Violência do rosto 1

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Transcrição:

491 Violência do rosto 1 Amanda Pires Chaves A elaboração desta resenha, referente ao livro Violência do Rosto, de Emmanuel Lévinas 2, é fruto das diversas leituras que a pesquisadora fez, enquanto doutoranda, para a escrita de sua tese. Trata-se de um livro pequeno, com quarenta e três páginas, com pertinentes análises sobre as ideias e os conceitos teórico-filosóficos de Emmanuel Lévinas. O livro é dividido em duas partes. A primeira, redigida por Graziano Ripanti, é uma introdução da obra, com o tema Emmanuel Lévinas e o infinito diálogo. Nesta parte inicial, Ripanti traz alguns conceitos do filósofo Lévinas sobre o infinito diálogo, para um maior conhecimento e, posterior, análise e interpretação da entrevista apresentada. A segunda traz a descrição literal de uma entrevista com Emmanuel Lévinas, realizada por Angelo Bianchi, com perguntas com foco na epifania do Rosto, uma das principais temáticas de sua teoria. No início da introdução, Graziano Ripanti explica que Lévinas nos deixou muitas entrevistas, como a que é apresentada nesse livro, realizada no dia 14 de abril de 1985, em Paris. Essa entrevista foi publicada pela primeira vez como parte da tese de Angelo Bianchi Hermeneutica (1985), em seu apêndice. Posteriormente, ela foi ampliada e corrigida por Lévinas, a partir da gravação de áudio original, e reproduzida em sua obra Alterité et transcendence (1995). Adentrando aos conceitos sobre o infinito diálogo, Ripanti destaca que o incentivo inicial ao caminho do diálogo em Lévinas veio principalmente a partir do pensamento de Martin Buber. Em Buber, o Eu não é substância, mas sim relação, que existe apenas quando se refere a um Tu. Desse modo, Lévinas considera que a contribuição fundamental de Buber à teoria do conhecimento foi associar o conhecer como encontrar. O conhecimento é como o encontro entre o Eu e o Tu, que nunca se degrada em Eu-Isso. 1 LÉVINAS, Emmanuel. Violência do rosto. São Paulo: Edições Loyola, 2014. 43p. 2 Filósofo lituano-francês, autor da teoria da Ética da Alteridade. Seu pensamento parte da ideia da Ética como filosofia primeira, e não da Ontologia. Algumas de suas obras principais são: Totalité et infini (1980); Essai sur l extériorité (1961); Autrement qu être ou au-delà de l essence (1974); Essais sur le penser-à-l autre (1991).

492 CHAVES, Amanda Pires. Violência do rosto. A diferença entre o pensamento de Buber e Lévinas recai sobre a questão da reciprocidade. Em Buber, a relação entre Eu-Tu é uma relação de igualdade e equivalência, em que o diálogo estabelece uma relação de reciprocidade. Em Lévinas, o diálogo acontece entre o Eu e o Outro, numa relação de desigualdade, dissimetria e gratuidade, na qual o Outro é infinitamente Outro e sua grandeza supera o Eu/Mesmo. Segundo Ripanti, Lévinas também reconhece que no diálogo em Buber o Dizer Tu constitui o primeiro fato do Dizer. No entanto, o diálogo em Lévinas acontece na relação face a face, pensado para além do dado. Isso quer dizer que o imediatismo, na relação Eu-Tu, propõe um diálogo falado, enquanto o face a face já diz antes mesmo de qualquer palavra. Portanto, no pensamento ético levinasiano, o diálogo um de seus fundamentos, o caminho para transcendência, acontece com o dizer silencioso do Rosto do Outro, na relação face a face, e a ideia de infinito transborda os limites do pensamento. O Outro é infinitamente Outro, diferente do Eu/Mesmo, e sua infinitude excede a compreensão e representação pelo pensamento. A ideia de infinito foi desenvolvida por Lévinas em sua obra Totalité et Infini (1980) e fundamentada a partir da filosofia de Descartes. Para Descartes o conceito infinito tinha por objetivo demonstrar de modo racional a existência de Deus, um Deus não contaminado pelo serfinito, mas do qual a ideia de infinito provinha. Por se apoiar em Descartes, Lévinas trabalha com a ideia de infinito, relacionando-a com a ideia de Deus (evitando fazer Dele um tema) e utiliza palavras como: glória, santidade, inspiração, profetismo, testemunho, vigília, entre outras. Em Lévinas, além da ideia de infinito e dos conceitos, citados anteriormente, as ideias de transcendência e de proximidade também têm profunda relação com Deus, contudo, refere-se ao homem e à relação entre Eu e o Outro. Isto posto, Ripanti questiona: a santidade, no entanto, pode ser objeto de investigação filosófica? (p. 18). Logo, responde que sim, pois se filosofar consiste também em traduzir para o grego as palavras bíblicas, o filósofo pode também tratar da santidade (p. 18); inclusive Ripanti aponta que Lévinas não foi o primeiro a fazê-lo, mas Kant já o tinha feito em sua obra Crítica da razão prática. Para Ripanti, algumas caracterizações feitas por Kant em seus escritos, como sobre a santidade, são próximas à linguagem de Lévinas, mas não são vinculadas à conotação teológica, senão com base na hermenêutica racional do cristianismo e no uso da razão visando o desenvolvimento moral.

493 CHAVES, Amanda Pires. Violência do rosto. Ligada à ideia de santidade também se encontra a oração. Além de Lévinas, diversos autores, entre eles: Rosenzweig, Bernhard Welte, Bernhard Casper, Italo Mancini, falaram sobre a oração sob diferentes perspectivas. Para Lévinas, o sentido de toda oração se liga exclusivamente à necessidade que tem Deus da oração do justo para fazer existir e santificar e elevar os mundos (p. 22), assim, a oração provoca a mudança do ser-para-si ao ser-para-o-outro. O Eu ora, não pelo próprio sofrimento, mas pelo sofrimento de Deus, porque Deus sofre em virtude do sofrimento de todos os homens. Em sua conclusão, Ripanti afirma que em Lévinas, o sofrer pelo Outro acontece como forma de responsabilidade e gratuidade, de modo desinteressado com a destituição do Eu/Mesmo. A oração, dessa maneira, se dissipa como benção, dirigida ao Deus de Abraão, de Jacó e de Jesus, que é anterior a qualquer deus compreendido a partir do mundo, Deus do infinito e incompreensível. Na segunda parte do livro, encontra-se uma entrevista com Emmanuel Lévinas, realizada por Angelo Bianchi, composta por quatorze perguntas e respostas, descritas de modo literal, com enfoque na temática da epifania do Rosto, um dos pontos principais da teoria do filósofo. Bianchi inicia a entrevista perguntando a Lévinas se está correta a leitura de que o significado global de sua obra é encontrar o sentido do ser para além do ser relativizar a história e o sistema a favor daquilo que não pertence à história e ao sistema: o rosto do outro, que se localiza nas pegadas do infinito (p. 27). Lévinas responde que não seria o sentido do ser, mas sim somente o sentido. Sentido que, cujo significado, originariamente não é tema, não é objeto do saber, não é representação. O significado do sentido, para além do ser, está no Rosto do Outro, em seu infinito e sua transcendência. É no Rosto do Outro que se expressa a Palavra de Deus. Em seguida, Biachi questiona-o: Por que motivo o rosto da gente comum que encontro todo dia não pertence à história, não é um fenômeno qualquer, uma simples experiência? (p. 28). De modo breve, Lévinas afirma que ele descreve o Rosto do próximo como vetor de uma ordem, que impõe ao Eu uma responsabilidade pelo Outro - absolutamente Outro, incomparável e único que não pode ser recusada, uma vez que o Eu é o escolhido e também é único. Como terceiro questionamento, Bianchi faz a seguinte pergunta: O historicismo, o materialismo, o estruturalismo, a ontologia: o limite de todas estas figuras filosóficas seria precisamente a sua radical incapacidade de saltar para além do ser e da história, a sua limitação do sentido à essência? (p. 29). Em sua resposta Lévinas diz que, de modo genérico, pode-se

494 CHAVES, Amanda Pires. Violência do rosto. dizer que é verdade. No entanto, ele destaca que não está tentado a uma filosofia da história e nem está certo quanto a finalidade da mesma. E, ainda, não pode afirmar que ela caminha para melhor, pois a ideia de progresso não parece muito segura para ele. Apesar disso, ele pensa que a responsabilidade pelo Outro ou a epifania do Rosto se configura como uma perfuração na casca do ser que persevera no próprio ser (p. 29), que se preocupa somente consigo mesmo. Dando sequência, Bianchi pergunta a Lévinas: Então seria preciso ler o resultado niilista da filosofia contemporânea, não como destino da filosofia enquanto tal, mas só da filosofia que, como ontologia, não aceita o risco do para além do ser e da transcendência? (p. 30). Lévinas concorda com Bianchi. Contudo, acrescenta que ele não pretende com suas propostas alcançar o exclusivismo das filosofias da história. Para Lévinas, a ontologia, o saber objetivo e as formas políticas são necessárias à significação do sentido da responsabilidade pelo Outro é por este fator que em sua teoria ele faz crítica a ontologia, mas não a descarta. Imediatamente, Bianchi faz sua quinta interrogação: A noção de sentido é fundamental em sua obra e nos escritos mais recentes reaparece continuamente. Qual é o estatuto filosófico dessa noção? A filosofia deve mesmo procurar o sentido? (p. 31). Lévinas indica que o sentido está na origem do humano, na preocupação de um homem por outro homem. O sentido é um fenômeno, do ponto de vista lógico, irredutível: o sentido significa. No entanto, alerta que procurar a definição do sentido é como tentar remeter o efeito de um poema às suas causas ou às suas condições transcendentais quanto mais você busca a reflexão sobre suas causas e suas condições, mais você já perdeu o poema. Lévinas também é questionado por Bianchi sobre Derrida e Blanchot: É exato dizer que suas conclusões são opostas à dos teóricos da escrita? (p. 32). Ele responde que sim e não, pois admira-os. Entretanto, Lévinas aponta que em diversos pontos as análises dos autores não convergem com as suas. Bianchi então interpela: É realmente possível excluir toda mediação analógica no uso da linguagem humana referida a Deus? (p. 33). Lévinas afirma que ele não exclui essa linguagem, mas destaca que não se deve esquecer sua significação metafórica. Ao final de sua resposta, Lévinas indica que a filosofia, ou fenomenologia, é necessária para reconhecer a voz de Deus. É no Rosto do Outro e no encontro com outro homem que Deus vem à mente e se faz evidente. Em continuidade, com respeito à relação de exclusão entre razão e violência, proposta por Eric Weil, Bianchi afirma que se tem a impressão de que Lévinas de alguma forma tenta derrubá-

495 CHAVES, Amanda Pires. Violência do rosto. la, contradizendo-a. Em sua resposta, Lévinas afirma que admira a obra de Eric Weil e reverência sua memória. Diz que em nenhum momento quis excluir a justiça da ordem humana. Todavia, tentou chegar à justiça a partir do que se pode chamar de caridade, que se mostra para ele como obrigação ilimitada do Eu diante do Outro, com acesso a unicidade de pessoa. Lévinas chama atenção para o fato de que a justiça, separada das instituições e também da política, corre o risco de desconhecer o Rosto do Outro. Em Weil, a racionalidade pura da justiça, assim como em Hegel, leva a considerar a singularidade humana como irrelevante e com individualidade anônima, não como unicidade. Portanto, para Lévinas, os pensamentos de Eric Weil são mais utópicos que os dele. A seguir Bianchi declara que Lévinas afirma que sua maneira de nomear a Deus pertence rigorosamente ao discurso filosófico, e não à religião. A esta pertenceria o âmbito da consolação, não o da demonstração. E o questiona: O que significa precisamente? (p. 36). Lévinas admite que o problema é mais complexo e que os dois âmbitos são necessários, todavia, não estão no mesmo plano. O que Lévinas quer mostrar é a transcendência no pensamento/teologia natural, na aproximação ao outro. Então, Bianchi indaga a Lévinas: Qual é o justo modo de colocar a relação entre judaísmo e helenismo que o senhor propõe? (p. 37). Lévinas diz que é a favor da herança grega, e desta maneira considera que tudo deve poder ser traduzido em grego, tendo em vista que o grego é uma linguagem do pensamento não preconceituosa e que se refere a universalidade do conhecimento puro. Como por exemplo, a tradução das Escrituras - Talmude, em que existem ideias cujo sentido original do pensamento está na Bíblia e que precisam ser contadas de modo diferente em grego. Posteriormente Bianchi interroga Lévinas sobre a transformação das categorias ontológicas em categorias éticas, dizendo que desta forma chega-se a imposição de uma nova pergunta fundamental: Terei eu o direito de ser? (p. 38). Sobre essa questão Lévinas pronuncia que para ele o discurso filosófico independe da culpabilidade, e que a pergunta: Tenho o direito de ser?, em primeiro lugar, expressa o lado humano, a preocupação do Eu com o Outro. Depois Bianchi declara que alguém descreveu que a responsabilidade ética que Lévinas fala é abstrata e privada de conteúdos concretos e indaga-o: Parece-lhe uma crítica válida? (p. 39). Lévinas não afirma nem que sim e nem que não. Diz que nunca pretendeu descrever a realidade humana no seu imediato aparecer, mas si a vocação humana à santidade o homem

496 CHAVES, Amanda Pires. Violência do rosto. como ser que reconhece a santidade e esquece de si. O homem que não é somente o ser que compreende o que significa o ser, como Heidegger defendia, mas como o ser que já ouviu e apreendeu o mandamento da santidade no rosto do Outro homem. A penúltima pergunta de Bianchi a Lévinas se refere à existência de um futuro de paz e a contribuição do cristianismo à sua construção. Lévinas exclama que o que Bianchi está pedindo a ele é uma profecia e que seria difícil para ele fazer predições. Para Lévinas, as provas pelas quais a humanidade passou até o século XX são, não somente a medida da depravação humana, mas também um apelo renovado à vocação humana, de modificação e transformação. Como exemplo, Lévinas descreve em particular a paixão de Israel em Auschwitz, uma amizade judeu-cristã, um elemento de paz, uma esperança. Para finalizar a entrevista, Bianchi pergunta a Lévinas: Qual o valor da liturgia e da oração? (p. 42). De acordo com Lévinas, a oração não é por si (pelo eu), mas para Deus. Orando a Deus, se ora por Deus. Deus sofre conosco. O nosso sofrimento também é sofrimento de Deus. Portanto, o eu que sofre ora pelo sofrimento de Deus, o qual sofre por causa do pecado do homem e por causa da dolorosa expiação do pecado. Por fim, Lévinas destaca que ele apresentou a concepção teológica mais rigorosa e que, eventualmente, seja importante conhecêla. Assim, este livro de Emmanuel Lévinas, denominado de Violência do Rosto, constitui-se como instrumento de referência para a área de filosofia, principalmente, relacionado ao tema da ética e da metafísica. As ideias e conceitos sobre a teoria de Emmanuel Lévinas, apresentados por Graziano Ripanti e Angelo Bianchi, superam uma simples análise textual dos escritos do filósofo, uma vez que os autores dialogam com o autor, de modo literal, com a realização da entrevista, exibida no final do livro, o que demonstra a importância desta obra para a disseminação e construção de conhecimentos. Amanda Pires Chaves - Universidade de Sorocaba Uniso. Sorocaba SP Brasil. Contato: amanda.pireschaves@gmail.com