Apocalipse, capítulo 4 1 Depois de transmitido o conteúdo das cartas às sete igrejas, os capítulos 4 e 5 mostram Deus e Cristo em majestade e juízo. No capítulo 4, uma nova visão abre uma nova seção do livro, que pode ser comparada, em especial, a Daniel 7.9-14. O apóstolo João presencia uma cena celestial: Deus assentado em seu trono, em toda a sua glória, e vinte e quatro anciãos e quatro seres viventes louvando-o incessantemente. A glória de Deus descrita neste capítulo e a forma como Cristo é apresentado no capítulo 5 referendam a autoridade exercida por eles a partir da abertura dos sete selos, que é sucedida por diversos outros atos de justiça no mundo. Deus e Cristo mostram seu controle sobre todos os acontecimentos, fruto de sua autoridade e garantia de que todos os fatos futuros resultarão no cumprimento dos seus propósitos eternos. Versículo 1: Depois destas coisas, olhei, e eis que estava uma porta aberta no céu, e a primeira voz que ouvira, voz como de trombeta, falando comigo, disse: Sobe aqui, e mostrar-te-ei as coisas que depois destas devem acontecer. Não é possível precisar o intervalo ( depois destas coisas ) entre a primeira seção do livro (a visão do Cristo glorificado e as sete cartas às igrejas da Ásia Menor) e esta seção que se abre com a visão da glória de Deus, mas fica claro que o capítulo 4 inaugura um novo momento na narrativa apocalíptica, que terá relação com todos os demais acontecimentos que se seguem. Uma porta no céu se abre a João e lhe é mostrada uma cena inaudita. João é chamado a entrar para que veja o que há de acontecer. O céu é o lugar 1 Este estudo não é autoral. Consiste, em sua quase totalidade, na compilação de ideias dos autores citados nas referências, ao final do capítulo.
da habitação de Deus e o lar derradeiro dos santos vitoriosos. De lá que vem a revelação de fatos futuros. Paulatinamente, a realidade divina é desvendada diante dos olhos de João. A voz como de trombeta que fala a João provavelmente seja a de Jesus, que é o autor da revelação em Apocalipse. Deus e seu Cristo no controle de tudo, determinando a progressão dos eventos, aquilo que deve acontecer. Versículo 2: Imediatamente fui arrebatado em espírito, e eis que um trono estava posto no céu, e um assentado sobre o trono; João fala claramente que foi levado ao céu em espírito, diferentemente de quando teve a primeira visão, momento em que permaneceu em Patmos. O centro da visão é Deus assentado em seu trono, tanto que, nos onze versículos do capítulo, a palavra trono aparece treze vezes. Originalmente assento para convidados especiais, o trono tornou-se símbolo da majestade soberana do rei, de seu governo e de sua autoridade para julgar. Em todo o Novo Testamento, somente no livro de Apocalipse o trono de Deus é descrito, e essa descrição é a culminação de todas as demais descrições no Antigo Testamento. João não diz quem está assentado no trono, mas o leitor é capaz de deduzir, pois somente Deus seria a origem daquela glória. Versículo 3: e aquele que estava assentado era, na aparência, semelhante a uma pedra de jaspe e sárdio; e havia ao redor do trono um arco-íris semelhante, na aparência, à esmeralda. O brilho e a luz vindos do trono de Deus são tais, que João só tem como descrevê-los usando a refulgência das pedras preciosas, no caso do versículo 3, três pedras translúcidas: jaspe, sárdio e esmeralda. O apóstolo
descreve a glória da Nova Jerusalém fazendo uso também do brilho e glória das pedras preciosas. Jaspe é uma pedra normalmente avermelhada, mas existe também em tons de verde, marrom, azul, amarelo e branco, e é especialmente associada à glória de Deus. É uma pedra citada diversas vezes no livro de Apocalipse: o muro da cidade celestial era de jaspe e sua fundação (doze pedras) também (Ap 21.11,19,20).
O Sárdio, por sua vez, é uma pedra vermelho flamejante, mas também existe em outras cores. É uma variedade de ágata, uma espécie de calcedônia. Possivelmente veio desta pedra o nome da cidade de Sardes, uma das sete destinatárias das cartas do Apocalipse. A Esmeralda é uma pedra preciosa de um verde brilhante ou uma rocha que funciona como prisma e produz um arco-íris em cores. Talvez por isso João
tenha descrito o arco-íris que circundava o trono de Deus como algo semelhante à esmeralda. O arco-íris aparece também em Ap 10.1 e fala de aliança. É comum, nas Escrituras, Deus ser descrito como luz: Sl 18.12; 104.2; 1 Tm 6.16; 1 Jo 1.5,7. Não tendo ele forma humana como Jesus, sua existência e glória é algo que escapa à nossa compreensão. Nas Escrituras, a figura de Deus é sempre associada a um esplendor maravilhoso. Apesar de nossa limitação, a descrição de João comunica a glória e a beleza do trono de Deus, que falam de sua deidade e autoridade sobre toda a criação. Versículo 4: Havia também ao redor do trono vinte e quatro tronos; e sobre os tronos vi assentados vinte e quatro anciãos, vestidos de branco, que tinham nas suas cabeças coroas de ouro. A primeira visão que João tem do trono centra-se no ser de Deus, mas vai crescendo à medida que outros elementos vão compondo essa cena celestial. Os acréscimos vão aparecendo em círculos concêntricos: o trono, os anciãos, os seres viventes, as miríades de anjos. Neste verso, são-nos apresentados vinte e quatro tronos em que se assentam vinte e quatro anciãos vestidos de branco e com coroas de ouro, os quais aparecem ao redor do trono de Deus. Não existe consenso sobre quem são os vinte e quatro anciãos. Muitos estudiosos entendem tratar-se dos doze patriarcas, que estariam representando a antiga aliança, e dos doze apóstolos, representantes da nova aliança. Há aqueles que entendem ser pessoas importantes do Antigo Testamento, escolhidas por Deus para representar sua relação com os homens ao longo da história da salvação. Há, ainda, os que consideram que os anciãos são seres celestiais responsáveis pela adoração no céu, juntamente com outros seres. A defesa deste ponto de vista baseia-se nos seguintes argumentos: a) em todo o
capítulo 4, não há menção a seres humanos; b) os anjos aparecem na Bíblia sempre vestidos de branco e c) as coroas indicam autoridade, o que ainda não foi concedido aos seres humanos, uma vez que Jesus não voltou para instituir seu Reino com seus servos. Segundo esse entendimento, os vinte e quatro anciãos são, portanto, seres celestiais com função de governança. Quem quer que os vinte e quatro anciãos representem, sua função no livro é adoração e louvor (Ap 5.14; 11.16; 4.11); intermediação e interpretação (Ap 5.5; 7.13-17) e explicação sobre os santos (Ap 11.18; 19.4). Versículo 5: E do trono saíam relâmpagos, e vozes, e trovões; e diante do trono ardiam sete lâmpadas de fogo, as quais são os sete espíritos de Deus; No trono ocorrem fenômenos celestiais: relâmpagos, sons de tempestade e trovões. Aqui o cenário é de adoração, mas já prenuncia o juízo que ocorrerá sobre a terra, pois o Deus impressionante visto por João no verso 3 é o fundamento tanto da adoração quanto do juízo. Essa manifestação admirável e aterrorizante ocorre em diversas passagens do Antigo Testamento: no Sinai, em Ezequiel, em Juízes, em Samuel, nos Salmos etc. e descreve o governo de Deus no céu e a expectativa da vinda de Jesus para julgar e governar o mundo. Antes, ao redor do trono, agora, diante dele, os sete Espíritos de Deus (natureza séptupla do Espírito Santo) aparecem novamente, compondo a Trindade, que se completará com a presença de Cristo no capítulo 5. Versículo 6: também havia diante do trono como que um mar de vidro, semelhante ao cristal; e ao redor do trono, um ao meio de cada lado, quatro seres viventes cheios de olhos por diante e por detrás; João viu algo que lhe pareceu um mar saindo do trono de Deus, mas, em vez de ser de água, a visão sugeriu-lhe ser de vidro, provavelmente porque os seres presentes na visão se punham sobre essa superfície. Esse mar de
vidro semelhante ao cristal fala da santidade transcendente de Deus e de sua soberania. Novamente é citada uma pedra translúcida, sugerindo a transparência do que João estava vendo. Compõem a cena quatro seres viventes no meio e em torno do trono, bem próximos a Deus. Diz João que os seres eram cheios de olhos na frente e atrás, o que remete à vigilância incessante. Nada dos negócios divinos lhes escapa. Esses quatro seres viventes combinam com os querubins de Ezequiel 1 e 10 e com os serafins de Isaías 6: os quatro rostos (Ez 1.10; 10.14), os olhos ao redor (Ez 1.18) e as asas (Is 6.2). Eles lideram a adoração, são sentinelas diante do trono e tomam a iniciativa no derramamento do juízo divino. Seriam eles líderes da corte celestial? Talvez. Tudo o que sabemos é que representam as ordens mais elevadas de seres celestiais, talvez anjos, e dirigem a adoração e o juízo.
Versículo 7: e o primeiro ser era semelhante a um leão; o segundo ser, semelhante a um touro; tinha o terceiro ser o rosto como de homem; e o quarto ser era semelhante a uma águia voando. Os quatro seres viventes têm rostos diferentes uns dos outros. O primeiro tem o rosto semelhante ao leão, provavelmente representando a realeza de Deus; o segundo tem o rosto semelhante ao touro (ou boi), que pode representar força ou serviço; o terceiro é semelhante ao homem, numa remissão a Cristo encarnado ou ao homem como a coroa da criação de Deus; e, por último, o quarto ser vivente assemelha-se à águia, símbolo da altivez, da visão a que nada escapa e da capacidade de chegar tão alto no céu. Versículo 8: Os quatro seres viventes tinham, cada um, seis asas, e ao redor e por dentro estavam cheios de olhos; e não têm descanso nem de noite, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, aquele que era, e que é, e que há de vir. A descrição dos quatro seres viventes continua e revela que cada um possuía seis asas e olhos também por dentro de si. As asas remetem à visão de Isaías 6 e inspiram grande beleza e singularidade. Há grande ênfase na adoração incessante dos quatro seres viventes. Eles não descansam. Sua tarefa principal é louvar a Deus por sua soberania e poder sobre a criação. No capítulo 4, como dito, a adoração é a preparação para o juízo divino: porque Deus é, ele pode. Este hino entoado por eles, o primeiro de muitos outros que aparecem no livro, enaltece a santidade, a majestade e a soberania de Deus e repete o título dado a Jesus no capítulo 1, agora em outra ordem: o que era, é e há de vir. A atribuição a Deus de um título que fora dado a Jesus reforça mais uma de inúmeras vezes no livro de Apocalipse e em toda a Bíblia a unidade entre o Pai e o Filho.
O tríplice santo faz referência àquele que é o totalmente outro, diferente de toda a criação, isento de pecado e, por isso, digno de toda glória e apto a julgar com justiça. Versículo 9: E, sempre que os seres viventes davam glória e honra e ações de graças ao que estava assentado sobre o trono, ao que vive pelos séculos dos séculos, A ação dos quatro seres viventes coordena-se à ação dos vinte e quatro anciãos, que se juntam a eles em novo hino de louvor a Deus, como afirma o versículo 10. Versículo 10: os vinte e quatro anciãos prostravam-se diante do que estava assentado sobre o trono, e adoravam ao que vive pelos séculos dos séculos; e lançavam as suas coroas diante do trono, dizendo: Os vinte e quatro anciãos juntam-se aos quatro seres viventes para entoar um hino de adoração a Deus que ressalta sua eternidade. A deposição das coroas, que antes estavam sobre suas cabeças, diante do trono mostra o reconhecimento de Deus como o único digno de reinar, o único soberano e rei da terra. Versículo 11: Digno és, Senhor nosso e Deus nosso, de receber a glória e a honra e o poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade existiram e foram criadas. O cântico dos vinte e quatro anciãos prossegue exaltando a dignidade de Deus para receber a glória, a honra e o poder que lhe são devidos, pois ele é o criador de todas as coisas, dele tudo procede e sob sua autoridade tudo existe; a sua vontade determina todas as coisas em todo tempo. Se o mundo parece fora de controle, este capítulo, ao mostrar a glória de Deus, relembra a todos os leitores e ouvintes da Palavra de Deus que ele nunca perdeu o
controle dos acontecimentos e, ao fim e ao cabo, os fatos todos serão cumprimento do plano eterno que traçou para sua criação. Os vinte e quatro anciãos reconhecem o que é devido a Deus e são gratos pelo que ele faz pelo seu povo. O louvor é a resposta adequada dos que são objeto do amor de Deus e de sua onipotência, por isso deve estar continuamente nos lábios dos que creem. A santidade de Deus conduz à sua onipotência. A igreja não precisa se afligir por causa do poder aparente das forças do mal, pois Deus controla soberanamente o passado, o presente e o futuro. O capítulo 4, como visto, revela a João a glória de Deus e a ambiência do céu, com seres tributando louvor e adoração àquele que é digno de toda glória, honra e poder. A imagem abaixo é uma tentativa, a partir da descrição de João, de recompor o cenário de sua visão celestial. Se não é exata, pode, pelo menos, nos dar uma pálida noção da maravilhosa experiência do apóstolo, que anteviu aquilo que, num dia próximo, iremos presenciar. Que assim seja!
REFERÊNCIAS DUCK, Daymond R. Guia fácil para entender Apocalipse. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2014. MIRANDA, Neemias Carvalho. Apocalipse comentário versículo por versículo. Curitiba/PR: A. D. Santos Editora, 2013. OSBORNE, Grant R. Apocalipse. São Paulo: Vida Nova, 2014.