Bente Altas - Licença pra dois!
Guilherme Cardoso Bente Altas Licença pra Dois! 1ª Edição Belo Horizonte Edição do Autor 2015
Copyright: Guilherme Cardoso Capa: Júnior Menezes- (Direitos adquiridos) Diagramação: Márcio Rubens C. Cardoso Revisão: Guilherme Tel. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Cardoso, Guilherme Bente Altas : licença pra dois! / Guilherme Cardoso. -- 1. ed. -- São Paulo : PerSe, 2015. ISBN 978-85-464-0128-4 1. Ficção - Literatura infantojuvenil 2. Jogos - Literatura infantojuvenil I. Título. 15-10466 CDD-028.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura infantojuvenil 2. Ficção : Literatura juvenil 028.5
Para minha esposa Marly, meus quatro filhos homens e adultos, minhas noras, e para meus atuais cinco netos, João Vitor, Lucas, Matheus, Ana Luiza, Sofia, e Henrique, que chega em fevereiro de 2016.
Onde moro é uma casa, tipo um apartamento de segundo andar. Espaçosa, vários quartos amplos e uma área externa, um terreiro, onde a família se reúne para aniversários e comemorações, especialmente quando o Atlético se torna campeão, ou vence o Cruzeiro. Para tristeza do neto João Vitor, criado como filho, único cruzeirense entre sete pessoas, além da Maria José, vizinha ao lado, tia-mãe-avó da meninada. Lucas e Matheus são dois netos nascidos trigêmeos com uma irmãzinha Ana Luiza, eles e os pais, também atleticanos. Sofia, a mais novinha, não tem um ano ainda, não se manifestou. 7
Uma tarde, sexta-feira, antes do sol se pôr, sentei-me numa cadeira no terreiro de casa, como faziam os antigos avós, que não tinham televisão, nem rádio, nem novela e podiam conversar. Não acendi um cigarro de palha ou um cachimbo, como eles faziam. Não fumo, nem que quisesse agora não pode, faz mal, dá câncer. Na gaiola, pendurada na parede da parte externa, tem a Pepita, a calopsita que ficou só, depois que seu companheiro Fernandinho fugiu, pela segunda vez e não voltou, depois de ser personagem de um livro sobre o assunto. Fernandinho era alegre e por qualquer coisa, cantava o hino do Galo. Sozinha, Pepita mais grita que assobia, não sei se de tristeza ou por causa do barulho excessivo. O aparelho de som antigo, toca uma canção dos Beatles, antiga, Yesterday, uma das minhas 105 músicas favoritas gravadas, e antigas. 8
Convoco os trigêmeos de oito anos para ouvir tão bela música, eles fazem cara feia, o gosto é outro, obedientemente, aceitam conversar, ouvir as histórias do vovô, cada um senta num joelho das minhas pernas, Por falta de joelhos, afinal só tenho dois, Ana Luiza, dos trigêmeos, aceita o colo da mãe, e passamos a recordar coisas do passado. Como velho gosta de lembranças... 9
Antes que eu comece a contar minhas histórias, as perguntas das crianças chegam mais rápidas: Vô, quando você era criança, de que você brincava? Foi logo perguntando Ana Luiza. Como a maioria das crianças, eu brincava mais na rua. De manhã ia para a escola, voltava às 11 horas, almoçava rapidamente, e pouco depois já estava na rua chamando os colegas para alguma brincadeira. Que brincadeiras eram essas? Quis saber o Lucas, olhar curioso. Eram várias. Sem contar as que a gente inventava, quando cansava de fazer a mesma coisa. Não havia, como hoje, tanta variedade de brinquedos, e os que tinham eram muito caros. 10
Naquele tempo, cinquenta anos atrás, os sexos não se misturavam, a não ser para namorar, casar e constituir família. Enquanto crianças, meninos não brincavam com meninas. Cada um tinha seu tipo de brinquedo. Meninos brincavam de futebol, bola de gude, soltar papagaio, pegador, jogar finca, jogo de botões, mocinho e bandido. As meninas brincavam de casinha, de boneca, aprender a costurar, pular amarelinha e jogar vôlei e peteca. Meninos não jogavam vôlei, nem peteca? Estranhou Ana Luiza. Não jogavam mesmo! 11
Parece mentirinha, mas é verdade: até os anos 60, os garotos não jogavam peteca, e nem o vôlei, popular nos Estados Unidos e que demorou anos para ser praticado no Brasil e aceito pelos meninos. Então era muito chato ser criança naquela época! As meninas não ficavam com raiva de não poder brincar junto com os meninos, não? Novamente perguntou Ana Luiza. Era a educação social da época. Todos aceitavam muito bem. Naquele tempo, diferente de hoje, que tudo pode, tudo é permitido, as atividades, os brinquedos e os deveres em casa eram muito claros e divididos entre os sexos. Ou seja: As meninas aprendiam a cozinhar, costurar roupas, varrer a casa, encerar o piso, ajudar a mãe no serviço caseiro, e na escola, estudavam para se tornar professoras. 12