feminina no mercado de trabalho vis-à- -vis às dos trabalhadores masculinos, 6 este estudo tem por objetivo conhecer e avaliar as condições de gênero da população da terceira idade 7 como força de trabalho, colocando em evidência alguns dados que possam reproduzir as formas de discriminação existentes entre os sexos. 8 Com isso, pretende-se colocar à disposição da sociedade informações que possam contribuir para o debate e o delineamento de possíveis políticas sociais que conduzam a uma sociedade mais justa e igualitária, principalmente quando se levar em consideração o segmento idoso, que, através das novas tendências demográficas o envelhecimento, vem se constituindo em uma nova preocupação, com novos desafios a serem enfrentados. A força de trabalho da população idosa encontra maior dificuldade em ser absorvida na atividade produtiva. A sua inserção no mercado de trabalho geralmente se dá em condições mais desfavoráveis menores possibilidades de emprego, vínculos empregatícios mais frágeis, postos de trabalho menos qualificados, mesmo que, não raro, com remunerações inferiores e instáveis. Quando esse segmento perde a sua condição de ser produtivo, seja pela aposentadoria, seja pelo desemprego, além da redução do seu poder aquisitivo, o que gera cortes no seu consumo e diminuição no seu padrão de vida, sente-se desvalorizado em sua auto-estima, em sua realização e satisfação pela vida. O reingresso desse segmento no mercado de trabalho, quase sempre com o objetivo de suprir necessidades financeiras, ocorre, na maioria das vezes, em situação menos vantajosa e mais precária do que a anterior. Na Região Metropolitana de Porto Alegre a participação média dos idosos no total da População Economicamente Ativa, no período 1997-00, 9 era de 3% e, entre os inativos, elevou-se para 22,6%. Considerando-se apenas a faixa etária dos idosos, 15,1% participavam no mercado de trabalho. Destes, 13,8% estavam ocupados, e 1,3% desempregados. Os 84,9% restantes encontravam-se na inatividade. Analisando-se a distribuição das populações feminina e masculina idosa por condição de atividade, observa-se que apenas 7,7% das mulheres estavam ocupadas, enquanto 22,9% dos homens nesta faixa etária ainda trabalhavam nesse período. Assim, predominava o maior número de mulheres idosas na condição de inatividade (91,7% contra 74,8% para os homens, na mesma condição). No entanto, no período analisado, a taxa de participação indicador que expressa a proporção da População em Idade Ativa (PIA) que se encontra na condição de ocupada ou desempregada cresceu muito mais para as mulheres idosas do que para os homens. Desse modo, as mulheres, que apresentavam uma taxa de apenas 7,4% no período 1993-96, passaram para 8,3% em 1997-00, obtendo um crescimento de 12,2%. Já os homens passaram de 24,1% para 25,2%, respectivamente, aumentando sua participação na PEA em apenas 4,6%. O crescimento da participação feminina em idade avançada no mercado de trabalho pode ter sido um reflexo do aumento da participação da mulher na força de trabalho observado nas últimas décadas, sendo de se esperar maiores taxas de participação também para as mulheres idosas. A proporção de mulheres com 60 anos e mais na PEA representava 32,9% contra 67,1% de homens no último período. 6 Ver, a respeito, estudo realizado com dados da PED-RMPA Mulheres e Mercado de Trabalho na Região Metropolitana de Porto Alegre (Kreling, 1999). 7 Por terceira idade está se considerando, neste estudo, a população com idade de 60 anos e mais. Segundo a ONU, 1982, na Assembléia Mundial das Nações Unidas sobre o envelhecimento da população, através da Resolução nº 39/125, estabeleceu-se a idade de 60 anos como o início da terceira idade nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento e de 65 anos nos desenvolvidos (Conselho Estadual do Idoso/RS, 1997, p.20). 8 Os dados apresentados referem-se a médias dos períodos 1993-96 e 1997-00, o que permite examinar a evolução recente dos mesmos. 9 Foram utilizados neste estudo dois períodos, aglutinando-se quatro anos da série em cada um deles: 1993-96 e 1997-00, por ser a população idosa uma população muito pequena. Assim, com essa junção, a amostra ficou mais significativa, e pode-se contemplar um maior número de dados.
Entre os idosos que participavam na PEA, na condição de ocupados, 52,7% já eram aposentados e/ou pensionistas 10 no período 1997-00. Considerando-se apenas as mulheres idosas que trabalhavam, 58,4% encontravam-se nessa condição, contra 49,8% dos homens. O percentual da força de trabalho feminina idosa aposentada e/ou pensionista é mais elevado, por ser mais expressivo, entre as mulheres, o recebimento do benefício da pensão há um maior número de viúvas, dada a maior longevidade entre elas. A participação de trabalhadores aposentados e ou pensionistas vem aumentando significativamente em relação ao período 1993- -96, quando, então, as mulheres representavam 51,5%, e os homens, 38,8%. Esse crescimento e o elevado percentual de idosos aposentados e/ou pensionistas que ainda trabalham podem significar que o benefício pago ao assegurado seja insuficiente no provimento de suas necessidades básicas, forçando-o a continuar participando no mercado de trabalho para sobreviver, ou para tentar manter o mesmo padrão de vida que foi adquirido pelo trabalho ao longo de sua vida. O pior, contudo, é que, na maioria das vezes, esses idosos retornam ao mercado de trabalho em atividades menos qualificadas do que as anteriormente exercidas, com rendimentos médios menores, o que configura uma situação de precariedade. Na distribuição percentual da população idosa ocupada no período 1997-00, segundo o setor de atividade econômica, verifica-se que a mulher trabalhava predominantemente no setor serviços (47,5%), vindo em seguida os serviços domésticos (29,5%), o comércio (14,5%) e, por último, a indústria (7,5%). Note-se, no entanto, que, em relação ao período 1993-96, a participação feminina diminuiu 2,1 pontos percentuais em serviços e 2,8 pontos percentuais na indústria, aumentando 1,9 ponto percentual em serviços domésticos e 2,5 pontos percentuais no comércio. Assim como as mulheres, no período 1997-00, os homens apresentavam predominância no setor serviços (54,1%), seguindo-se o comércio (17,8%), a indústria (13,0%) e, finalmente, a construção civil (11,1%). Na comparação com o período anterior, as alterações sofridas pelos homens foram pouco expressivas, ressaltando-se apenas o decréscimo de 1,2 ponto percentual na indústria. O grande destaque entre as mulheres idosas ocupadas é que havia, no período 1997-00, uma maior concentração nos serviços domésticos (29,5%), enquanto, para o total do contingente feminino ocupado, esse mesmo setor representava apenas 17,2%. Já com relação à indústria, ressalta-se, no mesmo período, que havia, tanto para as mulheres quanto para os homens idosos ocupados, uma menor concentração nesse setor (7,5% e 13,0% respectivamente), quando comparada com o total da força de trabalho feminina e da masculina, as quais absorviam quase o dobro (14,5% e 22,9%). O incremento de várias formas de precarização do trabalho é um fenômeno que já vem atingindo todos os trabalhadores, envolvendo parcelas importantes da força de trabalho. A população idosa, nesse novo contexto, é um dos segmentos mais fragilizados e vulneráveis. Considerando-se o total de trabalhadores, evidenciou-se, no segmento idoso, um maior número de ocupações mais precárias com perdas em posições mais formalizadas. Essa situação fica mais clara na análise das diferentes formas de inserção da população idosa na ocupação. No período mais recente, chama atenção a elevada proporção do contingente idoso feminino e do masculino que trabalhava como autônomo (31,0% para as mulheres e 37,5% para os homens), chegando a ser, para ambos os sexos, cerca de duas vezes maior que aquela observada no total desses segmentos populacionais. Entre as mulheres, destaca-se, ainda, o emprego doméstico (29,5%), ficando, por último, as ocupações assalariadas (26,4%). Quanto aos homens, salientam-se o assalariamento, representando 37,7%, e a categoria empregador, a qual correspondia a 10,5%, o dobro daquela observada entre o total de ocupados. Considerando-se apenas os assalariados no setor privado, constata-se, no período 1997-00, que o percentual das mulheres idosas que possuíam carteira assinada (68,5%) era um pouco inferior à proporção masculina (70,8%). Já com relação ao total de ocupados, a proporção de pessoas com contrato de trabalho aumentava consideravelmente (85,6% para as mulheres e 83,5% para os homens). 99 10 A PED-RMPA não capta a informação dos benefícios aposentadoria e pensão separadamente. Daí a necessidade de analisá- los conjuntamente.
100 Na comparação com o período anterior de análise (1993-96), considerando-se em conjunto as posições na ocupação que constituem vínculos de melhor qualidade o trabalho assalariado com carteira assinada e o emprego no setor público, observam-se decréscimos de 4,3 pontos percentuais para as mulheres idosas trabalhadoras e de 6,9 pontos percentuais para a força de trabalho idosa masculina. Paralelamente, verifica-se aumento de participação da população idosa nas posições mais precárias, destacando-se os serviços domésticos para o segmento feminino e o trabalho autônomo para o masculino, os quais cresceram, respectivamente, 1,9 e 3,7 pontos percentuais. Agrupando-se as categorias associadas à precarização do trabalho assalariados sem carteira, autônomos, empregados domésticos e trabalhadores familiares sem remuneração, constata-se, para o segmento idoso, uma maior concentração nessas ocupações. Entre o total de mulheres idosas que trabalhavam no período 1997-00, mais de dois terços (68,9%) encontravam-se em condições precárias, contra 48,8% da mão-de-obra masculina idosa. Já na comparação com o total de trabalhadores, nota-se uma concentração bem menor nessas ocupações: 39,4% para as mulheres e 32,7% para os homens no mesmo período. Dessa forma, pode-se deduzir que as atividades econômicas desempenhadas no setor comumente considerado informal constituem, para os idosos, uma das poucas alternativas de participação no mercado de trabalho. No que diz respeito à jornada de trabalho, verifica-se, para o período 1997-00, que as mulheres idosas trabalhavam um menor número de horas (em média, 36,6 horas semanais), enquanto os homens idosos trabalhavam, em média, 43,1% horas semanais. Quando comparada com a jornada de trabalho semanal exercida pelo total de mulheres e de homens ocupados na PEA, observa-se, no mesmo período, uma diferença menor: 40 horas em média por semana para as primeiras e 45,9 horas em média para os segundos. Com relação à remuneração recebida pela população idosa, destacaram-se três categorias de análise: rendimento real médio dos ocupados no trabalho 11, rendimento real médio dos ocupados no trabalho mais o benefício recebido pela aposentadoria e/ou pensão e benefício recebido pela aposentadoria e/ou pensão por parte dos idosos inativos. O rendimento real médio percebido pelas trabalhadoras idosas correspondia, no período 1997-00, a 49,9% (R$ 411,00) do obtido pelos homens (R$ 824,00). No total da população ocupada no mesmo período, a remuneração média da força de trabalho feminina (R$ 602,00) equivalia a 69,4% da obtida pela masculina (R$ 867,00). Assim, além de os diferenciais de rendimentos entre os sexos serem muito mais intensos para o segmento idoso, observa-se que os rendimentos desse segmento são menores em relação aos demais trabalhadores. Já na comparação com o período 1993-96, verifica-se um maior crescimento dos rendimentos recebidos pelos idosos masculinos (24,3%), enquanto, para as mulheres idosas, o incremento foi de apenas 4,1%. A maior remuneração entre os idosos corresponde aos trabalhadores que recebem rendimento real médio proveniente do trabalho e, ao mesmo tempo, recebem aposentadoria e/ou pensão. A renda das mulheres desse grupo (R$ 857,00) no período 1997-00 correspondia somente a 43,2% da obtida pelos homens (R$ 1.984,00) do mesmo grupo. Nota-se, entretanto, que os diferenciais de rendimentos entre os sexos são muito mais pronunciados nessa categoria. Tomando-se apenas o benefício recebido através da aposentadoria e/ou pensão pelos idosos inativos, a diferença entre mulheres e homens diminui um pouco (R$ 404,00 e R$ 712,00 respectivamente), sendo que as primeiras percebiam uma renda equivalente a 56,7% da obtida pelos segundos, no período 1997-00. Procurando caracterizar um pouco mais a população da terceira idade, ao se considerar a posição do indivíduo no domicílio, verifica-se que a responsabilidade em manter a família recai principalmente sobre o idoso. Assim, no período mais recente, 44,7% das mulheres idosas ocupavam a posição de chefe no domicílio onde residiam, enquanto para os homens idosos, esse percentual alcançava 93,2%. No entanto, levando-se 11 Foi considerado o rendimento real médio do total dos trabalhos principal e complementares.
em conta a população total, essa proporção diminui consideravelmente apenas 17,4% do total de mulheres eram chefes no domicílio frente a 57,8% do total de homens. A maior concentração de pessoas idosas na condição de chefes de família pode estar relacionada ao fato de que grande parte dos idosos vive em famílias muito pequenas, onde eles geralmente se mantêm independentes. Segundo a Pesquisa, para o mesmo período, mais de 80,0% dos chefes idosos no domicílio viviam em famílias com, no máximo, até três pessoas. Destes, 37,2% viviam em famílias com até duas pessoas e cerca de um quarto viviam sozinhos. Por outro lado, é importante salientar que os rendimentos médios percebidos pelo idoso, seja pelo trabalho, seja pelos benefícios da previdência, em geral, representam parcela importante na renda familiar. Outro dado importante a ser analisado é o nível de escolaridade da população idosa. A Pesquisa revela, para o período 1997-00, que 17,3% das mulheres idosas residentes na Região eram analfabetas, contra 10,8% dos homens nessa faixa etária. Entre os idosos que não tinham sequer completado o ensino fundamental, 74,3% da população feminina idosa encontrava-se nessa situação, enquanto, para a população masculina idosa, esse percentual alcançava 65,6%. Destaca-se, ainda, que mais da metade das mulheres idosas se concentravam entre as quatro primeiras séries, enquanto os homens idosos nesse nível representavam 46,9%. Essa baixa escolaridade evidenciada nos idosos, onde a mulher nessa faixa etária ocupa posição de desvantagem em relação ao sexo oposto, remonta a uma época em que o acesso escolar era mais diferenciado, inclusive por gênero. Observa-se, todavia, que, apenas no contingente de idosos, as mulheres apresentavam escolaridade inferior em relação à dos homens. Na análise da população com 10 anos e mais, verifica-se que o perfil educacional dos homens e das mulheres se encontra praticamente no mesmo patamar. Assim, no período 1997-00, enquanto 53,0% das mulheres não tinham concluído o ensino fundamental, a proporção de homens nesse nível era praticamente idêntica (52,8%). Quando se analisa a população total trabalhadora, o perfil educacional entre os sexos, entretanto, mostra diferenças significativas, onde as mulheres apresentam proporcionalmente melhores níveis de escolaridade do que os homens na mesma condição. De fato, constata-se, no mesmo período, que há uma concentração maior de homens ocupados que não concluíram o ensino fundamental (42,4%) em relação às mulheres ocupadas nessa condição (37,1%). Já entre os idosos na condição de ocupados, apesar de esse segmento mostrar melhor escolaridade em relação ao total de pessoas dessa faixa etária, permanecem em desvantagem as mulheres. Assim, no mesmo período, havia 11,9% de mulheres trabalhadoras idosas analfabetas, contra 7,1% de analfabetos idosos do sexo oposto que estavam na mesma condição. Entre a força de trabalho feminina, 64,1% não tinham concluído o ensino fundamental, contra 57,3% da mão-de-obra masculina. Para concluir, as informações aqui apresentadas apontam uma situação bastante desfavorável para a categoria de idosos que participam na PEA. Além das remunerações inferiores e instáveis observadas mais especificamente no contingente feminino, os idosos geralmente ocupam as posições mais precárias, destacando-se os serviços domésticos para as mulheres e o trabalho autônomo para ambos os sexos. Há uma grande participação do aposentado e/ou pensionista no mercado de trabalho, onde mais da metade dos idosos ocupados da Região se encontram nessa situação. Essa participação vem evoluindo significativamente no período analisado. A política previdenciária atual, que teve como um dos resultados a redução do benefício, certamente contribuirá para pressionar o aumento da participação do idoso no mercado de trabalho. No caso da mulher idosa, segundo os dados analisados, as formas de inserção na força de trabalho ocorrem em condições ainda mais desfavoráveis, se comparadas com as dos trabalhadores masculinos idosos. Evidenciam-se grandes diferenças entre os dois sexos, principalmente no que se refere às posições mais precárias na ocupação e à menor remuneração recebida por parte da mão-de-obra feminina idosa. Assim, verifica-se, para a força de trabalho feminina da terceira idade, uma situação de dupla vulnerabilidade: enquanto mulher e enquanto idosa. Dessa forma, a discriminação já exercida sobre o total da população feminina pode vir a ter um efeito ainda mais perverso, quando se trata da participação da mulher idosa como força de trabalho. 101
102 Tabela 1 Distribuição percentual da população ocupada por sexo e idade, segundo o setor de atividade, a posição na ocupação, as horas trabalhadas, a remuneração e o nível de escolaridade, na RMPA - 1993-96 e 1997-00 60 ANOS E MAIS POPULAÇÃO TOTAL CATEGORIAS 1993-96 1997-00 1997-00 Mulher Homem Total Mulher Homem Total Mulher Homem Total SETOR DE ATIVIDADE Indústria de transformação 10,3 14,2 12,9 7,5 13,0 11,2 14,5 22,9 19,4 Construção civil... (1) 11,4 7,8 (1) 11,1 7,5 0,4 9,9 5,9 Comércio... 12,0 16,9 15,4 14,5 17,8 16,6 16,2 16,9 16,6 Serviços... 49,6 53,2 52,1 47,5 54,1 51,9 51,5 49,2 50,1 Serviços domésticos... 27,6 (1) 10 29,5 (1) 11,0 17,2 0,4 7,5 Outros... (1) (1) (1) (1) (1) (1) 0,2 0,7 0,5 Total... 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 POSIÇÃO NA OCUPAÇÃO Assalariados... 29,6 45,9 40,7 26,4 37,7 33,9 60,0 66,0 63,5 Setor privado... 20,1 36,4 31,1 18,9 30,0 26,2 44,8 55,6 51,1 Com carteira... 15,2 26,3 22,7 12,9 21,2 18,4 38,3 46,4 43,0 Sem carteira... (1) 10,1 8,4 (1) 8,8 7,8 6,5 9,2 8,1 Setor público... 9,5 9,5 9,6 7,5 7,7 7,7 15,2 10,4 12,4 Autônomos... 32,4 33,8 33,4 31,0 37,5 35,3 13,6 22,2 18,6 Empregado doméstico... 27,6 (1) 10,0 29,5 (1) 11,0 17,3 0,4 7,5 Empregador... (1) 8,6 7,0 (1) 10,5 8,3 2,4 5,2 4,0 Trabalhador familiar sem remuneração... (1) (1) (1) (1) (1) (1) 2,0 0,9 1,4 Outros... (1) 9,8 8,2 (1) 11,8 10,1 4,7 5,3 5,0 Total... 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 HORAS MÉDIAS TRABA- LHADAS... 37,1 44,0 41,8 36,6 43,1 41,0 40,0 45,9 43,4 REMUNERAÇÃO (2)... Trabalhador... 395 663 590 411 824 702 602 867 755 Trabalhador e aposentado e/ou pensionista... 626 1420 1113 857 1984 1565 (3) (3) (3) Aposentado e/ou pensionista inativos sem trabalho excepcional... 329 579 429 404 712 526 (3) (3) (3) Outros (4)... (1) (1) (1) (1) (1) (1) (3) (3) (3) Total... 275 642 422 350 836 545 (3) (3) (3) (continua)
103 Tabela 1 Distribuição percentual da população ocupada, por sexo e idade, segundo o setor de atividade, a posição na ocupação, as horas trabalhadas, a remuneração e o nível de escolaridade, na RMPA 1993-96 e 1997-00 60ANOSEMAIS CATEGORIAS 1993-96 1997-00 POPULAÇÃO TOTAL 1997-00 Mulher Homem Total Mulher Homem Total Mulher Homem Total ESCOLARIDADE Analfabetos... 15,6 9,5 11,5 11,9 7,1 8,7 1,6 1,4 1,5 Alfabetizados sem escolarização... (1) (1) (1) (1) (1) (1) 0,2 0,2 0,2 Até a 4ª série do ensino fundamental 34,7 35,6 35,3 33,6 32,1 32,6 14,2 15,3 14,8 Da 5ª à 7ª série do ensino fundamental... 17,1 18,1 17,8 18,6 18,1 18,3 21,1 25,5 23,7 Ensino fundamental completo... 12,5 10,5 11,1 9,9 11,0 10,7 12,9 15,1 14,1 Ensino médio incompleto... (1) (1) (1) (1) (1) (1) 7,0 6,9 7,0 Ensino médio completo... 10,0 9,4 9,6 10,2 11,6 11,1 22,9 20,3 21,4 Ensino superior incompleto... (1) (1) (1) (1) (1) (1) 6,9 6,2 6,5 Ensino superior completo... (1) 12,6 10,6 11,3 16,4 14,7 13,2 9,1 10,8 Total... 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 FONTE: PED-RMPA - Convênio FEE, FGTAS/SINE-RS, SEADE-SP e DIEESE. (1) A amostra não comporta desagregação para essa categoria. (2) Valores em reais de novembro de 2000. (3) Não se aplica neste estudo. (4) Inclui desempregado e aposentado e/ou pensionista inativo com trabalho excepcional. Tabela 2 Distribuição percentual da População em Idade Ativa, por sexo e idade, segundo a posição no domicílio e o nível de escolaridade, na RMPA 1993-96 e 1997-00 60 ANOS E MAIS 1993-96 1997-00 POPULAÇÃO TOTAL 1997-00 CATEGORIAS Mulher Homem Total Mulher Homem Total Mulher Homem Total POSIÇÃONODOMICÍLIO Chefe... 42,6 92,7 62,7 44,7 93,2 64,2 17,4 57,8 36,5 Cônjuge... 35,3 1,1 21,6 35,9 1,2 22,0 46,5 0,8 24,8 Filho... (1) (1) (1) 0,6 (1) 0,4 27,9 34,8 31,2 Outro parente... 21,5 5,9 15,2 18,8 5,3 13,4 8,2 6,6 7,5 Total... 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 ESCOLARIDADE Analfabetos... 21,4 14,0 18,5 17,3 10,8 14,7 4,2 2,7 3,5 Alfabetização sem escolarização... 1,5 1,3 1,4 1,7 1,5 1,6 0,4 0,3 0,4 Até a 4ª série do ensino fundamental... 36,3 35,4 36,0 36,2 34,6 35,6 22,0 21,7 21,8 Da 5ª à 7ª série do ensino fundamental 18,2 19,0 18,5 19,1 18,7 19,0 26,4 28,1 27,2 Ensino fundamental completo... 10,7 10,6 10,7 10,6 11,0 10,8 12,7 13,4 13,0 Ensino médio incompleto... 1,1 1,5 1,2 1,2 1,5 1,3 7,0 6,9 7,0 Ensino médio completo... 7,7 9,8 8,5 9,2 11,5 10,1 16,0 15,6 15,8 Ensino superior incompleto... (1) (1) 0,4 (1) 0,9 0,6 4,4 4,9 4,6 Ensino superior completo... 2,9 7,7 4,8 4,2 9,5 6,3 6,9 6,4 6,7 Total... 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 FONTE: PED-RMPA - Convênio FEE, FGTAS/SINE-RS, SEADE-SP e DIEESE. (1) A amostra não comporta desagregação para essa categoria.
104 Bibliografia CAMARANO, Ana Amélia (2000). O idoso brasileiro no mercado de trabalho. In: ENCONTRO REGIONAL DE ESTUDOS DO TRABALHO, 3., Recife. Anais... ABET. CAMARANO, Ana Amélia et al. (1999). Como vai o idoso brasileiro? Rio de Janeiro : IPEA. (mimeo). CONSELHO ESTADUAL DO IDOSO/RS (1997). Os idosos do Rio Grande do Sul. Porto Alegre : CEI. Relatório de Pesquisa. FUNDAÇÃO DE ECONOMIA E ESTATÍSTICA. Núcleo de Indicadores Sociais (2001). Projeção da população, por faixa etária e sexo, do Rio Grande do Sul 2000/15. Porto Alegre. IBGE. DPE/DEPIS (2000). Projeção da população das Grandes Regiões por sexo e idade 1991 2020. Rio de Janeiro. IBGE. Indicadores Sociais Mínimos 1999: aspectos demográficos: Brasil (2001). Disponível em <http:// www.ibge.gov.br/ibge/estatistica/populacao/condicaodevida/indicadoresminimos/tabela1.htm> Acesso em: 9 jan. KRELING, N. H. (1999). Mulheres e mercado de trabalho na Região Metropolitana de Porto Alegre. Indicadores Econômicos FEE, Porto Alegre, v.26, n.4, p.280-310. PESQUISA NACIONAL POR AMOSTRA DE DOMICÍLIO 1999: Brasil (2001). Disponível em: <http:// www.ibge.gov.br/estatistica/populacao/trabalhoerendimento/pnad99/default.shtm > Acesso em: 9 jan.