Professor Hudson Oliveira
O século XX, difícil e complexo para a história da humanidade, foi marcado por grandes inovações e revoluções, inclusive no plano da produção artística. O primeiro vinteno do século assistiu a uma constante sucessão de movimentos artísticos de vanguarda, promovidos por personalidades geniais e audazes. Em sintonia com o mudar dos tempos, as vanguardas propunham, por meio de seus manifestos, novas formas pictóricas e plásticas correspondentes aos novos modos de ver a realidade, sentir a vida, imaginar o futuro.
Pablo Picasso, Auto-retrato (50 x 46 cm, Praga, Galeria Nacional).
Os artistas queriam alcançar a arte total, unificar a expressão visual, gestual e musical. Esse intento foi realizado por meio de uma arte totalmente nova: o cinema. Os movimentos de vanguarda eram formados por grupos que muitas vezes polemizavam entre si. Quer se chamassem cubistas, futuristas, expressionistas, metafísicos, surrealistas, os artistas dessa geração queriam mudar tudo.
Vasily Kandinsky, Pequenas alegrias, 1913 (óleo sobre tela, 109,8 x 119,6 cm, Nova York, Museu Guggenheim).
Kazimir Malevitch, A cavalaria vermelha a galope, 1918 (São Petersburgo, Museu Russo).
A produção das artes visuais no século XX é muito diversificada e descontínua. Não se formaram escola nem estilos. Foi um século experimental, em que os artistas passaram de experiência em experiência; em que correntes e tendências se desenvolveram uma a partir das outras ou foram rapidamente desfeitas.
Umberto Boccioni, A cidade que sobe, 1910-1911 (modelo preparatório, Milão, Pinacoteca de Brera).
Antes da Primeira Guerra mundial, por obra de alguns artistas geniais Picasso, Matisse, Boccioni, Kandinsky, Malevitch, Mondrian, Duchamp e muitos outros -, defini-se uma nova maneira de conceber as artes visuais que marcaria todo o século. No tempo de Picasso, a escritora Gertrude Stein escrevia: As pessoas são mais ou menos aquelas de sempre, têm as mesmas necessidades, desejos, virtudes, qualidades, os mesmos defeitos, de uma geração para outra não muda nada exceto as coisas vistas, e são as coisas vistas que fazem uma geração.
Roy Lichtenstein, Ceramic head with blue shadow (Cabeça em cerâmica com sombra azul), 1966, Coleção Sr. e Sra. Burton Tremaine, Connecticut.
Uma nova linguagem artística havia nascido; sobretudo tivera início uma grande liberdade criativa que permitia aos artistas combinar os tradicionais códigos expressivos e técnicos com aqueles pertencentes a outras culturas ou mudar radicalmente o sentido do belo, com a proposta de novos modelos.
Cessar Pelli, Petronas Towers, 1991-1996 (Kuala Lumpur, Malásia). O desenho foi elaborado no computador para um concurso internacional, vencido por este projeto. As duas torres de 88 andares e 451 metros são unidas por uma ponte no 41º andar.
1 - O Fovismo Em 1905 um grupo de jovens pintores expôs em Paris, desencadeando a contestação do público e da crítica. As pinturas representavam um decisivo passo em direção à criação de uma nova linguagem figurativa. Esses artistas eram Henri Matisse, André Derain, Maurice de Vlaminck, Kees Van Dongen, Raoul Dufy. A sua arte pareceu um insulto à pintura e foram apelidados de fovistas (fauves, em francês).
Maurice de Vlaminck, Margens do Sena em Carrièresur-Seine, 1906 (óleo sobre tela, 54 x 65 cm, Paris, Coleção particular).
O que causava escândalo nas suas pinturas? As cores, que não tinham relação com aquelas reais das coisas representadas; cores que os fovistas espremiam da bisnaga de tinta, intensas, brilhantes, sem passagens de tom, contrastantes; justaposição de cores complementares que se fortalecem reciprocamente; Desenho sumário, traçado diretamente com o pincel, que é somente o contorno da cor, desprezando os detalhes; Ausência de perspectiva aérea e de atmosfera na paisagem.
André Derain, Estaque, estrada em curva, 1906 (óleo sobre tela, 129 x 195 cm, Houston, Museu de Belas Artes). A paisagem mediterrânea foi pintada com uma profusão de vermelhos, amarelos e alaranjados, complementares aos verdes e azuis. As tintas não correspondem às cores reais, são totalmente inventadas.
1.1 Henri Matisse (1896-1954) O mais importante dos fovistas e líder do movimento, usou a cor nas tonalidades mais intensas e subordinou tudo (desenho, tema) à harmonia cromática. Fascinado pelo poder da cor, se afastou cada vez mais do conteúdo real, que se tornou um pretexto para exprimir sensações cromáticas.
A fotografia retrata Henri Matisse no seu ateliê em Paris em 1939. No cavalete podemos notar a primeira versão da obra Liseuse sur fond noir.
Henri Matisse, Liseuse sur fond noir ( Mulher lendo sobre um fundo preto), 1939 (óleo sobre tela, 74 x 92 cm, Paris, Centre Pompidou).
A sua pintura não é descritiva, mas a realidade, nos seus aspectos mais alegres, está sempre presente nas formas-cor que são o seu código expressivo. O artista atribui títulos muito significativos à suas pinturas: Harmonie rouge (Harmonia vemelha), Harmonie bleu (Harmonia azul), conforme a cor dominante, o mais vermelho dos vermelhos, o mais azul dos azuis. A linha é o segundo importante componente da obra de Matisse: uma linha suave, que flui ininterrupta desenhando figuras, que delimita os espaços e dá ritmo a toda a composição pictórica.
1.2 Raoul Dufy (1877-1953) Integrou o movimento fovista por três anos, de 1906 a 1909, quando sentiu a necessidade de maior austeridade e sobriedade nas suas obras. Impôs-se como um dos maiores mestres, e foi um artista inovador, principalmente nas suas luminosas e naturais aquarelas.
Raoul Dufy, A casa do artista (têmpera sobre papel, 50 x 65 cm, Coleção particular).
2 O Expressionismo O expressionismo foi fundado em 1905, em Dresden, por quatro estudantes de arquitetura que compartilhavam a mesma paixão pela pintura e um estilo de vida inconformista: Ernst Ludwig Kirchner (1880-1930), Eric Heckel (1883-1970), Karl Schmidt- Rottluff (1884-1976) e Fritz Bleyl (1880-1966). A associação foi chamada Die Brücke, A Ponte.
Die Brücke (A Ponte), o símbolo do grupo fundado por Kirchner, Heckel e Schmidt, em uma xilogravura de Kirchner.
2.1 Os modelos de referência Esses artistas voltaram seus olhares para os grandes inovadores da geração precedente: Van Gogh, Gauguin e Munch. A pintura de Munch é carregada de forte expressividade e transmite um senso de angústia. O grande artista nórdico interpretava antecipadamente as inquietações de uma geração que viveria os horrores da Grande Guerra. Observando O Grito, nos impressionamos com a imagem em primeiro plano, síntese expressiva do desespero. Também na paisagem com um céu sanguíneo sulcado por linhas onduladas, parece ecoar a voz humana. Os expressionistas se inspiraram na cultura negra, uma referência das vanguardas.
Edvard Munch, O Grito, 1893 (óleo sobre madeira, Oslo, Munch-Museet).
2.2 Uma geração de insubmissos Em 1906 os primeiros expressionistas publicaram um programa em que se exprimia a vontade de superação da tradição pictórica acadêmica e o início de uma arte livre de convenções e que correspondesse ao desejo de liberdade e independência que animava a sua juventude. Naquele ano, entraram para o grupo Emil Nolde (1867-1956) e Max Pechstein (1881-1955).
Max Pechstein, Sob as árvores, 1911 (óleo sobre tela, 74 x 99 cm, Detroit, Art Institute).
Em 1910 A Ponte se transferiu para Berlin, e em 1913 se dissolveu. O Expressionismo continuou como movimento literário e teatral, em torno da revista Der Sturm (A Tempestade). Herdeiro do movimento foi o pintor vienense Oskar Kokoschka (1886-1980), intérprete da agonia da sociedade durante o conflito mundial. Com o surgimento do nazismo, as obras dos expressionistas foram confiscadas e classificadas como arte degenerada.
2.3 Uma tempestade cromática Os expressionistas usaram cores puras e violentas, combinações estridentes de tintas contrastantes ou complementares. O desenho é sumário, delineado com fortes traços pretos, sem estudos preliminares. A figura humana é muitas vezes deformada; dos rostos foi apagada toda a beleza, e os retratos são reduzidos a máscaras.
Oskar Kokoschka, Retrato (óleo sobre tela, Stuttgart, Galerias de Estado).
Emil Nolde, Máscaras, 1911 (óleo sobre tela, 74 x 78 cm, Kansas City, Museu Nelson-Arkins
Kirchner, que em 1911 se transferiu para Berlim, sempre preferiu os conteúdos urbanos, o tema da rua fervilhante de gente. Ernst Ludwig Kirchner, Berlim, cena de rua, 1913 (Berlim, Brücke Museum).
3 As origens do Cubismo 3.1 Picasso: um grande inovador Pablo Picasso (1881-1973) é a personalidade mais célebre e complexa da arte do século XX. Excepcionalmente criativo, na sua longa vida o artista se expressou com vários estilos, muitas vezes altamente contrastantes.
3.1.1 O período azul e o período rosa Nos anos da juventude em Paris, Picasso era muito pobre e sua simpatia voltava-se para quem, como ele, vivia de arte. As pessoas humildes mas criativas são o tema das sua pinturas do período azul e do período rosa, que transmitem um sentimento de melancolia e de participação humana.
Pablo Picasso, Arlequim e a sua companheira, 1901 (óleo sobre tela, 73 x 59 cm, Moscou, Museu Pushkin).
Pablo Picasso, Os dois irmãos (guache sobre cartão, 80 x 59 cm, paris, Museu Picasso).
Em 1907 decidiu mudar sua visão artística e introduzir elementos totalmente novos, impressionado com as estátuas, as máscaras africanas e de outros povos primitivos que chegam a Paris trazidas por viajantes e missionários. O artista compreendeu que existiam outras maneiras de representar a figura e o rosto humanos. Libertando-o do respeito pelo conceito tradicional de beleza natural, deu início ao estudo conceitual da figura e dos objetos, como se estivesse vendo a realidade pela primeira vez.
3.1.2 Um golpe de chicote Em 1907 Picasso apresentou a grande pintura Les Demoiselles d Avignon, que teve o efeito de uma chicotada diante do público. Ninguém, antes do pintor espanhol, tinha ousado distorcer de modo tão radical a visão artística do mundo. Nem as cores explosivas dos fovistas, nem o traço deformador de Van Gogh haviam subvertido a tal ponto os códigos visuais da arte europeia.
Pablo Picasso, Les Demoiselles d Avignon, 1907 (óleo sobre tela, 243,9 x 233,7 cm, Nova York, museu de Arte Moderna).
Com a obra de Picasso, são introduzidos sinais completamente novos nos parâmetros da pintura ocidental. É principalmente na figuras que se nota a forte influência dos caracteres da arte tribal: construção dos corpos em grandes blocos, esquematização das várias partes do corpo, deformação dos rostos, que não têm mais nada de beleza clássica. Os corpos estão dispostos em um espaço sem profundidade, em posições antinaturais, contorcidas, sem relação entre si. São apenas formas que se encaixam umas nas outras.
3.1.3 Referências Como aparece claramente, confrontando a pintura com a imagem abaixo, Picasso se inspirou na arte tribal da África negra, valorizada por ele em todos os seus aspectos.
A arte tribal Dan, Costa do Marfim, máscara ritual, século XIX tardio.
4 O cubismo O termo cubismo deriva da palavra francesa cube (cubo. Foi cunhado em relação a uma pintura de 1908 de Georges Braque, Casa em Estaque, em que o artista interpretara a paisagem segundo esquemas geométricos, com predomínio de formas cúbicas. Braque, um dos mais importantes artistas do séc. XX, colocou em prática a lição de Cézanne: Na natureza, todo elemento pode ser traduzido em volumes geométricos como o cilindro, a esfera, o cone.
O tema de Casas em Estaque em uma fotografia de época.
Georges Braque, Casas em Estaque, 1908 (óleo sobre tela, 73 x 60 cm, Berna, Kunstmuseum). Note-se como o artista interpretou a paisagem acentuando o volume dos objetos.
Braque e Picasso criaram o Cubismo, interpretando a realidade de modo plástico, com uma pintura quase monocroma, com tonalidades apagadas. Inicialmente são formas solidificadas, vistas na ausência total de perspectiva; em segundo momento as composições se despedaçam, como se o objeto fosse desmembrado e analisado em todas as suas partes. Essa segunda fase foi chamada de Cubismo analítico.
Para alguns estudiosos, depois de 1912 desenvolveu-se uma terceira fase, o Cubismo sintético, em que foi eliminado o efeito de relevo e acentuada a visão simultânea. Na realidade nós olhamos em volta, nos movemos em torno dos objetos: a cabeça e os olhos são móveis. O Cubismo sintético propunha sintetizar essa visão múltipla: do alto, frontal, lateral e interna das coisas. Além de Picasso e Braque, outros destaques cubistas foram Juan Gris, Fernand Léger e o italiano Gino Severini.
4.1 A visão simultânea Na pintura ao lado, os objetos - um jornal dobrado, um cachimbo, um copo, uma faca, meio limão, uma concha na realidade são tridimensionais. O pintor pensou em mostrar os vários aspectos espaciais: de lado, de cima, de frente. Essa visão é chamada simultânea. A cadeira é representada pela superfície em palha trançada, que Picasso realizou colando sobre o quadro um retalho encerado que imita a trama. A tela, oval, foi emoldurada com uma grossa corda de cânhamo. Pablo Picasso, Natureza-morta com cadeira de palha, 1912 (Paris, Museu Picasso).
Guernica: uma obra histórica Em 1915 Picasso se afastou do Cubismo para explorar novas direções de pesquisa, todavia o Cubismo permaneceu como a experiência mais significativa e revolucionária. Na pintura Guernica, de 1937, vemos uma composição de formas decompostas, secionadas e fragmentadas, que não são mais sólidos nem cubos. Esse quadro é a representação figurativa do bombardeamento aéreo que arrasou a pequena cidade de Guernica, na Espanha setentrional, durante a Guerra Civil (1936-39) e que impressionou o mundo às vésperas do segundo conflito mundial.
Pablo Picasso, Guernica, 1937 (óleo sobre tela, 3,45 x 7,70 m, Madrid, Centro Artístico Rainha Sofia).
5 O Futurismo 5.1 O Manifesto Futurista Iniciador e animador do grupo futurista foi o intelectual e poeta Fillipo Tommaso Marinetti (1876-1944), que em 1909 lançou em Paris um programa que anunciava a total renovação da cultura e da arte, a ruptura com a tradição e a necessidade de uma nova concepção da vida.
Enrico Prampolini, Retrato de Filippo Tommaso Marinetti, 1929 (Coleção particular).
Em 1919 foi publicado na Itália o Manifesto da pintura futurista, assinado por Umberto Boccioni (1882-1916), Giacomo Balla (1871-1958), Carlo Carrà (1881-1966), Luigi Russolo (1886-1947) e Gino Severini (1883-1958). Seguiram-se outros manifestos com programas específicos para as diversas artes. Futuristas muito atuantes e importantes foram também Fortunato Depero (1892-1960), Francesco Cangiullo (1884-1977), Anton Bragaglia (1890-1960) e Enrico Prampolini (1894-1956). Movimento de vanguarda italiano, o Futurismo envolveu todas as expressões artísticas: poesia, artes visuais, música e espetáculo.
5.2 Dinamismo e energia Os futuristas concebiam a modernidade como dinamismo e energia, considerados princípios básicos da vida moderna. As grandes inovações tecnológicas que mudaram a vida no século XX foram, com efeito, a iluminação elétrica, o automóvel e o avião. Os artistas de vanguarda quiseram expressar de novas maneiras a fé no progresso e o culto da força. Para tanto, era preciso uma linguagem. Uma vez que toda a realidade era percebida pelos futuristas como formas em movimento e visto que com os meios pictóricos tradicionais o movimento pode ser apenas representado e não realizado, inventaram um novo modelo de formas que transmitisse ao observador a sensação óptica do movimento.
Palavras em liberdade, composição tipográfica.
Carlo Carrà, O cavaleiro, 1913. Nesta imagem, as linhas de força tendem a decompor as figuras do cavalo correndo e do jóquei.
5.3 As linhas de força Pela primeira vez a realidade é interpretada como a materialização de energias e forças que interagem, completam-se, são simultâneas. Para os futuristas, um fluxo de energia atravessa o universo. Na pintura e na escultura pelas linhas de força, os artistas procuraram identificar as forças que modelam os corpos e que possuem direções quando estes se movimentam. Os objetos são decompostos segundo linhas que representam a tensão interna da matéria.
Luigi Russolo, Perfume, 1910. Para o pintor, o perfume que inunda a figura corresponde ao amarelo.
5.4 Dinamismo plástico Numa época em que a Europa ia rapidamente se industrializando, o futurismo exaltou a velocidade do automóvel, o barulho dos motores, o estrondo dos aviões. A certeza de um contínuo progresso tecnológico torna-se absoluta. O dinamismo era justamente considerado o princípio básico da vida moderna. Nas artes figurativas, pintura e escultura, os futuristas procuraram de todas as maneiras reproduzir o movimento, decompondo as formas ou identificando as linhas de força no interior dos corpos e dos objetos.
Na Bailarina em azul, de Gino Severini, a dançarina está entranhada no ambiente do café chantant e o ritmo da dança é materializado pelas formas do vestido.
Gino Severini, Bailarina em azul, 1912 (Milão, Coleçao Mattioli).
5.5 Figura e ambiente Síntese entre o que os olhos percebem e o que já se encontra na memória visual. Os planos espaciais se sobrepõem, e a visão perspectiva tradicional é totalmente subvertida. Uma única representação espaço-temporal.
Umberto Boccioni, Construção horizontal (Retrato de mãe), 1912, Munique, Bayerische Staattsgemäldesammlungen).
5.6 Formas únicas de continuidade no espaço
Umberto Boccioni, Homem andando, 1913, visto de frente e de trás. O original era de gesso. Foram feitas algumas cópias em bronze; esta se encontra em Milão, na Galeria de Arte Moderna.
Homem andando, desenho renascentista.
Um estudo fotográfico de Edward Muybridge sobre o movimento do corpo humano.
6 O Abstracionismo A pintura abstrata é a pintura que não imita a realidade, e da qual é excluído o objeto real da representação; não reproduz a natureza nem a vida, mas de uma e outra, por meio da sensibilidade do artista, extrai sensações, percepções em estado puro. O artista abstrato se liberta da aparência da realidade à qual estamos acostumados e apresenta uma realidade toda sua, um pessoal e profundo sentimento do belo. Para tanto, utiliza imagens elementares: formas irregulares ou geométricas, planos coloridos, linhas e pontos.
Ruptura na concepção estética: Rejeição do convencionalismo acadêmico da pintura figurativa; Criação de novas linguagens artísticas; Autonomia da obra de arte em relação à realidade concreta; Libertação do artista no processo de criação; Recusa de qualquer noção de subjetividade ou de emotividade.
Vasily Kandinsky, Improvisação 30 (Canhões), 1913 (óleo sobre tela, Coleção particular).
Vasily Kandisnky, Círculo matizado, 1921 (óleo sobre tela, Coleção particular).
Vasily Kandinsky, No azul, 1925 (óleo sobre tela, 80 x 110 cm, Düsseldorf, Museu de Arte Norte-Oeste).
7 O movimento Dadá O movimento foi fundado em 1916 em Zurique pelo escritor Tristan Tzara (1878-1963) e por um grupo de artistas e intelectuais de vanguarda. O termo dadá indica rejeição ao passado, rebelião contra as formas culturais codificadas. Os participantes haviam se eximido da Grande Guerra e eram contra a burguesia que havia desencadeado o conflito. Tinham visto ruir todas as certezas e rejeitavam qualquer comportamento racionalista.
O programa do Dadá adotava as associações casuais de palavras e imagens, a ironia, a expressão demencial. O Dadaísmo teve seu momento de maior atividade em Paris entre 1919 e 1922. Os dadaístas publicaram os seus manifestos em revistas artísticas e literárias.
Características consideradas relevantes: Descontextualização dos objetos e nova associação dos mesmos; Sentido provocatório; Revolta contra os valores tradicionais da arte; Ênfase do ilógico e do absurdo; Formas típicas de expressão: a montagem, a colagem e o ready-made (confeccionado, pronto).
8 O Surrealismo Em 1924, em Paris, o poeta André Breton escreve o manifesto do Surrealismo. O movimento se formara gradualmente nos anos da Primeira Guerra Mundial, baseado nas experiências das outras vanguardas, principalmente do Expressionismo e do Dadá. Os artistas mais importantes foram Max Ernst (1891-1976), René Magritte (1898-1967), Salvador Dalí (1904-1989), Juan Miró (1893-1983).
8.1 Os exploradores da mente O surrealismo, corrente artística dos anos 20 e 30 do séc. XX, exprimiu as dimensões mais profundas do ser humano ao nível da exploração do inconsciente e do automatismo. Aproximaram figuras estranhas entre si, como haviam feito os pintores dadaístas e os metafísicos alguns anos antes. O bizarro, o insólito, o inquietante caracterizam as obras dos surrealistas. Influências que marcaram o Surrealismo: Teorias da Psicanálise de Freud; Simbolismo; Art Naïf; Primitivismo; Arte Fantástica (pintura de Bosch); inter-relação e influências mútuas entre as artes plásticas e a literatura.
8.2 Uma técnica primorosa Na pintura, os surrealista usaram uma técnica muito precisa, de modo a tornar quase tangíveis visões pertencentes à dimensão da mente e não à da realidade. Sobre a tela os objetos sofrem deformações ou são colocados em um contexto totalmente estranho ao seu ambiente usual.
Salvador Dalí, O sonho, 1937 (óleo sobre tela, 51 x 78 cm, Coleção Edward F. W. James).
René Magritte, O terapeuta (1937, óleo sobre tela).
Juan Miró, Interior holandês II, 1928 (óleo sobre tela, 92 x 73 cm, Nova York, Museu Guggenheim).