A construção pela construção Juliana Fabbron Não podemos dizer que existe uma única política que solucionará os problemas concernentes ao gênero, etnia e geração na sociedade brasileira. Talvez diversas políticas tenham que ser criadas para uma mesma questão e, certamente, devem estar interligadas com outras, que não necessariamente sobre o mesmo tema. Políticas públicas de gênero, etnia e geração devem ser pensadas para buscar romper o quadro de desigualdade existente no cenário social, descontruir pensamentos tão fixos e constantes sobre o que é ser mulher, ser homem, ser homoafetivo, biafetivo, heteroafetivo, branco, negro, jovem, velho. Essas categorizações são colocadas como uma antítese à outra e esta antítese gera preconceito, dicriminação, atos de violência simbólica e violência física, como se existisse uma barreira entre o que se deve ou não se deve ser, uma vez que o pensamento heteronormativo impõe um modo de pensamento tradicional e conservador, que inclui apenas aqueles que seguem os ideais vistos como normais, corretos. O que nestes ideais não se encaixa é visto como transgressor. As diferenças existentes entre os sujeitos não devem ser contextualizadas de forma a serem transformadas em desigualdade. A diferença não pode segregar, excluir. Todos tem que ser colocados como iguais, igualmente valorizados e incluídos socialmente. Ainda hoje, muito embora a sociedade tenha sofrido diversas transformações desde o século XX, o machismo está muito presente na vida das pessoas. Não diz se que o machismo é algo intrínseco ao comportamento dos homens, mas algo intrínseco à sociedade, ao comportamento de homens e mulheres. Todavia, ao dizer homens e mulheres não está sendo feita uma generalização, que coloca todos estes sujeitos no mesmo patamar, como se existisse apenas um modo de ser homem ou ser mulher, mas apenas uma reflexão de que o machismo ainda é, sim, muito presente no dia a dia das pessoas, independente de seu gênero ou sexualidade. O machismo não cria como vítimas apenas mulheres, mas também homens. Muitos, de alguma maneira, acabam por ser atingidos por ele. As mulheres normalmente são mais atingidas em decorrência de sua condição histórica, pois por muito tempo esta foi colocada em posição de desigualdade frente
ao homem, como um ser inferior, não merecedor dos mesmos direitos e privilégios masculinos. No Brasil a luta contra o conservadorismo, o patriarcado e o conservadorismo foi ampliada no início da década de 1970 pelo movimento denominado feminista. O feminismo tem como base a busca da igualdade jurídica e social entre homens e mulheres. Muito já foi conquistado por este movimento ao longo da segunda década do século XX e início do século XIX, mas é uma luta que se mantém em decorrência do machismo ainda presente. Para continuar a transformação e a busca do reconhecimento de todos como iguais, independentemente de gênero, sexo, cor, etnia ou idade são necessárias políticas públicas que não podem ser vistas como algo definitivo e fixo, mas como algo provisório, uma vez que os contextos mudam e as necessidades também seguem estas mudanças. Se os indivíduos crescem com pensamentos preconceituosos e discriminatórios isto significa que ao longo de sua vida tiveram contato com comportamentos e atitudes que tinham como base estes dois fatores, seja na família, nas escolas, por parte de professores, na convivência com os amigos, no ambiente de trabalho e diversos outros acontecimentos cotidianos. Assim, o início do pensamento preconceituoso por parte de um sujeito tem um início, ele nasce de alguma situação na qual mostram ao sujeito que não devem todos ser vistos como iguais, ter os mesmos direitos, ter o mesmo tipo de tratamento, Mostram que existe o correto e o incorreto e que o seu semelhante está dentro dos padrões, do normal, do que é considerado como o correto e que todos aqueles que fogem da semelhança não se encaixam, são transgressores e incorretos e que devem ser mudados, para de alguma maneira se adequarem à normalidade. A normalidade hoje, por número significativo de sujeitos é vista a partir da heteronormatividade. Assim, de acordo com esta normatividade, os brancos são superiores aos negros, os heteroafetivos aos homoafetivos, os homens as mulheres, os jovens aos mais velhos; são categorizações que se sobrepõem umas às outras. As diferenças não devem excluir, não devem segregar. Todos devem estar incluídos e ter o seu espaço na sociedade. Por estas questões retratadas, é possível enxergar que o preconceito e a visão de que não são todos iguais não nasce com o sujeito, ela é adquirida pelo convívio social. Hoje esperamos uma determinada construção de ideias para que futuramente ela possa ser desconstruída e os padrões
repensados. Construir para depois desconstruir e construir novamente, mas agora novas ideias, que fujam do preconceito. Aqui proponho uma política, ou melhor, algumas políticas que tem como foco principal a construção pela construção e não a construção para a desconstrução. Proponho políticas que atinjam direto a base, o ensino, a educação das crianças e dos jovens. Se lutamos pela igualdade e pela desconstrução do pensamento que se baseia no que é padrão, muitas vezes preconceituoso, discriminatório e machista, devemos promover a igualdade na base e não a aceitação como se mesmo que as pessoas sejam diferenças elas tenham que ser aceitas. Quando a diferença é posta como algo que deve ser aceito, parece que existe um padrão e que muito embora algo fuja do padrão também deve ser aceito. O que devemos buscar é fugir do padrão e ver a diversidade pela diversidade, uma linearidade entre todos, sem superiores ou inferiores. Claro que para atingir tal ideário ainda precisaríamos por muito tempo combater a desigualdade tratando desigualmente os desiguais para que em um dado momento, em um contexto mais justo possam ser tratados como iguais. Devemos começar pela base, no ensino infantil. Desde criança temos contato à padronização principalmente no que concerne ao ideal de família. Vê se que a família ideal é tida como aquela composta pelo pai (homem), pela mãe (mulher) e por um filho. Esse tipo de família não representa a todos, é simplesmente mais um tipo de família em meio a tantos outros que existem. Mas nos livros, nas histórias infantis, nas escolas, a representação do ideal é o tipo de família representado e não a família composta por homens e filhos, mulheres e filhos, pai ou mãe que são solteiros e que possuem filhos e outros tipos de família também existentes. A diversidade deve ser mostrada na infância, quando a criança está criando a sua personalidade e aprendendo sobre o mundo, o que nele existe. Os professores, que já estão muitas vezes contaminados pelos pensamentos discriminatórios precisam ser capacitados, para que possam ensinar sem transmitir estes ideais do que para eles é tido como certo ou como errado. Os materiais didáticos das crianças devem abranger todos os tipos de família, relações, modos de ser o feminino ou o masculino, as masculinidades e feminilidades, as diversas identidades de gênero,por exemplo, mas todos sendo colocados como iguais e não como diferentes que devem ser aceitos.
Precisam ser ensinadas as feminilidades e as masculinidades e não um único modo de enxergar o que é ser homem e ser mulher e o que foge daquilo ser considerado desviante. Pensar em educar a criança para a diversidade é complexo quando se imagina que ao mesmo tempo em que está sendo ensinada para isto ela terá influências externas que possivelmente irão impor um modo correto de ser agir e pensar. Para isso, não basta uma política pública pautada na educação de construção das ideias para as crianças, mas também o exercícios de debate ao longos dos anos de estudos, bem como abertura das escolas e propostas para que os pais estejam mais inseridos naquele contexto e também tenham a oportunidade de aprender novas ideias e desconstruir pensamentos padronizados. Portanto, seriam políticas pautadas em: Ensino às crianças nas aulas e por meio do material didático acerca da diversidade como igualdade; Capacitação de professores para que possam aplicar o novo material didático; Núcleo de debates dentro das escolas para que sejam discutidas questões referentes à sexualidade, com a participação de alunos; Núcleo de debates para que os pais dos alunos possam ser conscientizados e entender a diferença como diversidade; Núcleo de debates que envolvam os pais e alunos, diferentes gerações que poderão expor diversas formas de pensar um mesmo tema; Acompanhamento dos gestores sobre a implementação do material didático e do ensino dos professores (possivelmente por meio da participação nos grupos de debate). Por mais que se veja a dificuldade para a aplicação de uma politica que se mostra radical, uma vez que visa mudar a ordem ate então estabelecida, existe plena possibilidade de aplicá la. Somos um Estado laico e claro que encontraremos visões contrárias e extremamente contrárias às politicas publicas em questão. No entanto, na historia é possível verificarmos diversas transformações e conquistas de direitos que hoje são tão palpáveis, mas que antigamente se mostravam impossíveis de serem concretizados.