PROCESSO N 13.586 ACÓRDÃO N/T FO G Á S XV I - Explosão durante faina de transbordo de gás provocando ferimentos em dois tripulantes ccm a morte de um deles; uso indevido de equi*
408 TRIBUNAL MARÍTIMO pamento pondo em risco a embarcação e as vidas de bordo; contato do gás com fagulhas da descarga de mo* tor diesel de emergência; descumprimento de norma de segurança; negligência. Condenação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Tratarse de analisar a explosão ocorrida no N/T FOGÁS X V I, por ocasião da faina de transbordo de gás butano para o N/T FOGÁS-XIX, cerca das 13:00h, do dia 17/09/88, no rio Madeira, no barranco próximo à localidade denominada Cintra, nas proximidades de Humaitá (A M ) estando os navios atracados à contrabordo do N/T FOGÁS I, provocando duas vitimas, sendo uma fatal. Segundo o que restou apurado através de depoimentos uniformes, o FOGÁS-XVI" saiu de Manaus, calando 3m, transportando gás para Fbrto Velho. Devido à inconstância de regime do rio Madeira (fls. 21) era sabido que seria necessário transferir a carga de gás para o FOGÁS I, de menor calado, naquela localidade (o paraná do Cintra) onde é multo raso. A faina transcorreu orientada por um condutor-motorista fluvial (CTF) tendo um MFM como ajudante. Após ter sido drenado o gás que fica nas tomadas de transferência, ao final da manobra, é que ocorreu a pequena explosão no compartimento de proa, no convés principal, onde fica instalado o grupo gerador de emergência. Em conseqüência, houve em principio de incêndio, chamuscando a pintura do convés e provocando queimaduras de 2? e 3? graus no MFM José Lacerda Ferreira e no CTF Fernando Benedito Araujo Teixeira. Perícia de fls. 24 aponta como causa do acidente fagulha da descarga do motor diesel do grupo gerador de emergência que não tinha isolamento térmico na canalização de descarga. Dos queimados, apenas o CTF Fernando Benedito Araujo Teixeira veio a falecer, apesar de transportado e socorrido em Manaus. Juntados aos autos: Certidão de óbito, publicação da Sociedade Fbgás Ltda, proprietária das embarcações, acerca de procedimentos de segurança relativos ao manuseio de hidrocarbonetos líquidos (fls. 26/32), documentos das embarcações e de sua equipagem. No relatório, o Sr. Encarregado do Inquérito concluiu que a explosão ocorreu em decorrência de uso indevido do grupo gerador de emergência, instalado no convés principal, no castelo de
ANUÁRIO DE JURISPRUDÊNCIA 409 proa do NT, apontando como responsável o CTF vitimado no acidente. A Douta Procuradoria requereu diligências, tendo o agente da Capitania em Porto Velho apurado que havia a bordo do NT FOGÁS X VIMuma instrução, datada de 14/06/88, da Sociedade Fbgás Ltda aos comandantes dos NTs, recomendando a nâo utilização dos geradores de emergência situados na proa dos navios quando estiverem carregados ou em operação de carga e descarga fatos que não foram informados por ocasião do inquérito e, segundo o agente, prejudicando as averiguações (fls 57 e 65). A Douta Procuradoria ofereceu, então, representação em face do P L F Paulo Fernandes de Menezes, Comandante, com fulcro na letra e do Art. 15 da Lei n 2.180/54, pois não deveria ter permitido o transbordo do gás de seu navio para outro, sabendo que o uso do gerador de emergência não era recomendável, sendo sabedor de que a faina de transbordo iria ocorrer Recebida a representação e citado, o representado (com condenação pelo Tribunal no Processo n? 11.887 referente a naufrágio) foi declarado revel, sendo defendido por Advogado-de-Ofício. A defesa do PFL Paulo Fernandes Menezes, comandante, alega que a vítima era o responsável pela manipulação e transferência do gás butano; que, portanto, sabia que era necessário obedecer as regras de segurança conforme as instruções de fls. 27 c/c 65; que o Sr. Encarregado do Inquérito apontou como único responsável a própria vítima que usou indevidamente o grupo gerador de emergência, havendo a bordo um supervisor que tinha a função de coordenar a faina de transferência de gás (fls. 20/21). Na Instrução nenhuma prova foi produzida. De tudo o que consta nos presentes autos se conclui que a explosão ocorrida durante faina de transbordo de gás butano em N/T, provocando queimaduras em dois tripulantes, com a morte de um deles, teve como causa determinante o contato do gás com fagulha da descarga do motor diesel do grupo gerador de emergência no compartimento do motor localizado na proa. Ficou caracterizada a ocorrência de um fato da navegação pelo uso indevido do grupo gerador de emergência durante a faina de transferência do gás, o que pôs em risco a embarcação e as vidas de bordo, tudo em decorrência do descumprimento de uma norma de segurança preconizada pela empresa proprietária da embarcação que recomendava (fls. 65) a não utilização de tal equipamento quando em faina de carga ou descarga.
410 TRIBU NAL MARÍTIMO O Sr. Encarregado do Inquérito concluiu que o responsável por tal descuido teria sido a vítima. Fbi por promoção da Douta Procuradoria que veio aos autos a informação de que, em 14/06/88, a Fogás Ltda havia baixado a mencionada instrução dirigida aos comandantes dos naviostanques, documento que à época de inquérito não foi apresentado, nada sendo informado acerca de sua existência, que só foi constatada através das diligências promovidas pelo Agente da Capitania em Porto Velho (telex às fls. 57) em atenção ao ofício do Tribunal Marítimo. Ficou, portanto, comprovado que era o comandante o responsável pelo cumprimento de tal recomendação, fato que náo aconteceu, sendo utilizado o gerador da emergência durante a faina de transbordo de gás, que é sempre acompanhada pela exalação de alguma quantidade de gás residual que, mesmo em pequena quantidade, foi suficiente para gerar a explosão e o início do incêndio, após a eclosão de fagulhas que, em geral, estão presentes na descarga de um motor de combustão interna, sem isolamento térmico. Por tudo isso, deve-se julgar procedentes os termos da representação, com a condenação do representado pelo fato da navegação que funcionou como fator contribuinte para o acidente. Será de todo conveniente, como medida preventiva, oficiar à Diretoria de Portos e Costas sugerindo. 1?) que sejam promovidas vistorias nos navios da classe FO- GÁS I, XVI e XIX para avaliar a adequação da instalação de isolamento térmico e telas de proteção na descarga como da operação dos grupos geradores diesel de emergência na proa dessas embarcações, levando em conta as condições de navio carregado e em transferência de gás; 2?) que, caso seja considerada adequada a manutenção de tais equipamentos no local e nas mesmas condições, que a recomendação para a náo utilização do grupo gerador de emergência durante faina de transferência de gás, passe a ser transcrita em placa-aviso a ser instalada próximo ao equipamento. Assim, ACORDAM os Juizes do Tribunal Marítimo, por unanimidade : a) quanto á natureza e extençáo do acidente, e fato: explosão em NT durante faina de transbordo de gás, provocando ferimentos em dois tripulantes, levando à morte de um deles; uso indevido de equipamento a motor; b) quanto à causa determinante: con
ANUÁRIO DE JURISPRUDÊNCIA 411 tato de fagulhas da descarga de motor com o gás; descumprimento de norma de segurança; c) decisão: Julgar o acidente e fato da navegação, previsto nas letras a do Art. 14 e e do Art. 15, da Lei n? 2.180 de 1954, como decorrentes de negligência, condenando o PFL Paulo Fernandes Menezes á pena de multa de cinco (5) vezes o MVR e pagamento de custas. Honorários de Advogadode-Ofício, no mínimo leg a l; d) medidas preventivas e de segurança: Oficiar à Diretoria de Portos e Costas, sugerindo: 1?) que sejam promovidas vistorias nos navios da classe FOGÁS I, XVI e XIX, para avaliar a adequação da Instalação de isolamento térmico e telas de proteção na descarga, como da operação dos grupos geradores diesel de emergência na proa dessas embarcações, levando em conta as condições de navio carregado e em transferência de gás, e 2?) que, caso seja considerada adequada a manutenção de tais equipamentos no local e nas mesmas condições, que a recomendação para a não utilização do grupo gerador de emergência, durante a faina de transferência de gás, passe a ser transcrita em placa-aviso a ser instalada próximo ao equipamento. P.C.R. Rio de Janeiro, RJ., em 18 de setembro de 1990. - Edson Ferracciú, Vice-Almirante (R R m ) Juiz-Presidente Carlos Fernando Martins Pamplona, Juiz-Relator.