Profª: Ana Maria Siqueira
Embora seja um termo bastante amplo, podemos conceituar ética como uma área do saber à qual corresponde o estudo dos juízos de valor referentes à conduta humana, seja tomando por referência as regras de conduta vigentes numa determinada sociedade,seja tomada de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar. Assim, a ética em sua acepção mais usual pode ser entendida como relativa à moralidade, como avaliação dos costumes, deveres e modos de proceder dos homens para com os seus semelhantes.
Como observa Mondin (1998: 43) é "Antes de tudo, um valor absoluto, não um valor instrumental: ele pertence à ordem dos fins e não à dos meios ( ) cada homem possui uma dignidade real ( ) e inviolável".
Como acentua Sánchez Vázquez (1983) a ética é "um sistema de normas, princípios e valores, segundo o qual são regulamentadas as relações mútuas entre os indivíduos ou entre estes e a comunidade, de tal maneira que estas normas, dotadas de um caráter histórico e social, sejam acatadas livre e conscientemente, por uma convicção íntima e não de uma maneira mecânica, externa ou impessoal"
Caberá perguntar, então, como transformar referenciais éticofilosóficos absolutos em conceitos fundantes da profissão docente? Como ressignificar conceitos como "cidadania", "autonomia" e "reflexão", por exemplo, esvaziados que estão pelo uso instrumental que deles é feito tomando-os como habilidades ou competências a serem desenvolvidas ao longo do processo educativo (básico ou superior)? 1
A profissão docente, assim, acaba por ser pensada no contexto atual como mais uma profissão que deve obedecer à lógica da razão instrumental que, "ao invés de ver a educação como um bem humano, a descreve como um sistema que produz produtos que são constantemente avaliados para determinar sua qualidade.
Como formar professores capazes de tornarem-se sujeitos na configuração de sua profissionalidade? Uma primeira tentativa de responder a esta questão, passa pelo reconhecimento da necessidade de estimular a mudança de mentalidade da qual decorre a estrutura dos processos de formação docente a mentalidade cientificista e seu processo de formação normativo, calcado em modelos de procedimento e parâmetros objetivos de avaliação, característicos das profissões técnico-científicas.
O ponto irradiador das principais mazelas do ensino, inclusive da crise dos professores perante sua profissão, seria o confronto entre as carências sócio-ecônomicas e culturais trazidas pelos estudantes (e suas famílias) que não encontram outro meio de dispor da atenção do estado e um sistema de ensino organizado tecnocraticamente em torno de uma visão elitista da escola e do processo de aprendizagem.
O desajustamento entre necessidades dos alunos e as possibilidades do sistema educativo inclusive dos professores para atenderem às determinações deste novo contexto, podem levar o indivíduo (professor) a um sentimento de insegurança e desencanto que afeta negativamente as condições concretas de realização de seu trabalho.
Podemos dizer que afeta principalmente em nível subjetivo, na medida em que o sentimento de insegurança, pode causar uma série de efeitos de caráter negativo que afetam a personalidade do professor como resultado das condições psicológicas e sociais em que exerce a docência em expressões conhecidas na literatura pedagógica: mal-estar docente ou burnout.
O futuro educador deve ser estimulado a compreender a dimensão de seu trabalho e a assumir, também, um compromisso como colaborador no estabelecimento de relações sociais menos autoritárias e individualistas, mais voltadas para o desenvolvimento da empatia entre as pessoas, condição essencial para ações pautadas pela ética.
"Em se tratando de avaliar uma ação ( ) do ponto de vista ético, não basta perguntar até que ponto ela fere um valor individual do sujeito: é preciso perguntar ainda até que ponto essa ação interfere na distribuição de poder entre os homens, ou seja, se ela aumenta ou diminui o índice de opressão e de dominação entre as Pessoas. ( ) Portanto, para que uma ação seja eticamente boa, é preciso que ela seja também politicamente boa, ( ) que contribua para o aumento de justiça, entendida esta como a condição de distribuição eqüitativa dos bens materiais, culturais e espirituais (âmbito da dignidade humana)" (severino, 1992: 194)
Uma mudança paulatina de mentalidade que culmine com a valorização inclusive em nível salarial dos professores talvez possa ser realizada a partir dos próprios professores como construtores de sua profissionalidade e do reconhecimento da dignidade, da importância e do significado social de sua profissão.
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