Entrevista com Heloísa Lück Heloísa Lück é doutora em Educação pela Columbia University em Nova York e tem pós-doutorado em Pesquisa e Ensino Superior pela George Washington D.C. É diretora educacional do Centro de Desenvolvimento Humano Aplicado, em Curitiba. Atua também como palestrante, conferencista e consultora em Educação. Qual é a importância da presença de líderes nas escolas públicas? Não se pode pensar em uma escola de qualidade ou profissionais da educação competentes, sem que se reconheça nessa instituição e nesses profissionais o desempenho da liderança. Isso porque educação é processo que pressupõe o exercício de liderança pelos seus profissionais e o seu desenvolvimento entre os alunos. De um lado, porque o processo educacional corresponde a uma atuação de mobilização de pessoas para orientação e influência sobre pessoas, com o objetivo de promover a aprendizagem, e essa atuação demanda competências sociais, envolvimento, entusiasmo, vivência dos ideais elevados pelos quais se pretende que os outros vivam, dentre outros aspectos, condições que expressam a liderança. Por outro lado, o desenvolvimento de competências de liderança se constitui em objetivo inerente ao processo educacional, formador de cidadãos. Cabe lembrar que o desenvolvimento de competências de liderança deve começar desde cedo na vida das pessoas, pelas oportunidades de protagonismo que as mesmas tenham. Ao observarmos salas de aula e escolas em que os alunos não são envolvidos interativamente com seus colegas, na resolução de problemas, no debate de ideias, na
construção do conhecimento e na realização de projetos, somos levados a reconhecer por que, em nossa cultura, somos tão carentes de lideranças. A liderança pode ser exercida apenas pelo diretor de uma escola? O exercício da liderança é inerente ao trabalho do diretor escolar. Sem ela, ele será apenas um administrador, um organizador de atividades e não um estimulador e orientador de desempenhos educacionais. Cabe-lhe a responsabilidade de inspirar os seus colaboradores e de mobilizá-los para que, em conjunto, promovam trabalho integrado, orientado por princípios educacionais elevados e visão de futuro, voltados para a criação de ambiente escolar marcado por vivências em que a aprendizagem e formação humana são a razão de ser e de fazer de todos. No entanto, a liderança na escola não é exclusiva desse profissional. Aliás, o bom líder é aquele que compartilha a liderança e a dissemina em seu contexto. Por exemplo, o sucesso da equipe de gestão depende do exercício da liderança compartilhada entre esses profissionais e não da sua disputa. Aos professores, por sua vez, cabe exercer liderança continuamente em suas turmas, sob pena de serem apenas ministradores de aulas, executores de programas, transmissores de conhecimentos, e não promotores de aprendizagens significativas e mentores da formação dos alunos, caso não exerçam liderança. Pode-se afirmar, portanto, que boas escolas são aquelas em que é praticado o exercício distribuído da liderança como princípio educacional. O que significa gestão compartilhada? A expressão gestão compartilhada representa a operacionalidade da promoção da gestão democrática, isto é, a gestão democrática se realiza mediante um conjunto de práticas, dentre as quais o compartilhamento de responsabilidades. O termo compartilhar nesse caso não representa dividir, nem redistribuir ou delegar responsabilidades, mas sim, envolver mais pessoas no seu
exercício. Ela envolve fazer com, sem delegar ou fragmentar responsabilidades. A gestão compartilhada da equipe de gestão escolar, envolvendo diretor, vice-diretor, coordenador pedagógico, supervisor pedagógico, representa esse compartilhamento que será a lógica de divisão de trabalho e a sua fragmentação. Existe uma relação direta entre uma boa gestão e o alto desempenho dos alunos? Não temos entre nós estudos específicos da correlação entre a gestão e os resultados de desempenho dos alunos. As pesquisas de correlação estudam de maneira controlada as alterações de desempenho da gestão e sua relação com alterações de desempenho dos alunos, de maneira a se poder sugerir objetivamente a medida em que ocorre o impacto das práticas de gestão sobre a aprendizagem dos alunos. Porém, estão disponíveis pesquisas educacionais descritivas, que estudaram escolas em que os alunos mais aprendem, em comparação com aquelas em que os alunos aprendem menos, as quais evidenciaram que nas primeiras certas práticas de gestão são evidentes: liderança, integração família-escola, cultivo de elevadas expectativas, organização do ambiente escolar, elevada dedicação à qualidade do processo ensinoaprendizagem, dentre outros aspectos promovidos pelos gestores. É possível aprender a ser um bom gestor? Aprende-se, sim, a ser bom gestor e a ser líder. E essa aprendizagem se desenvolve mediante um esforço pelo profissional de colocar em prática boas concepções e ideias, isto é, integrando teoria e prática. Estudar, colocar ideias em prática e observar os efeitos do próprio desempenho sobre a atuação e desempenho dos outros e assumir novas orientações são condições para essa aprendizagem. Considerando que gestão é processo que envolve a mobilização de pessoas para atuarem de maneira organizada, intencional, sinérgica e coletiva para promover a formação e aprendizagem dos alunos,
mediante ambiente e experiências educacionais canalizadas para esse fim, essa aprendizagem envolve, sobremodo, a atenção sobre o desempenho de pessoas e influência sobre elas, os processos de interinfluência e comunicação, a resolução de conflitos, a canalização da energia de tensões para questões que produzam melhores resultados, dentre outros aspectos. Qual é a importância da autoavaliação para que as escolas consolidem a boa gestão? Gestão pressupõe monitoramento e avaliação, isto é, o acompanhamento de processos, seu ritmo e avaliação de seus efeitos, com o objetivo de garantir os melhores resultados dos esforços despendidos e a melhoria contínua dos processos educacionais. Não se pode melhorar a qualidade de desempenho da escola e de seus respectivos resultados sem que se monitorem os seus processos e se avaliem os resultados respectivos. É preciso mudar, com base em observações objetivas e intencionais, o que não funciona durante o processo, a fim de que não se venham a acumular os fracassos. Também é preciso reconhecer os sucessos, isto é, aquilo que dá certo, de modo a reforçar essas práticas e promover a sua disseminação. O tema da sua palestra no 2º Seminário Internacional Intercâmbio Brasil-Estados Unidos Prêmio Gestão Escolar 2013 será Desafios da Gestão e Liderança Escolar sob Enfoque Integrador. Quais são esses desafios? Os desafios da gestão e liderança são muitos. A cada aspecto e dimensão da gestão escolar poderemos enumerar um conjunto de desafios específicos a eles. Gostaria aqui apenas de destacar alguns mais amplos e que considero cruciais para todo o trabalho educacional e condição sine qua non para sua qualidade e melhoria. Trata-se do espírito e atitude com que os profissionais da educação assumem o seu trabalho. Precisamos cultivar a crença em nosso trabalho e a consciência de que não
apenas podemos fazer diferença na escola e nas pessoas com as quais trabalhamos, mas que temos responsabilidade de promover essa diferença. Esse entendimento tem como corolário o modo como pensamos sobre nosso trabalho e nossa participação na escola, que demanda a superação de lógica reativa, pela qual buscamos desculpas e justificativas para as nossas dificuldades e limitações e até mesmo atribuímos aos outros ou a circunstâncias externas a nós essa responsabilidade. Adotando a lógica proativa, iremos observar e analisar criticamente a situação que vivenciamos e encontrar nela os seus fatores interferentes; dentre os quais o nosso desempenho aparece como fator central, pois ele é o ponto de partida e fio condutor para a alavancagem de nosso trabalho e uso que fazemos de material, espaços, recursos e métodos.